"Freud: Cultura e Conflito"Texto publicado no jornal Goiano O Popular, Caderno 2, out/2000. Por Noemi de Araujo
Em nossos dias, tornou-se lugar comum recorrer ao pensamento de Freud para compreender o desejo, o mundo da imaginação e o dos sonhos. Suas descobertas sobre as manifestações do inconsciente foram de tal modo incorporadas ao cotidiano que, hoje, quando alguém justifica seu ato dizendo que foi "sem querer", quando, involuntariamente, diz uma frase digna de sonoras gargalhadas ou mesmo quando, em bate-papos informais, conversa livremente sem o controle imposto pelo mundo do trabalho, invoca-se freqüentemente o nome do pensador vienense.
Além disso, graças à psicanálise, é possível reconhecer também que certas ocasiões especiais, como a noite natalina, são fecundas de toda sorte de conflitos psicológicos, que "fariam Freud tremer em sua tumba". Nessa noite, quem, ao tirar como amigo secreto aquela tia ou tio, prima ou primo, que sempre provocou comentários negativos em família, não entrou em crise? Mas, se o amigo secreto for aquele mais adorado, isso também pode não aplacar a angústia natalina. Pois, existirá mesmo algum presente que corresponda exatamente àquilo com que gostaríamos de presenteá-lo? E mesmo que isso seja possível, corresponde o presente ideal exatamente àquilo que o querido amigo gostaria de ganhar? A falta sempre irrompe nesses casos... para que tudo fique completo, algum detalhe vai sempre escapar. Diante disso, existe mesmo alguém que tudo pode explicar?
"Freud: Cultura e Conflito", exposição itinerante organizada originalmente pela Biblioteca do Congresso de Washington (inaugurada nessa cidade, em 1998), não pretende dar respostas a tudo. As inúmeras controvérsias que tem causado dão a dimensão da empatia (e antipatia) que gerou. Enquanto, nos Estados Unidos, o fortíssimo movimento de difamação da psicanálise acarretou uma série de protestos sob o argumento de que a exposição, ao não incorporar contestações ao pensamento freudiano e técnicas terapêuticas alternativas, seria excessivamente parcial, na França foi considerada desagradavelmente norte-americana. Sônia Azambuja, executiva da mostra no Brasil, visitou a de Nova York, e julga sua organização mórbida e fria, como se tivessem enterrando Freud.
Na versão brasileira, a exposição foi organizada em sala ampla do MASP, com movimentos circulares que levam todos a se sentirem pelo menos uma vez em um divã . Os frequentadores do Restaurante do Museu necessariamente passarao por esta experiencia.Recentemente inaugurada, o encerramento está previsto para o dia 26 próximo: Não é só no futebol que a Argentina perde para o Brasil! Na psicanálise também, brinca Nosek, o coordenador geral da exposição, lembrando que, de toda a América Latina, somente São Paulo e Rio acolherão esta exposição.
O evento reúne objetos pessoais de Freud, sua coleção de antigüidades, manuscritos, fotos, filmes e gravações em que se pode escutar sua voz. Mas o principal "fetiche" é, sem duvida, o tapete - jogado sobre um estrado do que se considera a réplica de seu divä, com algumas almofadas espalhadas - sobre o qual Freud teria morrido. O divã original não tem, sob circunstância alguma, permissão para sair do Museu de Freud, em Londres. A famosa cadeira do analista é a autêntica. A réplica de sua escrivaninha, onde se apóiam seus óculos e alguns objetos pessoais, evocam seus momentos de elaborações teóricas.
Em outra atração, há uma significativa correspondência de Freud com brasileiros, trocadas desde 1919. A mais importante é a de 21/03/1938, citada em sua biografia, mas cujo paradeiro era desconhecido. Dirigida ao mineiro Karl Weissmen (misto de psicólogo e hipnotizador), foi escrita em um dos momentos mais difíceis da vida de Freud, um dia após a passagem da policia nazista por sua casa. Um dia antes, portanto, da prisão de sua filha Ana e de sua decisão de transferir-se para Londres.
