08/08/1999

Os Sofrimentos de Totó


 

Eu estava no meu cestinho, com a minha mamãe no dia em que meu dono me levou. Lembro que eu havia nascido já há um mês e alguns dias quando eu tive que ir. Nem pude ao menos despedir-me de minha mãe e irmãos. Fui negociado por uma quantia em dinheiro que já não me lembro mais quanto valia. A última lembrança que tenho de minha mãe é dela chorando e u sendo levado pelo meu dono. Meus irmãos eram pequenos também eles ficaram no cesto em que nascemos, mas minha mãe correu atrás de mim, latiu pro meu dono, rosnou, gritou, chorou, mas nada disso impediu que eu fosse levado para longe. Lembro-me ainda do cheiro que ela deixava no cesto dela, 'as vezes antes de dormir, se eu me concentrar muito ainda posso sentir seu aroma pelo ar.

Bem, eu fui levado, ganhei um nome e ao invés de cesto, uma casinha no lado de fora da casa. Meu nome é D-420, só como ração, não tenho pedigree, fui treinado para defender a casa de meu dono. Não sou um cão de grande tamanho, sou pequeno da raça Beagle. Meu dono Arnaldo e' um gênio em computadores, e quando eu fui negociado ele havia sido aceito a um emprego em uma empresa de ramo internacional. Ele ganha muito dinheiro, mas no começo levava uma vida modesta, em um bairro de classe média. Nesse bairro onde eu morava eu posso dizer até que eu era mais feliz pois eu podia sair livre pelas ruas, me divertia com os carros e as crianças dos vizinhos me adoravam. Até meu dono brincava comigo também. 'A noite eu passava ao lado de Laura, minha namorada. Eu passava por um buraco existente no muro e então nos dormíamos juntos. Bem, um dia esse buraco foi fechado e meu dono já não permitia mais que eu saísse para as ruas. Estava começando a me sentir infeliz. A semana seguinte foi pior ainda, nos mudamos. Mudamos de bairro e a casa em que passamos a viver era mais bonita, espaçosa, mas não havia buracos no muro, meu dono já havia me esquecido e não parecia haver outros cachorros aonde eu vivia.

Certa noite, eu comecei a chorar de saudade. Saudade das crianças, de Laura, de ser feliz e viver. Meu dono nem importava-se com a causa, de fato ele era ocupado demais para ficar comigo. Noutra noite em que meu dono havia voltado de uma viagem eu fui dormir na cama com ele para eu sentir um pouco de companhia, mas ele me expulsou e voltei a minha vida infeliz. Jah não suportava mais, eu ficava só em casa, a única pessoa que via era uma mulher, provavelmente secretaria de Arnaldo, que entrava em casa, fuçava em algumas coisas, alimentava-me e só. Depois ia embora, sem ao menos reparar que eu existo.

Vida de cais é assim mesmo, mas na verdade acho que sou o único no mundo que é obrigado a viver sozinho, sem ninguém por perto. De vez enquanto eu finjo que meus brinquedos são seres vivos, mas a todo que faço para eles, eles não respondem. Não estarão vivos mesmo que eu quisesse muito de companhia. Agora observo que um garoto da vizinhança esta pulando o muro neste momento. O que este moleque quer? Ele está invadindo meu território. Jah há alguns dias ele vem para o jardim da minha casa e fica brincando sozinho. As vezes ele enterra algumas coisas, nada na piscina, joga futebol sozinho. Eu, o dono desta casa, sou restrito apenas a viver na casa, eu não posso ir ao jardim para brincar também. Eu não sei quem é esse garoto, eu só vejo-o se divertindo de longe. Quisera eu brincar com ele também. Ao menos ele não é como meus brinquedos, e poderíamos ser amigos.

