O Corvo, o Analista e a Interpretação

por Marcus André Vieira

 

A poesia sempre foi vista com bons olhos por Lacan, especialmente em seus últimos seminários onde é associada explicitamente à interpretação. No L'insu que sait... por exemplo ele afirma que devemos nos inspirar da poesia para intervir chegando a lamentar-se por não ser poetabastado (pouâtassez) . A poesia realiza o que na interpretação deve-se buscar: suspender as significações imaginárias evitando a armadilha do sentido. Para tentar situar o modo como Lacan circunscreve este efeito poético, examinarei algumas de suas indicações neste seminário utilizando O Corvo de Edgar Allan Poe como ponto de apoio. Uma poesia que explora o non-sens - como é o caso da tradição poética oriental na qual se insere François Cheng citado por Lacan neste seminário - forneceria provavelmente uma ajuda mais direta em se tratando de delimitar a inserção do ato poético num para-além do sentido. Parece-me entretanto que podemos fazê-lo de modo bem mais eloqüente tomando como ponto de partida uma poesia que recuse tal concepção da ação do poeta, como no caso da de Poe. Este concebe a poesia unicamente no terreno do sentido, constituída a partir de uma ação racional e inteiramente planejada, sem resto - posição reivindicada explicitamente a propósito do corvo .
Tomemos inicialmente a oposição estabelecida neste seminário entre a poesia - que busca escapar da prisão da significação - e a picaretagem (escroquerie), denominação lacaniana de um certo tipo de enunciados cujo objetivo é constituir Um sentido. Estes últimos se amparam no ideal da univocidade, recusando o duplo sentido, e delimitando um campo onde se propaga a paixão das "palavras vazias", sonho do puro enunciado sem enunciação. A filosofia será inserida neste espaço sendo descrita como "o campo de experimentação da picaretagem".
Contudo, as críticas de Lacan à filosofia e sua "vontade de sentido" (vontade de redução do sentido a uma significação delimitada), não visam a introduzir uma apologia do duplo sentido e da ambigüidade. Ele não opõe à palavra pretensamente unívoca a palavra indecifrável, o puro sentido. A constituição de "palavras cheias" com dois, três ou dez sentidos não corresponde à operação poética em questão. Podemos perceber assim que a oposição palavra vazia x palavra cheia passa a segundo plano, em detrimento da oposição sentido x sem-sentido (pas de sens) representada pelos pares filosofia/picaretagem x psicanálise/poesia. Lacan relativiza assim uma oposição que desempenhou um papel fundamental nos primeiros anos de seu ensino pois ele considera aqui que tanto a palavra vazia quanto a palavra cheia se inserem no "sistema de oposições e de significações" da "lei do discurso" . Neste sentido elas não existem separadamente, funcionando apenas como entidades ideais ambas no nível do sentido. De fato, toda fala implica nessas duas suposições: a possibilidade de um sentido único e o duplo sentido. Enquanto a primeira persegue um ideal de univocidade a segunda, eterniza sua busca por encarnar seu fracasso.
Em resumo, a oposição privilegiada neste ponto por Lacan se estabelece entre o que alimenta o sentido e o que se situa fora dos seus limites. O "próprio da poesia" é desvelar a ligação entre estes dois espaços. O efeito poético se dá assim não como Um sentido nem como um excesso de sentido (este é apenas uma variante daquele) mas sim como uma abertura ao sem sentido. Uma vez que este "além" (ou "aquém") do sentido corresponde ao real, e uma vez que o nó borromeano é a figura que permite situá-lo, poderíamos dizer a mesma coisa de outra maneira: a poesia torna possível a passagem do Um da significação à articulação ternária do nó.
Esta operação poética é bem mais fácil de ser imaginada do que efetivamente realizada. Com efeito, o fala-ser é ancorado ao Um, a suposição de Um-sentido é estrutural. Falar do nó não basta para afastar esta dimensão totalizante descrita por Lacan como o "visgo" (engluement) do sentido, pois sua figuração se situa ainda a nível imaginário. Ela presentifica o Um e não o múltiplo que ele deveria traduzir. Entretanto, tentar rejeitar esta impregnação imaginária recusando o quadro da significação, implicaria em calar-se definitivamente, pois não há nada (de existente) para além deste. Deve-se então segundo Lacan "despertar", "abrir-se ao real", a partir do simbólico. Esta operação, que podemos chamar de efeito de sentido ou de interpretação, deve se dar como o corte que força em direção ao nó a partir das coordenadas fornecidas pelo Um da significação.
Encontramos assim o que Lacan descreve como "o próprio da poesia": partindo de uma rede imaginária de significações dada, estabelecer uma determinada articulação simbólica que, através da suspensão mesma destas significações, convocará o real. Torna-se possível assim a instauração de um laço real e não mais imaginário entre os três registros, remanejando o real do sintoma. Esta articulação significante particular sobre a qual Lacan fundará o efeito da interpretação corresponde, como sabemos, ao equívoco .

