A ESCRITA E O SEU DESTINO Luiz Romero Oliveira
Projeto de dissertação de mestrado em literatura na Universidade Federal do Espírito Santo.
O projeto visa a uma leitura dos textos Sueli - romance confesso e Muito soneto por nada, de Reinaldo Santos Neves, destacando a questão da escrita em quatro perspectivas: 1- os elementos textuais de metalinguagem; 2- a escrita e suas relações com o inconsciente; 3- a erótica da escrita (o investimento desejante na escrita); 4- o efeito de estranho-familiar (Unheimliche) que o texto literário provoca.
A função de metalinguagemSobre o primeiro dos tópicos deste projeto, pode-se observar nos textos escolhidos como objeto de estudo, que Reinaldo Santos Neves traz como marca de sua escrita a metalinguagem. Os textos estabelecem constantemente uma reflexão sobre a escrita e seus avatares. Ressalta igualmente a peculiaridade da narrativa com notas de pé de página, demarcando, assim, um lugar que pode ser visto como limítrofe entre texto literário (que é predominante) e texto teórico/acadêmico, revelando, por conseguinte, as tensões que agem entre o poético e o conceitual.
Nos dois textos referidos, Reinaldo Santos Neves declara o seu amor pela escrita. E a orelha de Sueli - romance confesso é um dos lugares onde é explicitado o seu romance pelo romance: "tudo foi mudado para melhor: tudo se sublimou em literatura, em ficção; em romance em si". Parte-se da hipótese de que o caminho indicado por essa citação seria um devir-sublime para o sujeito (o "autor", o narrador, o personagem e o "eu" poético Reynaldo) em sua relação com o outro (ou, no caso, as "outras" Sueli e Jose), devir esse expresso na promessa de um bem que se confirmaria na transformação em letra, em escrita, em literatura.
A Escrita e o Inconsciente
No que diz respeito ao segundo aspecto deste projeto, toma-se como ponto de partida o devir-literatura explicitado por Reinaldo Santos Neves em Sueli, e dialóga-se com o texto "Freud e a cena da escritura", em que Derrida ressalta a necessidade de perceber a relação existente entre o "exterior visível da grafia" e o trabalho de escrita "que circula como uma energia psíquica entre o inconsciente e o consciente". No trabalho citado, Derrida faz sua leitura do "Projeto para uma psicologia científica", dentre outros textos de Freud, observando o processo de inscrição de traços ou rastros (Spuren, em alemão, traces, em francês). Essa inscrição se dá pelos estímulos que atravessam o sistema "perceptivo", caracterizado por "neurônios j" sem barreiras de contato - que "não oferecem resistência e nada retêm" desses estímulos e marcam os "neurônios" y, caracterizados pela resistência e retenção de Qn (quantidade-estímulo). O efeito deste processo de inscrição é a alteração das "barreiras de contatos" entre os "neurônios", a qual Freud chama de Bahnung (frayage, em francês, facilitação ou trilhamento, em português), e servirá para estabelecer o grau de dificuldade, ou "facilidade" com que o estímulo a percorrerá.
Derrida observa que, segundo Freud, é das diferenças entre essas "facilitações" que se estabelece algo que seria da ordem de uma memória, ou seja, uma memória determinada pela retenção de "quantidades" (Qn) e pelas alterações daí advindas nos e entre os "neurônios y". Essa noção, em Freud, desdobra-se a seguir, na perspectiva de uma "qualidade" que não estaria relacionada ao "mundo externo", onde "só existem massas em movimento e nada mais" , mas sim aos "neurônios w", localizados no fim de um trajeto iniciado pela recepção de estímulos nos "neurônios j". Os "neurônios w" apenas serão alcançados pelos estímulos após estes passarem pelas redes das Bahnungen, para só então, "ali, onde estão quase desprovidos de quantidade, produzir sensações conscientes de qualidade". Pode-se perceber que, diante da tensão instaurada pela excitação (a pura quantidade Q), há um forçamento do aparelho para "desenvolver sistemas simbólicos e instaurar uma função de juízo" que estaria fundada no processo de comparação entre estímulos e marcas. Esse aspecto é importante para se compreender a passagem de uma inscrição primeira e inconsciente para a ordem da linguagem. Derrida detecta nesse enredamento de traços ou rastros (Bahnungen) a metáfora possível de uma máquina de escrita. Através da leitura de diversos outros textos de Freud, como A Interpretação dos sonhos e "´Nota sobre o Bloco Mágico", Derrida demonstra como o aparelho psíquico configura uma "máquina de escrita" que propicia a circulação pulsional. O sujeito é aí indicado como um resultado de inscrições. Nessa perspectiva, pode-se perceber uma anterioridade da escrita. Anterioridade esta que propicia uma nova via para se pensar esse devir-literatura para o sujeito, explicitado por Reinaldo Santos Neves nos textos selecionados, pois indica a possibilidade deste devir não configurar-se como uma metamorfose mas, antes, um "reconhecer-se" enquanto escrita.
