Zélia Gattai
(São Paulo, 2 de julho de 1916) é uma escritora
brasileira, viúva do também escritor Jorge
Amado.
Zélia participava,
com a família, do movimento político-operário
anarquista que tinha lugar entre os imigrantes italianos,
espanhóis, portugueses, no início do século
XX. Aos vinte anos, casou-se com Aldo Veiga. Deste casamento,
que durou oito anos, teve um filho, Luís Carlos,
nascido em São Paulo, em 1942.
Leitora entusiasta de
Jorge Amado, Zélia Gattai o conheceu em 1945, quando
trabalharam juntos no movimento pela anistia dos presos
políticos. A união do casal deu-se poucos
meses depois. A partir de então, Zélia Gattai
trabalhou ao lado do marido, passando a limpo, à
máquina, seus originais e o auxiliando no processo
de revisão.
Em 1946, com a eleição
de Jorge Amado para a Câmara Federal, o casal mudou-se
para o Rio de Janeiro, onde nasceu o filho João Jorge,
em 1947. Um ano depois, com o Partido Comunista declarado
ilegal, Jorge Amado perdeu o mandato, e a família
teve que se exilar.
Viveram em Paris por
três anos, período em que Zélia Gattai
fez os cursos de civilização francesa, fonética
e língua francesa na Sorbonne. De 1950 a 1952, a
família viveu na Checoslováquia, onde nasceu
a filha Paloma. Foi neste tempo de exílio que Zélia
Gattai começou a fazer fotografias, tornando-se responsável
pelo registro, em imagens, de cada um dos momentos importantes
da vida do escritor baiano.
Despedida
Sobre nossa casa, de
Jorge e minha, na rua Alagoinhas, 33, no bairro do Rio Vermelho,
em Salvador da Bahia, muito já se disse, muito se
cantou. Citada em prosa e verso, sobra-me, no entanto, ainda
o que dela falar.
Fico pensando se alcançarei
escrever todas as histórias, tantas, de gente e de
bichos que nela passaram nesses quarenta anos lá
vividos.
Neste momento, quando
me despeço do lugar onde passei o melhor tempo de
minha vida, ao deixar Jorge repousando sob a mangueira por
nós plantada no jardim, mil lembranças afloram-me
à cabeça. Lembro-me de coisas que para muitos
podem parecer tolas, mas que para mim não são.
Lembro-me, por exemplo,
de duas mimosas lagartixas que viviam atrás de um
quadro de Di Cavalcanti, acima da televisão da sala,
e que tanto nos divertiram. Um belo dia elas apareceram,
sem mais nem menos: uma toda rosada, quase transparente;
a outra com listras escuras em volta do corpo. Jorge foi
logo escolhendo: 'A zebrinha é minha.' A mais bonita,
pois, ficou sendo a dele. A outra, que jeito? De dona Zélia.
Recostados em nossas
poltronas, após o jantar, para assistir aos noticiários
de TV, vimos, pela primeira vez, as duas saírem de
seu esconderijo, uma atrás da outra, direto para
uma lâmpada acesa, no alto, reduto de mosquitos e
de bichinhos atraídos pela luz.
Elas agora vão
jantar disse Jorge.
Dito e feito: as duas
se aproximaram docemente da claridade, estancaram a uma
pequena distância da lâmpada e, imóveis,
na moita, só observando. De repente, o bote fatal
foi desfechado e lá se foi um dos insetos para o
bucho da lagartixa de Jorge. Diante do perigo, quem era
de voar voou, quem era de correr, correu, lá se foram
os bichinhos, não sobrou um pra remédio, o
campo ficou limpo.
Estáticas, as
duas sabidas aguardaram pacientes a volta das vítimas,
que, inocentes, aos poucos foram criando coragem e se chegando
para, ainda uma vez, cair na boca do lobo. Ainda uma vez
o lobo foi a zebrinha, que, como num passe de mágica,
abocanhou um mosquito. Encantado, Jorge ria de se acabar,
provocando-me: 'A tua não é de nada!' Eu protestei
e ele riu mais ainda.
