Zélia Gattai (São Paulo, 2 de julho de 1916) é uma escritora brasileira, viúva do também escritor Jorge Amado.

Zélia participava, com a família, do movimento político-operário anarquista que tinha lugar entre os imigrantes italianos, espanhóis, portugueses, no início do século XX. Aos vinte anos, casou-se com Aldo Veiga. Deste casamento, que durou oito anos, teve um filho, Luís Carlos, nascido em São Paulo, em 1942.

Leitora entusiasta de Jorge Amado, Zélia Gattai o conheceu em 1945, quando trabalharam juntos no movimento pela anistia dos presos políticos. A união do casal deu-se poucos meses depois. A partir de então, Zélia Gattai trabalhou ao lado do marido, passando a limpo, à máquina, seus originais e o auxiliando no processo de revisão.

Em 1946, com a eleição de Jorge Amado para a Câmara Federal, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro, onde nasceu o filho João Jorge, em 1947. Um ano depois, com o Partido Comunista declarado ilegal, Jorge Amado perdeu o mandato, e a família teve que se exilar.

Viveram em Paris por três anos, período em que Zélia Gattai fez os cursos de civilização francesa, fonética e língua francesa na Sorbonne. De 1950 a 1952, a família viveu na Checoslováquia, onde nasceu a filha Paloma. Foi neste tempo de exílio que Zélia Gattai começou a fazer fotografias, tornando-se responsável pelo registro, em imagens, de cada um dos momentos importantes da vida do escritor baiano.


Despedida

Sobre nossa casa, de Jorge e minha, na rua Alagoinhas, 33, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador da Bahia, muito já se disse, muito se cantou. Citada em prosa e verso, sobra-me, no entanto, ainda o que dela falar.

Fico pensando se alcançarei escrever todas as histórias, tantas, de gente e de bichos que nela passaram nesses quarenta anos lá vividos.

Neste momento, quando me despeço do lugar onde passei o melhor tempo de minha vida, ao deixar Jorge repousando sob a mangueira por nós plantada no jardim, mil lembranças afloram-me à cabeça. Lembro-me de coisas que para muitos podem parecer tolas, mas que para mim não são.

Lembro-me, por exemplo, de duas mimosas lagartixas que viviam atrás de um quadro de Di Cavalcanti, acima da televisão da sala, e que tanto nos divertiram. Um belo dia elas apareceram, sem mais nem menos: uma toda rosada, quase transparente; a outra com listras escuras em volta do corpo. Jorge foi logo escolhendo: 'A zebrinha é minha.' A mais bonita, pois, ficou sendo a dele. A outra, que jeito? De dona Zélia.

Recostados em nossas poltronas, após o jantar, para assistir aos noticiários de TV, vimos, pela primeira vez, as duas saírem de seu esconderijo, uma atrás da outra, direto para uma lâmpada acesa, no alto, reduto de mosquitos e de bichinhos atraídos pela luz.

— Elas agora vão jantar — disse Jorge.

Dito e feito: as duas se aproximaram docemente da claridade, estancaram a uma pequena distância da lâmpada e, imóveis, na moita, só observando. De repente, o bote fatal foi desfechado e lá se foi um dos insetos para o bucho da lagartixa de Jorge. Diante do perigo, quem era de voar voou, quem era de correr, correu, lá se foram os bichinhos, não sobrou um pra remédio, o campo ficou limpo.

Estáticas, as duas sabidas aguardaram pacientes a volta das vítimas, que, inocentes, aos poucos foram criando coragem e se chegando para, ainda uma vez, cair na boca do lobo. Ainda uma vez o lobo foi a zebrinha, que, como num passe de mágica, abocanhou um mosquito. Encantado, Jorge ria de se acabar, provocando-me: 'A tua não é de nada!' Eu protestei e ele riu mais ainda.

Brincadeira boba, inocente, passou a ser nosso divertimento durante muitas e muitas noites, muitas e muitas noites voltamos à nossa infância.

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A busca e o encontro

Ao contrário do que imagináramos, não foi fácil encontrarmos um lugar ideal para morar na Bahia.

Finalmente, chegamos a essa casa em fins de 1961. Em realidade, não era propriamente essa casa, mas sim o local onde agora ela está.

A morada, em si, não era lá essas coisas, no estado em que se encontrava não nos servia. Para habitá-la, fazia-se necessário e urgente uma grande reforma. Situada no Rio Vermelho, bem no alto da rua Alagoinhas, apesar dos pesares, ela nos brindaria com esplêndida vista sobre o largo de Sant’Ana e do mar sem fim.

