10/09/2003

A filosofia e o direito em pratica numa democracia de ignorantes


As pessoas de hoje vão a boates sob a alegação de se divertirem um pouco ao som da música e da dança ocorrentes nesses lugares. Porém, graças aos corruptos e aos imorais, há um outro elemento oculto que se acomoda na percepção dessas pessoas que frequentam tais estabelecimentos. E’ a adoração pela carne perfeita, a idealização da oportunidade de pessoas com corpos definidos se reúna num único lugar para tarar-se entre elas. Tenho notado que algumas pessoas têm passado a ir com mais frequência nas academias de ginastica só para chegar no final de semana em tais antros para “catar” não apenas 10, mas 15 a 25 homens, numa única jornada noturna. Além dos que frequentam as academias, há os que chegam ao ponto de raspar os pelos do corpo, incluindo os da genitália, sob pretexto de higiene, mas com evidente apelo sexual para ser posto em exibição a um terceiro num formato de convite sexual.

Sexo se tornou de um assunto constrangedor para fundamental entre o início e o fim do século XX. Antigamente o sexo era assunto constrangedor e as pessoas se sentiam despreparadas quando chegava a oportunidade de realizar este ritual corpóreo. Hoje, no entanto, nem os cães são reprimidos de fazer sexo na sala de estar das residências. Além de alguns meios de comunicação, como a internet, revistas e televisão, colocarem o sexo como parte principal da sua agenda programática, há também o suporte do governo que financia esta nova cultura através da distribuição de preservativos nos bares e nas festas de carnaval. Não que eu seja contra a distribuição de preservativos que, aliás, está claro que o governo o faz para estancar o crescimento dos casos de Aids no Brasil, mas é essa medida que favorece uma cultura de adoração do sexo, dentro da qual as pessoas são incentivadas a agir literalmente feito animal, disputando de forma acirrada as pessoas pertencentes a um determinado grupo padrão de beleza.

Este padrão de beleza está atrelado a moda, ou seja, para que uma pessoa seja parte deste grupo ela precisa seguir os preceitos da moda, incluso aqui o rol taxativo dos seguintes fatores: ser magro, ter músculos definidos, branco, piercing, roupas compradas em shopping, entre outros. E quem não participa deste grupo é visto como bicho pelo restante da sociedade. “Um cara de fora do meio”. Um exemplo disso pode ser quando alguém mal-vestido surge dentro de um determinado ambiente que frequenta, na escola ou no trabalho, esta pessoa será vista como um marginal, uma criatura ‘a margem da sociedade que não compactua com os valores do centro desta sociedade. Logo, se esse indivíduo esta ‘a margem da sociedade, ele não participará das questões transformadoras que são discutidas e determinadas pelos grupos localizados ao centro desta sociedade, onde está localizada a maioria (por isso são transformadoras da sociedade, dirigem a sociedade). Conclui-se assim como que funciona o motor da opressão da maioria contra a minoria. E chamam isso de democracia.

Viver numa sociedade que se auto-vigia é viver em liberdade? Tratar os marginais de forma diferente é convier com igualdade? A minha resposta particular e não para ambas as perguntas, e também para a maioria das pessoas com certeza também o seria, mas, se a sociedade tem uma tendência natural de tratar os que estão ‘a margem como indivíduos estranhos, me parece natural que não negariam a verdade aqui contida para não perder o privilégio de fazer parte da maioria, ou seja, do centro da sociedade.