Brincadeira boba, inocente,
passou a ser nosso divertimento durante muitas e muitas
noites, muitas e muitas noites voltamos à nossa infância.
trecho.......
A busca e o encontro
Ao contrário
do que imagináramos, não foi fácil
encontrarmos um lugar ideal para morar na Bahia.
Finalmente, chegamos
a essa casa em fins de 1961. Em realidade, não era
propriamente essa casa, mas sim o local onde agora ela está.
A morada, em si, não
era lá essas coisas, no estado em que se encontrava
não nos servia. Para habitá-la, fazia-se necessário
e urgente uma grande reforma. Situada no Rio Vermelho, bem
no alto da rua Alagoinhas, apesar dos pesares, ela nos brindaria
com esplêndida vista sobre o largo de SantAna
e do mar sem fim.
Os telegramas
Naquela época,
os meios de comunicação eram precários,
telefonemas interurbanos eram quase impossíveis.
Falava-se com voz de longo alcance: 'Alô! Alô!
Está me ouvindo? Eu não estou ouvindo nada!
Fala mais alto!' Não havia paciência que aturasse
depender de um telefonema. O jeito era passar telegramas.
Conservo ainda grande
quantidade de telegramas da Western e de cabo submarino
da Italcable, recebidos no Rio e em Salvador, enviados por
Jorge de várias partes do mundo e, principalmente,
da Bahia quando preparávamos a mudança. Abro
um, por acaso: 'comprando segundo terreno teu nome presente
natal stop quincas domina stop sigo 13 panair caravelle
enviei carta ontem gripadissimo saudades beijos Jorge'.
Ainda no Rio, recebo
um telegrama também chegado da Bahia: 'muro subindo
jardim crescendo terrenos atrasados saudades beijos tu mamãe
joão paloma segue carta Jorge'.
Terrenos alheios
Ficáramos sabendo,
somente ao assinar a escritura do imóvel, que aquele
terreno todo não pertencia à casa que compráramos,
pois, além do nosso, havia quatro lotes de proprietários
desconhecidos. Que fazer? Com facilidade, amigos nos convenceram
a comprar o que julgáramos nos pertencer. Os proprietários
nos venderiam com tranqüilidade, por bagatela, não
tivéssemos a menor dúvida. Buscamos, desde
então, localizar os donos dos lotes, que, segundo
constava, era gente do interior. Demos o assunto como favas
contadas e não nos afligimos. Mesmo assim, depois
dessa descoberta, Jorge passou a viver mais em Salvador
do que no Rio, para, com a ajuda de amigos, localizar os
tais proprietários e entabular negociações
com eles.
Eu ficava no Rio, cuidando
da casa, dos velhos e das crianças, colaborando com
Jorge, conseguindo o que ele me pedia através de
cartas e telegramas enviados diariamente, pondo-me a par
dos acontecimentos:
Apenas 24 horas ou pouco
mais aqui e já te escrevo um pequeno relatório
sobre os assuntos. [...] Agora, assunto por assunto: terrenos.
Se já recebeste e leste uma carta de Luis Henrique
deves ter compreendido o motivo de meu telegrama de ontem,
apenas cheguei.
Passou-se o seguinte:
veio o tal engenheiro do Parque Cruz Aguiar medir e localizar
na minha ausência, o terreno do tal sr. Nobre (lote
12). Pela medição dele o lote 12 começa
em nosso último terreno (uns quatro metros estariam
dentro dele), e todo o lote 11, do homem de Camacã,
estaria também dentro do nosso terreno, imagina tu
o absurdo. Ele declarou enfaticamente que eu, ou melhor,
o Benda, havia avançado em terrenos dos outros. Pergunta:
e onde estão os lotes 7, 8, 9, e 10 que são
os nossos? Pela medição dele, nós ficaríamos
reduzidos a 2 lotes e pouco. É claro que isso é
um erro ou, mais provavelmente, uma safadeza. Por isso necessito
urgente dos documentos. Decidi, em relação
a esse assunto, o seguinte, após conversar com o
sr. Nobre: aguardar a chegada aqui de Pinto de Aguiar. Vou
então conversar com ele para que ele mande liquidar
esse assunto. A opinião do Luis Henrique, que conversou
com o tal engenheiro, é que o tipo quer dinheiro.