O EQUIVOCO
Partiremos do seguinte pressuposto: o lugar de honra dado por Lacan neste momento de seu ensino à poesia en detrimento da fala plena liga-se à estrutura singular do que é por ele designado como o "tour de force" do poeta que consiste na articulação de uma palavra vazia a uma palavra cheia. O estatuto privilegiado desta articulação específica, enfatizado por Pierre Bruno , é o que permite à poesia dar um lugar ao real apesar de sua inserção estrutural no terreno da picaretagem . Note-se que ao descrever este tipo de articulação não fazemos mais do que delimitar a estrutura geral de uma afirmação equívoca do ponto de vista formal. A ambigüidade se instaura com efeito a partir de uma torção sobre aquilo que na língua é, segundo Lacan, "amadurecimento de algo que se cristaliza com o uso" como por exemplo as significações do dicionário. Estas são deslocadas por um novo sentido constituindo uma palavra com duplo sentido. É por esta razão que ele afirma em seguida que a atividade poética nasce de uma violência à língua. Isto equivale a dizer que só existe ambigüidade e duplo sentido à partir de uma torção exercida sobre o tesouro de significações da língua. Sua instalação depende de uma palavra com um único sentido precedendo a palavra com duplo sentido. Esta só se constitui porque apóia-se nesta palavra tida por unívoca que é por vezes apenas implícita. Introduz-se então uma questão fundamental: como diferenciar a interpretação equívoca de uma proposição equívoca qualquer? Esta questão se desloca imediatamente para um nível "técnico" transformando-se em: se o equívoco interpretativo tem um estatuto específico do ponto de vista formal, como produzi-lo?
A ênfase dada por Lacan neste seminário, não tanto na palavra vazia ou na palavra cheia mas na articulação destas como instrumento do efeito poético, nos indica que é menos a palavra cheia que o efeito desta mudança de registro (ou seja a passagem da significação ao duplo sentido) que deve interessar-nos aqui. Eis então outra indicação de Lacan a este respeito que me parece fundamental: "a metáfora e a metonímia só tem alcance interpretativo na medida em que elas são capazes de funcionar como outra coisa. E esta outra coisa da qual elas exercem a função é exatamente aquilo pelo qual se unem fortemente o som e o sentido". Trata-se de uma referência ao mesmo tempo clara e enigmática. O texto é simples, lê-se facilmente o que é dito, mas desvela-se uma "outra coisa" e uma "outra função" que parecem nos escapar.
Esta passagem, ao menos em sua primeira metade, esclarece-se a partir do que Lacan nos diz a seguir: "a poesia é efeito de sentido e também efeito de lacuna" Compreendemos então que trata-se primeiramente de lembrar que cada criação de sentido é acompanhada por um tempo de non-sens anterior logicamente à instalação do novo sentido. Este momento lacunar, que Lacan designa por vezes como "efeito de sentido" (real) opondo-o ao "sentido" (imaginário), liga-se àquilo que funda a interpretação. Ele se dá a partir da abertura do intervalo S1-S2 por ação de uma articulação significante singular que suspende por um instante a significação. Não se trata de um intervalo real mas sim virtual, que se realiza neste instante de horror suturado em seguida por um sentido novo.
A palavra cheia se constitui assim a partir do cristal da língua, instalando-se com o novo sentido o qual efetua uma verdadeira Aufhebung do sentido esperado, conservando-o e anulando-o ao mesmo tempo. No instante do non-sens, neste buraco, jaz a possibilidade de que em seguida se estabeleça um efeito de sentido inédito: um acontecimento que não responda à demanda com um sentido a mais (que não será nunca o certo, o exato) mas com outra coisa, um "extra". Em outras palavras, a interpretação apóia-se nesta propriedade da ambigüidade significante para introduzir um "mais-de-sentido", o qual, devido à sua inserção no limite da significação, passa de um "sentido-a-mais" a um "a-mais-do-sentido".
A segunda parte da passagem que examinamos aqui interessa-nos especialmente porque parece-nos indicar os meios pelos quais podemos chegar a este efeito. Lacan revela que o equívoco interpretativo se funda na função daquilo que une fortemente o sentido e o som. Entretanto, ainda não saímos totalmente da obscuridade. Com efeito, como tratar esta outra coisa que liga som e sentido e que dá um alcance interpretativo à ambigüidade?

