Prazo de validade

Olavo de Carvalho
Zero Hora (Porto Alegre), 7 out 2001

 

O sr. Antonio Negri, que foi mentor das Brigadas Vermelhas e hoje � mentor de meio mundo, afirmou numa entrevista recente que o comunismo nunca esteve t�o forte, que, justamente no momento em que a burguesia idiota o sup�e falecido, esse regime est� ressurgindo triunfante em todos os quadrantes da terra.

Eu, que n�o sou comunista, tenho observado a mesma coisa e asseguro: o sr. Negri, que j� mentiu muito, n�o est� mentindo agora.

Quando, da queda da URSS, nossos liberais e conservadores deduzem a dissolu��o do movimento comunista internacional, n�o se lembram nem mesmo de perguntar: se o comunismo necessitasse absolutamente de uma base de apoio estatal e institucional, como poderia ele crescer e fortalecer-se de 1848 a 1917 at� chegar ao ponto de tomar o poder num pa�s das dimens�es da R�ssia? Como podem n�o perceber que o fato mesmo de ter chegado a existir uma URSS demonstra que o movimento comunista � vi�vel sem ela?

Associado a esse erro vem outro maior: n�o concebem o movimento revolucion�rio internacional sem um comando unificado, um Comit� Central onipotente com algum St�lin no topo. Quando dizemos que esse movimento fez isto ou fez aquilo, respondem, com um sorriso de incredulidade mordaz: “Mas onde, ent�o, est� o comando?” N�o vendo o topo, negam a exist�ncia da base. Nem de longe percebem que a sujei��o das for�as esquerdistas a uma hierarquia unificada, longe de ser uma condi��o indispens�vel da sua exist�ncia, foi uma anormalidade acidental criada de improviso para atender a necessidades internas da URSS, que, reduzindo os partidos comunistas a instrumentos auxiliares da sua estrat�gia nacional, acabou por inibi-los e paralis�-los. No fim, a URSS n�o dava aos comunistas do restante do planeta sen�o dinheiro e freadas. Com a queda do imp�rio sovi�tico, o freio soltou-se: uma portentosa libera��o de for�as permite hoje que milhares de iniciativas mais ou menos independentes, unificadas t�o somente pela identidade de fins ideol�gicos -- mesmo assim informal e n�o dogm�tica -- terminem convergindo para um resultado coerente sem que nenhuma elite burocr�tica tenha de controlar artificialmente o processo. Quanto ao dinheiro sovi�tico, ele faria falta, sim, se a pr�pria URSS n�o tivesse criado as duas fontes de financiamento independentes que hoje alimentam a revolu��o mundial: a rede internacional do tr�fico de drogas (v. Joseph D. Douglass, “Red Cocaine. The Drugging of America and The West”, London, Harle, 1999) e centenas de mega-empresas montadas no Ocidente com dinheiro da KGB nos anos 80, quando Gorbachov, temendo a queda iminente do Imp�rio sovi�tico, decidiu assegurar-se da sobrevida do movimento revolucion�rio no Exterior (v. Vladimir Boukovski, “Jugement � Moscou”, Paris, Laffont, 1995).

O comando foi espalhado, o dinheiro foi espalhado. As estrat�gias pluralistas de Trotski e Antonio Gramsci acabaram predominando, como era de se esperar, sobre o arranjo “monol�tico” tempor�rio. Isso foi tudo.

Como � poss�vel que, numa muta��o que potencializa “ad infinitum” a capacidade de a��o comunista no mundo, habilitando-a a empreendimentos de enorme alcance como a campanha anti-americana subseq�ente aos atentados de 11 de setembro (ou, j� em 1994, a oculta��o geral da identidade ideol�gica do genoc�dio em Ruanda), tantos homens inteligentes na “direita” n�o consigam enxergar sen�o a fachada de debilidade e dispers�o?

� que, acostumados a raciocinar segundo estere�tipos da m�dia popular -- ela pr�pria mais esquerdista do que percebem --, n�o podem mesmo ter a menor id�ia das muta��es espetacularmente f�rteis da estrat�gia comunista, que desde 1917 vem ludibriando a opini�o ocidental mediante falsas not�cias da sua pr�pria extin��o.

A mais not�vel dessas campanhas de desinforma��o seguiu-se ao relat�rio Kruchev, de 1956, quando a forma��o de uma “Nova Esquerda”, que recusava at� mesmo o r�tulo de comunista, deu ao Ocidente a ilus�o de que o comunismo perdera o f�lego, sendo substitu�do por modalidades de esquerdismo mais brandas e mais facilmente assimil�veis ao jogo democr�tico. Pois bem: foi essa esquerda moderninha que patrocinou a ocupa��o comunista do Vietn� do Sul, o genoc�dio no Camboja e no Tibete, a “Revolu��o Cultural” chinesa e a dissemina��o de focos de guerrilha na Am�rica Latina, superando rapidamente o stalinismo em viol�ncia global e n�mero de v�timas.

N�o � de espantar que, transcorrido meio s�culo, at� o vocabul�rio da “Nova Esquerda” possa ser requentado, fazendo ressurgir no card�pio brasileiro, a t�tulo de original�ssimas novidades de uma esquerda “modernizada”, os mais not�rios chav�es dos anos 60, como “democracia participativa”. Esta express�o, subentendendo o corol�rio “or�amento participativo”, apareceu pela primeira vez em 1962 na “Declara��o de Port Huron”, que lan�ou a “Students for a Democratic Society” destinada a tornar-se a maior organiza��o estudantil da esquerda nos EUA. Nada poderia parecer mais distante da imagem comunista tradicional do que a SDS, o prot�tipo da esquerda “light”, que at� se declarava herdeira das tradi��es libert�rias da Revolu��o Americana. Hoje sabemos, pelos Arquivos de Moscou, que tudo isso foi uma fachada, que a SDS tinha estreitos v�nculos com a espionagem sovi�tica e chinesa e que seus m�todos, ainda mais c�nicos que os do leninismo tradicional, inclu�am assassinatos de negros para jogar a culpa na pol�cia. V�rios l�deres da Nova Esquerda estudantil se arrependeram mais tarde e contaram tudo. Entre eles, David Horowitz e Ronald Radosh, talvez as mais brilhantes intelig�ncias da sua gera��o. Suas autobiografias (“Radical Son” e “Commies”, respectivamente) s�o retratos impiedosos do engodo brutal com que uma juventude fingidamente idealista traiu sua na��o para favorecer os regimes genocidas de Ho-Chi-Minh, Pol-Pot e Mao-Ts�-tung. Mas a ret�rica dessa “gera��o destrutiva”, como a chamou Horowitz, se nos EUA se desgastou ao ponto de n�o ter hoje a m�nima efic�cia quando mobilizada contra o esfor�o de guerra do governo Bush, ainda funciona no Terceiro Mundo. Especialmente no Brasil. Especialmente no Rio Grande. N�o posso olhar um Tarso Genro, um Miguel Rossetto, sem ter a sensa��o de que estou diante de um artigo americano de sobra-de-guerra. Bastaria distribuir exemplares dos livros de Horowitz e Radosh ao eleitorado ga�cho, e ele reconheceria instantaneamente nos discursos desses indiv�duos os produtos com prazo de validade vencido que eles, indiscutivelmente, s�o. Mas a deteriora��o do produto n�o impede, obviamente, que ele seja distribu�do com sucesso a consumidores que nunca o viram no seu estado original. O comunismo triunfante do sr. Antonio Negri, afinal, n�o � mais novo nem mais conservado do que Tarso Genro ou Miguel Rossetto.

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