Meu, porém, ele não vai levar. Devo te dizer
que esse assunto me preocupa pouco porque estamos com tudo
legal, direito e claro, não haverá possibilidade
de discussão sequer.
I Terreno de
Camacã: Chegou carta do homem dirigida a Moisés.
Ele pede 700 contos à vista pelo terreno e resposta
urgente dizendo ter outros interessados etc., a eterna conversa,
mais um que quer fazer roça às minhas custas.
É claro que não comprarei por esse preço.
Pensei mandar-lhe, e possivelmente mandarei, um telegrama,
assinado pelo banco Irmãos Guimarães, nos
seguintes termos: Por 700 contos terreno não interessa
absolutamente a J.A., ponto. Oferece nosso intermédio
450 contos e não sai dessa oferta em hipótese
alguma, ponto. Responde telegrama (endereço banco)
ponto. Caso tenha oferta 700 aconselhamos vender imediatamente,
pois trata-se milagre, ponto, saudações. No
entanto não mandei ainda o telegrama porque no escritório
do Parque informaram que esse senhor de Camacã, por
falta de pagamento das prestações, já
perdeu o terreno que voltou novamente à posse da
Companhia do Parque. Cheguei a tempo.
II Obra: atrasada,
bastante atrasada, aliás, como eu previa... Vou detalhar:
a coisa é feita e refeita, duas e três vezes.
Ademais: os tijolos do piso ainda não chegaram, os
azulejos impossível de encontrá-los, houve
complicações com os ferros para as grades,
foi necessário esperar que chegassem do Sul alguns
ferros para a grade. Portão: metade pronto. A maior
beleza que possas imaginar. Serviço de alvenaria:
praticamente pronto. Telhado atrasado, mas ficando belíssimo.
Enfim, atraso grande, mas perspectiva de grande beleza.
Estão trabalhando à noite. Estou tratando
de intensificar o ritmo de trabalho.
III Jardim: bem,
as plantas crescendo. Tudo que está próximo
à casa sofrendo muito com as obras, poeira, lascas
de madeira, pés de operários etc. Esse jardim,
se não der uma praga vai ficar uma beleza. Daqui
a dez anos, já mais velhotes, os filhos pelo mundo,
gozaremos os dois a sombra das árvores agora plantadas.
Não sei se é uma perspectiva brilhante, mas
é repousante, creio.
Agora, o meu trabalho
que é o que mais me interessa: continuo a quebrar
a cabeça e por vezes fico como me viste por ocasião
do começo de Gabriela. No entanto creio ter finalmente
encontrado o caminho e vou me tocar. Até agora é
a luta. Mas, tu o sabes, a gente sempre termina por encontrar
a saída.
trecho..............
Os amigos
Entusiasmados com a
vinda de Jorge para Salvador, os amigos, artistas e não
artistas, alguns deles residentes no próprio Rio
Vermelho, ofereceram seus préstimos. Colaborariam
para transformar o que era feio em bonito, num recanto aprazível
que prenderia o amigo para sempre na terra.
Da casa apenas o nome
era simpático: 'Sonata' não tivesse
ela pertencido a um músico, o pianista Sebastian
Benda, professor contratado do Seminário de Música
da Universidade Federal da Bahia...
A casa de Lúcia
e Mário Cravo era a primeira da avenida Garibaldi
mesmo sendo a primeira casa da rua, seu número
era 655. Na oficina ao lado, instalada num enorme terreno,
com forja, maçarico e imaginação criadora,
o escultor realizava seus trabalhos e reunia-se à
noite com os amigos. Nesses encontros, em meio a grandes
bate-papos e gaitadas, quando as vozes elevadas podiam ser
ouvidas pelo bairro todo, os amigos discutiam a reforma
de nossa casa.