O CORVO
Penso que o poema de Poe, com seu refrão melancólico introduzido pelo corvo permitirá circunscrevê-la. Lembremos sua trama: alguém que busca nos livros "um saber esquecido" (a quem chamaremos de neófito) recebe uma certa noite a visita de um corvo. Este só emite um som, Nevermore, palavra enunciada a cada fim de estrofe, que ganha a cada vez um novo sentido. Jakobson nos diz a seu respeito: "dado o contexto do diálogo, este refrão significa a cada vez: você não a esquecerá nunca mais, você não se acalmará nunca mais, você não a beijará nunca mais, eu não te deixarei nunca mais" . Cada novo sentido vem se unir ao anterior, apagando-o apenas em parte. Assim o significante Nevermore acumula toda uma gama de significações ao longo dos versos. Sua repetição, longe de se tornar monótona, instaura uma progressão desnorteante cheia de consequências.
Torna-se necessário a esta altura isolar o seguinte enunciado: existe interpretação n'O Corvo. Trata-se de um axioma que me serve como ponto de partida. A única maneira de validá-lo efetivamente é através da leitura do poema, experiência de efeito intenso e desconcertante. Podemos entretanto descartar a idéia de que este efeito de interpretação provenha unicamente da injeção de sentido no significante Nevermore que, ao longo do texto, passa de palavra vazia a palavra cheia. Com efeito, já vimos que a interpretação não pode ser reduzida à manipulação significante que lhe dá origem. Dentre a extensa lista de comentadores deste poema, alguns mostraram-se conscientes disto, como por exemplo Umberto Eco . Ele vê neste poema algo que extrapola a estrutura rígida das regras da poética de Aristóteles sobre as quais apóia-se Poe situando-o no jogo de oposições visuais e sonoras estabelecido ao longo do poema. Eco percebe acertadamente que algo real está em jogo, porém escapa-lhe seu estatuto específico, ou seja, ao mesmo tempo resto de uma operação significante dada e excesso de gozo.
É neste ponto que o papel do corvo revela-se essencial. Por se tratar de um corvo e não um ser humano que introduz e repete o refrão deste poema, torna-se impossível determinar a natureza do que se enuncia. O neófito não poderá jamais estar totalmente seguro se trata-se apenas de um som ou de um verdadeiro significante, ou seja, se ele pode ou não supor uma intenção de significação por trás do Nevermore. Por um lado, se não há ninguém para enunciá-lo, se é apenas um corvo que repete um gralhar - seja este ou não fruto ou de uma aprendizagem - Nevermore se aproxima da citação. O corvo neste caso estaria apenas repetindo uma fala sem sujeito (ou quase isto, porque de qualquer modo ela remete a alguém, como supõe o neófito a um certo momento: "Por certo, disse eu, estas vozes usuais/Aprendeu-as de algum dono que a desgraça e o abandono/ Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais/E o bordão de desesperança de seu canto cheio de ais/Era este Nunca mais"). O Nevermore constituiria então um enunciado com um mínimo de enunciação: "um saber com a verdade (ou a enunciação) latente", escreve Colette Soler . Por outro lado, se consideramos que aquilo que diz o corvo é sua fala, supõe-se então necessariamente que ela tenha um sentido. Nevermore alinha-se neste caso com o enigma, que corresponde, ainda segundo Colette Soler, a uma "verdade com o saber latente", uma enunciação quase sem enunciado. Não é de surpreender que esta faceta de enigma do Nevermore provoque novos encadeamentos significantes de maneira análoga à associação livre: "enterrado na cadeira, pensei de muita maneira [no original: linking fancy unto fancy -encadeando devaneios]/Que queria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais (...)/Com aquele Nunca mais".
Pode-se concluir então que a duplicidade fundamental do significante torna possível os efeitos de sentido, desde que ela seja encarnada, tornada consistente pelo imaginário. Em outras palavras, o significante enquanto nome do lugar onde se realiza a relação do som e do sentido, nos permite uma abertura ao real, saindo do impasse do Um. Este lugar entretanto deve ser ocupado. É o que faz o corvo. Nevermore só é associado por exemplo à bem-amada do neófito porque ecoa de uma maneira próxima a Lenore e porque o corvo lhe confere existência real. Esta materialidade do significante tornada consistente pelo imaginário induz os efeitos de sentido. Estes conduzem ao ponto de junção real do significante com o significado. O corvo realiza este corte pois o seu Nevermore é ao mesmo tempo enigma e citação - lugar da interpretação segundo Lacan . Isto posto, o próprio corvo sofre uma mudança a partir de sua fala. De imaginarização do significante ele torna-se a encarnação do gozo que é inerente a este último. O mais-de-sentido que o corvo introduz situa-se numa zona tão limítrofe que ele se metamorfoseia em mais-de-gozar. É o que faz da fala do corvo sua letra e de sua voz objeto ("a").

