HOME      |      POESIA      |      ROMANCE      |      ARQUIVO MORTO      |      SOBRE O AUTOR      |      CONTATO



.: O HOMEM SEM CORA��O :.

Destacamos abaixo um trecho do romance �O homem sem cora��o�,
escrito por Vicente Miranda entre julho/2004 e novembro/2005.

13 - Retrato de fam�lia


           � Doutor Alberto, pelo amor de Deus, n�o fa�a uma coisa dessas! Eu tenho dois filhos pequenos pra criar e o meu marido est� desempregado, doutor! Eu preciso demais deste meu emprego! N�o fa�a uma coisa dessa comigo, doutor Alberto, pelo amor de Nossa Senhora! Eu lhe imploro! � suplicava a empregada dom�stica dona Selma ao homem sem cora��o.
           � Cala a boca, cobra pe�onhenta! Eu j� falei que a senhora est� despedida! Arruma a trouxa e some da minha frente, r�pido! R�pido!
           � Mas doutor Alberto me perdoe! O senhor pode descontar do meu sal�rio o vaso que eu quebrei do seu escrit�rio! Foi um acidente doutor! Pelo amor de Deus! N�o foi por querer, n�o!
           � Para de rastejar feito um verme, mulher! Se eu for descontar deste seu sal�rio de mis�ria o pre�o desta rel�quia, a senhora ter� que trabalhar uns tr�s meses quase de gra�a nesta casa!
           � Eu aceito, doutor Alberto! S� n�o posso perder esse emprego e. . .
           Mirtes, que ouviu do andar superior da casa o barulho que vinha do escrit�rio de Alberto, desceu rapidamente as escadas e interveio na confus�o causada por mais um dos chiliques do marido com os empregados:
           � O que est� havendo aqui, Alberto?
           � Essa lacraia abomin�vel quebrou aquele vaso, Mirtes! � Alberto apontou para os cacos do vaso que estavam sendo recolhidos por dona Selma aos prantos no ch�o do escrit�rio. � Nem trabalhar em paz nesta casa eu posso mais, Mirtes! Est� vendo como esses empregados ordin�rios que voc� contrata s�o incompetentes?
           � Dona Mirtes, pelo amor de Deus! � suplicava a empregada tremendo com os cacos do vaso nas m�os. � Eu n�o tive culpa, foi um acidente, eu s� estava limpando, esbarrei no vaso e ele caiu, mas eu vou pagar tudo. . .
           � Acalme-se, dona Selma. Eu sei que a senhora n�o fez por querer. Este vaso � baratinho, depois comprarei outro. N�o se preocupe. Deixe os cacos para depois, a senhora pode ir cuidar dos outros afazeres da casa, sim?
           � Sim, senhora! Com licen�a!
           Alberto fitou Mirtes com os olhos transbordando raiva e �dio, balan�ou v�rias vezes a cabe�a num gesto que claramente desaprovava a atitude da esposa e come�ou o enredo sem papas na l�ngua:
           � Por que voc� est� bancando uma de defensora destes incompetentes empregados oprimidos, hein Mirtes?
           � Desde que nos mudamos para esta casa, todas as pessoas que trabalham nela s�o selecionadas cuidadosamente por mim e, apesar de serem empregados, s�o seres humanos merecedores de respeito como qualquer um, Alberto. Al�m disso, todas essas pessoas est�o sob os meus cuidados.
           � Essa empregada vagabunda, cretina e descuidada est� despedida, Mirtes! Eu n�o quero nem saber!
           � N�o, ela n�o est�! Enquanto eu tamb�m mandar aqui nesta casa, ela n�o ser� despedida por um simples acidente ocasional, Alberto! E me�a as palavras quando falar dos outros, tenha mais respeito pelas pessoas!
           � Ah, �! Ent�o, pague voc� o sal�rio dela!
