04/03/2012

O Menino Grande


Na profundeza da alma, encontramos uma solidão onde ficam depositadas todas as nossas insatisfações. Fracassamos ao tentar atingir os nossos sonhos. Desejamos sempre tentar superar o próximo, seja por inveja, ganancia, competição ou ódio. E mesmo quando não restam mais competidores ou inimigos, procuramos superar a nós mesmos. Este é um sentimento que existe dentro de cada um de nós, o desejo de ser grande ou maior do que somos agora. Alguns querem sê-lo para atacar, outros enxergam como meio de não ser atacado. Mas a trajetória de vitória muitas vezes não é a história do mundo.

Fantasiamos sobre como vamos nos portar quando finalmente conquistamos aquilo que há muito desejávamos, mas nunca paramos para refletir sobre o que fazer caso acabemos fracassando num desafio. E o que deve fazer uma pessoa fracassada e sem gloria? Será ela capaz de renovar suas energias e tentar novamente? E se não houver um “novo” e a pessoa se dá conta de que perdeu a única chance que teve na vida?

Poucos tem o costume de refletir sobre o que fazer em caso de derrota. E isto é compreensível, já que muitos gostam de viver na doce ilusão que cada um afixa para si. Ninguém gosta de pensar a este respeito, talvez também porque o homem cobiça tanto a vitória a tal ponto que fica cego. Sob este ponto de vista, a esperança é uma ilusão, e a preparação ao desafio seria um esforço inútil. Mas nós sabemos que esta interpretação não é verdadeira. Ninguém concorre para perder, o tolo é aquele que entra na competição já sabendo que vai desistir.

Nesse sentido, gostaria aqui comentar sobre o caso de um amigo meu chamado Milton. Ele era uma pessoa muito odiada entre seus amigos, embora tivesse apenas nove anos quando passou a ser alvo dos primeiros ataques daqueles que o caçoavam na escola. Certa vez, enquanto comia um lanche, um desses adversários que passava na frente, pegou o alimento de sua mão e jogou no chão.

Situações como esta foram se repetindo, e Milton sempre se sentindo cada vez mais isolado. Chegou-se ao ponto que eu era a única pessoa que conversava com ele.

Mas também veio o dia em que eu não era mais amigo dele. Não queria ser. Todos falavam mal dele, desejavam-lhe o mal, e acabou que ele se tornou uma pessoa muito solitária.

Nas aulas de educação física, quando se formava os times de futebol, Milton era o último a ser escolhido para um time, porque ninguém o queria.

Em uma dessas ocasiões, após um jogo, procurou alguém que quisesse jogar bola com ele e ninguém quis. Jogou sozinho. Em determinada altura, as pessoas começaram a dar risada e gritavam pra ele jogar a própria cabeça no cesto, já que era maior que a bola.

Milton começou a chorar, e o fato fez com que todos os alunos fossem arrastados até a sala da diretora. Uma vez no local, ao invés de ser defendido, a diretora se incomodou com os fatos e reprimiu o Milton, acusando-o de causar rebuliço por qualquer motivo.

Ele era também motivo de piada em sala de aula, já que tirava zero nas provas porque não conseguia estudar sozinho. Com frequência era chamado de burro pelos professores, e alguns acreditavam até que ele era autista ou deficiente mental.

Depois que um dos alunos descobriu na biblioteca um dicionário dos termos em tupi-guarani, Milton ganhou o apelido de “piriri”, que em português significa “diarreia”.

Mais tarde, todos se formaram naquela escola, e o Piriri tornou-se figura esquecida por todos, sendo lembrado apenas nos reencontros dos ex-alunos, encontros dos quais ele jamais foi convidado, mas frequentemente lembrado quando alguem queria contar algo engraçado: "lembra quando o Piriri fez aquilo?...".

Dois anos depois ele foi encontrado pela mãe, pendurado pelo pescoço por uma corda, vestido de mulher e com batom na boca. Não deixou bilhete. Mas sinto que todos os que tomaram conhecimento sabiam o motivo. Piriri nunca recebeu ninguém em casa e nem foi convidado por ninguém. Nunca soube o que era andar de bicicleta com os amigos, ter uma namorada, beber e se divertir. Ele se tornou uma figura do que “não se deve ser”, uma criatura fracassada, sua infância e adolescência foram uma bosta. Piriri não foi um menino grande.