Entrevista com:

 

 Éder Baruch, da Sherit Hapleitá - Associação de Sobreviventes do Nazismo

 

            O Nazismo ainda vive e está bem próximo de nós. Quem confirma isto é Éder Baruch, da Sherit Hapleitá - Associação de Sobreviventes do Nazismo - Natal e Presidente da Fundação Ben Abraham, numa entrevista ao site 
www.varsovia.jor.br. E infelizmente, o Brasil não está excluído da área de atuação de grupos extremistas.
            A ação de sub-grupos racistas como Carecas, Whitepower etc, se dá por meios como fanzines, jornais e principalmente a internet que “não tem controle”, segundo Éder. “ Eu até concordo com a livre expressão mas ela tem que vir acompanhada de responsabilidade e isso falta no ser humano em geral”. Baruch está certo: existem hoje diversas páginas ilícitas no espaço virtual, que variam de pedofilia a atos terroristas fundamentados em idéias racistas.
   
         No Brasil, um grande foco de concentração de sentimentos anti-semitas  foi percebido pelo grupo de Éder no estado do Rio Grande do Norte. Na sua maioria, as pessoas envolvidas eram, estudantes universitários. Contraditoriamente,  Baruch crê que “temos sempre que bater na tecla da educação. As escolas no Brasil, quando se fala de Segunda Guerra Mundial, se fala de batalhas, não se menciona o Holocausto”. Em sua opinião, o mesmo deve ser feito na Europa. Confira agora a entrevista na íntegra:

VARSÓVIA: Existe anti-semitismo no Brasil? Em caso afirmativo, quais suas formas de atuação?

BARUCH: Existem basicamente dois tipos de anti-semitismo no mundo. Existe aquilo que chamamos de anti-semitismo oficial, que praticamente desapareceu e existe o anti-semitismo regional, que não existe no Brasil, mas sim grupos dispersos, como por exemplo aqui em São Paulo, por exemplo, mas não de uma maneira tão organizada como existe na Europa, esta é a grande diferença.

VARSÓVIA: E quem seriam esses grupos? São jovens idealistas como os da Europa ou é algo de gente mais intelectual?

BARUCH: Não, é a mesma coisa. Eles se dividem em grupos e sub-grupos, como o Whitepower, Skinheads, Carecas...São os mais conhecidos e atuantes, eles tem suas divulgações: esses fanzines, essas revistinhas e jornais que eles fazem de qualquer jeito; mas hoje com a internet eles tem um subsídio maior. E quem são eles? São jovens desempregados, de classe pobre, muitas vezes não querem trabalhar, se dedicam somente à fisicultura e querem extravasar esta violência que eles tem dentro deles e passam a discriminar grupos como por exemplo negros, homossexuais, drogados, nordestinos, coreanos, judeus e eles vão até criando outros grupos . Porque a grande diferença dos grupos neonazistas no Brasil é que eles tem em seu seio pessoas não-brancas. Já os europeus são só brancos, ou seja aqui eles criaram uma adaptação.

VARSÓVIA: E qual a sua opinião a respeito do Amaral Schmidt, aquele nazista da USP que apareceu na mídia falando muito e quase saiu linxado de lá?

BARUCH: É bom ele ter aparecido na mídia, para poder ser rebatido, porque se você não se opõe publicamente você mostra que não tem argumento e que tem medo. Mas se você é contra publicamente, por outro lado você dá espaço de manifestação para ele, ou seja é uma faca de dois gumes. Por exemplo nós tivemos no Rio Grande do Norte, um grupo de alunos de uma universidade que formaram um grupo neonazista e ao mesmo tempo revisionista, do movimento que queria rever a história, negando o holocausto. A princípio nos não os combatemos quando eles foram aos jornais e lançaram cartas nas colunas dos jornais, mas depois de um tempo um não-judeu, um cristão nos procurou, mal com aquilo, revoltado e pediu nossa ajuda e nós dissemos, agora vamos reagir. E no fim acabamos com este grupo, acabamos com suas divulgações e os livros que vendiam em sebos e livrarias. Criamos um programa de educação permanente e este programa, nós temos expandido. Só a educação é capaz de combater o que fazem estes grupos. Educação principalmente dos alunos de 7ª série em diante até a universidade, que é onde eles estão mais volúveis e prontos a aceitar uma bandeira para empunhar. E este é o trabalho da Sherit Hapleitá do Brasil e da Fundação Ben Abraham.

VARSÓVIA: Uma coisa é combater livros e panfletos, vídeos. Coisas que podem ser tiradas de circulação. E como combater então a Internet em que não há censura e que se você tira uma página do ar hoje, ela aparece amanhã em outro endereço?

BARUCH: Isto tem sido a nossa maior dificuldade. O Congresso Judaico Mundial tem combatido muito isso. Mas infelizmente, apesar de todas as suas vantagens, ela tem um lado muito mal. E vou te dar uma opinião particular: eu creio que será um dos maiores problemas do mundo. Porque ela não tem controle, o governo americano tentou censurá-la e não conseguiu. Eu até concordo com a livre expressão que foi o argumento usado para derrubar o Clinton, mas ela tem que vir acompanhada de responsabilidade, e isso falta ao ser humano em geral. E como no Brasil existe controle sobre livros, textos, não uma censura, mas um controle, por exemplo em cima de uma editora do Rio Grande do Sul...

