Oscar Wilde(1854-1900)

Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde, nasceu em 16 de outubro de 1854 em Dublim, Irlanda. Filho de Sir William Robert Wills Wilde e Jane Francesca Elgee.

Foi aos vinte anos educar-se em Oxford, tendo aí assumido a liderança de um movimento estético que, sob a influência de Matthew Arnold, de Ruskin e de Pater, combatia os "filisteus" da cultura e defendia um hedonismo extremado. Wilde inicialmente refletiu em seus hábitos e em seus escritos a atitude de um esteta pouser, de comportamento extravagante. No entanto, seu talento superou essa fase superficial, florescendo plenamente em suas obras-primas finais.

A balada do cárcere de Reading
Ele não trajava a sua túnica escarlate,
Pois o sangue e o vinho são vermelhos,
E sangue e vinho havia nas suas mãos
Quando o viram ao lado da morta,
A pobre mulher que ele tanto amara
E assassinara no seu leito.

Ia caminhando entre os juízes
Com um terno cinzento, já usado;
Trazia na cabeça um boné de esporte,
E seus passos pareciam leves e alegres;
Mas, nunca vi um homem que fitasse o dia
Com tamanha tristeza.

Nunca vi um homem que contemplasse
Com olhos tão vagos
A estreita faixa azul,
Que os presos chamam firmamento,
E todas as nuvens que corriam
Como se fossem impelidas por argênteas velas.

Fui caminhando, com outras almas sofrendo
Dentro de outro círculo,
E fiquei imaginando se aquele homem cometera
Uma ação mesquinha ou grande,
Quando uma voz sussurrou, atrás de mim:
"Aquele companheiro vai ser enforcado".

Jesus! As próprias paredes da prisão
Pareciam , de súbito, estar girando,
E o firmamento, por cima da minha cabeça,
Tornou-se um capacete de aço escaldante,
E, embora eu fosse uma alma sofredora,
Não sentia a minha própria dor.

Compreendi, então, que pensamentos o atormentavam,
Apressando-lhe o passo;
Ele encarava o dia radiante
Com olhar tão vago:
O homem matara o objeto do seu amor
E, por isso, devia morrer.

No entanto, todo homem mata aquilo que adora,
Que cada um deles seja ouvido,
Alguns procedem com dureza no olhar,
Outros com uma palavra lisonjeira.
O covarde fá-lo com um beijo.
Enquanto o bravo o faz com a espada!

Uns matam o próprio amor quando ainda jovens,
Outros o fazem na velhice;
Uns estrangulam com as mãos da luxúria,
Outros com a mão de Ouro,
O que é bondoso faz uso do punhal,
Porque a morte assim vem mais depressa.

Uns amam pouco tempo, outros demais,
Uns vendem, outros compram;
Alguns praticam a ação com muitas lágrimas
E outros sem um suspiro sequer:
Pois todo homem mata o objeto do seu amor
E, no entanto, nem todo homem é condenado à morte.

Ele não sofre a morte humilhante
Num dia de tenebrosa desgraça,
Não tem um laço em volta do pescoço,
Nem um capuz, cobrindo-lhe a cabeça,
Seus pés não ficam pendentes no alçapão
Num espaço aberto.

Não se senta ao lado dos homens silenciosos
Que o vigiam dia e noite;
E o velam quando ele quer chorar,
Ou quando tenta orar;
Que o vigiam com medo de que ele próprio livre
A prisão da sua presa.

Nem desperta de madrugada para ver
Vultos horripilantes povoando a sua cela,
O trêmulo Capelão à sua alva sobrepeliz,
O Sheriff , tristonho e carrancudo,
E o Diretor, todo de preto vestido,
Com o rosto amarelado do Destino.

Não se ergue apressadamente
Para vestir a túnica encarcerada,
Enquanto, com esperteza, um médico
Fita-o firmemente e toma nota
De cada uma das suas novas contorsões nervosas,
Com o dedo no relógio, cujos tique-taques, lembram horríveis marteladas.