Passou-se uma semana desde que o garoto adquiriu o habito de vir para a minha casa e resolvi conhece-lo. Fui até a janela, mas fui barrado pelo campo de forca solida quase invisível que tanto chamam de vidro. Dei então um latido. Ele me ouviu! Finalmente alguém foi capaz de me ouvir e continuei a latir com mais forca e desespero. Ele estava vindo em minha direção, era de se notar que seus olhos curiosos queriam saber o que eu faço sozinho em uma casa grande como essa. Então ele desesperou-se e saiu correndo. Não cheguei a conhece-lo, ele apenas saiu correndo antes que pudesse ver melhor o interior da casa.

Agora eu estava sozinho de novo e me arrependo de ter perdido esta oportunidade de fazer um amigo. Eu não devia ter latido. Estou sozinho agora, deitado no chão, no mesmo lugar de onde observei o garoto brincando enquanto ele desconhecia a minha existência. Calculo agora que estou me tornando um ser repulsivo, ninguém quer chegar perto de mim.

Outro dia eu fui surpreendido com a visita do garoto. Desta vez ele não brincou, veio tentar conhecer a casa pelas janelas. Eu fui até ele e sorriu. Acho que ele gostou de mim. Então com toda sua forca ele empurrou a abertura de uma janela pequena, pela qual eu pude sair um pouco e finalmente sai!

Em um instante eu me vejo no colo do Pedrinho, o tal garoto que brincava no meu jardim. Dei a ele alguns latidos de Olá e ele passou sua mão em minha cabeça. Acho que foi um cumprimento de olá de humanos. Ninguém sabia como eu estava feliz só em saber que alguém vivo estava ao meu lado. Eu queria pular, latir e até cocoricar (se conseguisse) ... Tanta era minha felicidade que nem se eu tivesse uma boca conseguiria explicar. O Pedrinho parecia também estar muito feliz, ao menos agora brincamos juntos de várias coisas que desconhecia. Agora eu olho para trás e me vejo em casa sozinho e me lembro do quão infeliz eu era. Isso me faz notar que o maior valor que uma vida pode ter são seus amigos e hei de valorizar os meus amigos até o dia da minha pequena morte.

Ótimo, agora eu sabia o nome do Pedrinho, mas ele não sabia o meu. Na minha coleira há um pino oco com meu nome escrito num papel que fica preso dentro caso eu me perdesse. Até antes eu achava inútil meu dono ter colocado isso em mim, já que não saia muito de casa, como eu poderia me perder? Mas foi através desse pedacinho de papel que o Pedrinho leu meu nome e disse desentendido em voz alta:

            - D-420!?

É, o meu nome não é um dos melhores, mas não fui eu quem o escolhi. Bem, consegui uma companhia nova e agora? O que devemos fazer? Pedrinho passava ‘as vezes tardes inteiras comigo em seu colo, era gostoso, pois eu era tratado com carinho e gostava muito de sua companhia. Isso me fez descobrir que estando com seus amigos, fazendo algo ou não, nos divertíamos da mesma forma.