Os telegramas

Naquela época, os meios de comunicação eram precários, telefonemas interurbanos eram quase impossíveis. Falava-se com voz de longo alcance: 'Alô! Alô! Está me ouvindo? Eu não estou ouvindo nada! Fala mais alto!' Não havia paciência que aturasse depender de um telefonema. O jeito era passar telegramas.

Conservo ainda grande quantidade de telegramas da Western e de cabo submarino da Italcable, recebidos no Rio e em Salvador, enviados por Jorge de várias partes do mundo e, principalmente, da Bahia quando preparávamos a mudança. Abro um, por acaso: 'comprando segundo terreno teu nome presente natal stop quincas domina stop sigo 13 panair caravelle enviei carta ontem gripadissimo saudades beijos Jorge'.

Ainda no Rio, recebo um telegrama também chegado da Bahia: 'muro subindo jardim crescendo terrenos atrasados saudades beijos tu mamãe joão paloma segue carta Jorge'.

Terrenos alheios

Ficáramos sabendo, somente ao assinar a escritura do imóvel, que aquele terreno todo não pertencia à casa que compráramos, pois, além do nosso, havia quatro lotes de proprietários desconhecidos. Que fazer? Com facilidade, amigos nos convenceram a comprar o que julgáramos nos pertencer. Os proprietários nos venderiam com tranqüilidade, por bagatela, não tivéssemos a menor dúvida. Buscamos, desde então, localizar os donos dos lotes, que, segundo constava, era gente do interior. Demos o assunto como favas contadas e não nos afligimos. Mesmo assim, depois dessa descoberta, Jorge passou a viver mais em Salvador do que no Rio, para, com a ajuda de amigos, localizar os tais proprietários e entabular negociações com eles.

Eu ficava no Rio, cuidando da casa, dos velhos e das crianças, colaborando com Jorge, conseguindo o que ele me pedia através de cartas e telegramas enviados diariamente, pondo-me a par dos acontecimentos:

Apenas 24 horas ou pouco mais aqui e já te escrevo um pequeno relatório sobre os assuntos. [...] Agora, assunto por assunto: terrenos. Se já recebeste e leste uma carta de Luis Henrique deves ter compreendido o motivo de meu telegrama de ontem, apenas cheguei.

Passou-se o seguinte: veio o tal engenheiro do Parque Cruz Aguiar medir e localizar na minha ausência, o terreno do tal sr. Nobre (lote 12). Pela medição dele o lote 12 começa em nosso último terreno (uns quatro metros estariam dentro dele), e todo o lote 11, do homem de Camacã, estaria também dentro do nosso terreno, imagina tu o absurdo. Ele declarou enfaticamente que eu, ou melhor, o Benda, havia avançado em terrenos dos outros. Pergunta: e onde estão os lotes 7, 8, 9, e 10 que são os nossos? Pela medição dele, nós ficaríamos reduzidos a 2 lotes e pouco. É claro que isso é um erro ou, mais provavelmente, uma safadeza. Por isso necessito urgente dos documentos. Decidi, em relação a esse assunto, o seguinte, após conversar com o sr. Nobre: aguardar a chegada aqui de Pinto de Aguiar. Vou então conversar com ele para que ele mande liquidar esse assunto. A opinião do Luis Henrique, que conversou com o tal engenheiro, é que o tipo quer dinheiro. Meu, porém, ele não vai levar. Devo te dizer que esse assunto me preocupa pouco porque estamos com tudo legal, direito e claro, não haverá possibilidade de discussão sequer.

I — Terreno de Camacã: Chegou carta do homem dirigida a Moisés. Ele pede 700 contos à vista pelo terreno e resposta urgente dizendo ter outros interessados etc., a eterna conversa, mais um que quer fazer roça às minhas custas. É claro que não comprarei por esse preço. Pensei mandar-lhe, e possivelmente mandarei, um telegrama, assinado pelo banco Irmãos Guimarães, nos seguintes termos: Por 700 contos terreno não interessa absolutamente a J.A., ponto. Oferece nosso intermédio 450 contos e não sai dessa oferta em hipótese alguma, ponto. Responde telegrama (endereço banco) ponto. Caso tenha oferta 700 aconselhamos vender imediatamente, pois trata-se milagre, ponto, saudações. No entanto não mandei ainda o telegrama porque no escritório do Parque informaram que esse senhor de Camacã, por falta de pagamento das prestações, já perdeu o terreno que voltou novamente à posse da Companhia do Parque. Cheguei a tempo.

