Pela janela, vê o Mago o
distante horizonte.
Com seu bastão multicor tenta medir, como com um metro a distancia até o
infinito.
Tantas vezes tentou.
Tantas e tantas vezes se espalhou como chuva de átomos pela paisagem
benevolente e luxuriante.
Os rostos surgiam em louca amostra de tantos e tantos amores. Já distantes,
olvidados, perdidamente esquecidos.
Rostos, nomes, rostos.
Nenhum significado mais.
Apenas o vazio de lembranças sem cor, som ou luz.
Vazio...
O telefone toca. Súbito ele desperta de seu devaneio.
Abandona a janela pôr onde sonhava sonhos já sonhados.
Alo... Sim... Não... Sim...
A voz é jovem, tem um sotaque conhecido. Altas montanhas nevadas. Colinas
cheias de pastos relvosos, sem fim...
Seu coração treme. Seu corpo todo treme.
Uma delicada esfera de luz dourada invade e banha sua sala.
Ele vê.
Ouve.
Sente a delicadeza de seu, dela, espírito.
Ela recita um roteiro dado de palavras que não lhe fazem sentido algum.
Apenas a voz, aquela voz traz-lhe vida.
Traz-lhe fantasia, desejo de viver, lutar, vencer e até morrer. Morrer de amor,
como tantas outras vezes...
Lembra de seus atos e sonhos mais loucos.
Leitos de rosas vermelhas pára uma.
Amarelas ou Calmon pára outras.
A voz continua mansa, convincente, envolvente.
Faz-lhe perguntas, questiona e quer saber.
Ele diz que sim, ou apenas silencia.
Quer apenas ouvir.
Seu cérebro voa, é invadido pôr imagens de outros tempos, outras vidas.
Um reencontro?
Sincronicidade.
Eu sei, eu sei que é ela.
Finalmente, finalmente nos encontramos. Ha tanto a busco. Ha tantas vidas a
busquei e esperei. Corri ao longo de regatos e rios, de oceanos bravios me
banhei e deixei morrer. Sempre, sempre buscando.
Vazio.
Desencontros.
Sonhos, nada mais.
Nunca era ela.
Lara, doces olhos de safira. O corpo longilineo, as longas pernas bem feitas.
Os cabelos longos, sedosos, dourados.
Uma vez junto aquilo que viriam a ser as pirâmides.
Outras tantas pelas brancas ilhas do Egeu.
Já algumas vezes na Ibérica península onde mouros a trouxeram como escrava pára
ele. O doce azul mar, as ilhas mediterrâneas.
Uma praça escura na velha Strasburg, a praça dos porcos. A alta torre da bela
catedral, o temor a Deus.
Pelas bordas do Loire, então pântanos perigosos, onde vez ou outra
despontavam, brancas torres de castelos recém construídos.
A velha bruxa com seu cesto repleto de ervas e frutos mágicos.
O Mago, seu companheiro de ha tanto.
Patíbulos, fogueiras, forcas, maquinas de tortura, a santa igreja, em nome do
Cristo...
Dor. Dor, dor a não mais poder. Gritos de desespero, seu sangue correndo pelas
pedras da câmara. Ele tem o coração arrancado. Suas lagrimas não bastam pára
misturar-se a seu sangue.
Outras épocas, outros povos, lugares.
Sempre o reencontro. A vida em comum. Ele o protetor. Ela a vida.
O sorriso branco, o colar de pérolas do espírito alegre.
Os olhos faiscantes ao nascer, viver e em cada morte.
Sempre aqueles olhos safira. Desde a mais longínqua lembrança, a praça do
mercado, a sagração de Salomão. A tortura e morte de João.
O aviltamento do Cristo.
Suas lagrimas e seu sofrimento. Sempre aqueles olhos de safira.
A cova de leões, todas aquelas feras. Seu corpo não mais é.
Ele se da e a segue pelo brilhas de antigas estrelas com lindos nomes.
O reencontro em um café de Paris, coisa de quase dois séculos.
A ausência.
Desencontro.
Busca. Sofrimento. Desejo. Busca...
Ha tanto que reconhecer e buscar. Onde estará ela? Onde deus meu poderá estar
ela?
Viagens sem fim.
Países raros, desconhecidos, a rota da seda, Karakorum, Shirra, Tabriz, Quetta
no alto dos Himalaia.
A ilha de Wight no sul da Inglaterra? Wentnor, Gray Cliff, onde, onde...
Templos Celtas, romanos.
O cálice sagrado, José de Arimateia, a Irlanda chuvosa e alegre.
A Rosa Mística. A Cruz do Ser.
Sempre ela, apenas ela. Aqueles olhos safira. O sorriso perolado.
Os cabelos de raios de sol na noite gelada do fiorde em Faroeh.
O amor ébrio de amor.
Dois corpos. Um único corpo. União perfeita. Mágica. Atômica.
Onde esta?
Onde estará ela?
Buscas, buscas e desencontros.
Montanhas no Alasca ou na Patagônia, sempre uma separação, um reencontro, uma
despedida, a morte.
Ele continua com o ouvido atento, o telefone grudado a pele.
Um enorme desejo de ir pelo fio, até o local onde ela esta.
Ele sente-lhe o sorriso.
Sabe-a brincando com ele.
Fala de ofertas, serviços, maquinas imbecis que a tudo satisfazem. Preços módicos,
facilitados, entrega imediata....
Deixo que ela recita-se todas e cada uma de suas aprendidas e decoradas lições.
Esperou pelo fim. O desenlace de seus propósitos.
O silencio se fez.
Segundos se passaram e ela perguntou: O senhor esta ai?
Ele murmurou que sim.
Com um sorriso disse-lhe que lamentava, que não tinha desejo ou necessidade.
A luz transformou-se no mais puro dourado, ele respirou fundo, agradeceu e
desligou.
Voltou a janela da cozinha, e começou mentalmente usando seu bastão colorido a
medir a distancia que havia entre Lara dos olhos de safira e ele.
Ele sabia que era ela.
Ela voltaria a telefonar. Ele esperaria. Já esperara pôr tanto.
Afinal, nunca ninguém havia dito tantas coisa sobre sua vida, sem jamais a ter
visto.
Lara dos olhos de safira.