Este livrinho de versos
só tem a ver com o seu Autor, porque foi ele que os escreveu.
A iniciativa da sua
publicação partiu de alguém que desde há muitos anos tem vivido rodeada de papelinhos
de todas as cores, feitios e texturas, enfeitados com uma letra muito certinha, compondo
frases que são outras tantas explosões de ironia, muitas vezes a partir daquele impulso
incontido, premente, genético, que é quase uma segunda natureza numa pessoa que tem
deixado versos, sobretudo quadras, a muitos familiares, amigos, colegas, simples
conhecidos, nos mais variados objectos, nas mais variadas ocasiões e com a facilidade e
naturalidade com que se bebe um copo de água.
Quis fazer-lhe uma
surpresa no dia da sua Jubilação.
Procurei então algumas
"amostras" nessa imensidão de versos que andam espalhados por aí. Assim
mesmo: por aí... A maior parte delas não tem qualquer registo.
Só na sua memória, que é excelente nesta matéria. Quando escreve, não
pretende poder ser lido mais tarde. É espontâneo, a atitude poética é
imediatista, a intenção também: olhar pessoas e situações de modo diferente, a ironia
apelando ao sorriso, e acima de tudo, valorizar o momento - aqui e agora - dos que, dum ou
doutro modo, vivem a mesma situação.
A escolha foi deveras
difícil e certamente a não mais acertada.
Hesitei muito na
escolha dos "momentos universitários". Os aqui representados são uma
pequeníssima parte e, creiam, a mais "suave".
Os versos feitos
"à mesa", duma forma geral são produto dum impulso irreprimível, diremos
mesmo, incontrolável, quase irritante, (para mim, claro). A comida arrefece no
prato e os papelinhos vão passando de mão em mão, ainda que tenham "surgido"
a pedido sobretudo de pessoas anteriormente retratadas, e que não querem deixar passar
mais essa oportunidade. É vulgar ouvir-se, entre o barulho do arrastar das
cadeiras, na prespectiva dum simpático e agradável momento gastronómico:
- Ó Professor,
"faça" uns versos!
E o Professor, algumas
vezes, um olho nos aliciantes camarões, outro nos inevitáveis quadradinhos de papel que
sempre transporta no bolso interior do casaco, "just in case", lá vai meditando
e rabiscando versos. O resultado, no que me diz respeito, é sempre previsível:
entre os apetitosos camarões e o apelo à sua veia poética, esta acaba vencendo...
Talvez, melhor dizendo "artéria", pois como ele um dia escreveu
"só a veia não conhece / a minha artéria poética".
É esta
"artéria" que percorre congressos, palestras, reuniões, viagens, que rodeia
tudo e todos na sua vertente humana e poética de homem, no fundo sempre preocupado com os
outros, acima das classes, dos partidos políticos, irónico, às vezes impiedoso, mas com
a garantia de autenticidade dirigida à outra realidade, àquela que só ele entrevê.
Poeta popular,
"com um pouco mais de conhecimentos que o nosso Aleixo", como a si próprio se
define, fez no entanto algumas bem sucedidas incursões numa outra forma de poesia
diferente da quadra, esta de versos de sete sílabas de rima A/B/A/B.
Daí resultaram poemas
cheios de conteúdo, de ritmo e de beleza.
Resolvi incluir alguns
para os que desconhecem essa sua faceta.
Que me perdoem os
colegas, amigos e familiares, afectuosamente visados nos seus versos. É o olhar do
poeta. E o poeta é o homem que ainda é capaz de arrancar do banal o sentido das
coisas, de exprimir aquilo que não é totalmente compreensível, que transforma em
emoção os pensamentos e traduz assim a emoção em palavras.
Duma coisa tenho a
certeza. A poesia é, sem dúvida, a sua forma mais fácil de comunicar.
Comunicar com a vida em toda a sua riqueza e pluralidade. Sem a
preocupação de distinguir a poesia como arte elaborada e a sua escrita poética, simples
como o fluir do tempo no quotidiano... É assim, portanto, que a sua
natureza interior comunica - através dos impulsos da sua "artéria poética".
Esta publicação só
foi possível com o apoio da Merck Farma e Química, S.A., a colaboração técnica do
senhor Fernando Nunes e sempre dedicada colaboração artística do irmão do Autor,
Fernando Jorge.
Espero que ele nos
perdoe esta ousadia. Porque se ele não gostar, que Deus nos acuda!
Isabel Maia Serra e Silva