II — Obra: atrasada, bastante atrasada, aliás, como eu previa... Vou detalhar: a coisa é feita e refeita, duas e três vezes. Ademais: os tijolos do piso ainda não chegaram, os azulejos impossível de encontrá-los, houve complicações com os ferros para as grades, foi necessário esperar que chegassem do Sul alguns ferros para a grade. Portão: metade pronto. A maior beleza que possas imaginar. Serviço de alvenaria: praticamente pronto. Telhado atrasado, mas ficando belíssimo. Enfim, atraso grande, mas perspectiva de grande beleza. Estão trabalhando à noite. Estou tratando de intensificar o ritmo de trabalho.

III — Jardim: bem, as plantas crescendo. Tudo que está próximo à casa sofrendo muito com as obras, poeira, lascas de madeira, pés de operários etc. Esse jardim, se não der uma praga vai ficar uma beleza. Daqui a dez anos, já mais velhotes, os filhos pelo mundo, gozaremos os dois a sombra das árvores agora plantadas. Não sei se é uma perspectiva brilhante, mas é repousante, creio.

Agora, o meu trabalho que é o que mais me interessa: continuo a quebrar a cabeça e por vezes fico como me viste por ocasião do começo de Gabriela. No entanto creio ter finalmente encontrado o caminho e vou me tocar. Até agora é a luta. Mas, tu o sabes, a gente sempre termina por encontrar a saída.

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Os amigos

Entusiasmados com a vinda de Jorge para Salvador, os amigos, artistas e não artistas, alguns deles residentes no próprio Rio Vermelho, ofereceram seus préstimos. Colaborariam para transformar o que era feio em bonito, num recanto aprazível que prenderia o amigo para sempre na terra.

Da casa apenas o nome era simpático: 'Sonata' — não tivesse ela pertencido a um músico, o pianista Sebastian Benda, professor contratado do Seminário de Música da Universidade Federal da Bahia...

A casa de Lúcia e Mário Cravo era a primeira da avenida Garibaldi — mesmo sendo a primeira casa da rua, seu número era 655. Na oficina ao lado, instalada num enorme terreno, com forja, maçarico e imaginação criadora, o escultor realizava seus trabalhos e reunia-se à noite com os amigos. Nesses encontros, em meio a grandes bate-papos e gaitadas, quando as vozes elevadas podiam ser ouvidas pelo bairro todo, os amigos discutiam a reforma de nossa casa.

Lá estavam, entre outros artistas, Carybé, o mais entusiasta, Jenner Augusto, Lev Smarcevsky, Mirabeau Sampaio e um jovem arquiteto considerado por todos promissor em seu ofício: Gilberbert Chaves. A Gilberbert, pois, foi dada a incumbência de estudar e executar um projeto sobre o que poderia ser feito.

O projeto nos agradou e, mais do que isso, entusiasmou a todos. Da casa que compráramos, poucas paredes restariam de pé.

Morávamos ainda no Rio de Janeiro e, em nossa ausência, a obra iniciada ficou sob a batuta de nossos amigos baianos, que, sempre em contato conosco, davam notícias do andamento dos trabalhos. Assim mesmo voltamos à Bahia várias vezes, sobretudo Jorge, que, depois de ter descoberto, como já foi dito, o problema dos terrenos — que eram e não eram nossos —, passou a viver mais em Salvador do que no Rio, a fim de resolver o assunto.

O olho do dono

Quase três anos haviam se passado desde o início da obra e muitos operários ainda trabalhavam nos acabamentos da casa. Cansado de andar para cima e para baixo, Jorge não quis esperar mais, pois, segundo ele, se não nos mudássemos, os trabalhos não terminariam nunca: 'O olho do dono é que engorda o rebanho', ria, repetindo o conhecido provérbio.

Ditadura militar

Finalmente, em fins de 1963, nos mudamos definitivamente para a Bahia. Havíamos passado duas temporadas de férias com as crianças na casa ainda por terminar, mas agora chegávamos com armas e bagagens — mudança feita num clima tenso, perigo de retrocesso democrático, quando circulavam rumores de um golpe militar ameaçando derrubar o presidente da República, João Goulart.

Não resistindo ao processo de sublevação iniciado no país, para evitar derramamento de sangue, João Goulart partiu, refugiando-se no Uruguai.

