Poesias by P@ulo Monti  

 

Memórias




            Gosto de escrever certas memórias, prematuramente. Quem sabe, um dia, a própria não venha a me pregar peças? É bom registrar tudo (ou quase) daquilo que nos acontece. Fernando Pessoa, se não me falha a memória (viram, já começou cedo), escreveu que o momento maior da criação é não quando estamos atravessando-o, mas quando subtraímo-lo da lembrança, pois, não temos capacidade (e somos suspeitos) para escrever quando está acontecendo (esta suspeição é por minha conta).
            Gosto dos tempos em que, em Porto Alegre, quando morava na rua Marcílio Dias, ali no Menino Deus, me deixava ficar dentro de um DKW em tardes de frio. Isso quando não o fazia à janela, mas esta janela já é outro assunto. Lembro da chuva fina e do frio que cortava. Mas cortava mesmo. E eu, lá, dentro do carro, pensando (nos meus quinze ou dezesseis anos) em coisas desta (da minha) e da outra (a dos outros, das coisas) vida.
            Misturava-me com a chuva e o frio e ia chover e ventar em toda a cidade. Ver os quadros pitorescos e até dantescos que, muitas vezes, um dia de chuva e frio nos proporcionava nesta terra de inverno rigoroso que é Porto Alegre. Mas, nem sempre tinha coragem de fazê-lo. Afinal, sou um pouco (bastante) comodista. Prefiro sempre (ou quase) ver as coisas acontecendo e ficar de fora, como se diz, registrando e apreciando as cenas. Talvez, por isso, minha carreira de ator de teatro nunca tenha passado de uma ou duas representações.
            Mas, era bom ficar no carro. O frio lá fora e um calor de útero materno cá dentro. Nesse tempo eu escrevia longos poemas, longas cartas. É pena que nunca tenha-os passado para o papel. Perderam-se nalguma gaveta do sub-consciente. Quem sabe, algum dia, eu faça uma limpeza em regra e os encontre. Por enquanto, deixo-os onde estão.



 

 

Música de fundo: Yellow River - Lou Christie

 

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