A erótica da escrita
Os aspectos antes salientados propiciam pensar o terceiro ponto deste projeto: a escrita como um movimento do desejo uma erótica da escrita. Ainda no Projeto, Freud assinala que as marcas inconscientes não podem ocupar o lugar da coisa, Das Ding. O teste de realidade é pautado nos traços mnemônicos que, em si, já são representações e denotam a ausência ou mesmo inexistência da coisa: "[a linguagem] qualificará o neurônio a como a coisa e o neurônio b como sua atividade ou atributo em suma, como seu predicado". Só o predicado poderá ser alcançado. Predicado que é do registro da linguagem verbal e, segundo Freud, restringe-se ao pré-consciente e ao consciente. O que do inconsciente retorna só se dá por uma transliteração (a imagem no sonho, por exemplo). Essa inacessibilidade da Coisa marca a falta radical para o sujeito, como Lacan nos indica no seminário A ética da psicanálise, e o insere na via do desejo. A "escrita" inconsciente, caso estabeleça alguma relação com a escrita objetiva, será pela via do desejo e seus fantasmas.
Rei(y)naldo, o autor/narrador de Sueli, explicita o seu desejo de posse do objeto de amor, revelando ainda o seu desejo de romance (como um querer apaixonar-se) e o processo de busca que o envolve, onde o romance (caso de amor) "desliza" para o romance (gênero literário): "é principal para minha proposta como autor [...] que ela se torne minha: minha personagem". Uma meta que o envia a rememorações de seus amores na pré-adolescência, encontrando aí traços que se repetem e o reenviam à idéia do objeto desejado e perdido: "Onde diabos encontrar um exemplar dessa revista para rever essa primeira Sueli da minha vida?". Uma primeira Sueli feita de letras e desenhos. O seu romance pela escrita desvelando também o seu modo peculiar de amar:
O prazer que a literatura me dá (...), está nas palavras: é o prazer de reinventar léxicos e sintaxes, (...), e de reformular a linguagem até onde for plausível: maltratando-a por grande amor a ela, violentando-a com todo o meu carinho, mas sem forçá-la, pelo menos, não
muito
O caminho da escrita é oferecido, em princípio, como uma possibilidade de redenção, de encontro, de complementação, que propicia um efeito de onipotência. A escrita oferecida como um "remédio". O termo "remédio", isoladamente, traz a idéia de redenção, de cura, de expiação dos males, da possibilidade excluindo a impossibilidade, que implicaria o caráter onipotente da escrita: na literatura "tudo" seria possível, até a posse de suas musas. Traço que Freud observa em "Sobre o narcisismo: uma introdução" como sendo uma das fantasias criadas na infância: "a onipotência de pensamentos, uma crença na força taumatúrgica das palavras". Mas o autor não reduz a escrita a uma perspectiva meramente balsâmica, pois no horizonte há o "mal", que não é negado, e a revelação daquilo que nos resta para lidar com isso a linguagem. O remédio que a escrita representa é aquele que traz a ambigüidade do termo grego phármakon, na leitura proposta por Derrida a partir dos diálogos de Platão: ao mesmo tempo remédio e veneno. Este fator ajuda a superar a idéia puramente redentora da escrita, eliminando seu caráter estritamente mascarador, permitindo igualmente repensar o impossível (que correntemente é ligado à idéia de impotência) e lidar com os "abismos da existência".
Em Sueli a escrita é expressa como a "função maior do homem", o seu destino último o "transformar-se em literatura". Um trajeto que é ainda marcado por um imperativo da ordem da necessidade: de uma "violenta necessidade (moral? emocional? estética?) de não me manter calado". As interrogações explicitadas quanto às motivações dessa necessidade de escrita revelam um não-sentido original, que escapa aos esforços da racionalidade para delimitá-lo. O objeto perdido, causa de desejo, que Freud chamou Das Ding, a Coisa, como nos diz Lacan no seminário A ética da psicanálise. A noção de desejo para a psicanálise vem demarcar mais explicitamente a idéia de uma erótica da escrita:
Mesmo não levando em conta a idéia de reconhecimento, Freud não identifica o desejo com a necessidade (biológica). Esta, com efeito, encontra sua satisfação em objetos adequados, como o alimento, ao passo que o desejo está ligado a traços mnêmicos, a lembranças. Realiza-se na reprodução, simultaneamente inconsciente e alucinatória, das percepções transformadas em signos da satisfação. Esses signos, segundo Freud, têm sempre um caráter sexual, uma vez que o desejo sempre tem como móbil a sexualidade
Pois é disso que se trata nos textos escolhidos: do desejo e sua face amorosa. Uma expectativa de satisfação que encontra o seu caminho na escrita. Um discurso amoroso de quem em princípio espera se apropriar de suas musas pela via da escrita: "que ela se torne minha: minha personagem"; "Te quero é no poema: é no papel". Um discurso amoroso que, segundo Barthes, revela o lugar que o amante passa a ocupar: um lugar marcadamente feminino, um lugar de espera, de passividade:
