Poesias by P@ulo Monti
Reflexões sobre a poesia
(ou o encontro dela com o poeta adormecido)
P@ulo Monti
Atravesso a noite em incessante luta com as teclas da minha máquina. As idéias sobrepõem-se, céleres, sobre mim e a construção metálica a que fica sujeita toda a criação. São tantas coisas a apontar, a falar e tantas outras a contemplar que nem sei ao certo por onde começar. Ah! O começo ... Este o mais difícil ato de toda criação. E, quando as palavras começam a formar-se e a poesia solta-se sobre a folha em branco, já começa a tomar corpo mais uma louvação. E, creio que, de uma maneira ou outra, tudo é uma forma de louvação. A dura crítica, o suave acariciar, tudo. Mas, o ato mais lindo em toda essa dura metralha é simplesmente ver e sentir como a união se faz. A união pura do sentimento à impassível e fria condição de expectativa das letras que vão-se associando umas às outras como num balé perfeito. A minha contemplação arrasta-se pela noite a dentro. E as formas encontradas são magníficas e únicas. Eis o grande mistério da depuração: a unicidade e o gênio cristalizados para sempre, enquanto houver olhos para ler e um mínimo de sensibilidade para acusar a existência da poesia.
A poesia caminha comigo pela vida e pelas ruas. O sentimento mais forte que se faz milagre num pingo de chuva ou numa rosa em estado de puro êxtase ao desabrochar do botão, me permite descobrí-la. É grave e triste a posição do poeta em relação a estas e tantas outras coisas. O dever de apontar o nascimento de uma estrela nova, um sorriso de uma criança em vôo matinal pela casa, de um sussurro feito pelo vento numa fresta da janela e outras coisas mais que nem sempre percebemos. Os ditos cinco sentidos são muito falhos. É preciso exercitar o sentido único que é o de ver em tudo a harmonia, inclusive dentro de nós mesmos. É preciso apontar a poesia em todos os seus estados, de desgraça, de êxtase, todos. É preciso que que nasça mais um poema vivo: que nasça uma nova vida.