Paralelamente à exposição central, uma segunda mostra, "Brasil, Psicanálise e Modernismo", reúne documentos e objetos pessoais importantes, que atestam a incorporação da teoria freudiana pela obra de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Lasar Segall, Cícero Dias, Flávio de Carvalho, e, na psiquiatria, por Durval Marcondes e Franco da Rocha. Quanto a esta última área, a exposição explora bastante o caso Febrônio Índio do Brasil, que se tornou um clássico por ter levado a psiquiatria brasileira, em 1926, a recorrer também à psicanálise, para compreender a vida mental do indivíduo. Marcou também as ligações entre a psicanálise e os tribunais: seria Febrônio um criminoso ou um louco, um caso de polícia ou de complexo de édipo? As áreas de educação e música não foram contempladas. Na literatura, a grande surpresa é o conjunto do trabalho de Mário de Andrade O seqüestro de dona Ausente.. Inédito!.
Noemi de Araújo é formada em pedagogia pela UFG, mestre em educação pela PUC/SP e pela Sorbonne, e psicanalista formada pelo Instituto de Pesquisa e Psicanálise de São Paulo (IPP).
EntrevistaNesta entrevista a "O Popular", a curadora da exposição, Maria Ângela Gomes Moretzsohn, discute os detalhes do evento e trata das relações entre psicanálise e modernismo brasileiro. Psicanalista "das 7:00h às 19:00h", membro da Associação Brasileira de Psicanálise, ligada ao IPA (associação inglesa fundada por Freud), Moretzsohn é a coordenadora responsável pelo projeto de pesquisa, vinculado ao IEB (Instituto de Estudos Brasileiros da USP), e pelo grupo de pesquisadores multidisciplinar, que há dois anos vem estudando a relação entre a psicanálise e a obra dos modernistas.
Noemi: Como você apresentaria esta exposição para as pessoas que não fizeram análise ou jamais leram sobre o assunto?
Maria Ângela - Esta é uma exposição muito rica. Ao visitá-la, sugiro que as pessoas comecem pelo módulo da exposição americana. Há aí uma apresentação do desenvolvimento da teoria do Freud, relacionada com sua prática, o que está exposto com muita simplicidade. Do ponto de vista didático, qualquer pessoa pode ter uma base do que a teoria freudiana apresenta de novo para o mundo contemporâneo. Ao longo deste último século, muitas pesquisas foram feitas. São somente cem. Qualquer corrente psicanalítica que foi aparecendo ao longo deste século, partiu desse tronco. Em seguida, há os dezoito módulos que mostram a estreita relação entre os modernistas e a teoria freudiana.
Noemi: Quais os textos de Freud que um público leigo poderia ler com facilidade?
A psicanálise é uma teoria complexa. Veio se modificando no decorrer da suas descobertas. Possui textos que não tratam diretamente de questões teóricas. O texto sobre o Leonardo da Vinci é um lindo, sobre o Dostoièvsky também. Levando-se em conta que muitos traços da cultura ocidental mudaram, O "Mal estar na Cultura" e "Totem e Tabu" podem ser lidos como textos literários. Isso sem falar em "A Interpretação dos Sonhos", que é um belíssimo texto! Na exposição, temos o primeiro texto traduzido no Brasil. Esse documento é precioso. Deixa claro que Freud ainda estava desenvolvendo sua teoria ao mesmo tempo que estava sendo traduzido em nossa língua.
Noemi: Quem foi o primeiro psicanalista brasileiro?
M.A: Foi o Durval Marcondes. Há um módulo dedicado a ele. Durval Marcondes (1899 -1991) assinava o jornal Internacional de psicanálise, correspondia-se com Freud e fundou a Sociedade Brasileira de Psicanálise, cuja ata de fundação consta o nome de Franco da Rocha e Osório César, dois modernistas, entre outros intelectuais. Claro que houve muitos leitores e estudiosos da psicanálise, mas o Durval foi o primeiro a praticar a clínica psicanalítica no Brasil. Entre os primeiros psicanalistas, descobrimos uma curiosidade, havia, entre eles, muito médicos, vindo de famílias humildes do interior do país. Eram muito inteligentes.
Noemi: Como você conta a história do advento da psicanálise?
M.A. Freud começou a trabalhar com mulheres ricas, que eram consideradas loucas e viviam marginalizadas. Ninguém se interessava mais por seus problemas. Imagine só, no século XIX, uma mulher casada e sem filhos, no consultório com um homem que lhe permitia falar de suas questões sexuais! Na época, isso era incompreensível e revolucionário. Que homem era aquele que se interessava pela miséria humana? O que Freud fez? Disse a uma delas: "Fala-me de você?" A partir de então, começou sua prática psicanalítica, que o levou a interessar, de uma maneira mais eficaz, pela vida dessas pessoas.