Lá estavam, entre
outros artistas, Carybé, o mais entusiasta, Jenner
Augusto, Lev Smarcevsky, Mirabeau Sampaio e um jovem arquiteto
considerado por todos promissor em seu ofício: Gilberbert
Chaves. A Gilberbert, pois, foi dada a incumbência
de estudar e executar um projeto sobre o que poderia ser
feito.
O projeto nos agradou
e, mais do que isso, entusiasmou a todos. Da casa que compráramos,
poucas paredes restariam de pé.
Morávamos ainda
no Rio de Janeiro e, em nossa ausência, a obra iniciada
ficou sob a batuta de nossos amigos baianos, que, sempre
em contato conosco, davam notícias do andamento dos
trabalhos. Assim mesmo voltamos à Bahia várias
vezes, sobretudo Jorge, que, depois de ter descoberto, como
já foi dito, o problema dos terrenos que eram
e não eram nossos , passou a viver mais em
Salvador do que no Rio, a fim de resolver o assunto.
O olho do dono
Quase três anos
haviam se passado desde o início da obra e muitos
operários ainda trabalhavam nos acabamentos da casa.
Cansado de andar para cima e para baixo, Jorge não
quis esperar mais, pois, segundo ele, se não nos
mudássemos, os trabalhos não terminariam nunca:
'O olho do dono é que engorda o rebanho', ria, repetindo
o conhecido provérbio.
Ditadura militar
Finalmente, em fins
de 1963, nos mudamos definitivamente para a Bahia. Havíamos
passado duas temporadas de férias com as crianças
na casa ainda por terminar, mas agora chegávamos
com armas e bagagens mudança feita num clima
tenso, perigo de retrocesso democrático, quando circulavam
rumores de um golpe militar ameaçando derrubar o
presidente da República, João Goulart.
Não resistindo
ao processo de sublevação iniciado no país,
para evitar derramamento de sangue, João Goulart
partiu, refugiando-se no Uruguai.
A 1º de abril de
1964, os militares do golpe declararam vago o cargo de presidente
da República, que, 15 dias após, seria ocupado
pelo marechal Castello Branco.
Saíramos do Rio
em busca de tranqüilidade e, agora, ainda uma ditadura
militar vinha nos atormentar, nos roubar a paz.
trecho............
A estrela
Minha mãe costumava
dizer que eu era uma pessoa de sorte: 'Ela nasceu com a
estrela', repetia sempre com a maior convicção.
Eu achava que mamãe apenas sonhava, pois eu sempre
lutara, mas nem sempre conseguira o meu intento.
Conheci Jorge Amado,
pessoalmente, em 1945, e em seguida me apaixonei por ele.
Por um amigo em comum, Paulo Mendes de Almeida, soube que
Jorge lhe falara de seu interesse por mim: 'Ao ver Zélia,
arriei bandeira, pedi paz. Ela ainda não sabe, mas
vou me casar com ela.' Desde então, passei a acreditar
na estrela que dona Angelina descobrira para proteger sua
filha.
Ainda uma vez, fiquei
achando que a tal estrela devia existir, ao conhecer Norma
Sampaio e nos tornarmos amigas. Norma era mulher de Mirabeau
Sampaio, amigo de Jorge, colegas dos tempos do Colégio
Antonio Vieira.
Pessoa da melhor qualidade,
alegre e inteligente, foi Norma quem clareou meus caminhos
quando, sem conhecer os costumes da terra, cheguei à
Bahia para ficar. Sempre pronta a mostrar-me a cidade, a
indicar-me seus atalhos e seus mistérios, Norma e
eu nos tornamos amigas.
Naquele tempo, a vida
de uma dona-de-casa em Salvador não era fácil.
Para abastecer a geladeira era preciso bater pernas por
toda parte, ir ao mercado de Água de Meninos
hoje São Joaquim e chafurdar os pés
na lama para comprar frutas e alguns raros legumes que em
outra parte não encontraria.