A 1º de abril de 1964, os militares do golpe declararam vago o cargo de presidente da República, que, 15 dias após, seria ocupado pelo marechal Castello Branco.

Saíramos do Rio em busca de tranqüilidade e, agora, ainda uma ditadura militar vinha nos atormentar, nos roubar a paz.

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A estrela

Minha mãe costumava dizer que eu era uma pessoa de sorte: 'Ela nasceu com a estrela', repetia sempre com a maior convicção. Eu achava que mamãe apenas sonhava, pois eu sempre lutara, mas nem sempre conseguira o meu intento.

Conheci Jorge Amado, pessoalmente, em 1945, e em seguida me apaixonei por ele. Por um amigo em comum, Paulo Mendes de Almeida, soube que Jorge lhe falara de seu interesse por mim: 'Ao ver Zélia, arriei bandeira, pedi paz. Ela ainda não sabe, mas vou me casar com ela.' Desde então, passei a acreditar na estrela que dona Angelina descobrira para proteger sua filha.

Ainda uma vez, fiquei achando que a tal estrela devia existir, ao conhecer Norma Sampaio e nos tornarmos amigas. Norma era mulher de Mirabeau Sampaio, amigo de Jorge, colegas dos tempos do Colégio Antonio Vieira.

Pessoa da melhor qualidade, alegre e inteligente, foi Norma quem clareou meus caminhos quando, sem conhecer os costumes da terra, cheguei à Bahia para ficar. Sempre pronta a mostrar-me a cidade, a indicar-me seus atalhos e seus mistérios, Norma e eu nos tornamos amigas.

Naquele tempo, a vida de uma dona-de-casa em Salvador não era fácil. Para abastecer a geladeira era preciso bater pernas por toda parte, ir ao mercado de Água de Meninos — hoje São Joaquim — e chafurdar os pés na lama para comprar frutas e alguns raros legumes que em outra parte não encontraria.

Durante algum tempo, enquanto me faltavam os contatos necessários para o bom andamento da casa, tive sempre Norma me acompanhando às compras, apresentando-me a este e àquele, sobretudo aos barraqueiros do mercado, de feiras livres, todos eles seus conhecidos ou camaradinhos, como ela costumava dizer.

Seguindo os impulsos e as fantasias de minha amiga, eu fazia coisas que, sem os seus conselhos e seu entusiasmo, jamais faria. Por exemplo, acompanhei-a num curso de bordados à máquina, lá nos confins da Cidade Baixa, aonde íamos de ônibus, curso que nos custou sacrifício, nos divertiu um pouco, isso é verdade, mas nunca nos foi útil.

Depois dos bordados à máquina — aos quais nem ela e nem eu jamais nos dedicamos —, Norma descobriu umas aulas de ikebana, dadas por uma japonesa vinda de São Paulo. Dessa vez, com satisfação, deixei-me levar pela amiga, nos inscrevemos e nos tocamos para o tal curso de arranjos florais. Dessas aulas eu gostei e, até hoje, algumas vezes me sirvo do que aprendi.

As crianças e seus amigos

Nossos filhos estudavam no Colégio Estadual Manuel Devoto, escola pública, onde tiveram a oportunidade de conviver com crianças de todas as camadas sociais, coisa boa para a sua formação. Filhos de Norma e Mirabeau, Maria e Arthur logo se enturmaram com João Jorge e Paloma e são amigos até hoje. Não custou a João fazer amizades no colégio e fora dele. Com os mais íntimos — Mariozinho Cravo, Arthur Sampaio, José Luiz Penna, Cláudio Dortas, entre outros —, todos ótimos meninos, João tinha sempre seus programas. Paloma se enturmou com Balbina, filha de nossos amigos Dorothy e Moisés Alves, fazendeiros de cacau. Yeda, sobrinha de Moisés, que morava com os tios, pouco mais velha que as duas meninas, era ótima companhia. Sue Safira, Ediane Lobão e Kátia Badaró, íntimas de Paloma, eram as que mais freqüentavam nossa casa. Juntos, meninos e meninas, a turma toda, cada dia aumentada, saía à noite para programas inocentes, nos deixando sem preocupações. Cada vez mais, Jorge e eu nos sentíamos satisfeitos da decisão tomada, a da mudança para a Bahia, onde acreditávamos que o perigo da droga ainda não existisse.

