RUMO AO REINO DA ARGENTINELA

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

Outubro de 2002

Em 2003, o Brasil estar� sob novo governo e o que se pode perceber nessa antev�spera da elei��o � uma diversidade de expectativas da parte do eleitorado. Afinal, n�o somos o Iraque onde Saddam Hussein pode ganhar com 100% dos votos.

Digamos, ent�o, que o candidato do PT venha a obter aproximadamente 60% dos votos, como previsto por institutos de pesquisa. Nessa porcentagem encontra-se a parte dos eleitores que n�o � partid�ria do PT, mas que acreditou nas promessas feitas por Lula da Silva. Este falou muito em mudan�a e, mesmo que essa "mudan�a" tenha sido apresentada de forma vaga, a id�ia de mudar sempre agrada ao cora��o humano na medida em que a insatisfa��o � uma constante nesse vale de l�grimas. A promessa de mudan�a, aliada ao trabalho eficiente da oposi��o petista que durante oito anos execrou o governo que se finda, ampliou a vontade de mudar e a parcela despolitizada do eleitorado espera, meio desconfiada e meio cr�dula, uma esp�cie de volta por cima sobre n�o sei o qu�, a ser magicamente obtida por um governante cujo partido gerou expectativas de teor praticamente messi�nico.

Entre os 60% dos eleitores de Lula est�o tamb�m os novos aliados; os simpatizantes do PT; os militantes; a c�pula; os movimentos paralelos como a CUT, do segmento sindical, o MST, da esfera revolucion�ria. Quanto aos membros do partido existem tamb�m os PTbulls, divididos em v�rias fac��es de esquerda radical S�o elas: a Democracia socialista, a Articula��o de Esquerda, a For�a Socialista, o Trabalho e outras de menor relev�ncia. Juntas, essas esp�cies de seitas da religi�o do Estado representam aproximadamente 30% do PT.

Os que se dizem simpatizantes, mas que defendem de unhas e dentes seu candidato Lula, e os 70% dos moderados, n�o t�m medo de ser felizes. Sua felicidade poder� incluir benef�cios pessoais, atrav�s, por exemplo, de mais cargos, vantagens e privil�gios na esfera do Estado, onde se concentra o PT chapa branca. Para estes, certamente, Lula cumprir� uma de suas promessa, pois haver� pleno emprego para seus seguidores, como � comum acontecer nas administra��es estaduais e municipais do partido. Isso deve imprimir nos vitoriosos uma agrad�vel sensa��o de mudan�a na qual o revanchismo, associado ao fim das frustra��es pessoais, ter� sua culmin�ncia no p�dio dourado do poder. Com o ego inflado eles proclamar�o ao mundo e ao Brasil: "N�s temos a for�a".

Os 30%, ou seja, os PTbulls que circulam pela imprensa e pela Internet, mordendo os calcanhares de quem ousa criticar seu l�der, aguardam para ser felizes com alguma inquietude, pois as alian�as, acertos e compromissos havidos durante a campanha, na sua �tica tirou a virgindade ideol�gica do PT. Assim, apesar de constitu�rem a minoria partid�ria, tentar�o resgatar suas teses junto ao governo que elegeram. S�o elas, entre outras, o n�o pagamento da d�vida externa, o rompimento com o FMI, o abandono das alian�as feitas durante a campanha, o fim da democracia representativa atrav�s do recrutamento de massas populares. Pode ser que em breve Lula aprenda o que ensinou Joaquim Nabuco: "A fatalidade das revolu��es � que sem os exaltados n�o � poss�vel faze-las e com eles � imposs�vel governar".

Resta a parcela dos 32 a 35% dos eleitores que n�o votar� no PT. Tudo indica que estes entendem de forma l�cida e racional a situa��o em que o Pa�s se encontra, e que vem piorando a cada dia. Eles sabem que tal coisa aconteceu por v�rios motivos, mas que n�o se pode negar que a emerg�ncia do candidato do PT com suas ambig�idades, seus pronunciamentos contradit�rios perante p�blicos diferentes, seu flagrante despreparo, muito tenha contribu�do para acentuar nossa deteriora��o econ�mica. Os 35% est�o certos de que mudan�as vir�o, mas para pior. Eles t�m medo, sim, sentem inseguran�a e sua sensa��o � a de que caminhamos rumo a escurid�o, em cujas sombras se ergue o reino da Argentinela, mistura de Argentina com Venezuela.

Mas n�o se pode sequer dizer que os que n�o votam em Lula sejam aqueles que o PT antes chamava de "empres�rios exploradores", de "ricos burgueses", de "banqueiros que procedem pior que os agiotas", de "membros vital�cios das oligarquias". A maioria destes agora est� perfilada diante de Lula da Silva, louca para ser mais feliz. O problema � que podem vir a ter que dar 50% dos seus lucros para imposto de renda. A� n�o adiantar� dizer: senta que o Lula � manso. Mas, naturalmente, no escuro reino da Argentinela, o PT ser� feliz durante muito e muito tempo.

Maria Lucia Victor Barbosa � professora.

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