Esta linha de raciocínio não se isola no caso de roupas. De certo que os homossexuais fazem parte da minoria. A ideia é que por ais luta que haja, nada vai mudar o fato deles serem seguidores dos preceitos determinados pelos grupos de centro desta sociedade. Neste caso, o grupo de centro são os heterossexuais. São eles quem determinam as regras gerais impostas ao restante da sociedade (gostar de mulher, comer buceta no final de semana, cocar o saco em público pra mostrar que tem pau excitado, mulher que usa blusa que mostra os seios avantajados, mulher de minissaia que mostra as pernas e por ai vai). Assim, os homossexuais são vistos como marginais desta sociedade e os heterossexuais farão de tudo para mostrar que seus valores podem até não ser verdadeiros, mas possuem a vantagem de uma qualidade de vida melhor sem o sofrimento do preconceito e melhor desempenho nos relacionamentos sociais como um todo. Mesmo que hoje aprove o projeto que reconheça a união civil entre casais homossexuais, repasse de herança, adoção de crianças, entre outros direitos reservados hoje exclusivamente aos heterossexuais, amanhã, uma outra força muito mais forte estará reagindo contra esta aprovação. Neste caso, quanto mais homossexuais lutarem por uma sociedade que seja mais do seu agrado, quanto mais punks ou mendigos mal-vestidos surgirem, maior será reação da população dos grupos de centro desta sociedade para que a dicotomia entre estes grupos seja mais visível. Isto ocorre porque os grupos de centro oprimem os que estão ‘a margem (os marginais), mas o inverso não pode ser feito (marginal oprimindo o central).

A questão é que temos um conjunto de leis que valorizam a liberdade e a igualdade e, no entanto, elas não são colocadas em pratica nem nas questões mínimas do dia a dia da sociedade. Isso pode dever-se ao fato de vivermos numa democracia de antidemocratas. Não temos democracia de fato porque não a buscamos. Queremos saber dela, mas não queremos conhece-la. A bem da verdade, vivemos numa cultura de fascistas que lutam diariamente pela inexistência de uma cultura voltada a democracia. Oras, se a cultura pressupõe a pratica da instrução através do aprendizado, os investimentos brasileiros nesta área reduziram-se dramaticamente desde 1964 com o golpe militar, passando pela era FHC para garantir apenas que as pessoas soubessem apenas ler e escrever, mediante pagamento para as famílias pobres.

Neste ponto podemos sentir que uma simples aula de direito constitucional é tida pelo mais pobre como uma instrução reservada aos que tem condição de financiar a alta cultura. E, tendo em vista que os desprovidos do saber até um exemplar da revista Veja é item que não se tem condições de comprar, fica fácil entender o nível de carência intelectual da vasta maioria da população.

Assim, com a redução dos investimentos feitos nesta área, a sociedade pode observar que os indivíduos ficam excluídos do aumento de sua capacidade de discernimento e, ao mesmo tempo, vulnerável ‘as influencias comportamentais impostos pelos agentes do grupo de centro da sociedade (intelectuais, atores, políticos, presidentes de empresas, entre outros). Esta vulnerabilidade ocorre por falta de questionamento das coisas. A pessoa não teve uma educação de questionar, ela simplesmente aceita a realidade como é. Nesta sociedade, supostamente democrática, descreve-se aqui a síntese da servidão, opressão liquida ao qual está submetida quase toda a população. Esta democracia de ignorantes, quem melhor descreveu foi um homem chamado Leven Vampre, paulista crítico da ditadura varguista e entusiasta do movimento de 1932, terminou sua vida como tabelião de cartório na capital de São Paulo.

A submissão aos valores impostos pelos grupos de centro tornou-se algo tão trivial que quase nunca a notamos ou refletimos sobre ela. A única forma da sociedade se livrar desta mentalidade – se isto for possível – é atingir a ignorância das pessoas de alguma forma, que elimine a marginalização. Se não houver uma forma de mesclar os valores centrais e marginais, a sociedade está condenada a se ver fragmentada de maneira perpetua.

A constituição de 1988 não é algo totalmente atrasado. Quem está atrasada são as pessoas, ou melhor, sua mentalidade de aceitar esta realidade tal como é. Quem primeiro refletiu sobre o direito e a forma de colocá-lo em pratica sob a forma de lei pensou numa sociedade igualitária e livre. Mas o que fazer quando o próprio oprimido não tem interesse em se defender? Até mesmo Pier Paolo Pasolini refletiu que não havia nada mais medíocre que protestar, o que significa pedir licença para ser tolerado ou existir.