Noemi: Percebi que, nesta exposição, durante os simpósios, a senhora fez inúmeras intervenções que ressaltaram a importância da relação da obra de Oswald de Andrade com a psicanálise. A senhora acredita que as discussões, desta exposição, privilegiaram igualmente a obra de Mário e a de Oswald de Andrade?
M.A: Mário foi o primeiro leitor sério e atencioso de Freud. Graças a seu modo obsessivo de trabalhar, seu material pode ser mais facilmente localizado. Ele deixou tudo organizadinho, sublinhado e catalogado. Suas cartas a Manuel Bandeira, Carlos Drumond e Roberto Duarte evidenciam claramente que ele era um cuidadoso leitor de Freud . Por exemplo, na carta de 17/11/39, dizia que amava sua mãe, mas que não sofria de complexo de édipo. E o Oswald? Era desorganizado e não tinha uma biblioteca rica como a do Mário. Mas o Oswald, em sua produção, recorreu ao pensamento freudiano. Foi o que melhor "comeu, digeriu" e usou as idéias freudianas Isso pode ser claramente constatado em seu "Manifesto Antropofágico", que, nesta exposição, encontra-se ao lado de suas outras produções, como ele mesmo dizia Viva Freud e Padre Cicero!! Em suas correspondências, a presença de Freud, além da ligação dos modernistas entre eles mesmos e com a psiquiatria, é evidente.
Noemi: O que se destaca mais nas correspondências de Freud, entre 1919 e 1938, com os brasileiros?
M.A: Descobrimos que elas são significativas. Nesta exposição, elas são em número de mais ou menos 18. A mais importante é, sem duvida, a que Freud escreveu no dia mais difícil de sua vida. É conhecida sua resistência em querer morrer na Viena ocupada pelos nazistas. No dia 15/03/1938, a editora Freud foi revistada pelos nazistas. No dia 17 do mesmo mês e ano, recebeu a visita do analista inglês, Ernest Jones e, no dia seguinte, a princesa Marie Bonaparte, que pensavam em retirá-lo da Áustria. No dia 21, respondeu a carta de Karl Weissmann, residente em Belo Horizonte. No dia 22/03, presa Ana Freud, ele decide partir para Londres. Logo, esta carta tem um valor histórico pelas circunstâncias em que foi escrita.
Noemi: O crítico de cinema Carlos Augusto Calil pretende lançar, durante a exposição, o livro de Febrônio. Você acredita que esse caso seria uma espécie de ponto central da exposição?
M. A: O ponto central é mesmo o Mário de Andrade. O caso Febrônio é importante por estabelecer conexão entre a psicanálise a medicina, a psiquiatria e a justiça. Febrônio Índio do Brasil, um de seus nomes, era um mineiro que foi para o Rio de Janeiro na adolescência. Aí, tornou-se famoso pelos crimes que cometeu: estelionato, charlatanismo, assassinato de adolescentes, roubos, etc.
A publicação de seu livro, "As Revelações do Príncipe do Fogo" (1926), deixou claro que ele se tomava por agente revelador da verdade. Julgava-se Abraão. Condenado à prisão perpétua, suas publicações foram queimadas e seu nome retirado dos documentos judiciários. A grande surpresa revelada por esta exposição foi a descoberta do único exemplar de seu livro, na biblioteca de Mário de Andrade. Calil o editou em fac-símile, com as marcas da leitura do Mário e junto com os documentos que restaram do caso.
