26/09/2003
Democracia versus Religiao
Quando eu era criança, ao ver minhas irmãs concluírem a primeira comunhão delas, tinha a imagem de que religião era algo muito bom, ao passo que através da participação tudo aquilo tornava a vida coletiva muito melhor, e por isso eu me interessei em aprender a rezar, com minha mãe, muito religiosa. Esse pensamento durou até o dia em que eu passei a frequentar as aulas de catecismo, quando aprendi coisas que fazia muito sentido. Outras nem tanto. Eu compreendia que uma boa estrutura serviria de base para alcançar o sucesso, por exemplo, mas não entendia porque outas coisas não eram sequer questionáveis. Deus não era muito questionável, mas as atitudes humanas eram. E muito.
Talvez isso fosse uma das coisas que mais me deixou irritado quanto a religião: elas não são democráticas, no tocante do significado puro da democracia legitima, sendo isto um espaço no qual todos tem o direito a manifestar-se intelectualmente e debaterem-se da mesma forma, levando em conta o direito fundamental da liberdade de expressão. Mas, se uma instituição prega a submissão a algo inquestionável como Deus, até que ponto esse comportamento é cabível numa cultura democrática? Nos brasileiros não vivemos numa cultura de democracia. As pessoas acham que democracia e' algo que surge a cada quatro anos, e funciona quando a maioria diz pra minoria quem manda. Certa vez eu li uma crítica de um sujeito em resposta a matéria da revista Veja sobre os "gays" que eles não são aceitos por uma questão de "democracia", a maioria heterossexual e' muito mais poderosa que a minoria homossexual.
A razão pela qual escrevi democracia entre aspas, e já disse anteriormente e repito novamente, é que se o Brasil fosse de fato uma sociedade democrática, cada grupo de interesse ia surgir tão facilmente como seria extinto (no caso dos homossexuais eles poderiam ter o seu direito ao debate naturalmente até quando eles acharem necessário) para debater igualmente sobre aquilo que e' melhor para todos. No modelo brasileiro de democracia, algo em torno de 65% do povo brasileiro, ha', portanto um monopólio de ignorância que reinara' o Brasil muitos anos 'a frente ainda. O Brasil ainda está muito longe de instituir uma cultura solidamente democrática enquanto houver ainda a ignorância. Para mim, o baixo volume de investimentos destinados para a área de educação no País desde 1964 até hoje tem permitido o avanço de novas igrejas investidoras na baixa capacidade de discernimento das pessoas prejudicadas por essa falta de investimentos do Estado, prejudicando cidadãos brasileiros das classes média, pobre e miserável, possuidoras de baixo poder de consumo para investirem em sua própria educação, já que o Estado falta com o seu papel.
Para finalizar, a conclusão tirada por mim sobre o atual quadro político brasileiro é de que para o governo conseguir manter, ou melhor, reforçar a sua postura a favor 'a não-discriminação, a criação de um estado democrático soberano, mantendo o direito 'a liberdade de expressão e a igualdade que estão ligadas ao conceito de democracia terá de enfrentar dois poderes: o da ignorância, alimentada pela falta de investimentos estatais ligados na área da educação, e o da igreja, que tem o poder da influência carismática sobre os fiéis (A Arte da Dominação - Max Weber). Vencendo esses dois grandes inimigos da democracia, acredito eu, viveremos num mundo muitíssimo melhor, assim como eu acreditava como a religião seria, antes de descobrir o que ela realmente era.