Violência

Apesar dos desmandos da ditadura militar instalada no país, Jorge ainda não fora molestado pessoalmente. Sabíamos de batidas policiais em casas de conhecidos nossos, sendo que uma das razões que os incriminava era possuírem livros de Jorge Amado. A opinião geral era que, sendo Jorge um escritor conhecido internacionalmente, os militares da ditadura não se atreveriam a molestá-lo diretamente.

Nossa casa era movimentada, recebíamos amigos nossos e das crianças. Das crianças é modo de dizer, pois o tempo passa, os filhos crescem e nós continuamos a chamá-los de crianças.

João já era aluno da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia quando os beleguins da ditadura o cobriram de pancada.

Além de cursar a faculdade, João trabalhava no Teatro Castro Alves. A serviço do teatro, ia ele, um dia, à redação do jornal A Tarde, na ocasião situada na praça Castro Alves. Ao chegar à praça, João se deparou com uma manifestação estudantil. Mesmo ignorando as reivindicações do movimento, sentiu-se solidário. Ao mesmo tempo que ele, chegavam caminhões repletos de policiais que, de cassetete em punho, iam saltando e atacando, sem dó nem piedade, os jovens que encontravam pela frente.

João nem chegou a participar do movimento, mas não escapou dos violentos golpes que o atiraram ao chão, tirando-lhe sangue.

Todo machucado, cheio de vergões pelo corpo, João subiu para a redação de A Tarde, onde foi fotografado, foto que ilustrou a matéria do jornal no dia seguinte. A nota, claro, foi censurada como tudo o que era publicado naqueles tempos de ditadura; porém, a fotografia mostrando as marcas de sangue impressionou e irritou não apenas amigos nossos, como também pessoas de posições políticas opostas à nossa. Até desses tivemos visitas de solidariedade. 'Temerosos de tocar em mim eles me agridem, agredindo meu menino', dizia Jorge, revoltado, a quem quisesse ouvi-lo.


Nós, por exemplo

Surgia em Salvador um grupo de jovens cantores, músicos e compositores que costumava se exibir no Teatro Vila Velha: Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gracinha — Maria das Graças —, hoje Gal Costa. Nós, por exemplo foi o primeiro show apresentado por eles.

João, Paloma e sua turma eram fãs dos novos artistas e não perdiam um espetáculo. Saíam logo cedo de casa para conseguir onde sentar, pois nessas noites a lotação esgotava.

Naquele domingo, o pôquer semanal seria na casa de Mirabeau. Os parceiros para as rodadas eram quase sempre os mesmos: Jorge, Ives Palermo, Mecenas Marcos, Negro Batista, Alexandre Robato, Odorico Tavares, Giovanni Guimarães e outros. Quando ninguém falhava e sobravam parceiros, como, por exemplo, Di Cavalcanti e Giovanna Bonino, vindos do Rio com freqüência — chamados com muita graça, por Mirabeau, de capital estrangeiro —, eles faziam duas mesas. Em geral, enquanto os homens se entregavam ao pôquer, as esposas — Norma, Êmina Palermo, Josette Marcos, Estela Robato, eu e Nancy — jogávamos buraco ou bigorrilho. Carybé era o único a não participar dos jogos. Ia para acompanhar Nancy, parceira certa do carteado feminino, e ficava dando palpites, distraindo-se a fazer caricaturas de todo mundo.

Jovens artistas

Maria Bethânia e seu grupo cantariam no Vila Velha e os meninos pediram para jantar mais cedo, queriam ir ao teatro. Resolvi acompanhá-los. Combinei com Norma, nos juntamos aos nossos filhos e fomos também.

Chegamos cedo e já encontramos o teatro repleto. A custo, conseguimos um lugarzinho para sentar.

Maria Bethânia, com sua voz quente, emocionante, cantou e o teatro quase veio abaixo. Caetano, voz morna e suave, outro sucesso, Gilberto Gil com sua graça e picardia, um delírio; Gracinha, com sua voz fluente, de límpida melodia, levantou a platéia.

— Vou ficar freguesa — disse a Norma —, e, se duvidar, da próxima vez trago Jorge. Garanto que ele vai adorar.

— Tomara! — disse ela. — Tomara que Jorge venha e convença Mirabeau a vir, mas eu duvido.