           Alberto virou as costas � esposa e se retirou do escrit�rio indignado. Bateu a porta com toda a for�a de que dispunha, foi � garagem, pegou o carro e saiu de casa sem dar satisfa��o alguma de onde iria. Mirtes permaneceu no escrit�rio sem compreender o porqu� de uma atitude t�o extremada do marido, decorrente apenas pela quebra de um simples vaso velho que estava em desuso. Olhou para os cacos no ch�o e um filete de l�grima j� lhe descia do rosto. O escrit�rio impecavelmente decorado, onde a mob�lia de madeira nobre saltava aos olhos, muito limpo, muito organizado, fora o palco de outro destempero do marido, sem um motivo sequer plaus�vel. Alberto parecia aguardar um simples motivo para humilhar e torturar psicologicamente os empregados e at� as pessoas estimadas por ela. Mirtes caminhou at� a sala de visitas daquela enorme casa rec�m-adquirida e pelas janelas contemplou a beleza do jardim cuidadosamente aparado e se lembrou do jardineiro que havia sido demitido por Alberto h� dois dias atr�s, depois de mais uma discuss�o por motivo banal. Aquele casar�o poderia ser um sonho de consumo para muitos, mas para ela estava parecendo uma pris�o na qual cumpria pena por um crime que n�o cometeu. A casa fora adquirida pelo marido no final do ano passado, 2007. Alberto Monteiro era um deputado estadual muito conhecido, um pol�tico em ascens�o, era candidato a prefeito de S�o Paulo pelo PSE nas elei��es que ocorreriam no final do ano corrente, 2008. Por�m, aquela casa n�o vinha oferecendo a ela e aos filhos nenhum motivo de felicidade, muito pelo contr�rio, aquela mans�o, comprada por Alberto por uma quantia de dinheiro inimagin�vel que ningu�m sabia de onde tinha vindo, o marido n�o revelava nada a ela sobre essas quantidades volumosas de dinheiro, agravou ainda mais a situa��o emocional da fam�lia, o homem, depois que havia se mudado para l�, parecia um tirano igual aos das biografias que ele andava lendo: Ivan - o terr�vel, Hitler, St�lin, e outros da mesma linha, ele n�o estava poupando nem ela nem os filhos de sua selvageria. Ainda olhando pelas janelas da sala de visitas o belo jardim do quintal, viu muitas flores, muitas �rvores, muitos p�ssaros, a vida l� fora parecia-lhe t�o bonita, t�o harm�nica, t�o po�tica e por qual motivo dentro daquela enorme e deslumbrante casa, quando o marido estava presente, tinha que ser sempre aquele inferno? O homem parecia estar a cada dia mais diab�lico. Implicava com os empregados e com os filhos, maltratava as pessoas conhecidas e desconhecidas, enfim, n�o fazia quest�o de demonstrar o m�nimo de educa��o e de bons costumes com ningu�m. �s vezes, quando Alberto se preparava para sair, ela perguntava pra onde ele iria e, em seguida, ouvia sempre a mesma resposta grosseira: �Pra onde eu vou n�o interessa, Mirtes!�. Apenas naquela semana, ele havia maltratado, al�m de dona Selma e o jardineiro, duas amigas antigas dela que lhe fizeram uma visita. Mirtes n�o teve nem como se desculpar �s amigas de tanta vergonha que sentiu dos disparates do marido. O que mexia com a cabe�a de Mirtes era se encontrar frente a uma situa��o t�o paradoxal, o povo nas ruas aplaudia o pol�tico Alberto Monteiro, candidato � Prefeitura de S�o Paulo, enquanto isso, dentro de casa o mesmo homem parecia um dem�nio.
