Art_Lit_Psi: Seminário V

A lógica da castração e Os Três Tempos do Édipo


Seminário As Formações do Inconsciente

Nos dias 16 e 30 de agosto, Elisa Alvarenga apresentou uma leitura dos capítulos VIII, IX, X e XI do Seminário V, sobre a forclusão do Nome-do-pai, a metáfora paterna e os três tempos do Édipo. Seguem algumas notas extraídas de sua apresentação:

Nessa Segunda parte do Seminário, intitulada por Miller "A lógica da castração", Lacan desenvolve a questão das psicoses a partir do que introduzira até então no seu esboço do grafo do desejo. Lacan faz duas referências à esquizofrenia, coisa rara em seu ensino, embora tome em seguida Schreber para falar das perturbações no circuito código-mensagem, mensagem-código, como efeito da foraclusão do Nome-do-pai.
Na p. 160, Lacan situa Schreber no seu esquema: com a Verwerfung do Nome-do-pai, as duas ligações de ida e volta da mensagem para o código e do código para a mensagem ficam destruídas e impossíveis. O que nos permite transpor para o esquema os dois tipos fundamentais de fenômenos de vozes experimentados por Schreber, como substituição do que falta:
1. emissão, no nível do Outro, dos significantes daquilo que se apresenta como a língua fundamental. Cada uma dessas palavras tem seu peso próprio, e cada vez que são isoladas, aparece a dimensão enigmática da significação, muito menos evidente do que a certeza que ela comporta. São termos em que o significante se isola e adquire peso próprio, enigmático, e o sujeito tem tanto mais certeza de ser visado, quanto mais enigmática é a significação. É o que Lacan designa, na "Questão Preliminar", de fenômenos de código, entre os quais se incluem os neologismos e os ritornelos.
2. Fenômenos que se opõem aos precedentes como fenômenos de mensagem. Tratam-se de mensagens interrompidas, pelas quais se sustenta entre Schreber e seu interlocutor divino uma relação que tem a forma de uma prova de resistência. A voz de Deus limita as mensagens a um começo de frase, cujo complemento de sentido é fornecido pelo sujeito, apesar do seu caráter ofensivo. São mensagens que partem do Outro mas que não é possível ratificar como tais, pois manifestam-se na dimensão pura e rompida do significante como algo que só comporta sua significação para além de si mesmo.
O que falta, diz Lacan, é o pensamento principal, a articulação entre o código e a mensagem. Assim, quando falta o significante do Outro como Outro, capaz de dar fundamento à lei, o circuito fica interrompido entre o código e a mensagem. No lugar do código, temos os significantes da língua fundamental, com sua significação enigmática; no lugar da mensagem, temos mensagens que se articulam sem autenticação do Outro.
Lacan conclui que a dimensão do Outro como lugar do tesouro do significante comporta, para que ele possa exercer sua função, o significante do Outro como Outro, capaz de dar fundamento à lei. Essa dimensão, da ordem do significante, se encarna em pessoas que sustentam essa autoridade. Que essas pessoas faltem, por exemplo, no sentido de o pai ser imbecil demais, não é o essencial. O essencial é que o sujeito tenha adquirido a dimensão do Nome-do-pai. Lacan distingue então o Nome-do-pai do que é o pai real, neste momento do seu ensino. Na perversão, por exemplo, está presente o Nome-do-pai, mas o pai não intervém suficientemente para privar a mãe do objeto do seu desejo. Na fobia, de outra forma, há também carência do pai real.
Entramos então na essência da metáfora paterna, com o triângulo simbólico pai-mãe-criança. No plano do imaginário, algo é preparado para ser homólogo da base deste triângulo e para se confundir com ele. A relação do eu com a imagem especular fornece a base do triângulo imaginário, cujo vértice é o ponto onde veremos o efeito da metáfora paterna, a significação fálica. É a identificação do sujeito com o falo, justamente, o que falta, na ausência da operação da metáfora paterna. O pai, no Édipo, é o pai simbólico, é uma metáfora: um significante que surge no lugar de outro significante, o primeiro significante introduzido na simbolização, o significante materno. Na metáfora, é na medida em que o pai substitui a mãe como significante que se produz o falo como significação do desejo da mãe.

