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 Poesias by P@ulo Monti

Aprendiz de Cronista

 

             De repente, a quarta dimensão instala-se. Lá estou, pregado na paisagem. É um dia normal de verão. Um céu claro, azul. O mar cantando a canção feita de brisas, luares, sóis e recordação. Vejo-me sentado numa pequena mesa de bar bebendo todo aquele quadro natural. O cheiro do mar mistura-se com o cheiro do dia: é a saudade...

            Estou em Cidreira, a povoar minha mente de lembranças e imagens que vão surgindo como fotos antigas de lambes-lambes da Praça da Alfândega de Porto Alegre. Só que multicores, superpostas aos milhares. Ora é um por-de-sol, ora um nascer do mesmo sol. Ora são risos (desses que perdemos na memória: alguma felicidade quase infantil que, de tão antiga, não nos lembramos mais ...), ora é o momento presente.

            E minha quadrimensionalidade abre portas mis. Já estou noutra mesa, noutro bar, sentindo outros cheiros (e também vendo-os, pois, minha quadrimensão não tem limites...). Agora, de um rio: o Guaíba, naquelas tardes em que o verão boceja nuvens brancas no azul (já escrevi isso uma vez, mas não tem importância: o que importa é o voar de uma lembrança à outra, e nisso repousa toda minha lógica ...) e, novamente Cidreira. Parece que essa praia faz parte de mim, de algo que não fui, ou que fui.

            Sei lá! Nunca fui muito bom para a filosofia, muito menos lógica. O vento balança meu corpo no meio do dia, da cerveja, da noite. Estou rabiscando qualquer coisa numa mesa de bar. Que será? Não consigo ver. Deve ser um poema qualquer que estou plagiando do mar, do céu, da vida. Não a vida vivida, mas a vida corrida num vôo rasante de pequena gaivota, ou um suave quebrar de ondas na praia.

            E, tudo isso é tão maravilhosamente poesia, que esqueço da crônica. Mas, a crônica é poesia. Alguém duvida? Mas, já outra porta abre-se: a da noite. E como é larga. Tanto quanto o quadro das minhas lembranças. A noite é outra mesa de bar (isso já está ficando lugar-comum, mas sem ela, a paisagem esvazia-se um pouco ...). É movimento de vozes alternadas, é fluxo e refluxo de maré em tantos olhares navegadores. É, talvez, a vontade de sentir a lembrança e não descrevê-la. O melhor é ficar a sentir toda essa onda gigantesca de fotos rápidas e lépidas – fotos com vida. A vida de um aprendiz de cronista.

 

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