No Brasil, esse caso foi importante por ter inaugurado a incursão do judiciário no pensamento do Freud. Naquela época, a polêmica girou em torno de descobrir se Febrônio era um criminoso ou se sofria de um certo "complexo de édipo", como escreveu seu médico psiquiatra. Febrônio morreu aos 84 anos, no manicômio judiciário do Rio, completamente marcado pela brutalidade dos métodos tradicionais da psiquiatria e do sistema judiciário brasileiro
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Noemi: Além do contato com a documentação do Museu de Washington e com as obras expressivas do movimento modernista, qual a contribuição desta exposição para a professores e alunos de escola pública? Como ela pode contribuir para o debate sobre temas transversais?M.A: Desde o trabalho que desenvolvi com professores de periferia, penso muito sobre o quanto é importante na vida de um ser humano ser escutado por alguém que deseja escutá-lo, e o quanto não deve ser difícil a vida de uma professora da periferia, cujo tema transversal do seu cotidiano é a violência. Se os professores compreenderem que há uma necessidade profunda de o ser humano em se expressar e se comunicar, teremos alcançado nosso objetivo. Se tiver consciência de que é possível ter um interlocutor interessado em ouvi-los, e não em interpretá-lo, já será muito bom. Psicanálise não é interpretação. As próprias analisandas de Freud diziam a ele: "Deixe-me falar! Pare de perguntar!". É comum conversar com pessoas que desconhecem o fato de o ser humano ter uma vida mental, que ele compreende um universo mental. Muitas pessoas adoecem sem ter a percepção dessa vida. Se o público escolar descobrir, nesta exposição, que o ser humano tem uma vida mental, já teremos ganhado muito. Quantos sabem disso?
Noemi: Como foi sua experiência com esses professores?
M.A: Certo dia, eu tinha de falar para professores da prefeitura e do Estado, que estão fazendo um curso preparatório no MASP. Entrei na sala e percebi que o público era formado essencialmente por mulheres. Ao invés de dar uma aula didática sobre Freud, senti uma vontade de contar a alas como foi que ele começou a interessar-se pelas histórias daquelas vienenses, excluídas socialmente. Embora tenha sido um caminho diferente, foi o que mais funcionou. Devido ao silêncio provocado por minha fala, o outro curador da mostra, o Olívio Tavares, olhava-me olhava assustado.
Noemi: Na programação da exposição, acontecem, paralelamente, simpósios, seminários, conferências e mostra de cinema. Qual é a contribuição, para a psicanálise, desses eventos múltiplos?
M.A: Pela primeira vez falamos sobre "o não-dito". Ao contrário do que costuma ser pensado em psicanálise, há também assuntos "silenciados". Por exemplo, o problema das traduções e dos direitos autorais da Imago. Sabemos o quanto essa editora foi importante para a difusão do pensamento de Freud no Brasil. Mas sabe-se também que a tradução de sua obra pela Imago está repleta de problemas, o que tem gerado grandes prejuízos para a formação do analista brasileiro. No seminário "Brasil: Psicanálise e Modernismo", contamos com a participação de uma população de jovens que se interessam por traduções. Isso é muito importante! Chegou a hora de falar sobre as traduções.
Entre os casos sobre tradução, um dos mais curiosos foi a apropriação que se fez do termo "seqüestrar", empregada por Mário de Andrade para significar repressão. Nesse seminário, os psicanalistas começaram a fazer intervenções em que empregavam o termo "seqüestrar", com o mesmo sentido empregado por Mário. Aí, fui informada que esse termo, em medicina, designa algo que está desvinculado do corpo, portanto, reprimido. Um seqüestro no corpo eficiente é letal, porque corta a circulação e a comunicação. O que dizer então da vida mental? Não é a mesma coisa? Sublinho que o trabalho de Mário sobre o "Seqüestro de Dona Ausente" nunca foi exposto antes. Penso que a idéia de seqüestrar o que está ausente é muito boa.Noemi: Ainda no simpósio, Zé Celso, Renato Borg e Gabeira, diante de uma platéia de analistas, empregaram, com insistência, o termo "obscedidade", designando certa liberdade para dizer o não-dito, para referir-se livremente, até mesmo por meio de gestos, aos órgãos genitais. Expuseram certa concepção da psicanálise, inerente talvez ao senso comum, que a toma como um espaço privilegiado para expressar gratuitamente palavras de baixo calão. Paradoxalmente, a fala de Gabeira sobre o clichê "Bunda como preferência nacional" valorizou bastante a elegância com que o psicanalista Luiz Tenório abordou a relação entre certa melancolia brasileira com a palavra saudade. O sentimento de saudade ainda é muito pouco explorado pelos analistas, mas bunda já é um termo muito incorporado à linguagem cotidiana, não é mesmo?
M.A.: É... realmente eles não foram felizes! Acontece.
Noemi: Houve muitos "mal-entendidos" nesta organização, desde o cancelamento da inauguração da exposição. O conteiner que trazia o material foi encontrado na Jamaica. Como disse o Sérgio Rouanet , tem sido "uma exposição freudiana bastante original. Começou por um ato falho!"