O ANALISTA E O CORVO
O corvo coloca em evidência, devido à sua inserção ambígua no campo da fala, a materialidade de seus ditos. Infelizmente (para o analisante) o analista não é um corvo, seus enunciados se dão assim mais "naturalmente" carregados de sentido. Torna-se talvez necessário jogar mais com a homofonia, visando a suspender a significação. O corvo nos mostra entretanto que o lugar de onde se enuncia a interpretação é tanto ou mais fundamental que os meios formais utilizados na sua construção. Com efeito, ele não precisa produzir uma palavra cheia a partir de um material fônico ou ortográfico equívoco. O efeito interpretativo se dá a partir de uma palavra corrente da língua que adquire uma tonalidade ambígua em função do lugar de onde ela foi enunciada. É por isto que o silêncio ou o ato de escansão da sessão da parte do analista têm valor de interpretação. Tratam-se de momentos que podem amplificar ao máximo a suspensão da significação, os quais só têm efeito porque se apóiam em uma lógica própria ao inconsciente que faz com que a presença do analista torne seus silêncios eloqüentes e suas falas literais. São maneiras de se assemelhar ao corvo que não nos liberam porém do uso de palavras. Pelo contrário, estas ações só terão um alcance interpretativo na medida em que elas tenham um supporte significante e alojem-se numa rede de significações.
Parece claro então que para que haja interpretação é necessário que um dizer apoiado no sentido seja proferido e que este dizer se enuncie a partir de uma posição en consonância com a lógica do inconsciente (incluindo o que esta lógica tem de temporal). Somente assim o real da presença do analista poderá irromper na análise. A interpretação poderá assim através da sua materialidade fisgar o analisante conduzindo-o ao limiar do sentido. Encontramos então de um lado a ambigüidade significante, formal, e do outro o ser do analista que a constitui enunciando-a. Temos assim dois aspectos constitutivos da interpretação. Se por um lado ela remaneja os significantes mestres da história do analisante, por outro captura a pulsão na transferência. São duas vertentes indissociáveis que só se concebem a partir do corte interpretativo reproduzindo "aquilo pelo qual se unem fortemente o som e o sentido".
Ressaltar uma posição subjetiva em consonância com a lógica do inconsciente remete-nos ao "x" do desejo do analista. Este desejo pode ser concebido como aquilo que permite ao analista falar do lugar do corvo (onde podem existir palavras mas onde não existe fala) aceitando a dessubjetivação que isto implica. Este porém, não deve ser concebido como o lugar de uma verdade dessubjetivada, a não ser que a situemos no campo do gozo. Com efeito, trata-se menos de fazer o Outro falar, entregando ao sujeito uma verdade que lhe preexiste, que de fazer ressoar a fala "como tal" ou seja "sem a intermediação do Outro" .
Este pode ser um outro ângulo para se abordar a dinâmica da transferência. Ele nos permite uma melhor compreensão do que parecia constituir um paradoxo, isto é, a idéia de que a interpretação instaure a transferência e, ao mesmo tempo, que a interpretação não tenha sentido fora da transferência. Basta supor que o desejo do analista preexiste à análise, dando origem à interpretação e à transferência. É o que se passa em nosso poema pois o neófito é empurrado para dentro da relação transferencial pela palavra interpretativa do corvo. Seria até mesmo possível estabelecer uma progressão lógica das relações entre o neófito e a ave: da imagem do corvo como matriz inicial à fala interpretativa deste (com as modificações subjetivas que ela comporta), remetendo o neófito à causa de seu desejo.
A ambigüidade significante inscreve-se assim nas significações do analisante fisgando-o e conduzindo-o ao limite, ao horizonte do ser. O gralhar do corvo corresponde à resposta que ele recebe do Outro e à voz que o arranca de suas determinações. O percurso de uma análise pode ser concebido então como uma progressão na direção de um esgotamento das significações do sujeito (de seus significantes fundamentais), no qual a fala interpretativa aumenta progressivamente a clivagem entre o sujeito e seus significantes, separando-o desta cadeia até que eles apareçam em todo seu peso de gozo. O sujeito, visando o objeto e aferrado ao ser, pode neste momento se dar conta de seus grilhões significantes e ao mesmo tempo de sua abertura à contingência radical do real.