Durante algum tempo,
enquanto me faltavam os contatos necessários para
o bom andamento da casa, tive sempre Norma me acompanhando
às compras, apresentando-me a este e àquele,
sobretudo aos barraqueiros do mercado, de feiras livres,
todos eles seus conhecidos ou camaradinhos, como ela costumava
dizer.
Seguindo os impulsos
e as fantasias de minha amiga, eu fazia coisas que, sem
os seus conselhos e seu entusiasmo, jamais faria. Por exemplo,
acompanhei-a num curso de bordados à máquina,
lá nos confins da Cidade Baixa, aonde íamos
de ônibus, curso que nos custou sacrifício,
nos divertiu um pouco, isso é verdade, mas nunca
nos foi útil.
Depois dos bordados
à máquina aos quais nem ela e nem eu
jamais nos dedicamos , Norma descobriu umas aulas
de ikebana, dadas por uma japonesa vinda de São Paulo.
Dessa vez, com satisfação, deixei-me levar
pela amiga, nos inscrevemos e nos tocamos para o tal curso
de arranjos florais. Dessas aulas eu gostei e, até
hoje, algumas vezes me sirvo do que aprendi.
As crianças e
seus amigos
Nossos filhos estudavam
no Colégio Estadual Manuel Devoto, escola pública,
onde tiveram a oportunidade de conviver com crianças
de todas as camadas sociais, coisa boa para a sua formação.
Filhos de Norma e Mirabeau, Maria e Arthur logo se enturmaram
com João Jorge e Paloma e são amigos até
hoje. Não custou a João fazer amizades no
colégio e fora dele. Com os mais íntimos
Mariozinho Cravo, Arthur Sampaio, José Luiz Penna,
Cláudio Dortas, entre outros , todos ótimos
meninos, João tinha sempre seus programas. Paloma
se enturmou com Balbina, filha de nossos amigos Dorothy
e Moisés Alves, fazendeiros de cacau. Yeda, sobrinha
de Moisés, que morava com os tios, pouco mais velha
que as duas meninas, era ótima companhia. Sue Safira,
Ediane Lobão e Kátia Badaró, íntimas
de Paloma, eram as que mais freqüentavam nossa casa.
Juntos, meninos e meninas, a turma toda, cada dia aumentada,
saía à noite para programas inocentes, nos
deixando sem preocupações. Cada vez mais,
Jorge e eu nos sentíamos satisfeitos da decisão
tomada, a da mudança para a Bahia, onde acreditávamos
que o perigo da droga ainda não existisse.
Violência
Apesar dos desmandos
da ditadura militar instalada no país, Jorge ainda
não fora molestado pessoalmente. Sabíamos
de batidas policiais em casas de conhecidos nossos, sendo
que uma das razões que os incriminava era possuírem
livros de Jorge Amado. A opinião geral era que, sendo
Jorge um escritor conhecido internacionalmente, os militares
da ditadura não se atreveriam a molestá-lo
diretamente.
Nossa casa era movimentada,
recebíamos amigos nossos e das crianças. Das
crianças é modo de dizer, pois o tempo passa,
os filhos crescem e nós continuamos a chamá-los
de crianças.
João já
era aluno da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal
da Bahia quando os beleguins da ditadura o cobriram de pancada.
Além de cursar
a faculdade, João trabalhava no Teatro Castro Alves.
A serviço do teatro, ia ele, um dia, à redação
do jornal A Tarde, na ocasião situada na praça
Castro Alves. Ao chegar à praça, João
se deparou com uma manifestação estudantil.
Mesmo ignorando as reivindicações do movimento,
sentiu-se solidário. Ao mesmo tempo que ele, chegavam
caminhões repletos de policiais que, de cassetete
em punho, iam saltando e atacando, sem dó nem piedade,
os jovens que encontravam pela frente.
João nem chegou
a participar do movimento, mas não escapou dos violentos
golpes que o atiraram ao chão, tirando-lhe sangue.