M.A. Mário Vargas LLosa, prêmio Nobel de literatura, não veio para a abertura do simpósio e da exposição, que deveriam acontecer ao mesmo tempo, em 26/09. Também devido a um mal-entendido. Aconteceu a mesma coisa com outro convidado francês. Houve certa frustração. Mas, acho que a parte internacional do simpósio foi supervalorizada, mas houve um esvaziamento da parte nacional. Além do que, a programação foi muito intensa, três finais de semana seguidos.
Noemi: Qual o custo da exposição?
M.A. Em torno de R$ 700 mil. O mais caro, sem dúvida, foram s seguros das obras. Tivemos de abrir mão de um dos livros, devido ao custo altíssimo do seguro. Sao cobrados ingressos para a participação nos simpósios.
Noemi: E a exposição?
M.A: Para alunos da escola pública, os ingressos são gratuitos. O preço deles é de R$ 10 reais e R$ 5 para estudantes. Precisamos repetir a experiência da mostra "Redescobrimento: Brasil 500 anos", procurar encontrar patrocínio para os dias gratuitos.
Freud et la culture brésiienne
Texto publicado na revista Infos-Brésil, número 162, out/2000, Paris.Por Noemi de Araujo
Le jour où l¹on reportait l¹inauguration de l¹exposition Freud : Culture et Conflits, le 26 septembre, disparaissait le guitariste Baden Powell, et le Brésil rentrait de Sidney sans médaille d¹or, avec une culture sportive en crise. Frustrations générales ! Pour faire bonne figure cependant, et puisque le tant attendu divan de Freud ne pouvait quitter Londres, la version brésilienne de cette exposition, organisée conjointement avec la Bibliothèque du Congrès de Washington, a reconstitué un cabinet, avec coussins, dessin de temple égyptien, et même le tapis persan sur lequel serait mort Freud : bel aquarium trônant au centre d¹un étalage de fétiches freudiens. Le visiteur pourra aussi visionner de courts films montrant Freud au quotidien, et entendre sa voix. Pas de «vulgarisation», insistent les organisateurs, mais une mise en quotidienneté. Avant même son ouverture au public, le 9 octobre dernier, le diplomate Sérgio Paulo Rouanet commentait dans un sourire : «Cette exposition originale a commencé par un acte manqué». Faut-il voir la main de quelque désir inconscient dans le fait qu¹un container renfermant une partie de l¹exposition a été retrouvé dans un port jamaïcain ? Après quatre ans de travail, Leopoldo Nozek, le coordinateur de l¹exposition, se justifie en arguant des conflits avec les partenaires états-uniens. Ils s¹opposaient au fractionnement de leur exposition sur la psychanalyse. «Mais quand on fait une exposition sur le cubisme, on ne montre pas nécessairement les mouvements voisinsS Ici c¹est pareil, pas la peine de parler de Jung à propos de Freud. Ce que nous voulions, c¹est montrer le cheminement des découvertes de Freud, ses retombées. Les répercussions de la découverte de la sexualité et des passions enfantines, par exemple. La formation de Freud sera présentée de façon pédagogique pour que le visiteur puisse percevoir, entre autres, le passage de la pratique à la théorie psychanalytique. L¹autre défi a été de d¹appré-hender la culture brésilienne à travers la pensée freudienne. Les recherches importantes, dans le domaine des arts plastiques, de la littérature, de la médecine et de la psychiatrie, ont porté sur le moment où le Brésil passe de la ruralité à la République. L¹exposition montrera, par exemple, documents à l¹appui, les liens de certains modernistes avec l¹Hôpital Franco da Rocha et Juqueri.» Des relations professionnelles mais aussi affectives, amicales, voire amoureuses, établissent de fait des ponts entre les milieux artistiques, intellectuels et les médecins psychiatres de l¹époque. Tant et si bien que peu à peu, la psychanalyse s¹est mise à faire partie du quotidien des gens. Et Mário de Andrade, désigné comme un «lecteur sérieux et attentif» de Freud, peut écrire dans une lettre à Paulo Duarte, le 17 décembre 1939, qu¹il «aime sa mère» sans avoir pour autant, selon lui, un «complexe d¹'dipe». Des dix-huit modules que comporte l¹exposition, ceux sur le Brésil moderniste iront de l¹introduction de Freud chez nous aux années 