Volta

Jimi Hendrix

  • Biografia:

    Antes de Jimi Hendrix surgir para o mundo da m�sica, a guitarra era um instrumento destinado basicamente acompanhamentos e utilizado como se fosse pouco mais do que um viol�o amplificado. � claro que existiam virtuoses, casos de L�s Paul, criador de t�cnicas revolucion�rias e de uma linha de guitarras que vem fazendo hist�ria h� mais de quarenta anos, e de Barney Kessel, com seu estilo sincopado e harmonicamente bastante complexo - e que, segundo especialistas, teria dado origem ao jeito de Jo�o Gilberto tocar bossa nova. Explica-se: reza a lenda que o violonista baiano teria tirado a "batida" da bossa depois de ouvir Kessel acompanhando a cantora Julie London em "Cry Me A River", um grande sucesso em meados dos anos 50. Outros que marcaram pela criatividade foram Muddy Waters, Chuck Berry, Hank Marvin, Link Wray, Pete Townshend, Jeff Beck e George Harrison, g�nios que ajudaram a aperfei�oar t�cnicas como o uso da microfonia, alavanca de tr�mulo, mudan�as de captadores, colora��o de timbres e outras caracter�sticas que diferenciam a guitarra do viol�o. Mas quem mudou mesmo a concep��o do uso do instrumento foi Jimi Hendrix, aquele guitarrista nascido em Seattle no dia 27 de novembro de 1.942, cujo nome verdadeiro era James Allen Hendrix. Negro, canhoto. De cabelo estilo "choque el�trico", morreu por abuso de drogas aos 27 anos, e � citado como o melhor guitarrista de todos os tempos pela maioria absoluta dos m�sicos. Quase tr�s d�cadas ap�s sua morte, podemos reavaliar a vida e obra de Hendrix e perceber que ele foi muito mais que apenas um grande "doid�o" do rock. Jimi Hendrix foi o primeiro a reunir toda a t�cnica e a tecnologia j� existentes, al�m de acrescentar muito mais, criando um estilo musical e uma forma de tocar guitarra totalmente pessoais e muito imitados.

    DESENHO ANIMADO
    Ao lado de Robert Johnson e Buddy Holly, Hendrix estava destinado a produzir muito pouco e influenciar muitos em pouco tempo. E quem pensa que ele dependia de alto volume e v�rios amplificadores Marshall ligados em s�rie pode ouvir "Hear My Train A-Comin" e outras de suas belas grava��es com viol�o ac�stico, n�o amplificado. Jimi foi t�pico g�nio intuitivo, sem educa��o formal, mas dotado de enorme sensibilidade. Seu maior prazer eram as jam sessions. Certa vez lhe perguntaram se era verdade a hist�ria de que ele ensaiava dezoito horas por dia com a Band Of Gypsys. Jimi respondeu: "A gente fica � fazendo jam, mas diz que � ensaio para parecer mais oficial". Ele n�o foi apenas instrumentista, mas tamb�m grande compositor e arranjador; ao contr�rio do que aparentava, era um artista extremamente disciplinado, sabendo bem o que queria tocar, embora se queixasse de n�o conseguir executar toda a m�sica que lhe passava pela cabe�a. "Eu quero compor mais, alguma coisa como m�sica de desenho animado", declarou Hendrix em fevereiro de 1.970. "Tenho muitas id�ias, mas n�o consigo executar na guitarra os sons que ou�o na minha cabe�a. Gostaria de fazer alguma coisa parecida com a m�sica de Haendel, Bach, Muddy Waters. Sons flamencos tamb�m me agradam bastante."

