Elegia

by P@ulo Monti

 

Esta noite quero compor uma elegia. Há que ter o cheiro das noites quando te sentia morna, debuçada sobre mim. Também que exista no ar, certos ruídos muito macios, porém, repletos de soluços noturnos de mar sem lua cheia.

Hoje quero cantar e tocar minha canção feita só de palavras, mas, que ao se ler, tenha-se a impressão, num repente, de que é um canto de amor encontrado no sempre imperfeito pretérito presente (eis-me, agora, Orfeu noturno e menos desvairado, mas ainda sem Eurídice – Eurídice!).

Há que ser uma elegia em tom menor, de preferência Lá, aquele lá que tem um sabor de cá (que é onde ela se encontra). E que, em certos trechos, tenha-se a sensação de que existe na entonação e, principalmente nas sílabas tônicas, o frêmito de uma mulher a passar, se é que já não foi embora.

Aliás, mulher está sempre indo embora. E há que ter paciência, e muita, muita arte para fazê-la ficar. Ainda mais quando a lua apontar no céu. E, se for quarto minguante, cuidado, muito cuidado! Toda minguante tem um quê de final, de cessar de amor, mas há que saber esperar o crescente, porque no crescente está toda magia que tem a mulher desabrochada.

E, se houver rumor de primavera no ar, há que se ter muita poesia dentro do coração e muita energia no corpo. Não se pode brincar, há que se ter maturidade e silêncio: um mínimo de palavras.

Ah! Minha elegia, cresça e saia voando pela minha janela e vá se aconchegar, suavemente, ao seu corpo, macia como um ruflar de asas brancas, em meio à noite dela, que já não é a minha. E que, como já fiz, tome-a nos braços e colha folhas de laranjeira (no impedimento, crisântemos). E a ofereça ao amor, pois este, este não vai embora nunca! – Eurídice!

Ah! Minha elegia, sei que irás embora, pois, já estou te perdendo. Mas, estou também te amando, e muito. Vai, vai ter com ela, via estrelas e lua e banha seu corpo e espírito com o sopro da vida, pois, o amor está madurando! Vai, vai calma.

Vai como quem fica, ou como o vento que não vai nem fica: está sempre no âmago das coisas, pois, assim como venta aqui, venta também lá (em lá menor ...).

Vai, minha elegia. Vai e procura na tua ida, aliviar o peito. Vai para que eu possa chorar em paz e sozinho. Vai, minha elegia: eu te abençôo e livro de todos mal-entendidos que possas encontrar e te dou permissão para me desnudares perante ela.

Vai, vai que preciso chorar. Vai, que o amor é grande e a esperança maior. Vai, que o crescente já aponta nos olhos do cantador. Vai, que a vida não espera e não convém, pois, é de profundo mau-gosto, deixá-la esperando. Vai, que tu serás por mim e eu, agora, preciso chorar. Vai, que esta noite quero recompor minhas entranhas que se agitam por demais.

Vai, que há tanta coisa mal-dita que é preciso recompor. E tantas outras que, de tão lindas, precisam ser inventadas. Vai, minha elegia. Vai e diz tudo que te contei em entrelinhas para que eu possa chorar mais completamente. Vai, que preciso ficar (já que faltou arte para não deixar ir). Vai, minha elegia, voa!

  

 

Música incidental: Fumo - Fagner

 
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