 

NOTAS

LACAN, J. Cf. ainda: "só a poesia permite a intepretação" ou ainda "é porque a interpretação toca o real que a verdade se especifica de ser poética". Estas passagens se encontram na aula de 19/4/77 que concentra junto com a de 15/3/77 as refererências que citaremos a seguir. Cf. "Vers un significante nouveau" in: Ornicar?, 17/18, p.15-16.
POE, E. A. "The Raven". Citamos aqui a tradução em português de Fernando Pessoa.
POE, "La genèse du poème" in: POE, E. A. Edgar Allan Poe: contes, essais, poèmes. Collection Bouquins, ED. Robert Lafont, Paris, 1989..
Mot plein no original. O termo francês plein remete em português a dois significantes: "cheio" e "pleno". Optamos pelo primeiro, devido ao caráter concreto que Lacan lhe confere aqui, não mais relacionado à problemática do sujeito, como na concepção da fala plena (parole pleine) de seus primeiros seminários. Esta distinção fica ainda mais clara ao se observar que neste ponto ele utiliza mot e não parole, indicando não se tratar de fala mas de palavra, reforçando seu sentido material.
Cf. "Aquilo que enunciamos sempre, poque é a lei do discurso, é isso mesmo que deveríamos superar". Ibid. Não poderemos retomar em detalhe a distinção entre palavra vazia e palavra cheia que são intrinsecamente ligadas à fala vazia e fala plena. Estas noções foram trabalhadas de maneira aprofundada por Pierre Bruno em seu seminário de DEA do Departamento de Psicanálise de Paris VIII de 93-94 (inédito). Boa parte das reflexões que apresento aqui foram possíveis graças a este seminário das quais já pude dar uma noção antes: Cf. VIEIRA, M. A. "L'inteprétation, l'équivoque et la poésie" in: La letre mensuelle n° 139. Cf. Também BRUNO, P. "Un sésame de oui" in: La lettre mensuelle n° 136.
Este termo em francês (équivoque) tem um sentido bem mais próximo da ambigüidade e da suspensão da significação que em português no qual é muito freqüentemente assimilado à "erro" ou "engano". Seu sentido original em nossa língua entretanto é próximo ao do francês.
Na aula de 19 de abril deste seminário, Lacan nos proporá uma experiência topológica com o toro entrelaçado (retomada e comentada por Pierre Bruno). Ele demonstra através de um objeto constituído a partir do toro e composto de vários anéis articulados que reproduzem a articulação das palavras, que o próprio da poesia é a articulação não de uma palavra vazia a uma outra (fala vazia) nem de uma palavra cheia a uma outra (fala plena), mas de uma palavra cheia a uma palavra vazia.
Cf. por exemplo: "A psicanálise [assim como a poesia] pode ser uma picaretagem, mas não como as outras. É uma picaretagem que vem a calhar com aquilo que é o significante" ou ainda: "Tudo que se diz é uma picaretagem (...) o que se diz do inconsciente participa do equívoco" LACAN, J. Ibid.
Optei por "lacuna" ao invés de "buraco", embora este último termo correspondesse à tradução mais literal de trou, termo utilizado por Lacan nesta passagem, porque este tem em francês um sentido bem menos concreto que seu equivalente em português.
JAKOBSON, R. Six leçons sur le son et le sens, Paris, Minuit, 1976. pp.21-23.
ECO, U. "De Aristote à Poe" in: Nos grecs et leurs modernes, Paris, Seuil, 1992.
O próprio Edgar Allan Poe afirma ter escolhido esta palavra pala sua "faculdade onomatopeica", virtualmente encerrada em seus sons. Além disso a escolha do corvo se justifica também a partir de seu estatuto ambíguo quanto à fala: entre homen e animal, o papagaio foi descartado pois anularia todo o efeito trágico. Cf. "La genèse du poème" art.cit .Cf. e Jakobson op. Cit.
SOLER, C. "Sur l'interprétation" in: La letre mensuelle n° .
Em sua tradução Fernando Pessoa, descarta este nome, fundamental no texto original e que é mantido em sua tradução francesa, seja a de Baudelaire seja a de Mallarmé.
Cf. LACAN, J. Le séminaire Livre XVII pp. 39-40.
MILLER, J.A. "Silet" (seminário inédito), aula de 18/1/1995.

 

*Poema O Corvo de Edgar Allan Poe

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