A DISSONÂNCIA COGNITIVA DE FHC
23/08/2002
Um dos grandes feitos de Olavo de Carvalho é ter demonstrado que a adesão aos credos de esquerda, todos eles inspirados no filósofo Epicuro, exige uma falha fundamental de caráter, vez que a ação política neles baseada redunda na prática do mal. Dois tipos de indivíduos podem abraçar a causa esquerdista: os que não refletiram adequadamente e por isso são obrigados a sofrer de dissonância cognitiva para encaixar a realidade em seus preconceitos e aqueles que sabem exatamente o que fazem normalmente os líderes e ideólogos que praticam o mal conscientemente, em busca do centro de poder. A revolução leninista bem sucedida é a expressão acabada da conquista de poder pela prática do mal consciente.
Dissonância
cognitiva é uma expressão que foi cunhada pelo psicólogo L. Festinger. De acordo com a sua teoria, existe uma tendência nos
indivíduos de procurar uma coerência entre suas cognições (convicções, opiniões).
Quando existe uma incoerência entre atitudes ou comportamentos (dissonância), algo
precisa mudar para eliminar a dissonância. No caso de uma discrepância entre atitudes e
comportamento, é mais provável que a atitude vai mudar para acomodar o comportamento. A
dissonância acontece quando um indivíduo precisa escolher entre atitudes e
comportamentos que são contraditórios. Em outras palavras, quando há uma fissura entre
a realidade enquanto tal com a maneira com que o indivíduo a percebe.
Ontem os jornais estamparam a fala de FHC no Uruguai,
na qual ele acusa os mercados de estarem possuídos de dissonância cognitiva, porque
colocaram o risco-Brasil entre os maiores do mundo e recusam-se a renovar as linhas de
crédito. Quem está certo, FHC ou os mercados? Quem está tomado pela dissonância
cognitiva?
É claro que os mercados é que estão certos. O Brasil
encontra-se altamente endividado, sofrendo de supertributação, tem um Estado que
alcançou um tamanho desproporcional e, por causa disso, ficou disfuncional para o sistema
econômico e, pior, depende desesperadamente da entrada de novos recursos em cifras
bilionárias na forma de capitais de risco para fechar o balanço de pagamentos. Tudo isso
na conjuntura em que o Brasil não dispõe de reservas internacionais e que os
investidores estão muito receosos, sobretudo depois das perdas que foram verificadas na
Argentina.
Moral de história: os mercados estão certos em se
retraírem, pois assim minimizam suas perdas e reduzem a sua exposição. Racionalidade
pura.
Já FHC acha que os tais fundamentos da nossa economia
são ótimos, que os gringos deveriam botar dinheiro aqui porque somos
pentacampeões e que o Estado socialista que ele aprofundou é a oitava maravilha do
mundo, o paraíso da justiça social. Se os mercados não percebem o paraíso
que temos aqui, pior para eles. Nas suas palavras:
Não obstante, o risco-país superou os 2.000 pontos, e o Brasil é comparado a países africanos. É possível isso? Guarda relação com a realidade? Se guarda, creio que perdi a razão, porque realmente não a vejo".
Pelo menos ele desconfia que perdeu a razão. Perdeu mesmo, endoidou. O Brasil que está na sua cabeça não existe. A realidade é que o nosso país está quebrado, endividado, com seu povo esfolado pelos impostos, pelo desemprego, pela insegurança. O povo está sem esperanças. O Brasil real é aquele que o seu próprio povo percebe, assim como os mercados. Eles não se enganam, sabem que o mar não está para peixe. Só o inquilino alienado do Palácio do Palácio da Alvorada, qual um Quincas Borba, enxerga o verde onde só há relva seca, queimada pela longa estiagem do Planalto Central.
Nivaldo Cordeiro
O autor é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV SP