NP . DM -> NP ( A )
DM significado falo
para o sujeito

Temos então, nos três tempos do Édipo, a possibilidade de situar a posição do sujeito nas estruturas clínicas.
O pai, como aquele que priva a mãe do objeto de seu desejo, o falo, desempenha um papel essencial no desenrolar do complexo de Édipo. Essa privação, o sujeito infantil a aceita ou não, aceita ou recusa. Lacan considera este ponto nodal, ponto que não coincide com o declínio do Édipo. É um momento anterior, no qual o pai entra em função como privador da mãe. Na medida em que a criança não ultrapassa esse ponto nodal, não aceita a privação do falo efetuada na mãe pelo pai, ela mantém em pauta uma identificação com o objeto da mãe, quer se trate de fobia, neurose ou perversão, sendo a fobia a placa giratória para a neurose ou a perversão. Nesse nível, a questão que se coloca, é ser ou não ser o falo. Entre este ser ou no ser o falo e o ter ou não ter do declínio do Édipo, está o complexo de castração. É deste último que dependem dois fatos: que o menino se torne homem e a menina mulher.
O essencial é que a mãe funde o pai como mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho, ou seja, da lei como tal. É nisso que ele é ou não aceito pela criança como aquele que priva ou não a mãe do objeto de seu desejo.
Para compreender o complexo de Édipo devemos então considerar três tempos:
1. O sujeito se identifica especularmente com aquilo que é o desejo da mãe.
2. No plano do imaginário, o pai se afirma em sua presença privadora de um modo mediado pela mãe, que o instaura como aquele que lhe faz a lei.
3. O pai pode dar à mãe o que ela deseja, porque o possui. É a saída do Édipo, onde se faz a identificação com o pai como aquele que tem, no ideal do eu, que se inscreve no triângulo simbólico no polo em que está o filho. No polo materno começa a constituir-se o que será a realidade, e no nível do pai o que será o supereu.
Estes três tempos não são forçosamente cronológicos, embora ocorram em uma determinada sucessão. Jacques-Alain Miller observa que os comentadores de Lacan adoraram o pai lacaniano, aquele que castra a mãe. No entanto, não se enfatizava que a castração da qual se trata, no segundo tempo do Édipo, é a privação na mãe, mais do que na criança. Já no terceiro tempo, temos o pai que tem e que dá. Para Miller, é este o pai que interessa a Lacan, o pai que promete para o futuro. É este tempo que é fecundo, enquanto o segundo tempo tem menos potencialidades que o primeiro, tempo também rico porque permite o desenvolvimento da criança .
Lacan afirma que um sujeito não se introduz no complexo de Édipo sem que o órgão sexual masculino desempenhe um papel de primeiro plano. Ele vai introduzir então a homossexualidade como uma perversão intimamente ligada à conclusão do complexo de Édipo. A homossexualidade masculina, diz, é uma inversão quanto ao objeto que se estrutura no nível de um Édipo pleno e acabado. Mas, mesmo realizando a terceira etapa, o homossexual a modifica sensivelmente. Suas relações com o objeto feminino, longe de serem abolidas, são, ao contrário, profundamente estruturadas.
Há um certo número de traços no homossexual, a começar por uma relação profunda e perpétua com a mãe. A mãe tem geralmente no casal parental uma função diretiva, havendo cuidado mais do filho que do pai.
Se o homossexual atribui um valor preponderante ao objeto, absolutamente exigível no parceiro sexual, é na medida em que, de alguma forma, a mãe dita a lei ao pai. Isso quer dizer que, no momento em que a intervenção proibidora do pai deveria ter introduzido o sujeito na fase de dissolução de sua relação com o objeto de desejo da mãe, o sujeito encontra na estrutura da mãe, um reforço no sentido contrário. No momento em que a mãe deveria ser apreendida como privada do falo, a criança se depara com a mãe que não se deixa despojar. Estaria aí a recusa da castração materna.
Quando a marca do pai proibidor é quebrada, por exemplo, nos casos em que o pai ama excessivamente a mãe, ou é demasiadamente dependente dela, o resultado pode ser o mesmo. Em outros casos, em que o pai permanece distante, por trás da relação tensa com a mãe, temos a presença do pai como rival. Na situação crítica em que o pai é uma ameaça para ele, o filho encontra solução na identificação com a mãe, ao invés de identificar-se com o pai.
Ao lidar com um parceiro substituto do objeto paterno, trata-se para ele, como frequentemente aparece nas fantasias dos homossexuais, de desarmá-lo, de humilhá-lo. Por outro lado, a exigência de encontrar no parceiro o órgão peniano corresponde à posição primitiva ocupada pela mãe, que dita a lei ao pai. O homossexual desafia seu parceiro para saber se o pai tem ou não tem.
Trata-se pois de uma situação estável, a três. É por considerá-la uma relação dual que, segundo Lacan, os analistas não chegam a elucidá-la.
Mesmo havendo as mais estreitas relações com a mãe, a situação só tem importância pela relação com o pai. Se o homossexual se identifica com a mãe, é porque ela detém as chaves da situação que prevalece na saída do Édipo, onde se julga quem detém o poder do amor, diz Lacan.
Na homossexualidade masculina há então uma inversào da metáfora paterna: é a mãe que dita a lei ao pai. O pai como privador da mãe fracassa, o que tem como resultado a recusa da castração.

 

O Seminário de leitura e comentário do Seminário V prossegue em setembro nos dias 13 e 27 com Henri Kaufmanner e Celso Rennó Lima comentando a perversão, André Gide e O Balcão de Jean Genet.
No mês de outubro teremos dois encontros, nos dias 4 e 18, onde Cristina Drummond e Cristiana Pitella de Mattos continuarão o comentário da terceira parte, introduzida por Henri e Celso, "O valor de significação do falo".

O Seminário é coordenado pelo cartel:
Celso Rennó Lima (mais-um)
Cristiana Pitella de Mattos
Cristina Drummond
Elisa Alvarenga
Henri Kaufmanner

Frequência quinzenal
Horário: 20:30h
Local: EBP-MG


Elisa Alvarenga é psicanalista

e-mail: [email protected]

 


 

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