           Mirtes decidiu que naquele dia teria uma conversa s�ria e definitiva com o marido. Ele estava passando dos limites. Ou ele mudava suas atitudes recentes com ela, com as pessoas que lhe rodeavam naquela casa e, principalmente, com os filhos, ou n�o haveria mais possibilidades de conviv�ncia conjugal entre eles dois. Mesmo decidida, ela tinha esperan�as de que o respeito, o carinho e a dedica��o que Alberto tinha por ela voltassem. Ela sentia que n�o passava de um mero objeto sexual para ele. Era s� sexo, sexo e mais sexo. Alberto a possuia como se consumisse uma laranja que se chupa para depois jogar o baga�o fora. N�o era isso que ela queria a vida inteira.
           Mirtes passou a noite acordada esperando pelo marido. Por volta das tr�s horas da madrugada, ele chegou. Acendeu a luz da sala e se deparou com ela em p� � sua frente:
           � U�, voc� ainda est� acordada, Mirtes? � falou como se n�o se lembrasse de nada do que havia feito naquela tarde.
           � Eu estava esperando voc� chegar, Alberto. N�o vou conseguir dormir sem antes ter uma conversa s�ria com voc�!
           � � � � � �. . . Se for conversar sobre assuntos de empregados a essa hora da madrugada, n�o vai dar. Tudo bem? � foi se aproximando de Mirtes tentando agarr�-la ali mesmo, a mulher se esquivou.
           � Tira estas m�os de mim, Alberto! Chega! Nada est� bem por aqui! O assunto que est� em pauta � este seu comportamento doentio e destemperado.
           � Eu n�o sou adolecente para querer saber nada sobre comportamento, Mirtes! O meu jeito � este e acabou! T� bem? � dito isto, virou as costas e foi se retirando.
           � Aonde � que o senhor pensa que vai, hein? N�o vai fugindo, n�o! Voc� vai ter que me ouvir, nem que seja na marra!
           Alberto voltou-se � mulher com um sorriso ir�nico, parecia at� gostar da atitude en�rgica e mesmo nervosa com que Mirtes lhe dirigia as palavras, sentou-se no sof� e disse � esposa:
           � Ent�o, pode falar. Sou todo ouvidos.
           � Alberto, � continuou Mirtes um pouco ofegante, por�m mais controlada � passaram-se mais de tr�s anos desde que voc� sofreu aquele maldito acidente, j� estamos em 2008 e voc� agora � um homem importante e abastado, � candidato a prefeito desta cidade, poder� inclusive ganhar a elei��o, mas a cada dia que se passa voc� est� ficando mais perverso e intolerante com todas as pessoas que o cercam. Por que isso, Alberto? Por qu�?
           � Voc� est� me achando perverso e intolerante?
           � � evidente. Voc� viu como voc� foi capaz de tratar aquela pobre empregada esta tarde? Voc� se lembra de todas as atrocidades que vem praticando ultimamente aqui nesta casa? Ser� que se lembra? E daquele cachorro que voc� matou desnecessariamente, voc� se lembra?
           � Ih! J� vem voc� de novo com esta hist�ria de cachorro e querendo defender estes servi�ais cretinos e incompetentes.
           � N�o, voc� est� enganado, Alberto. Eu n�o estou em defesa de nenhum servi�al. O que estou tentando fazer � defender o que ainda resta do nosso relacionamento. H� tr�s anos que n�o tenho paz, voc� nunca mais foi o homem que eu aprendi a amar, a admirar. Voc� s� quer saciar seu apetite sexual e pronto. N�o me d� mais carinho e nem dos seus filhos voc� se elmbra mais. Eu acho que esta hist�ria de pol�tica mudou voc� demais, Alberto. Infelizmente voc� mudou para pior, voc� anda doente e obsecado com esta hist�ria.
           � Como posso ouvir isso? Como posso concordar com bobagens como estas? Voc�s t�m tudo o que querem nas m�os, tudo fruto do meu trabalho e suor, e ainda reclamam? Voc�s queriam que eu continuasse sendo aquele professorzinho assalariado que eu era antes? Queriam?