Noutro dia um acontecimento me fez perceber que eu não era o único infeliz no mundo. Certa vez, o pai do Pedrinho brigou tanto com ele que ele veio chorando até minha casa, sei lá por qual motivo. A única coisa que sei que aconteceu mesmo que ninguém sabe é que o Pedrinho veio até mim, abraçou-me e começou a chorar. Nunca quis tanto ter uma boca para dizer as mais lindas palavras que estavam escritas no meu coraçãozinho para conforta-lo, mas dei-lhe algumas lambidas em seu rosto mergulhado em lagrimas. O Pedrinho carregava em seu corpo as marcas da verdade. Ele tinha sido vítima de uma violenta agressão. Nunca fiquei com tanto ódio guardado dentro de mim, mas como dizem os judeus, “você pode perdoar os males que alguém fez contra você, mas não pode perdoar aquele que fez aos outros”. Não há uma razão para eu ficar com ódio, o pai do Pedrinho não fez nada para mim, mas fez para o Pedrinho que é meu amigo. Fiquei triste, pois o garoto agora já não pensa em outra coisa senão em matar o próprio pai. Vejam o que um garoto de nove anos é capaz de pensar em um mundo de hoje. Ninguém sabe como é triste ver um garoto pensando nessas coisas sozinho sem ninguém para conversar. Por mais amigo que eu seja dele, tenho que me conformar com a realidade de que sou um cachorro. Em outras palavras, um ser vivo que foi criado apenas para ser um enfeite de um lar, como meu dono faz. E porque ele é o meu dono? Ninguém é dono do Pedrinho ou de qualquer outro ser humano vivo, hoje existem leis que proíbem um ser humano ser dono do outro, mas não de um cachorro. Isso retrata a minha insignificância de ser, e por causa dela sou obrigado a assumir a postura de medíocre. Dentro de mim eu mudei, mas e fora de mim, alguém viu? Mal tenho coo expressar-me aos outros, as únicas coisas que consigo fazer é chorar, latir, brincar, ser amigo e ser infeliz também. Quisera eu ser humano. Ou até melhor não. Se ser humano é equivalente a odiar, matar, destruir, prefiro mesmo é ser um cachorro ignorante como todos pensam que sou e ser capaz de amar, brincar e ser feliz. Os humanos podem estar no topo do podre, mas não estão no topo da razão. Eles te dão uma flor, mas arrancam outra de você. Nada é dado de coração, em nome da amizade.

Não sei se eu seria diferente do que sou hoje se fosse humano, mas acho que sim, calculando que com tantas coisas que eu poderia fazer, esqueceria das boas coisas que poderia ensinar. Os seres humanos têm mais mas desfrutam menos. Eu em minha insignificância ainda posso ser feliz, mais feliz do que se eu tivesse um corpo humano, capaz de ir até a venda mais próxima e comprar drogas para pura diversão. Calculo também que não sou medíocre, e se meu dono quer fazer de mim um enfeite para o lar, então o faça. Eu já não aguento mais e por isso vou embora. Ninguém sabe, mas quando o Pedrinho forcou uma saída através da janela por onde sai e nos conhecemos, ele abriu também uma passagem para uma outra vida. Agora posso pular o muro e ir embora. Posso não fazer grandes mudanças na sociedade para que ela seja mais feliz e melhor, mas posso fazer mudanças em mim mesmo. E também não preciso consultar o meu dono, considerando que eu não consigo, não tenho boca para falar, isso já é uma vantagem para mim e olhem o nome que ele deu a mim: isso mais parece um robô, um utensílio da casa. Posso ser pequeno mas sou ágil, posso ser cachorro mas sou mais inteligente que outros não-cachorros, posso ter sido medíocre ontem, mas hoje não sou mais. Laura, embora tantos anos se passaram, ainda não te esqueci e estou voltando para casa, meu bem. Pedrinho, perdoe-me, mas compreenda que sigo agora o caminho do meu coração. Virei te visitar, se você sobreviver. Acredite que certas coisas deve-se aprender sozinho, mas lembre-se também que você foi meu melhor amigo em tanto tempo. Mas contenha-se, pois por mais amigos que nos seriamos, eu continuaria sendo um cachorro, e você um ser humano. O pior é que eu vejo em você uma criança que poderia ter sido mais alegre na vida, mas por causa de meros desajustes na sociedade, um ser covarde bateu em você e você se transformou numa coisa da qual não admiro mais. Vejo em você o futuro da forca que motivara a destruição da Terra, mas, antes de fazer algo, lembre-se ao menos de quando você era feliz comigo e tente ser novamente. Viva sua vida, torne-se homem, mas não evite de seguir o caminho do seu coração, o que você achar melhor.

Adeus, pois agora tentarei encontrar a minha felicidade em um ser semelhante a mim. Obrigado por você ter me dado esta oportunidade, ficarei grato a minha vida inteira. Abraço de seu amigo Totó – o nome que você me deu.