POESIAS LUZ
Malu Otero


TRAI��O FATAL
Herculano Alencar

A lua lambendo o c�u,
cuspia luz na cidade,
descendo o branco v�u,
-seu cinto de castidade-,
sobre o teto de Cordeiro,
o maior dos fazendeiros
daquela localidade.

Um mar de felicidade
quebrava ondas no ch�o,
espalhando a claridade,
l�, dentro do cora��o
daquele homem pacato,
que, de direito e de fato,
era um grande cidad�o.

Dono da bela mans�o
e de toda a cercania,
n�o escondia a paix�o
por sinh�, dona Maria,
prometida em casamento
herdeira, por testamento,
de tudo o que queria.

Ela tinha a serventia
de toda a propriedade:
Cada cria que nascia
era dona da metade.
S� bastava para tanto
viver vestida no manto
da santa fidelidade.

Por uma fatalidade,
na noite de S�o Jo�o,
apareceu na cidade
um valente garanh�o;
Um formoso cavalheiro,
que, pela voz e o cheiro,
era o anzol da trai��o.

Por ser de bom cora��o,
cordato e hospitaleiro
e n�o saber dizer n�o,
mesmo pra um forasteiro,
O mo�o foi convidado
e recepcionado,
na voz do pr�prio Cordeiro:

-V� entrando, companheiro!
E, com a m�o estendida,
deixou-o entrar primeiro,
acompanhando em seguida.
ofereceu honraria,
que at� sinh� Maria,
ainda hoje duvida.

Serviu-lhe a melhor comida,
vinho tinto, parmes�o...
A mesa mais guarnecida
e mais perto do sal�o.
Foi dele a primeira dan�a,
que inaugurou a festan�a
da noite de S�o Jo�o.

Passa fogueira e bal�o,
milho verde, vinho quente...
vai pamonha! mais quent�o!...
Quando algo diferente
no cora��o de Maria
-uma esp�cie de agonia-,
aconteceu de repente.

Maria, que era crente,
rogou por todos os santo,
mordeu a l�ngua no dente,
sentiu despir-se do manto
da santa fidelidade.
-Deus me tenha piedade!
Pensou, enxugando o pranto.

Mas, para o seu acalanto,
Cordeiro apartou a dan�a;
Segurou Sinh� no canto,
pela m�o da alian�a:
-O que foi, minha princesa?!
Maria teve a certeza
da sua desconfian�a.

J� n�o era mais crian�a,
sabia o acontecido
e temia por vingan�a,
caso tra�sse o marido.
Mas tomara a decis�o
de entregar seu cora��o
e seu �ntimo gemido.

Falou, de modo fingido,
no ouvido de Cordeiro:
-Boa noite meu querido,
hoje vou dormir mais cedo.
Vou deixar a luz acesa,
(do abajur sobre a mesa)
pois sabes que tenho medo.

Beijou-lhe os l�bios nos dedo
e recolheu-se na cama,
ainda ouvindo os folguedos
e o farfalhar das chamas.
Entregou-se ao abandono
e logo pregou no sono
seus olhos de bela dama.

Fazendo justi�a � fama
de ser grande anfitri�o,
Cordeiro s� p�s pijama
no calar do lampi�o,
quando todos convidados
estavam acomodados
no conforto da mans�o.

Sem chamar a aten��o
do marido ou dos criados,
em completa escurid�o,
(em busca do convidado)
saiu, Maria, ansiosa...
perfumada como rosa,
com seu desejo acordado.

Ia entregar-se ao amado
(sua paix�o repentina).
Abriu a porta do lado...
A intui��o feminina
serviu-lhe de estrela guia,
enquanto a paix�o batia
no seu pudor de menina.

Abriu, um tanto, a cortina
ao testemunho da lua.
A bela lua Junina,
que a poesia cultua.
Num instante de magia,
despiu-se, ent�o, Maria,
deixando a beleza nua.

-Eis-me aqui... Sou toda tua!
Sussurrou ao travesseiro.
-Me ofere�o nua e crua
� fome do cavalheiro!
Mas a trai��o foi malvada:
L� dormiam, de m�os dadas,
o garanh�o e Cordeiro.



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