porque não é do mês,
nem da semana, nem sei bem quando a próxima sairá.
Só sei que será quando der sede.
Sede de se embriagar de vinho, de virtude
ou de poesia, como dizia Baudelaire.
Então, em silêncio, não
digam nada, apenas ergam seus "cale-ses" e brindem comigo
ouvindo os sons que se formarão em nossas mentes. Que como
o vinho, ganham gosto, aroma, cor e corpo!
À nossa!
À la Musique
Musique: souffle des statues. Ou bien:
silence des images. Parole où la parole
cesse. Temps perpendiculaire
au naufrage des coeurs.
Sentiments, mais pour qui échangés?
En quoi? En paysage pour l'ouie.
Musique, ô étrangère. Ô espace du coeur
soudain trop grand pour nous. Intimité
qui nous surpasse pour sortir,
adieu sacré:
puisque l'intime nous entoure
comme lointain très exercé, comme versant
autre de l'air:
pur,
énorme,
inhabitavle désormais.
Rilke
.........
À Música
Música: sopro das estátuas. Ou então:
silêncio das imagens. Palavra onde a palavra
cessa. Tempo perpendicular
ao naufrágio dos corações.
Sentimentos, mas por quem compartilhados?
Em que? Em paisagem para o ouvido.
Música, ô estrangeira. Ô espaço do coração
de repente grande demais para nós. Intimidade
que nos ultrapassa para sair,
adeus sagrado:
pois o íntimo nos envolve,
como ao longe tão exercido, como que derrubando
outra coisa no ar:
puro,
enorme,
inhabitável dorenavante.
(ver nota de T.)
BIG-BANG
Transcrevo versos,
verbos inversos,
universos plenos do poder
de poder ser parte integrante do cosmo
Consumação do êxtase
De todas as constelações
de estrelas
Que continuam a se afastar a partir
do Big-Bang
E então, em qual delas você
está?
Há quantos anos luz
entre o céu e o inferno?
Por favor, mande um e-mail sonoro,
intergaláctico, intermagnético,
num ínterim qualquer
do seu tempo tão escasso.
Ou, se possível venha, logo
para juntarmos nossos átomos,
Nossas moléculas
Nossa matéria num único
corpo celeste,
intergaláctico, intermagnético.
Big-Bang! Há quantos anos luz
entre nós dois?
Guta Campos
L'Albatros
Souvent, pour s'amuser, les homes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnos de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.
A peine les ont-ils déposés sur les planches,
que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grand ailes blanches
Comme des avirons traîner à coté d'eux.
Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brule gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!
Le poète est semblable au prince de nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empèchent de marcher.
Charles Beaudelaire
......
O Albatroz
Frequentemente, para se divertir, os homens da equipagem
pegam albatrozes, enormes pássaros dos mares,
Que seguem, indolentes companheiros de viagem,
O navio que desliza nos abismos amargos.
Apenas colocados no chão,
esses reis do azul, desajeitados e vergonhosos,
Deixam doridamente suas grandes asas brancas
Como remos arrastar-se ao seu lado.
Esse viajante alado, como é feio e torto!
Antes tão bonito, como ficou feio e engraçado!
Um o irrita com um cachimbo no bico,
outro o imita, mancando, o infermo que voava!
O poeta é como o príncipe das núvens
Que assombra a tempestade et se ri do arqueiro;
Exilado no chão no meio das vaias,
Suas asas de gigante o impedem de voar.
Milieu de dispersion:
échapperons-nous à l'analogie?
1
les ressamblances le genaient
il parlait de cette imposibilité de mentir
2
trajet -
l'idée de lieu
ou encore le regard
il s'absente
il se regarde passer
rien
un besoin de savoir
Peut-être
l'envers de la fable.
Claude Royet Journoud, no livro
Renversement
......
Meio de dispersão:
escaparemos à analogia?
1
as semelhanças o incomodavam
ele falava desta impossibilidade de mentir
2
trajeto -
a idéia de lugar
ou ainda o olhar
ele se ausenta
ele se olha passar
nada
uma necessidade de saber
Talvez
o inverso da fábula.
Nota da T.: as traduções
de Rilke, Beaudelaire e Journoud pretenderam ficar bem "ao
pé da letra", priorizando a utilização
das palavras mais próximas do português, tanto em
significado quanto no registro (usual, elevado etc.). Assim, tanto
a métrica como as rimas ou sons foram deliberadamente negligenciados
na tentativa de se conservar ao máximo as imagens criadas
pelos poetas. Desta forma, a utilização das mesmas
visa apenas à orientação para a leitura na
lingua em que foram escritas.
Em breve, teremos uma sessão chamada
"Versões" onde publicaremos diferentes traduções
de um mesmo poema.
Se quiser sugerir algum, fique à vontade.
Sua colaboração será bem-vinda! (E-Mail )