Ele desconhece aquela sede doentia
Que dá à garganta a sensação de areia,
Antes que o carrasco, com as suas luvas de jardinagem,
Atravesse a porta e o amarre com três correias
Para que a sua garganta não mais sinta sede.

Não curva a cabeça para ouvir
O ofício fúnebre que está sendo lido,
Enquanto, na sua alma, o terror
Diz-lhe que ele não está morto;
Ele passa pelo próprio caixão quando a caminho
do hediondo cadafalso.

Não olha para cima
Através do pequeno teto de vidro,
Nem reza com os lábios secos
Para que finde a sua agonia;
Não sente na face trêmula
O beijo de Caifás

TRECHOS DE OBRAS DE OSCAR WILDE

..."No cárcere de Reading junto a Reading Town
Há um fosso de má fama,
E nele jaz um desgraçado a quem devoram
Cruéis dentes de chama.
Jaz num sudário ardente,e o mísero sepulcro
Seu nome não proclama.

E, até que Cristo chame os mortos, ali possa
Em silêncio jazer...
Não é preciso dar suspiros ocos, nem
Tolo pranto verter:
Aquele homem matara a sua coisa amada,
E tinha que morrer.

Apesar disso-escutem bem-todos os homens
Matam a coisa amada;
Com galanteio alguns o fazem, enquanto outros
Com face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
Os bravos, com a espada!

A Balada do Cárcere de Reading-Oscar Wilde


Aforismos

"A beleza é uma forma da genialidade-aliás, é superior à genialidade na medida em que não precisa de comentário. Ela é um dos grandes fatos do mundo, assim como a luz do Sol, ou a primavera, ou a miragem na água escura daquela concha de prata que chamamos de lua. Não pode ser interrogada, é soberana por direito divino."

- Segundo alguns, as mulheres amam com os ouvidos, exatamente como os homens amam com os olhos; admitindo-se que realmente amem.

- Experiência é o nome que todos dão aos seus próprios erros.

- É tão fácil converter os outros. É tão difícil converter a nós mesmos.

- Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo.

- Todos nós estamos na lama, mas alguns sabem ver as estrelas.

- Aquele que sabe dominar os convidados num jantar em Londres pode dominar o mundo. O futuro pertence aos requintados. Os charmosos dominarão o mundo.

- O mundo foi feito por loucos para que os sábios nele pudessem viver.

- Viver é a coisa mais rara do mundo. Muitas pessoas existem, só isso.

- A tragédia da velhice consiste não no fato de sermos velhos, mas sim no fato de ainda nos sentirmos jovens.

- Para entrar na alta sociedade, hoje em dia, é preciso comprazer às pessoas, ou saber diverti-las, ou escandalizá-las; basta isso.

Fonte:Oscar Wilde: Aforismos. Clássicos Econômicos Newton.

O Retrato de Dorian Gray

... " - Porque considero que influir sobre uma pessoa é transmitir-lhe um pouco de sua própria alma; esta pessoa deixa de pensar por si mesma, deixa de sentir as suas paixões naturais. Suas virtude não são mais suas. Seus pecados, se houver qualquer coisa semelhante a pecados, serão emprestados. Ela tornar-se-á eco de uma música estranha, autora de uma peça que não se compôs para ela. O fim da vida é o desenvolvimento da personalidade. Realizar a sua própria natureza- eis o que todos procuramos fazer. Os homens hoje, amedrontam-se deles mesmos. Esqueceram-se dos maiores de todos os deveres, do dever que cada um deve a si próprio. Naturalmente são caridosos. Nutrem o pobre e vestem os andrajosos, mas deixam as suas almas famintas e andam nus. A coragem nos abandonou; é possível que nunca a possuíssemos! O terror da sociedade, que é a base de toda moral, o terror de Deus, que é o segredo da religião- eis as duas coisas que nos governam."

Fonte: O Retrato de Dorian Gray. Oscar Wilde. Ed.Imago.

