VENDA DE OLHOS

por Graciela Bessa

 

Em seus últimos seminários, Lacan define a psicanálise dizendo que "talvez seja uma escroqueria" , mas nos adverte que é uma escroqueria do significante. Isto quer dizer que a escroqueria reside no fato de um S1 prometer um S2 e com isso criar um efeito de sentido. É mais radical ainda ao dizer que S2 não é outro significante mas o próprio S1 na sua equivocidade, no seu mal-entendido. O normal, então, é o automatismo mental e é de se surpreender diante do fato de que existem sujeitos que fazem suplência a isso. Com esta formulação não seria abusivo pensar que o simbólico é quem cria essa escroqueria na medida em que um significante ao se articular a outro significante cria a ilusão de que houve efeito de sentido. A neurose é padecer dessa escroqueria uma vez que se tenta apreender os significantes d'alíngua numa construção de sentido.

Há uma nota de rodapé no texto em que Freud analisa a fobia de Hans, onde vai dizer que as crianças tratam as palavras mais concretamente que os adultos e lhes são muito significativas as semelhanças sonoras das palavras. Jairo Gerbase foi quem primeiro nos chamou atenção para essa nota, porque é nela que Freud, a partir da homofonia significante entre Wegen (por causa de) e Wägen (veículos) vai explicar a fobia de Hans.

São as palavras ouvidas do discurso familiar e por serem os ouvidos os únicos orifícios do corpo que não se fecham, que essas palavras são impostas e assim o mental é constituído. É o que fica atrás do que se ouve, são as enunciações dos enunciados, a homofonia significante, o duplo sentido, são esses detritos de linguagem que se depositam e que constitui o inconsciente. O inconsciente, portanto, é constituído por esses efeitos de significantes. É esse o conceito de alíngua.

Vou tomar como exemplo o engodo de um sujeito que, por uma contingência, ao se assujeitar ao enunciado do Outro selou um destino ao fixar um modo de gozar.

O embaraço em que se encontra com a falta de significante para nomear o gozo feminino se manifesta na invídia, primeiramente, direcionada para seu irmão. Freud, ao tratar da sexualidade feminina, introduz na menina esse sentimento que ele denominou de pênisneid, inveja do pênis, toda mulher padeceria dessa amargura, que pode levar uma menina a nutrir por sua mãe um rancor por não lhe ter concedido esse objeto. No Seminário XI, Lacan traz o exemplo de Santo Agostinho que é o da "criancinha olhando seu irmão pendurado ao seio de sua mãe, olhando-o com um olhar amargo, que o decompõe e faz nele mesmo o efeito de veneno" . Nesta cena não está em jogo o ciúme, para essa criança que vê, não é o seio que ela almeja, mas o que a faz empalidecer é esta imagem de completude, é a satisfação aí presente, é por supor que se tem a posse do objeto do qual ela está separada. Não podemos dizer que o que o sujeito inveja é a condição de menino de seu irmão, não é seu orgão, esse olhar amargo que vê este menino de ouro, tem aí uma função mortal, trata-se de um olho cheio de voracidade. Essa invídia se articula com a demanda de amor e Lacan nos diz que a demanda de amor feminina é infinita, nada a satisfaz.

É a partir de um enunciado em que está em questão o olhar que o sujeito extrai como enunciação: foi por sua causa e dessa forma é remetido ao significante do mal-entendido de seu nascimento: por causa da largatixa. Significante equívoco que lhe impõe a se identificar com o objeto-dejeto do Outro, larga tixa, larga lixo.

O enunciado do Outro confere ao gozo escópico um sentido sexual, dar-se a ver, e é daí que extrai a resposta ao seu ser de mulher. Na adolescência, a significação que vai recobrir o gozo escópico é a de que aquela que se dá a ver para receber elogios é a prostituta, a que causa desejo no Outro dando-se a ver. É assim que delimita seu campo de realidade com uma fantasia de sedução, o apetite do olho que olha estava nesta busca constante de capturar por um instante um outro olho que olha e se houvesse interferência da voz, pelo elogio, era tomado pelo sujeito como insulto.
A transformação do elogio em insulto remete o sujeito a um real que é incontestável. Esse real diz respeito a essa largatixa que é jogada com repugnância pelo Outro. Didier-Weill toma como referência os primeiros versículos do Gênesis para dizer que todo dizer humano vem acompanhado pelo mal-dizer. Esse mal-dizer é decorrente deste fato estrutural que é a foraclusão generalizada, ou seja, não há esse significante para dizer do gozo do Outro sexo, para bem-dizer. No livro do Gênesis encontramos isso escrito de uma forma eloquente que é: "o mundo só aparece através deste companheiro que é o imundo, não há terra sem caos, não há luz sem trevas" . O insulto se diferencia da injúria porque nomeia, remete o sujeito a um julgamento a respeito do que realmente é, desde sempre, um dejeto. É uma afirmação que nomeia essa parte forcluída do sujeito, que é sua parte maldita. Essa parte maldita se manifesta pelo mau-olhado, esse olhar cheio de veneno. O elogia denuncia um efeito de fascinação que, segundo Lacan, é a função do mau-olhado cujo efeito é matar a vida e que remete esse sujeito ao discurso familiar "tirem essa criança daqui, não posso achá-la bonita", uma mulher cujo olho é dotado de poderes, de fazer secar a pimenteira, de provocar doença, má sorte.

O conceito de sintoma, em Freud, sofre uma modificação a partir de 1926. É neste texto Inibição, sintoma e angústia que o sintoma será definido como uma satisfação substitutiva da pulsão. A consequência disso é que ele desloca o sentido do sintoma do simbólico ao real, ou seja, há no sintoma um ponto irredutível, o sintoma guarda um sentido no real impossível de ser alcançado. Não seria, portanto, uma metáfora no sentido de uma formação de compromisso em que estaria em jogo a substituição de um significante recalcado. A consequência que extraímos dessa elaboração é que não se acaba com o sintoma, ele é "um modo de gozar do inconsciente tal como o inconsciente o determina" . O que possibilita formulá-lo assim é o conceito d'alíngua, isto é, a dimensão do significante como causa de gozo. O sintoma, portanto, é a incidência do significante no corpo causando gozo.

A incidência do significante no corpo deste sujeito afeta o corpo, de tal forma, que as crises de espi (rr)ar só cessam se dormir (ficar de olhos fechados, olhos que não vêm, venda de olhos). É a satisfação da pulsão escópica determinada pelo significante espi (rr) ar.

Da la (r) gatixa ao espi (rr) ar se produz a seguinte significação:

 

 

Notas:

1- LACAN, J., Seminário XXIV L'nsu-Qui-sait de L'une-bévue S'aile à Mourre. Inédito
2-LACAN, J., Seminário XI Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise - Pág.112 Zahar Editores, Rio de Janeiro/RJ - 1973
3-DIDIER-WEILL, A., Os Três Tempos da Lei, pg., 87, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro - RJ, 1997
4-LACAN, J., Seminário 22, RSI, inédito

 


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