    M�SICO E SHOWMAN
    Obviamente, Jimi n�o surgiu do nada nem adotou seu pr�prio estilo de repente. Ele come�ou a fazer experi�ncias com microfonia na �poca em que acompanhava Little Richard e outros, s� que eles n�o gostavam muito - chegando a ponto de sua parte numa grava��o de um certo Bill "Hoss" Allen, feita em 1.962, n�o entrar no disco. "A guitarra de Jimi estava t�o descontrolada que n�o pude aproveitar nada e tirei tudo na mixagem", explicou Allen anos depois, provavelmente com um certo arrependimento. \Por mais brilhante e original que fosse, Jimi Hendrix precisava ser adequadamente para ser consumido pelas massas. Chas Chandler, empres�rio do guitarrista a partir de 1.966, cumpriu muito bem seu papel ao vender Hendrix sem lhe mudar a ess�ncia nem impor comercialismos vazios e baratos. Para come�ar, mudou o "nome art�stico" do m�sico, que �quela altura tinha uma banda chamada Jimmy James & Blue Flames. Mas na �poca existiam v�rios grupos que usavam Blue Flames no nome. Como se n�o bastasse, havia tamb�m um soulman ingl�s de nome Jimmy James. Chandler, ent�o, trocou o nome do rapaz para Jimi Hnedrix (o sobrenome era verdadeiro). Com esse nome chamativo e diferente, o guitarrista come�ou a se tornar mundialmente famoso a partir da Inglaterra, acrescentando a seus shows performances arrasadoras, que iam desde tocar a guitarra com os l�bios e o punho at� incendi�-la em pleno palco. CONSCI�NCIA SOCIAL O som de Hendrix, embora geralmente alto e pesado, tinha um balan�o t�pico da melhor m�sica negra. Ele foi precursor do funk-metal, e n�o � � toa que m�sicas suas foram regravadas por grupos como Red Hot Chili Peppers e Living Colour. "Ele foi o primeiro negro a entrar no rock branco de cabe�a e vencer", como bem definiu a revista Rolling Stone. Por sua vez, o jornal ingl�s Melody Maker disse que o grupo The Jimi Hendrix Experience foi �nico n�o s� pela qualidade t�cnica de Jimi e seus companheiros, mas tamb�m pela fus�o de estilos dos integrantes: somente o contrabaixista Noel Redding era eminentemente um roqueiro, ao passo que o baterista Mitch Mtchell vinha do jazz e Jimi era, antes de tudo, um admirador confesso do blues. Sem d�vida, ele foi tamb�m roqueiro dos melhores - afinal, g�neros musicais n�o s�o compartimentos estanques, muito menos o blues e o rock, t�o aberto a inova��es - mas nunca abandonou a negritude pessoal ou musical. Jimi nunca deixou de demonstrar preocupa��o social, n�o s� em declara��es � imprensa, mas em sua pr�pria m�sica e seu modo de ser. Tal como Elvis Presley, Hendrix foi muito influente e incrivelmente prol�fico. Mas ao contr�rio do Rei do Rock, ele nunca permitiu que empres�rios ou parasitas metessem o bedelho em sua obra ou sua vida; profissionalmente, seu erro foi assinar um contrato tipicamente leonino. Chas Chandler tinha boas inten��es, mas, talvez por uma combina��o da pr�pria inexperi�ncia e da gan�ncia de seu s�cio Mike Jeffrey, a parte dos direitos sobre as grava��es do Jimi Hendrix Experience que cabia ao grupo era de 2,5% - a serem divididos entre os tr�s integrantes! "Jimi, Mitch e eu, totalmente excitados, pegamos a caneta e assinamos", lembrou Noel Redding em sua autobiografia. Jimi foi o maior cafuzo do rock ou seja, mesti�o de negros e �ndios, e afirmava que expressava toda a opress�o social dos EUA em sua m�sica. "Venho de duas ra�as que vivem levando porrada desde que o mundo � mundo", costumava dizer. Ao mesmo tempo, ele n�o queria ser radical, militante, tocar apenas m�sica negra. "Eu sou fruto de tantas ra�as, como poderia tocar uma s� m�sica, trair minhas convic��es pol�ticas?", questionava-se Hendrix constantemente. Aos 16 anos, Jimi havia sido expulso do col�gio, s� por flertar com uma colega branca; a escola admitia alunos brancos e negros, desde que n�o se aproximassem muito. E ele sabia que ra�a n�o � s� quest�o de pele, mas tamb�m de condi��o econ�mica. Da� que, negro e de fam�lia humilde, ao alcan�ar a idade de servir o Ex�rcito, achou melhor atender o chamado do Tio Sam sem discutir, e principalmente para evitar problemas. Mais tarde, embora rico e famoso, Jimi ainda se preocupava com a ra�a negra e com a pr�pria humanidade. "H� muita inquieta��o nos EUA, mas ainda somos todos norte-americanos, queremos ver tudo ficar legal e precisamos trabalhar para isso. Nosso lar n�o � somente a Am�rica, � o planeta Terra." A obra de Jimi Hendrix transcende distin��es de ra�as, pa�s, g�nero ou estilo. Nada radical, chegou a adaptar para o rock ritmos como valsa ("Manic Depression") e at� tango ("House Burning Down"), al�m de tocar e gravar com artistas t�o diversos quanto Little Richard, Jonh Lennon, Johnny Winter, Jim Morrison, Steven Stills e tamb�m jazzistas como Lary Coryell e Jonh McLaughlin. Ali�s, sua liga��o com o jazz poderia ter rendido muito mais. Pena que a morte o impediu de gravar com Miles Davis, Gil Evans e outros monstros do jazz que eram seus �dolos (e tamb�m f�s), mas v�rios acordes e t�cnicas de solo usadas por Jimi mostram que ele foi tamb�m um dos pioneiros do jazz-rock. � l�gico que s� Deus cria a partir do nada, Hendrix teve muito que aprender. Mas tamb�m ensinou muito. Do mesmo modo que toda m�sica com gaitinha crom�tica, letra comprida e voz anasalada lembram Bob Dylan, v�rios procedimentos e maneirismos hoje t�o comuns no pop rock foram criados e aperfei�oados por Jimi, tornando-se sin�nimos de sua obra e estilo. Entre eles est�o solos a capela com microfonia, uso do pedal wah-wah e o acorde maior com ter�a bemolizada. Hendrix utilizava a m�sica tamb�m para expressar preocupa��es com sua condi��o de vida. Na verdade, dizia-se um n�made. Com o fim do Experience, resolveu montar uma "anda de ciganos", a Band of Gipsies, - ou, como ele grafava, "gypsys". "N�o tenho casa, porque n�o tenho ra�zes. Eu e meus amigos somos um bando de m�sicos ciganos errantes, vagando de palco em palco", disse ele � imprensa, na �poca do lan�amento do LP Band of Gypsys, em maio de 1.970, quatro meses antes de morrer.