VARSÓVIA: A Editora Revisão...

BARUCH: Essa mesma, cujos livros eram de caráter racistas, anti-semitas mesmo, foram proibidos. Mas o diretor da Editora, o Castan disse: eu, mas eu tenho o direito de falar o que eu quiser? Tem, mas acompanhado de responsabilidade. Eu posso escrever um livro combatendo a cocaína, mas eu não posso escrever um livro ensinando como cheirar cocaína ou montar um cachimbo de crack. Então se há uma livre expressão, eu poderia. Resumindo: Existe uma livre expressão, mas não do jeito que alguns querem. Mas voltando a internet, ela tem páginas de anti-semitismo e racismo muito violentos. Ensinando atos terroristas nos EUA. Pornografia infantil.

VARSÓVIA: O Castan é teimosoT hem? Foi proibido de vender livros, tentou passar vídeos, não conseguiu. Agora aproveitando-se da liberdade da internet ele publicou todos os seus textos em português em um site lá...

BARUCH: Ele usa alguns boletins para divulgação, assinados por um testa de ferro. Um jornalista de origem Chilena se não me engano, mas reside no Brasil há muitos anos. Mas hoje, a Revisão foi desmascarada. Ben Abraham, por exemplo, coordenador geral da Sherit Hapleitá do Brasil ganhou processo contra ele. De difamação, quando ele dizia que Ben Abraham era um mentiroso e que não era um sobrevivente do holocausto, já que esse nunca havia existido. A justiça provou que tinha acontecido. Ele então partiu para o anti-semitismo exacerbado no Sul e também foi condenado. Ele insiste, ele está desesperado com a situação, porque as causas contra ele tem sido ganhas.

VARSÓVIA: E o que leva a insistir tanto?

BARUCH: Isso é que engraçado. Porque são pessoas, como os universitários do Rio Grande do Norte, de nível, não só estudadas, mas inteligentes. Esses rapazes recebiam divulgações dele e nós tivemos uma conversa e nela deu para sentir o anti-semitismo muito forte deles, me afastei, mas continuei acompanhando sempre. E aconteceu um belo dia, de um deles, o considerado líder, ter ido ao Sul conhecer Ellwagner (Castan). Quando o rapaz voltou, ele decidiu que não queria mais conversa com eles. Fiquei curioso porque ele tinha tomado esta decisão e através de uma pessoa que o conhecia soube que ele tomou esta decisão quando descobriu que revisionismo não era um movimento intelectual, ou de cunho cultural, mas o braço mais disfarçado do nazismo, e cujo objetivo maior era repetir tudo o que já havia acontecido, este rapaz, pobre rapaz estudioso, resolveu se afastar totalmente disto. E hoje vive conturbado, já que foi algo a que ele se apegou muito. Por isos que temos sempre de bater na tecla da educação, esta é a fundamental. As escolas no Brasil, quando se fala de segunda guerra mundial, se fala de batalhas não se menciona o Holocausto.
Eu sou chamado de 5 a 6 vezes por ano para ir em escolas explicar aos alunos a questão dos direitos humanos na segunda guerra, porque isto não é explicado no colegial. Nós temos em nossa organização um projeto educacional direcionado para os não-judeus. Nós não queremos conversa com os judeus, já que estes já tem noção do assunto, é voltado para os não-judeus mesmo. E sempre todos, em todas as palestras me perguntam: Isso não pode acontecer de novo? E eu sempre respondo: Pode, se vocês deixarem.
O Holocausto aconteceu na nação de maior cultura do mundo. E hoje nós temos os movimentos neonazistas querendo crescer novamente na Alemanha, bem como em toda a Europa. Na França temos o Le Penn. Mas países como a Alemanha e a França, combatem isso. Le Penn foi condenado agora pouco na Europa por um tribunal por ter ter negado o fato do Holocausto, o que é proibido. Existem leis na Alemanha que combatem o anti-semitismo, o racismo, mas mesmo assim você vê um crescimento espantoso do neonazismo nestes países.

VARSÓVIA: Saiu uma reportagem no "Estado de S. Paulo" falando que na parte oriental da Alemanha, já existem 100 mil ativistas do gênero, fora os simpatizantes...

BARUCH: O que aconteceu é que com a queda do muro de Berlim não houve uma reeducação. A Alemanha de hoje não fez o que foi feito com a Alemanha pós-segunda guerra: uma desnazificação. Com a Alemanha Oriental, simplesmente se derrubou o muro e disseram: Venham! Eles com uma mentalidade atrasada e totalitária, tão violenta quanto o nazismo e agora eles vão para a liberdade e encontram o desemprego. E o que eles passaram a fazer? A culpar e surrar os turcos, muçulmanos, etc. eles violentam suas mulheres, culpam estes povos, só que eles esquecem que foi feita uma campanha a favor destes povos logo ao final da guerra e que foram eles que vieram de longe atrás de promessas de emprego e reconstruíram a Alemanha. O governo é contra isso, mas infelizmente o povo é a favor. Eles tem uma cultura neste sentido.

Para entender mais sobre o assunto, confira outras entrevistas e artigos na página  www.varsovia.jor.br

Entrevista 2: FAQ retirada de um dos site da ''Creativity"


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