Era uma vez uma nau que vagou errante, durante sete longos anos e mais um dia. Tendo acabado tudo que lhe pudesse servir de mantimento, a tripula��o, reunida, decidiu lan�ar a sorte para decidir, dentre eles, qual seria morto para servir de alimento para os demais. A infeliz sorte caiu sobre o Capit�o.

     O condenado, numa �ltima tentativa de evitar a morte, ordena ao gajeiro que suba ao mastro grande. Tinha esperan�a que ocorresse um milagre que lhe poupasse a vida. E, para surpresa e alegria de todos, l� de cima veio a voz forte do gajeiro, a gritar:
   - Avisto terra!...
   Feliz e aliviado por ter escapado de t�o triste sina, o Capit�o exclama:
   Oh, gajeiro, a ti, que me salvasse a vida, prometo dar, como prova da minha gratid�o, minhas tr�s filhas, uma linda casa dourada e muitas, muitas outras coisas!
   O gajeiro, no entanto, a tudo rejeita, replicando cinicamente:
   - Nada quero do que me ofereces, Capit�o... Sou o C�o, o Diabo, e somente me entregando tua alma chegar�s com vida � terra!
   O Capit�o, resoluto, respondeu:
   Afasta-te de mim, inimigo infernal. Se � assim, ent�o, minha alma entrego a Deus e meu corpo, ao mar!
   Dito isto, o Capit�o jogou-se ao mar, sendo salvo por um anjo, que o segurou, antes que se afogasse. O Capeta, ent�o, explode e desaparece, ao ver que n�o havia conseguido o que queria, e a nau prossegue em seu caminho ruma ao continente.

     Chegando em terra firme, todos v�o louvar e agradecer a Deus, a Nossa Senhora e ao Santos o fato de terem sido salvos. Cantando e dan�ando, contam suas fa�anhas e os perigos, amores e intrigas que permearam a viagem.

     O Fandango � um bailado dram�tico que representa, no Nordeste, a uni�o de v�rios elementos de nossa literatura oral, dos velhos romances, can��es e ora��es que nos vieram da Pen�nsula Ib�rica.

     De origem provavelmente espanhola, o Fandango chegou ao Brasil atrav�s dos portugueses. Aqui, varia de uma para outra regi�o, at� mesmo de nome: pode ser "marujada", "chegan�a de marujos", "nau"-catarineta", "barca" e por ai vai. Tamb�m variam, aqui e acol�, seus personagens, seu enredo, os passos de sua dan�a e os instrumentos musicais que lhes servem de acompanhamento. A tem�tica, contudo, � sempre mar�tima.

     Em Pernambuco sua representa��o faz parte das festividades natalinas. Inicialmente, um cortejo leva um barco aleg�rico para o tablado que servir� de palco para a apresenta��o. Ao fundo, instalam-se os m�sicos com seus instrumentos, geralmente de corda. Os personagens, que representam os membros da tripula��o e vestem-se conforme sua patente, s�o:

- Capit�o - autoridade maior da nau
- Comandante - oficial superior
- Gajeiro - representa o Diabo
- Cirugi�o-mor - m�dico da tripula��o
- Sab�ia - mocinha, filha do capit�o
- Vassoura - zelador (palha�o)
- Ermit�o - padre ou frade
- Marujos - outros marinheiros
- Rei Mouro - invasor pag�o
- Mouros - vassalos do Rei mouro

 

     O auto do Fandango, como se representa hoje, foi observado pela primeira vez entre n�s no ano de 1814, na Ilha de Itamarac� (PE). Enquanto dan�a profana - outra de suas m�ltiplas facetas, mais comum nas regi�es Sul e Sudeste, j� era moda no Brasil no final do s�culo XVIII. Inicialmente encontrada mais em ambientes aristocr�ticos, a dan�a foi, progressivamente, caindo no gosto do povo, que a adotou e difundiu. Atualmente, quase s� a encontramos entre camponeses e pescadores

     O Fandango deixa transparecer um car�ter �pico e religioso. Em algumas representa��es, dramatiza as conquistas mar�timas pelos portugueses. Noutras, a �nfase � dada � luta entre os tripulantes da nau crist� e o Rei Mouro, com seus Vassalos, piratas pag�os invasores. ao final, a inevit�vel vit�ria dos crist�os, a chegada da nau a um porto seguro e a comemora��o pelas fant�sticas conquistas.

     Podemos encontrar um fandango bastante interessante no bairro da bomba do Hemet�rio, no Recife - a Marujada do Saudoso Mestre Hon�rio

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