    O SOM QUE FAZ BEM
    Felizmente, outro fator normalmente associado a Hendrix s�o as drogas. � fato que ele usava as ditas "drogas recreacionais": maconha, coca�na e hero�na, LSD. Mas o que realmente matou Hendrix - no dia 18 de Stembro de 1.970, em Londres, sufocado pelo pr�prio v�mito - foi um tranq�ilizante vendido em qualquer farm�cia, assim como o cigarro, a bebida e outra subst�ncias n�o s� permitidas, mas de consumo totalmente incentivado, detalhe este esquecido (propositadamente ou n�o) em v�rias campanhas antidrogas que usaram Jimi como exemplo de v�tima fatal. Para ter uma id�ia de como utilizaram a imagem de Hendrix de forma leviana, o m�dico legista que atestou o �bito do m�sico foi pressionado pelas autoridades americanos e ingleses a declarar que a causa mortis havia sido "overdose de hero�na", o que o caracterizaria como usu�rio de "drogas pesadas". Se fizeram dele um m�rtir ou tentaram transforma-lo mercadologicamente em "mau exemplo", � algo que jamais saberemos. As rea��es imediatas a um artista como Jimi s�o duas: endeusamento e repulsa A primeira impress�o frente a algo novo ou diferente costuma ser negativa. O LP Are You Experienced?, que marcou a estr�ia do The Jimi Hendrix Experience, foi chamado por um leitor do jornal ingl�s M3lody Maker de "artificial, um pesadelo de distor��o". O mesmo leitor afirmava que Eric Clapton, ent�o tido como um deus pelos ingleses, era "muito mais aut�ntico". Ningu�m discute as qualidades de Clapton, mas deixar de reconhecer a genialidade de Jimi Hendrix �, no m�nimo, uma imprud�ncia.