[...]todo homem que fala a ausência do outro, feminino se declara: esse homem que espera e sofre, está milagrosamente feminizado. Um homem não é feminizado por ser invertido sexualmente, mas por estar apaixonado
Reynaldo, o narrador/amante em Sueli, ao descobrir o nome de sua amada vê aí o primeiro passo para a sua pretendida conquista, um nome que poderá manipular ao seu bel-prazer: chamá-lo, escrevê-lo, inscrevê-lo. Mas o que se revela é o caráter ambíguo dessa pretensa conquista:
Agora a possuo ao menos pelo nome. Seu nome me pertence de meu. Posso pronunciá-lo à hora que me der vontade, chamar seu nome pelo nome. Posso escrevê-lo numa folha de papel, num tronco de árvore, na areia da praia de Manguinhos. Posso inscrevê-lo na palma da mão e, assim, suelizar-me
Em Muito soneto por nada, algo semelhante ocorre:
É aí que, Jose, eu tomo a liberdade
de me nomear pertence teu, cativo,
joguete em tuas mãos teu para sempre
até que um verso em falso nos separe
O domínio, através do nome, de seu objeto de amor, mostra, numa perspectiva inversa o ser possuído por ele. A inscrição do nome no corpo, "na palma da mão", é o toque que o transforma em amante: possuído pelo amor. De conquistador a conquistado, em um mesmo espaço, em um mesmo movimento. E, conquistado, espera pela amada. Lacan salienta no seminário A transferência: "Por que não conceber, ao menos num certo nível, que no par, aqui heterossexual, é do lado da mulher que estão ao mesmo tempo a falta, como dizemos, mas também, e ao mesmo tempo, a atividade?". A "espera" é a "atividade" que o narrador/autor se impõe redimensionando, assim, a passividade anteriormente referida. A "espera" é o significante que perpassa os dois escritos escolhidos como objeto de dissertação. Vejamos em Sueli:
E assim me sujeitando, me torno objeto nas mãos dela. Não é? Ela começa a imperar sobre mim, fazendo-me esperar por ela: e esperá-la de bom grado: tudo que me resta ter é essa regalia de esperá-la. Espero; logo existo
E em Muito soneto por nada:
[...] E eis por que
me eis aqui, à beira do caminho, a postos,
fazendo sala ao sol-poente, e à espreita
pra te furtar a olho nu. Mas hoje,
logo hoje, tu não vens, Jose: por quê?
A metamorfose amorosa traz em seu emaranhado as ruminações do narrador que recriam a musa envolta em suas fantasias e assinalam a distância que os separam, ou como nos diz Lacan: "a diferença que existe entre o objeto de nosso amor recoberto pelas nossas fantasias e o ser do outro, na medida em que o amor fica se interrogando para saber se pode alcançá-lo.
O estranho familiar
Este aspecto nos remete ao quarto e último momento deste projeto: A partir das produções imaginárias do narrador, pautado inicialmente pela onipotência sugerida nos fragmentos acima, é estabelecido um trajeto que culmina com um desencontro de imagens (aquelas produzidas pelo narrador e a que retorna do outro) gerando um efeito de desconforto como o descrito por Freud ao tratar do tema do Unheimliche. O elemento "estranho" que o inconsciente comporta: o recalcado que habita o sujeito e que escapa ao seu alcance, mas que retorna abalando a crença num "eu" total e consciente, revelando a outra face do desejo que foi negado. No texto de Reinaldo Santos Neves, o narrador, envolto em suas fantasias amorosas, ofusca os limites entre ficção e realidade, posicionando-se em um terreno cuja solidez é ilusória. Em seu trajeto de espera, o narrador, em Sueli, erige o seu ideal de mulher que, aos poucos, no cotidiano de suas ações, é levado ao des-encontro radical, ao estranho familiar (Unheimliche) revelado pela imagem que do outro retorna: "É o que se passa cada vez que um elemento considerado verdadeiro se revela imaginário, e sempre que um objeto de fantasia é encontrado no real, ainda que isso pareça inacreditável". E é esse o sentimento do narrador diante da sua imagem, tal como esta lhe retorna da personagem Sueli:
Era assim então que Sueli havia visto a minha timidez, a minha indecisão, o meu descompasso: tudo isso fez ela ver em mim a imagem de um estuprador, ou de um estripador, ou de um estuprastripador, aguardando à espreita o momento propício de atacar e fazer a sua mais querida vítima.
Essa experiência do narrador Reynaldo é similar àquela que Freud nos relata no seu artigo "O estranho" (Das Unheimliche): em um trem, ao entrar em sua cabine, percebeu rapidamente a figura de um senhor idoso que lhe causou inquietação e espanto. Só depois pode perceber que o homem era a sua própria imagem refletida num espelho. Esse desconhecimento de si, ou, talvez, o não reconhecimento daquilo de si que retorna pela via do outro, é um tipo de sentimento de estranho familiar (Unheimliche). Sentimento este que revela o abismo entre o sujeito amoroso e o seu objeto.
Nunca, por mais que eu te cante, por mais
que eu gire e dance conforme a tua música,
hás de na praia andar comigo, deixando
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