De Profundis

"...Estou há quase dois anos na prisão. Durante esse tempo, meu temperamento me fez passar por momentos de selvagem desespero,de entrega total ao sofrimento, que era contristadora até para quem a observava, por uma raiva terrível e impotente, por sentimentos de amargura e rancor, por uma angústia que me fazia soluçar, um sofrimento que não encontrava palavras para expressar-se, um arrependimento mudo, um pesar silencioso. Passei por todos os estágios possíveis do sofrimento. Entendo melhor que o próprio Wordsworth o que ele quis dizer quando escreveu: " O sofrimento é algo permanente, misterioso e sombrio e tem a natureza do infinito".

Fonte: A Alma do Homem sob o Socialismo & Escritos do Cárcere.Oscar Wilde. Ed. L"PM.

Poemas em Prosa

O Mestre

Quando as trevas começaram a cair sobre a Terra, José de Arimatéia acendeu uma tocha de pinheiro e desceu da colina para o vale. Tinha o que fazer em casa. E, ajoelhando-se sobre as pedras do Vale da Desolação, viu um jovem que estava nu e chorava. Seus cabelos eram da cor do mel e o corpo tão branco como uma flor; mas ferira o corpo nos espinhos e sobre os cabelos pusera cinza à guisa de coroa. E José, que possuía grandes virtudes, disse ao jovem que se encontrava nu e chorava: - Não me admira que o teu sentimento seja tão grande, porque, realmente, Ele foi um homem justo. E o jovem respondeu: - Não é por Ele que choro, mas por mim mesmo. Eu também mudei a água em vinho, curei o leproso e restituí a vista do cego. Andei sobre as águas e das profundezas dos sepulcros expulsei os demônios. Alimentei os famintos no deserto onde não havia comida; ergui os mortos dos leitos exíguos e à minha ordem, diante de imensa multidão, uma figueira seca novamente frutificou. Tudo que esse homem realizou eu também realizei e, todavia, não me crucificaram

Fonte: Poemas em Prosa e Salomé.Oscar Wilde.Ediouro

A Balada do Cárcere de Reading

(outro trecho)

... O casaco escarlate não usou, pois tinha
De sangue e vinho o jeito;
E sangue e vinho em suas mãos havia quando
Prisioneiro foi feito,
Deitado junto à mulher morta que ele amava
E matara em seu leito.

Ao caminhar em meio aos julgadores, roupa
Cinza e gasta vestia;
Tinha um boné de críquete, e seu passo lépido
E alegre parecia;
Mas nunca em minha vida alguém olhar
Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi na vida que tivesse
Tanta angústia no olhar,
Ao contemplar a tenda azul que os prisioneiros
De céu usam chamar,
E as nuvens à deriva, que iam com as velas
Cor de prata pelo ar.

Num pavilhão ao lado, andei com outras almas
Também a padecer,
Imaginando se seu erro fora grave
Ou um erro qualquer,
Quando alguém sussurou baixinho atrás de mim:
"O homem tem que pender".

Cristo! As próprias paredes da prisão eu vi
Girando ao meu redor,
E o céu sobre a cabeça transformou-se em elmo
De um aço abrasador;
E, embora eu fosse alma a sofrer, já nem sequer
Sentia a minha dor.

Sabia qual o pensamento perseguido
Que lhe estugava o andar,
E porque demonstrava, ao ver radiante o dia,
Tanta angústia no olhar;
O homem matara a coisa amada, e ora devia
Com a morte pagar.

Apesar disso-escutem bem-todos os homens
Matam a coisa amada;
Com o galanteio alguns o fazem, enquanto outros
Com a face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
Os bravos, com a espada!

Um assassina o seu amor na juventude,
Outro, quando ancião;
Com as mãos da Luxúria este estrangula, aquele
Empresta do Ouro a mão;
Os mais gentis usam a faca, porque frios
Os mortos logo estão.

Este ama pouco tempo, aquele ama demais;
Há comprar, e há vender;
Uns fazem o ato em pranto, enquanto que um suspiro
Outros não dão sequer.
Todo homem mata a coisa amada!- Nem por isso
Todo homem vai morrer.

Evanescence My Immortal Live



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