Poeta, compositor,
intérprete e diplomata brasileiro, nasceu no Rio em 19
de outubro de 1913 e faleceu na mesma cidade em 09 de julho de 1980. Escreveu
seu primeiro poemaaos sete anos. Fez curso de Direito no Rio e de Literatura
Inglesa em Oxford. Ingressou na carreira diplomática,
por concurso, em 1943, tendo servido como vice-cônsul em Los Angeles (1947-50),
o que abriu sua temática, posteriormente enriquecida pelo seu interesse em teatro
e cinema. Serviu também em Paris (duas vezes) e Montevidéu. Interessado em
cinema desde estudante, foi crítico e censor cinematográfico. Como delegado brasileiro,
participou de vários festivais internacionais de cinema (Cannes, Berlim,
Locarno, Veneza e Punta del Leste) e, em 1966, foi membro do Júri Internacional
de Cannes).
O
Rio
Uma gota de chuva A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra. Através de antigos Sedimentos, rochas Ignoradas,
ouro Carvão, ferro e mármore Um fio cristalino Distante milênios
Partiu fragilmente Sequioso de espaço Em busca de luz.
Um rio nasceu.....
Samba
de Orly
Vai meu irmão Pega esse avião
Você tem razão De correr assim Desse frio Mas beija O meu Rio
de Janeiro Antes que um aventureiro Lance mão
Pede perdão Pela duração Dessa temporada Mas não diga nada
Que me viu chorando E pros da pesada Diz que eu vou levando Vê com
é que anda Aquela vida à toa E se puder me manda Uma notícia boa
O
Poeta e a Lua
Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua Seus olhos verdes de éter Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco Eriçada de luxúria O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua. Entre as esfera nitentes Tremeluzem pelos fulvos
O poeta, de olhar dormente Entreabre o pente da lua. Em frouxos
de luz e água Palpita a ferida crua O poeta todo se lava De palidez
e doçura. Ardente e desesperada A lua vira em decúbito A vinda lenta
do espasmo Aguça as pontas da lua. O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua A lua se curva em arco Num delírio de luxúria.
O gozo aumenta de súbito Em frêmitos que perduram A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua. O orgasmo desce do espaço Desfeito em estrelas
e nuvens Nos ventos do mar perpassa Um salso cheiro de lua E a lua,
no êxtase, cresce Se dilata e alteia e estua O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua. Depois a lua adormece E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece Envolto em cantos e plumas Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.
Antologia
Poética
Dialética
É claro
que a vida é boa E a alegria, a única indizível emoção É claro que te
acho linda Em ti bendigo o amor das coisas simples É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
A um Passarinho
Para
que vieste Na minha janela Meter o nariz? Se foi por um verso Não
sou mais poeta Ando tão feliz! Se é para uma pros a Não sou Anchieta
Nem venho de Assis. Deixa-te de histórias Some-te daqui!
Vida e Poesia
A lua projetava o seu perfil azul Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E
as ramadas escorriam gotas que não havia. Na rua ignorada anjos brincavam
de roda... – Ninguém sabia, mas nós estávamos ali. Só os perfumes teciam
a renda da tristeza
Porque as corolas
eram alegres como frutos E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora. E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente
amiga Talvez ao pressentir na carne misteriosa A germinação estranha
do meu indizível apelo Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Tão
mais doce que o mel dourado dos teus olhos Que ao vê-lo trilar sobre os teus
dentes como um címbalo E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda Eu chorei docemente na concha
de minhas mãos vazias De que me tivesses possuído antes do amor.
A
Mulher que Passa
Meu Deus, eu
quero a mulher que passa Seu dorso frio é um campo de lírios Tem sete
cores nos seus cabelos Sete esperanças na boca fresca! Oh! como és linda,
mulher que passas Que me sacias e suplicias Dentro das noites, dentro
dos dias!
Teus sentimentos são poesia Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa Fresca e macia. Teus belos braços
são cisnes mansos Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero
a mulher que passa!
Como te adoro,
mulher que passas Que vens e passas, que me sacias Dentro das noites,
dentro dos dias! Por que me faltas, se te procuro? Por que me odeias quando
te juro Que te perdia se me encontravas E me concontrava se te perdias?
Por
que não voltas, mulher que passas? Por que não enches a minha vida? Por
que não voltas, mulher querida Sempre perdida, nunca encontrada? Por
que não voltas à minha vida Para o que sofro não ser desgraça?
Meu
Deus, eu quero a mulher que passa! Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacífica Que
é tanto pura como devassa Que bóia leve como a cortiça E tem raízes
como a fumaça.
Soneto
da Fidelidade
De
tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento.
Quero
vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento.
E
assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Amiga
Amiga,
infinitamente amiga
Em algum lugar
teu coração bate por mim Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios Se enchem de leite, tu desfaleces
e caminhas Como que cega ao meu encontro...
Amiga,
última doçura A tranqüilidade suavizou a minha pele E os meus canelos.
Só meu ventre Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem,
amiga Minha nudez é absoluta Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios Vem. Meus músculos estão doces para os teus
dentes E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como
no mar, vem nadar em mim como no mar Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...
Soneto
da Separação
De
repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das
bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De
repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama.
De
repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se
do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente,
não mais que de repente.
Vinicius de Morais
Falando
Sério - Maurício Manieri
- NL2002
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