Comunismo finge-se de morto

O poder econômico só tem força de barganha com o revolucionário enquanto este não chega ao poder. Depois, bem, o depois já foi narrado milhares de vezes por uma multidão de exilados que um dia foram ricos em Havana antes da chegada de Fidel, em Berlim antes da chegada de Hitler, em Pequim antes da chegada de Mao ou em Petrogrado antes da chegada de Lenin.

A nossa  classe empresarial que, incapaz de criar a militância de massas adequada à defesa de seus interesses e projetos, se alia no último momento a um partido revolucionário na esperança de que este a proteja é, evidentemente, uma classe possuída pelo desejo de morrer. As racionalizações que seus mentores possam conceber para legitimar essa aposta suicida só comprovam o estado de completa alienação a que chegaram. Dessas racionalizações, a mais deplorável é aquela que os leva a imaginar que, se agora o suspeitíssimo aliado necessita da sua ajuda financeira para conquistar o Estado, continuará a necessitar dela após tê-lo conquistado; a imaginar que, se hoje podem negociar com ele como detentores do poder econômico, poderão manipulá-lo amanhã mediante o uso do mesmo instrumento. Mostram, nisso, uma total incompreensão da natureza do próprio poder econômico. Sobretudo, uma fatal ignorância de suas fraquezas e limitações congênitas.

Onde quer que você veja um capitalista advogando um pragmatismo aproveitador que -- por acaso, por mero acaso -- favoreça interesses comunistas ao mesmo tempo que contribui para impingir à opinião pública a imagem do capitalismo como um regime cínico, amoral e sem escrúpulos, é melhor investigar quem é que o "tem no bolso". Há quase um século os comunistas possuem know-how bastante para lucrar duplamente com esse gênero de prestidigitações: ganham dinheiro e ainda enlameiam a reputação do adversário.

Um caso bem triste ilustrará o que digo. Um dos mais prósperos empresários rurais de Cuba, nos anos 50, era amigo de infância de Fidel Castro e inimigo figadal de Fulgêncio Batista - um ditador que, convém jamais esquecer, chegara ao poder com o apoio do Partido Comunista. Desde os primeiros momentos da revolução, esse homem estendeu seu generoso apoio aos barbudos de Sierra Maestra. Chegou a montar em sua fazenda um hospital clandestino para socorrer os combatentes fidelistas feridos em batalha. Vitoriosa a revolução, retirada a máscara democrática do novo regime e assumida em público a identidade comunista de Fidel Castro, ainda assim o rico cidadão continuou a apoiar o velho companheiro. Sua confiança nele só foi um pouco abalada quando o comitê revolucionário começou a fuzilar indiscriminadamente os oficiais das Forças Armadas, muitos deles limpos de qualquer compromisso com o governo caído. Um dia, quando chegaram à fazenda notícias do fuzilamento iminente de certos coronéis que eram amigos comuns de Fidel e do nosso personagem, a esposa do fazendeiro achou que podia interceder junto ao governante em favor dos condenados, em nome dos velhos tempos. A resposta de Fidel foi mais ou menos a seguinte: - Em nome da gratidão e da amizade, concederemos a vocês o direito de sair para Miami amanhã, num avião militar. Cada um poderá levar US$ 20 e a roupa do corpo.

No governo de Lenin, a desinformação era também a regra geral da política externa. A famosa abertura econômica (leia abertura econômica no Brasil 1990-2001), planejada como etapa dialética de uma iminente estatização total, foi anunciada como sinal de um promissor abrandamento do rigor revolucionário, não só para atrair os capitalistas, mas para dissuadir os governos ocidentais de apoiar qualquer esforço contra-revolucionário. Assim, muitos líderes exilados, desamparados pelos países que os abrigavam e iludidos pela falsa promessa de democratização na Rússia, voltaram à pátria conforme calculado e, obviamente, foram fuzilados no ato. Dos que não voltaram, muitos foram mortos no próprio local de exílio por agentes da Tcheka, a futura KGB.

Invenção pessoal de Lenin, a desinformação (desinformátsya) consiste em estender sistematicamente o uso da técnica militar de informação falseada para o campo mais geral da estratégia política, cultural, educacional etc., ou seja, em fazer do engodo, que era a base da arte guerreira apenas, o fundamento de toda ação governamental e, portanto, um instrumento de engenharia social e política. Isso transformava a convivência humana inteira numa guerra - numa guerra integral e permanente.

Operações de desinformação em larga escala só são possíveis para um regime totalitário, com o controle estatal dos meios de difusão, ou para um partido clandestino(ou semi-clandestino como o PT) com poder de vida e morte sobre seus militantes. Qualquer tentativa similar em ambiente democrático esbarra na fiscalização da imprensa e do Legislativo.

A opinião pública brasileira nunca soube grande coisa dos métodos de ação comunistas. Desinteressando-se do assunto desde que lhe disseram que o comunismo não existe mais, passou a saber menos ainda. Quanto menos sabe, mais tolamente se deixa enganar por velhos e banais expedientes de camuflagem que o estudioso, mesmo amador e ocasional, reconhece à primeira vista. E não me refiro só ao povão, mas às classes letradas, aos dirigentes políticos e empresariais. A ignorância do assunto, entre essas pessoas, é total, compacta e renitente. Daí a facilidade com que qualquer militante com uns aninhos de treinamento em Cuba faz a todas elas de idiotas, usando-as de instrumentos para operações que têm por objetivo, quase declaradamente, a sua destruição.