    UM CIDAD�O COMUM
    Na d�cada de 70, um dos organizadores da Pebbles, famosa s�rie norte-americana de colet�neas de "garage rock" dos anos 60, afirmou numa das contracapas desses discos que "a �nica coisa musicalmente boa a vir da Inglaterra para os EUA nos anos 60 foi Jimi Hendrix, um norte-americano que n�o conseguiu fazer sucesso tocando em bandas locais e se mudou para a Inglaterra, onde engoliram sua enrola��o". Detalhe: n�o � piada, ele escreveu a s�rio e, com esse coment�rio, simplesmente ignorou solenemente Beatles, Rolling Stones e The Who. Fora dos palcos, jam sessions e est�dios, Jimi era o que se pode chamar de "um ser humano comum", cheio de qualidades e defeitos. De temperamento oscilante, ia da ternura � viol�ncia, principalmente quando algum companheiro de banda n�o conseguia captar suas id�ias musicais. Era franco, direto, persistente ("�s vezes d� vontade de largar a guitarra, mas sempre digo aos m�sicos para que ag�entem firme, pois ser�o recompensados", dizia), amoroso, sens�vel, bem-humorado ("Cabelo � um tipo de antena, e meu cabelo � el�trico, capta todas as vibra��es", brincou ele numa entrevista). Apesar de adorar mulheres, ele odiou a capa da edi��o inglesa do disco Eletric Ladyland, repleto de mulheres nuas. Ou seja, de certa forma. Hendrix n�o passava de um moralista. Desde a morte do guitarrista, Al Hendrix, seu pai, movimentou-se para recuperar os direitos sobre a obra do filho, formando a empresa Experience Hendrix, em 1.997, que, em conjunto com a Universal Music, passou a reeditar a obra de Jimi - a "oficial", uma vez que o m�sico tinha obsess�o por registrar tudo o que tocava, o que resultou numa infinidade de grava��es, as quais, com o passar do tempo, ca�ram nas m�os dos piratas, tornando o controle sobre elas absolutamente imposs�vel. A Experience Hendrix tem tamb�m um selo, o Hendrix Records, dedicado a artistas novos, iniciativa que o guitarrista aprovaria, sem a menor d�vida. Enfim, o grande legado de Jimi, al�m de sua obra, foi a vis�o musical, sem a qual ele hoje seria "apenas algumas belas fotos, uma ou duas fogueiras e notas sobre como tocar guitarra de tr�s para frente, tomar �cido e deixar uma colet�nea em CD", como analisou o jornalista ingl�s Derek Taylor quando das reedi��es dos discos de Jimi Hendrix h� tr�s anos. "OK", dir�o os radicais, "mas o cara morreu por causa das drogas". Mas o fato � que como guitarrista - e, claro, como ser humano - ele mereceu e merece todo respeito. Ainda de acordo com Derek Taylor, "� por isso que reverenciamos sua obra. Talvez seja um pouco de consolo para Al Hendrix, que perdeu t�o cedo um filho t�o bom. Mas o fato � que Jimi Hendrix entrou para a hist�ria por sua genialidade. � o que basta".

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