Todo machucado, cheio
de vergões pelo corpo, João subiu para a redação
de A Tarde, onde foi fotografado, foto que ilustrou a matéria
do jornal no dia seguinte. A nota, claro, foi censurada
como tudo o que era publicado naqueles tempos de ditadura;
porém, a fotografia mostrando as marcas de sangue
impressionou e irritou não apenas amigos nossos,
como também pessoas de posições políticas
opostas à nossa. Até desses tivemos visitas
de solidariedade. 'Temerosos de tocar em mim eles me agridem,
agredindo meu menino', dizia Jorge, revoltado, a quem quisesse
ouvi-lo.
Nós, por
exemplo
Surgia em Salvador um
grupo de jovens cantores, músicos e compositores
que costumava se exibir no Teatro Vila Velha: Maria Bethânia,
Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gracinha Maria das
Graças , hoje Gal Costa. Nós, por exemplo
foi o primeiro show apresentado por eles.
João, Paloma
e sua turma eram fãs dos novos artistas e não
perdiam um espetáculo. Saíam logo cedo de
casa para conseguir onde sentar, pois nessas noites a lotação
esgotava.
Naquele domingo, o pôquer
semanal seria na casa de Mirabeau. Os parceiros para as
rodadas eram quase sempre os mesmos: Jorge, Ives Palermo,
Mecenas Marcos, Negro Batista, Alexandre Robato, Odorico
Tavares, Giovanni Guimarães e outros. Quando ninguém
falhava e sobravam parceiros, como, por exemplo, Di Cavalcanti
e Giovanna Bonino, vindos do Rio com freqüência
chamados com muita graça, por Mirabeau, de
capital estrangeiro , eles faziam duas mesas. Em geral,
enquanto os homens se entregavam ao pôquer, as esposas
Norma, Êmina Palermo, Josette Marcos, Estela
Robato, eu e Nancy jogávamos buraco ou bigorrilho.
Carybé era o único a não participar
dos jogos. Ia para acompanhar Nancy, parceira certa do carteado
feminino, e ficava dando palpites, distraindo-se a fazer
caricaturas de todo mundo.
Jovens artistas
Maria Bethânia
e seu grupo cantariam no Vila Velha e os meninos pediram
para jantar mais cedo, queriam ir ao teatro. Resolvi acompanhá-los.
Combinei com Norma, nos juntamos aos nossos filhos e fomos
também.
Chegamos cedo e já
encontramos o teatro repleto. A custo, conseguimos um lugarzinho
para sentar.
Maria Bethânia,
com sua voz quente, emocionante, cantou e o teatro quase
veio abaixo. Caetano, voz morna e suave, outro sucesso,
Gilberto Gil com sua graça e picardia, um delírio;
Gracinha, com sua voz fluente, de límpida melodia,
levantou a platéia.
Vou ficar freguesa
disse a Norma , e, se duvidar, da próxima
vez trago Jorge. Garanto que ele vai adorar.
Tomara!
disse ela. Tomara que Jorge venha e convença
Mirabeau a vir, mas eu duvido.
Voltamos ao Vila Velha
dias depois. Desta vez, com Jorge. Como Norma previra, Mirabeau
não foi e, como eu previra, Jorge adorou os meninos.
Gostou tanto que, depois do espetáculo, ele, que
detestava aglomerações, meteu-se no empurra-empurra,
na confusão de pessoas que, como ele, queriam abraçar
os artistas. Ele não só queria abraçá-los,
como também convidá-los a aparecer em nossa
casa. Eles vieram e, para esses jovens, simpáticos
e talentosos, nossas portas estiveram sempre abertas. Admirador
de Caetano, de sua sensibilidade, de suas composições,
Jorge chegou a compará-lo a Castro Alves.
Cantores populares
Compositores e cantores
populares, como Tião Motorista e Riachão,
apareciam em casa com a turma de João Jorge e cantavam.
