Poesias by P@ulo Monti
Relíquia
Os dias têm sido agitados. Muita corrida em busca de velhos dias. A magia ainda se faz presente na rua da Praia, onde me deixo a vagar numa onda suave de sol e gente.
É Porto Alegre se refazendo, pedaço a pedaço, dentro de mim. Velhas emoções são refeitas em cada rua, cada esquina, cada metro quadrado.
E respiro fundo, libertando a saudade sufocada, saturando o velho pulmão exausto da nicotina diária – respiro fundo no desfile daqueles que deixei de ser. E, de uma maneira ou de outra, nos reencontramos todos no passeio público ou acidentalmente esbarramo-nos nalgum copo vazio, naquele bar em que nunca estivemos (é, melhor que seja nalgum onde nunca estivemos, pois, talvez não resistíssemos...).
E comemoramos. O quê? Talvez nada, talvez a simplicidade com que bebemos toda a inquietação do mundo. Comemoramos, ainda, a visita aos bares nos quais sempre estivemos. Aquele bar que somente nós conhecemos. Aquele em que a noite se deixa debruçada num sorriso de mulher. Uma mulher em quem a vida deposita o primeiro beijo de amor: o amor de noturna e suave borboleta azul.
Subimos e descemos por lindos e maravilhosos copos que transbordam toda a ânsia contida de nossa vida tão oposta. Percorremos, emocionados, velhos becos onde a maravilha das descobertas de que os becos são as portas para outros mundos que nos excitava de tal modo o pensamento e fazia a poesia aflorar com toda sua fúria.
Revemos tanta coisa, tanto pedaço de nós mesmos, tanta coisa... Mas, como a vida é feita de idas e vindas, breve estarei noutra nave, noutros mundos (igualmente meus) e bebendo outras inquietações e, talvez, com mais tranqüilidade e não tão solitário (pelo menos, não para sempre), talvez. Talvez, ainda, refazendo o sonho deixado atrás, talvez solidificando a sofrida arte de amar. A relíquia é apenas um título, pois, a maior está dentro do copo e do coração.
Música de fundo: Don't let me down - The Beatles