A Questão do Passado em Minha Geração

 

Aluga-se este espaço! 2809-2007

Eu realmente estou extenuado de tudo.

Pego um poema romântico para ler.

Saboreio alguma coisa de passado nos olhos.

Efígies que não são minhas.

E tudo se esvai.

Habituei-me a ler o jornal. Tudo o que eu preciso está no jornal.

O mundo como deve ser.

O mundo visível. O mundo do jornal.

Passo meus dias pensando e ruminando notícias de jornal.

Para sentir-me leve...

Chego a uma roda de amigos e faço explanações sobre fatos de jornal.

Eu gostaria muito de estar falando sobre metafísica,

Sobre questões amorosas, sobre qualquer outra coisa.

Mas eu sou do tempo em que a não-notícia

É nâo-diálogo. Sou do tempo em que se diz "não" para quase tudo.

Um tempo controverso,

Porque meus amigos pensam que isto é muito liberal.

Estou esfalfado de ouvir como "aquele tempo era bom",

Como as coisas pioraram, como as pessoas mudaram,

E como elas eram melhores antes.

Minha geração cresceu num mundo insólito.

É provável que a tecnologia faça muito mudar ainda,

Mudar para melhor, para mais rápido, para mais fácil.

Porque o meu tempo é de mudança,

Nem que seja para pior.

E esses conceitos de pior ou melhor são relativos demais.

Fiquem com a saudade, que a nova geração vem aí com a mudança.

Queremos ser diferentes do passado. Só isso.

Não importa se isto é pior ou melhor.

Não importa se vamos perder valores - valores podem ser manipulados.

Queremos ser novos, queremos ser outros.

Podemos banir esta comparação fajuta com o passado

Se nos tomarmos tão diferentes dele que nem possamos ser comparados.

Isto não é vencer nem perder. É mudar.

Minha geração quer insulamento total do passado,

Não nos importa qualquer adjeíivo'para o passado.

Se for belo, continuará belo. Se for triste, continuará triste.

O passado não permite mudança. Mas os adjetivos são mutáveis.

Queremos, apenas, auntenticidade.

Pego um jornal. Estou cansado de tudo. Até do dia anterior.

Tento memorizar os assuntos. Passo pela seção "há 150 anos atrás" com desdém.

Leio sobre política, mas não tenho idoneidade para comentar.

Memorizo os assuntos.

Na seção de esportes, sou fálico. Deliro com as brigas entre torcidas.

Sobre o caderno da cidade, crítica à pichação em muros.

Mais à frente, aplausos para um novo corte de cabelo tingido por spray.

Dizem que o autor é francês.

Mudança. Esta palavra não me sai da cabeça.

Amasso o jornal inteiro.

Despejo-lhe álcool. Risco-lhe um fósforo e atiro-o pela janela.

O jornal cai no salão de festas do prédio.

Cai ainda em chamas, é só o segundo andar.

Eu rio um pouco.

erre-esse-erre-esse-erre-esse-erre-esse

Mas ninguém ouviu.

O jornal queima lá embaixo e, dentro de mim, uma força me acende.

Fiz um ato que me diferenciasse.

Não pelo jornal inflamando. Nem pelo poema que abandonei dentro dele.

Muito menos por tê-lo carbonizado sem ter lido o horóscopo.

Era domingo.

E eu queimei

o jornal

sem ter

Sido

a seção

de

empregos!

Então, sentei-me vagarosamente no chão...

e chorei.

Chorei soluçante e descompassadamente...

Como um desabitado que se desprende da concepção principal da alma.

 


Cristiano Alexandria de Oliveira
9º lugar no IV Concurso UniABC de Poesia

 

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