30, en passant par les traces dans la Semaine de 1922 et les revues littéraires, les expériences de Durval Marcone, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Cícero Dias, Flávio de CarvalhoS Hélas, l¹exposition espagnole sur le modernisme brésilien privera les Paulistes de quelques tableaux originaux, mais le commissaire Olívio Tavares de Araújo nous console en nous invitant à «défétichiser l¹original» au bénéfice de sa reproductionS Selon Maria Angela Moretzsohn, chargée des recherches, plusieurs lettres entre Freud et des interlocuteurs brésiliens, dès la phase 1919-1922, ont été retrouvées qu¹on ne soupçonnait pas. La plus importante reste sans l¹ombre d¹un doute l¹avant-dernière, datée du 21 mars 1938. Adressée à un mineiro fils d¹immigrants suisses, Karl Weissmenn, elle aurait été écrite après que Freud eut vu sa maison fouillée. Malgré les circonstances, il prit le temps de répondre à Weissmenn qui lui avait envoyé le livre L¹Argent érotique. Le lendemain, Ana Freud était emmenée pour être interrogée et Freud décidait de partir à Londres. Or le destina-taire de cette lettre, citée dans la bibliogra-phie de Freud, était demeuré jusque-là inconnu. La partie la moins polémique n¹est sans doute pas celle exposant cinq artistes con-temporains. De l¹un d¹eux, Chico Tabipuan, Olívia Tavares prétend qu¹il «peint les moteurs de l¹inconscient». Dans son ¦uvre, «l¹inconscient encore sous sa forme grotesque, peu élaborée, comporte de gigantesques vagins et pénis. Une exagération des formes sexuelles». Aurora dos Santos, elle internée à Juqueri, présente un «travail né d¹une pulsion. On y trouve des interpellations comme ³pourquoi devons- nous payer et pas les autres ?²». À ce propos, signalons que le coût de l¹exposition à l¹initiative du Masp avoisine les sept cents mille réaux. À Rio, où elle se rendra par la suite, l¹investissement devrait être encore supérieur. «Nous entendons que la psychanalyse fasse partie du quotidien des gens, affirme Nozek, comme Einstein et sa loi de la relativité. Qu¹ils puissent dire ³Freud l¹explique², comment ils disent ³tout est relatif²». Cela a un prix. La psychanalyse tirera sans doute parti de cette confrontation au réel, en sortant de son univers scientifique et des cabinets de consultation. Mais de quelle psychanalyse sera-t-il question ? La majorité des psycha-nalystes impliqués dans l¹organisation de la manifestation, sont liés à l¹Association psychanalytique internationale, institution fondée par Freud. Si les autres groupes n¹y ont pas directement participé, c¹est pour pour des questions d¹ordre pratique, de temps, avance le coordinateur général, qui sait bien néanmoins qu¹un nombre considérable de psychanalystes brésiliens sont d¹obédience lacanienne. Mais foin de ces clivages, et disons comme Oswald de Andrade : «Vive Freud et le Père Cícero». Noemi de Araújo Av. Paulista, 1578. Tél. : 251.56.44. Entrée : 10 R, TR 5 R (étudiants). Le «cas» Febrônio Comme on dit le cas Schreber ? Carlos Augusto Calil publiera durant l¹exposition O livro de Febrônio, un ouvrage «de et sur Febrônio». Cendrars, venu au Brésil dans les années 20 à l¹invitation des modernistes, prétend l¹avoir connu personnelle-ment. Il consacrera plusieurs textes à cet «Indien du Brésil», certains parus en juillet 1938 dans Paris-Soir, provoquant un malaise dans la colonie brésilienne vivant à Paris. Il n¹était pas digne du Brésil de mettre en avant ce figure de fou, homosexuel, assassin. Condamné à la réclusion à perpétuité pour le meurtre de deux garçons, dans un asile d¹aliénés judiciaire de Rio, Febrônio a peu à peu intéressé le monde psychiatrique. Cependant, après sa mort, à l¹âge de 84 ans, il ne restait rien de ses importants écrits mystiques, détruits sur ordre judiciaire. Or «la découverte de l¹unique exemplaire connu de ³As Relações do Príncipe do Fogo (1926) dans la Bibliothèque de Mário de Andrade nous a tous surpris", rapporte Calil. Ces textes, reproduits maintenant en fac-simile, révèlent aux yeux d¹Olívio Tavares «un brillant écrivain».
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31 de outubro de 2000