           � Sim, tenho certeza de que quer�amos. Ou voc� acha que este casar�o, dinheiro que n�o se sabe de onde flui t�o facilmente no banco e toda esta ostenta��o � tudo na vida, Alberto? Onde est� a alegria que t�nhamos? Onde est� a paz que t�nhamos? Onde est� o amor que voc� tinha pela nossa fam�lia? Pelos nossos filhos? Voc� ainda me ama, Alberto?
           � Mirtes, eu vou ser bem franco, faz algum tempo que eu me sinto muito estranho, eu n�o sei se amo nem a mim mesmo, quanto mais aos outros. Mas eu me sinto bem assim, me sinto livre, nada mais me amarra, entende?
           � N�o, eu n�o entendo. Ent�o, quer dizer que voc� n�o me ama mais?
           � Mirtes, eu n�o amo mais voc� nem ningu�m. Sinto que este sentimento est� longe do meu alcance.
           � H� outra mulher em sua vida, Alberto?
           � N�o, Mirtes. Voc� � e sempre foi a �nica mulher em minha vida.
           � Voc� n�o vai mudar este seu comportamento e nem me amar mais para manter a nossa rela��o?
           � Eu n�o tenho por que mudar nada. Agora sou um pol�tico de sucesso, aclamado pelas multid�es. Sou candidato a prefeito, estou empatado em segundo lugar nas pesquisas de opini�o e tenho certeza de que, depois dos primeiros debates, assumirei a dianteira da disputa. Mirtes, eu, Alberto Monteiro, seu marido, serei o prefeito de S�o Paulo, voc� ser� a primeira dama desta cidade, entendeu? Eu n�o sou mais um simples professor, Mirtes, a vida � assim. Gosto que seja assim.
           � Se os eleitores conhecessem as suas atitudes e o conhecessem de verdade. . .
           � Quem conhece quem de verdade, Mirtes? Nem a gente mesmo se conhece. O povo conhece o pol�tico Alberto Monteiro, o deputado estadural que clama por educa��o e progresso para a popula��o e isso basta, o cidad�o Alberto que eu era antes n�o interessa a ningu�m.
           � A mim interessa.
           � Eu n�o vou mudar em nada, Mirtes. Eu n�o quero mudar. Mudar para mim seria o mesmo que morrer. Eu consegui sucesso assim e tenho que continuar assim.
           � Ent�o, � definitivo, Alberto?
           � �.
           � Alberto, ent�o eu fico por aqui mesmo, deste jeito eu n�o quero seguir em frente com voc�. Providencie um advogado para tratar das nossas papeladas.
           � Se voc� deseja assim. . .
           � Quem desejou assim foi voc� e n�o eu.
           � Vou arrumar as minhas malas, Mirtes. Quando o dia amanhecer eu vou embora. O advogado vai acertar tudo, n�o vou deixar voc� nem as crian�as ao relento. Mas eu tamb�m acho que entre a gente n�o d� mais.
           Mirtes viu Alberto subir as escadas em dire��o ao quarto como se nada o tivesse abalado. Ela, no entanto, estava destruida por dentro. Havia algo misterioso naquele homem que o blindava de qualquer sentimento de bondade inerente aos cora��es humanos. Viu quando Alberto entrou no quarto, fechou a porta e apagou a luz, enquanto isso, sentiu que l�grimas fluiam-lhe abundantemente dos olhos e escorriam pelo seu rosto de fei��o triste e sofrida por um amor que depois de muitos anos chegava ao fim. N�o era exatamente o que ela queria, mas n�o poderia ser de outra forma, o marido parecia j� esperar por isso. Ela adormeceria por ali mesmo no sof� e ao acordar notaria que Alberto em sua vida agora era apenas uma lembran�a saudosa de tempos felizes eternizada em um retrato ao lado dela e dos filhos sobre o aparador da sala de visitas.


********
Hosted by www.Geocities.ws

1