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Fonte: Revelando segredos pessoais Reinava a mais plena paz na capitania quando, em 21 de setembro de 1593, procedente da Bahia, desembarca no Arrecife, como era ent�o chamado o Recife, porto por excel�ncia de Pernambuco, o visitador do Santo Of�cio Heitor Furtado de Mendo�a e seus oficiais. O inquisidor demorou-se no Arrecife at� o dia 24, quando lhe foi mandado um bergantim (pequena embarca��o movida a remos para o transporte de passageiros) que o conduziu, pelo rio Beberibe, at� o Varadouro, na vila de Olinda.
L� o esperava uma grande comitiva, tendo � frente D. Filipe Moura, ent�o no governo da capitania, e o licenciado Diogo do Couto, ouvidor da vara eclesi�stica, com muitos padres, o ouvidor-geral do Brasil, Gaspar de Figueiredo Homem, e demais pessoas importantes, al�m das companhias e bandeiras dos regimentos militares. Primeira Visita��o - Ao desembarcar no Arrecife, como ele denomina no termo de abertura da Primeira Visita��o do Santo Of�cio �s partes do Brasil, o inquisidor p�de comprovar a grandeza da capitania, que, em 1584, fora objeto de carta do jesu�ta Fern�o Cardim, na qual contabilizava possuir Pernambuco, entre outras coisas, 60 engenhos com uma produ��o correspondente a 200 mil arrobas de a��car, sendo seu porto visitado anualmente por mais de 45 navios. A riqueza levava, de certa forma, ao relaxamento das virtudes. Vida privada - A presen�a de um representante da Inquisi��o de Lisboa veio revelar aspectos da vida privada dos habitantes de Pernambuco, Itamarac� e Para�ba, naquele final de s�culo XVI. N�o mais a descri��o da terra, como nas cr�nicas dos viajantes e cartas jesu�ticas, mas o dia-a-dia de cada um que, sob amea�as de penas espirituais, traziam para os autos ricas narrativas com respeito �s rela��es familiares, ao comportamento sexual, � exist�ncia de filhos leg�timos, legitimados e bastardos, � pr�tica de prostitui��o e de adult�rio, casos de bigamia, pecados sexuais "contra a natureza" como o homossexualismo, pr�ticas de feiti�aria. Fatos da vida - Em meios �s culpas e aos pecados, vinham depoimentos sobre fatos de vida tais como batizados, casamentos, festas de igreja, ensino das primeiras letras, tarefas dom�sticas, sistemas de vida no campo e na vila, h�bitos de trajar, sistemas de transporte, m�todos de alimenta��o. Identificavam, tamb�m, a proced�ncia do elemento escravo, se negro ou �ndio, os primeiros profissionais liberais, tais como advogados, m�dicos e botic�rios (farmac�uticos), as manifesta��es de m�sica e teatro, e at� mesmo hist�rias de feitos na luta contra os �ndios e contra os cors�rios James Lancaster e Jo�o Verner, que aportaram no Arrecife, em plena perman�ncia do visitador, em 24 de mar�o de 1595. O fato � que a presen�a do visitador em Pernambuco foi a primeira investida da Congrega��o do Santo Of�cio na fiscaliza��o do comportamento dos seus habitantes nos anos da coloniza��o. A prop�sito de investigar pr�ticas judaicas entre crist�os-novos radicados na capitania, alguns deles foragidos da Inquisi��o de Lisboa, a devassa trouxe � tona costumes outros, segredos guardados a sete chaves pela sociedade de ent�o. Quanto �s pr�ticas judaizantes, as den�ncias d�o conta da presen�a do casal Diogo Fernandes e Branca Dias, respons�veis pela instala��o de uma sinagoga em terras do engenho Camaragibe. Embora o casal n�o mais pertencesse ao mundo dos vivos, as acusa��es implicaram seus descendentes. Rigores da lei - Dos filhos de Diogo com Branca
havia vivos, em 1595, Jorge Dias da Paz (morador na Para�ba), Andresa Jorge, Beatriz Fernandes,
que tinha os apelidos de Alcorcovada e Velha, al�m de uma filha adulterina de Diogo com Desses, Beatriz Fernandes (processo n 4580), Andresa Jorge (processo n 6321), com uma filha e tr�s sobrinhas: Beatriz de Souza, Filipa da Paz, Ana da Costa Arruda e Catarina Favela (processos n 4273, 11.116 e 2304), al�m de Brijol�ndia Fernandes (processo n 9417), s�o levadas presas a Lisboa e l� respondem aos processos nos c�rceres da Inquisi��o, cujos autos ainda se conservam no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, n�o chegando, contudo, nenhuma delas a ser condenada � morte na fogueira. As atividades da Inquisi��o, iniciadas em Lisboa em 1540, prolongaram-se at� 1821, quando foram abolidas por decreto, datado de 31 de mar�o daquele ano. O terr�vel tribunal do Santo Of�cio durante o tempo de sua exist�ncia celebrou nos quatro distritos de Lisboa, Evora, Coimbra e Goa, 760 autos-de-f�, em que figuraram 31.349 r�us, das quais 1.075 foram relaxados em carne (mortos nas fogueiras) e 638 queimados em est�tua por se acharem ausentes em pa�ses estrangeiros onde n�o podia chegar a autoridade da Inquisi��o. Entre as v�timas da Inquisi��o, figuram 339 infelizes remetidos do Brasil, alguns dos quais pereceram nas chamas.
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