Seus Olhos


(Dir|Aut|Reg)

Olho pela janela e vejo como maga, o distante horizonte.
Com meu coração tento medir a distância até o infinito.
Tantas vezes tentei, tantas vezes me espalhei
Como chuva de átomos pela leve e valente paisagem.
Rostos surgem em louca amostra,
De tantos amores, já distantes esquecidos.
Perdidos, rostos e nomes.
Nenhum significado mais.
Apenas o vazio de lembranças sem cor, com uma luz.
O telefone toca. Desperto de meu devaneio.
Abandono a janela pôr onde sonhava sonhos já sonhados.
Deixo as altas montanhas nevadas,
Colinas cheias de pastos relvosos sem fim...
Sinto meu corpo, meu coração, tremer...
Sim... quem é... pronto...
Ouço uma voz como uma esfera de luz dourada vai invadindo e banhando minha sala.
Eu vejo, ouço e sinto a delicadeza daquela voz do seu espírito.
Aquela voz fala, eu não entendo, apenas me trás vida, fantasias.
Desejo de lutas, vencer e até morrer.
Morrer de amor, como tantas outras vezes...
lembro dos sonhos mais loucos,
Ouvi Pour Elize em cima de uma montanha...
Leito de Relvas, rosas, perfume de mato.
A voz continuava... faz-me perguntas, questiona.
Digo sim, ou apenas silencio, quero apenas ouvir.
minha mente voa, sou invadida por imagens de outros tempos,
Outras vidas, um reencontro?
Sincronicidade! Sei, sei que é ele.
Finalmente nos encontramos. Há tanto busco.
Há tantas vidas o busquei e esperei.
Caminhei ao longo de regatos, rios, oceanos,
Me banhei, me deixei morrer. Sempre buscando... vazio.
Desencontros, sonho nada mais. nunca era ele,
Com seu jeito de ser, seus cabelos, sua pele, seu cheiro,
O doce azul mar das ilhas mediterrâneas.
Uma velha praça em Strasburgo, pelas bordas do Loire, então pântanos perigosos,
Onde despontavam torres de castelos recém construídos.
O velho mago com seu conhecimento e magia, esperava eu, sua discípula, companheira de há tanto.
Fogueiras, forcas, maquinas de torturas, a Santa Igreja, em nome do Cristo...
Dor, dor a não mais poder, gritos de desesperos...
outras épocas, outros povos, outros lugares.
Sempre o reencontro, a vida em comum. ele meu protetor, eu a vida.
Meu sorriso, meu colar de pérolas, de espírito alegre.
Os olhos que faiscavam ao nascer, viver em cada morte, choro minhas lágrimas, são sofridas.
E dou-me conta que sigo o brilho das estrelas, o reencontro em um café em Paris,
Coisa quase de dois séculos, a ausência, desencontro, busca, sofrimento, desejo...
Há tanto que reconhecer e buscar. onde está você?
Onde poderá estar você? Viagens longas imprecisas. Países raros, nunca andados,
A rota da ceda, Kara Korum, Shirra, Tabriz, Quelta, no Alto dos Himalaias.
A ilhas de Wight no sul da Inglaterra? Wentnor Gray Cliff, onde, onde...
Templos Celtas, Romanos, Rosa Mística, A cruz do Ser, a Irlanda chuvosa e alegre.
Sempre ele, apenas ele. Aqueles olhos, aquele sorriso nas noites geladas do frio em Faroh.
O amor, dois corpos, um único corpo... União perfeita. Mágica. Atômica. Onde está?
Onde estará você? Buscas, desencontros.
Montanhas no Alaska ou na Patagônia, sempre uma separação, um reencontro uma despedida, a morte.
Continuo com o ouvido atenta, o telefone grudado a pele, um desejo enorme de ir pelo fio.
Até onde você está, sentir-lhe o sorriso, brincar e amar com você.
Ouço a sua voz falar ao telefone, de máquinas imbecis que satisfazem tudo.
Deixo você falar... Espero pelo fim, o desenlace de seus propósitos.
Se fez-se silêncio, segundos se passaram... você pergunta: "a senhora está aí?".
Murmuro que sim, mas não desejava nem necessitava comprar nada,
a luz transformou-se em puro dourado.
Respirei fundo, agradeci e desliguei.
Voltei a janela e comecei mentalmente mais uma vez medir a distância entre eu e você.
Eu sabia, eu sei que era você. Você voltará a telefonar. Eu estarei esperando. Já espero por tanto tempo...
Afinal, nunca ninguém havia me dito tantas coisas sobre minha vida sem jamais a ter visto.
Com seus olhos, com a profundeza do mar.

Dilene Maia
2001





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