Jorge riu a valer ao ouvir certa composição
de Tião Motorista que dizia:
Na casa de Jorge Amado
lugar bom pra se sambar
se samba de dia e de noite
até ver o sol raiar...
Jorge achou graça
e eu também, da imaginação de Tião
ao inventar que em nossa casa se sambava 'de dia e de noite,
até ver o sol raiar'.
Riachão vez ou
outra aparecia, com sua indefectível toalha no pescoço,
e nos encantava improvisando uma picaresca dancinha para
acompanhar sua cantiga: 'Xô, xuá, cada macaco
no seu galho.'
João Ubaldo Ribeiro,
jovem intelectual que freqüentava nossa casa nos encontros
matinais aos domingos, era o preferido de Jorge, que dele
esperava grandes surpresas literárias. Muito animado,
João Ubaldo alegrava nossas reuniões, cantando
e batucando mas jamais dançando.
Glauber Rocha
Ainda um jovem talento,
cineasta em quem Jorge apostava e dedicava grande carinho
era Glauber Rocha. Glauber já não morava na
Bahia quando nos mudamos para cá, mas nunca perdeu
o contato conosco. Sempre que vinha a Salvador, mesmo que
fosse por pouco tempo, não deixava de procurar o
amigo querido, 'meu irmão, meu pai, meu mestre'
assim costumava dizer. Vinha falar de seus projetos, passava
horas abrindo seu coração.
Com Glauber estivemos
em Paris e em Portugal.
Foi num hospital de
Lisboa que, com João Ubaldo Ribeiro e Raimundo Fagner,
nos despedimos do 'menino gênio', amigo querido, e
o vimos pela última vez quando partiu para sempre.
trecho............
O pato
Recordou-me há
dias Auta Rosa que, com seu marido, o artista plástico,
Calasans Neto, nos acompanhou em andanças por esse
mundo de Deus a história do pato:
Por onde é
que anda aquele pato?
Que pato, Auta?
eu já nem me lembrava do fato.
Rimos juntas ao reviver
o caso: estávamos em Paris às vésperas
do aniversário de Jorge. Pela manhã, antes
de sair do hotel, olhando o monte de embrulhos a serem acomodados
nas malas, eu lhe fiz um apelo:
Por favor, Jorge,
não vamos comprar mais nada, já compramos
demais, nem sei onde acomodar tanta coisa. Lá em
casa também já está tudo entupido de
objetos, estantes e armários transbordando... Promete
que não vai comprar mais nada?
Jorge riu:
Está bem,
minha pequenininha... A não ser que...
Diante de uma loja próxima
ao nosso hotel, surgiu a tentação. Um pato
preto, peito branco, listras claras à guisa de penas
das asas, sobressaía entre outros objetos:
Vejam só
que pato mais lindo! exclamou Jorge, encantado.
Sem este pato a minha vida não terá mais a
mínima significação suspirou
, já não posso viver sem ele.
Levantei o pato.
É pesado
como o quê! disse eu, demonstrando sutilmente
o meu desejo de que a peça não fosse comprada.
Jorge foi andando e
eu o segui, morta de remorso, sentindo-me a própria
megera repressora que limitava o marido, coitadinho, impedindo-o
de realizar um desejo inocente.
Nessa mesma tarde, enquanto
o 'coitadinho' tirava uma soneca depois do almoço,
eu não resisti, corri à loja e comprei o pato.
Escondi-o no quarto dos Calasans e só no dia do aniversário
de Jorge o trouxe para o meu. Estendi ao aniversariante
o presente, já desembrulhado para causar maior impacto:
Parabéns,
meu amor! Aqui está teu pato!
Então,
foi você, sua peste? disse ele, rindo, ao me
abraçar e beijar.
Sem que eu soubesse,
Jorge voltara à loja para comprar o bendito pato,
mas chegara tarde demais, já o haviam levado.
O herói desta
história, já um pouco desbotado e esfolado
pelo tempo, encontra-se entre os objetos de nossa coleção,
no terraço.
trecho..............
Zélia Gathai
Falando Sério -
Maurício Manieri - NL2002
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