É difícil, hoje em dia, encontrar alguém que tenha, por exemplo, a mais remota consciência de que toda campanha publicitária e jornalística por trás da qual haja o dedo comunista é quase infalivelmente o disfarce de alguma operação que visa a objetivos bem diversos dos alegados.

Se o público brasileiro não adquirir rapidamente os conhecimentos básicos que o habilitem a reconhecer operações de desinformação pelo menos elementares, toda a nossa imprensa, toda a nossa classe política e até oficiais das Forças Armadas podem se transformar, a curtíssimo prazo, em inermes e tolos agentes desinformadores a serviço da revolução comunista na América Latina.

A maior parte das nossas classes letradas não sabe sequer o que é desinformação. Imagina que é apenas informação falsa para fins gerais de propaganda. Ignora por completo que se trata de ações perfeitamente calculadas em vista de um fim, e que em noventa por cento dos casos esse fim não é influenciar as multidões, mas atingir alvos muito determinados - governantes, grandes empresários, comandos militares - para induzi-los a decisões estratégicas prejudiciais a seus próprios interesses e aos de seu país. A desinformação-propaganda lida apenas com dados políticos ao alcance do povo. A desinformação de alto nível falseia informações especializadas e técnicas de relevância incomparavelmente maior.

A intelectualidade brasileira nunca foi muito hábil em prever para onde vai o mundo, e nós dentro dele. Pois agora sua minguada capacidade preditiva vai sendo ainda mais debilitada, com a ajuda de uma imprensa unanimista onde o que não sai num jornal não sai em nenhum deles. Ela está presa à visão folclórica que crê poder compreender toda a política exterior americana pela mistura estereotipada de comercialismo e anticomunismo que talvez tenha até bastado para caracterizá-la, grosso modo, durante um curto período no pós-guerra, mas que hoje se tornou apenas um pretexto para pseudo-intelectuais do Terceiro Mundo se apegarem a uma cegueira atávica.

É difícil, hoje em dia, encontrar alguém que tenha, por exemplo, a mais remota consciência de que toda campanha publicitária e jornalística por trás da qual haja o dedo comunista é quase infalivelmente o disfarce de alguma operação que visa a objetivos bem diversos dos alegados. Vou ilustrar como a coisa funciona. Durante uma década houve uma mobilização maciça de jornalistas, intelectuais e artistas do mundo todo para despertar a indignação da humanidade ante a situação dos chamados "meninos de rua" do Brasil. Com essa campanha, obteve-se da sociedade o apoio para a instalação de ONGs destinadas a socorrer os pobres meninos. Hoje elas são, no Rio de Janeiro, 450. Os meninos à solta nas ruas da cidade são 440, segundo rigorosa contagem da Faperj, Fundação de Amparo à Pesquisa. Há portanto uma ONG para cada um e ainda sobram dez ONGs. Elas recebem verbas do Exterior e amparo oficial, fazem lobby à vontade no Senado e na Câmara e, na reforma do Estado, obtiveram o direito de assumir sob seus cuidados fatias inteiras da administração pública federal (como por exemplo o "serviço civil", hoje sob as ordens do Viva-Rio).

Os meninos desamparados não sumiram das ruas, mas, de um ano para cá, deixaram de ser assunto, desapareceram do cardápio de urgências da mídia. Sim, para que continuar falando em meninos de rua? O objetivo da campanha foi atingido: estender mais um tentáculo do Estado paralelo que hoje nos governa. Os meninos, como papéis higiênicos usados, foram jogados fora.

O público não tem nem mesmo idéia de que esse gênero de operações exista. Sua inteligência, privada de informações a respeito e desviada para escândalos financeiros escavados por colaboradores das mesmas operações, pode mesmo negar-se a admitir que exista alguém capaz de tanta malícia. Sim, nosso povo está tão idiotizado pelo noticiário, que já não consegue conceber malícia e safadeza senão em vulgares desvios de dinheiro público. Que interesses e ambições infinitamente mais vastos possam usar de doses desproporcionalmente maiores de astúcia maquiavélica, eis algo que nem passa pela sua imaginação. Enquanto houver Sérgios Nayas e Lalaus para servir de bois de piranha - "y que los hay, los hay" -, os condutores da grande fraude poderão continuar operando tranqüilos ante os olhos sonsos de um povo hipnotizado.

O que confunde ainda mais as pessoas, nas operações que mencionei, é que vêem por trás delas o apoio norte-americano e, habituadas a raciocinar segundo as categorias estereotipadas da época da guerra fria, supõem que nada pode haver de comunista nessas coisas. Quando compreenderão que, no novo mundo unipolar, os remanescentes comunistas se tornaram um dos principais instrumentos da política exterior norte-americana? Desaparecida a União Soviética, neutralizada a China pelo narcótico dos compromissos comerciais, os comunistas deixaram de ser uma ameaça para EUA, mas no mesmo instante se tornaram úteis para a sua estratégia, na precisa medida em que, desarmados para uma guerra entre potências, obrigados a ações mais dispersas e regionais, ainda têm organização e meios para constituir ameaça para aqueles Estados menores e mais fracos dentro dos quais atuam - aqueles mesmos Estados que a política globalista visa a enfraquecer ou destruir.  Tudo isso é claro, depois que a gente percebe. Mas quantos percebem?

 

 

 

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