Voltamos ao Vila Velha dias depois. Desta vez, com Jorge. Como Norma previra, Mirabeau não foi e, como eu previra, Jorge adorou os meninos. Gostou tanto que, depois do espetáculo, ele, que detestava aglomerações, meteu-se no empurra-empurra, na confusão de pessoas que, como ele, queriam abraçar os artistas. Ele não só queria abraçá-los, como também convidá-los a aparecer em nossa casa. Eles vieram e, para esses jovens, simpáticos e talentosos, nossas portas estiveram sempre abertas. Admirador de Caetano, de sua sensibilidade, de suas composições, Jorge chegou a compará-lo a Castro Alves.

Cantores populares

Compositores e cantores populares, como Tião Motorista e Riachão, apareciam em casa com a turma de João Jorge e cantavam. Jorge riu a valer ao ouvir certa composição de Tião Motorista que dizia:

Na casa de Jorge Amado
lugar bom pra se sambar
se samba de dia e de noite
até ver o sol raiar...

Jorge achou graça e eu também, da imaginação de Tião ao inventar que em nossa casa se sambava 'de dia e de noite, até ver o sol raiar'.

Riachão vez ou outra aparecia, com sua indefectível toalha no pescoço, e nos encantava improvisando uma picaresca dancinha para acompanhar sua cantiga: 'Xô, xuá, cada macaco no seu galho.'

João Ubaldo Ribeiro, jovem intelectual que freqüentava nossa casa nos encontros matinais aos domingos, era o preferido de Jorge, que dele esperava grandes surpresas literárias. Muito animado, João Ubaldo alegrava nossas reuniões, cantando e batucando mas jamais dançando.

Glauber Rocha

Ainda um jovem talento, cineasta em quem Jorge apostava e dedicava grande carinho era Glauber Rocha. Glauber já não morava na Bahia quando nos mudamos para cá, mas nunca perdeu o contato conosco. Sempre que vinha a Salvador, mesmo que fosse por pouco tempo, não deixava de procurar o amigo querido, 'meu irmão, meu pai, meu mestre' — assim costumava dizer. Vinha falar de seus projetos, passava horas abrindo seu coração.

Com Glauber estivemos em Paris e em Portugal.

Foi num hospital de Lisboa que, com João Ubaldo Ribeiro e Raimundo Fagner, nos despedimos do 'menino gênio', amigo querido, e o vimos pela última vez quando partiu para sempre.

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O pato

Recordou-me há dias Auta Rosa — que, com seu marido, o artista plástico, Calasans Neto, nos acompanhou em andanças por esse mundo de Deus — a história do pato:

— Por onde é que anda aquele pato?

— Que pato, Auta? — eu já nem me lembrava do fato.

Rimos juntas ao reviver o caso: estávamos em Paris às vésperas do aniversário de Jorge. Pela manhã, antes de sair do hotel, olhando o monte de embrulhos a serem acomodados nas malas, eu lhe fiz um apelo:

— Por favor, Jorge, não vamos comprar mais nada, já compramos demais, nem sei onde acomodar tanta coisa. Lá em casa também já está tudo entupido de objetos, estantes e armários transbordando... Promete que não vai comprar mais nada?

Jorge riu:

— Está bem, minha pequenininha... A não ser que...

Diante de uma loja próxima ao nosso hotel, surgiu a tentação. Um pato preto, peito branco, listras claras à guisa de penas das asas, sobressaía entre outros objetos:

— Vejam só que pato mais lindo! — exclamou Jorge, encantado. — Sem este pato a minha vida não terá mais a mínima significação — suspirou —, já não posso viver sem ele.

Levantei o pato.

— É pesado como o quê! — disse eu, demonstrando sutilmente o meu desejo de que a peça não fosse comprada.

Jorge foi andando e eu o segui, morta de remorso, sentindo-me a própria megera repressora que limitava o marido, coitadinho, impedindo-o de realizar um desejo inocente.

Nessa mesma tarde, enquanto o 'coitadinho' tirava uma soneca depois do almoço, eu não resisti, corri à loja e comprei o pato. Escondi-o no quarto dos Calasans e só no dia do aniversário de Jorge o trouxe para o meu. Estendi ao aniversariante o presente, já desembrulhado para causar maior impacto:

— Parabéns, meu amor! Aqui está teu pato!

— Então, foi você, sua peste? — disse ele, rindo, ao me abraçar e beijar.

Sem que eu soubesse, Jorge voltara à loja para comprar o bendito pato, mas chegara tarde demais, já o haviam levado.

O herói desta história, já um pouco desbotado e esfolado pelo tempo, encontra-se entre os objetos de nossa coleção, no terraço.

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Zélia Gathai

Falando Sério - Maurício Manieri - NL2002



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