À
proa
dum
navio
de
penedos,
A
navegar
num
doce
mar
de
mosto,
Capitão
no
seu
posto
De
comando,
S.
Leonardo
vai
sulcando
As
ondas
Da
eternidade,
Sem
pressa
de
chegar
ao
seu
destino.
Ancorado
e
feliz
no
cais
humano,
É
num
antecipado
desengano
Que
ruma
em
direcção
ao
cais
divino.
Lá
não
terá
socalcos
Nem
vinhedos
Na
menina
dos
olhos
deslumbrados;
Doiros
desaguados
Serão
charcos
de
luz
Envelhecida;
Rasos,
todos
os
montes
Deixarão
prolongar
os
horizontes
Até
onde
se
extinga
a
cor
da
vida.
Por
isso,
é
devagar
que
se
aproxima
Da
bem-aventurança.
É
lentamente
que
o
rabelo
avança
Debaixo
dos
seus
pés
de
marinheiro.
E
cada
hora
a
mais
que
gasta
no
caminho
É
um
sorvo
a
mais
de
cheiro
A
terra
e
a
rosmaninho!
Confiança
O
que
é
bonito
neste
mundo,
e
anima,
É
ver
que
na
vindima
De
cada
sonho
Fica
a
cepa
a
sonhar
outra
aventura...
E
que
a
doçura
Que
se
não
prova
Se
transfigura
Numa
doçura
Muito
mais
pura
E
muito
mais
nova...
Prospecção
Não
são
pepitas
de
oiro
que
procuro.
Oiro
dentro
de
mim,
terra
singela!
Busco
apenas
aquela
Universal
riqueza
Do
homem
que
revolve
a
solidão:
O
tesoiro
sagrado
De
nenhuma
certeza,
Soterrado
Por
mil
certezas
de
aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas
só
quero
a
fortuna
De
me
encontrar.
Poeta
antes
dos
versos
E
sede
antes
da
fonte.
Puro
como
um
deserto.
Inteiramente
nu
e
descoberto.
Orfeu
Rebelde
Orfeu
rebelde,
canto
como
sou:
Canto
como
um
possesso
Que
na
casca
do
tempo,
a
canivete,
Gravasse
a
fúria
de
cada
momento;
Canto,
a
ver
se
o
meu
canto
compromete
A
eternidade
do
meu
sofrimento.
Outros,
felizes,
sejam
os
rouxinóis...
Eu
ergo
a
voz
assim,
num
desafio:
Que
o
céu
e
a
terra,
pedras
conjugadas
Do
moinho
cruel
que
me
tritura,
Saibam
que
há
gritos
como
há
nortadas,
Violências
famintas
de
ternura.
Bicho
instintivo
que
adivinha
a
morte
No
corpo
dum
poeta
que
a
recusa,
Canto
como
quem
usa
Os
versos
em
legítima
defesa.
Canto,
sem
perguntar
à
Musa
Se
o
canto
é
de
terror
ou
de
beleza.
SEGREDO
Sei
um
ninho.
E
o
ninho
tem
um
ovo.
E
o
ovo,
redondinho,
Tem
lá
dentro
um
passarinho
Novo.
Mas
escusam
de
me
atentar:
Nem
o
tiro,
nem
o
ensino.
Quero
ser
um
bom
menino
E
guardar
Este
segredo
comigo.
E
ter
depois
um
amigo
Que
faça
o
pino
A
voar...
Brasil
Pátria
de
emigração.
É
num
poema
que
te
posso
ter...
A
terra
-
possessiva
inspiração;
E
os
rios
-
como
versos
a
correr.
Achada
na
longínqua
meninice,
Perdida
na
perdida
juventude,
Guardei-te
como
podia:
na
doce
quietude
Da
força
represada
da
poesia.
E
assim
consigo
ver-te
Como
te
sinto:
Na
doirada
moldura
de
lembrança,
O
retrato
da
pura
imensidade
A
que
dei
a
possível
semelhança
Com
palavras
e
rimas
de
saudade.
ARIANE
Ariane
é
um
navio.
Tem
mastros,
velas
e
bandeira
à
proa,
E
chegou
num
dia
branco,
frio,
A
este
rio
Tejo
de
Lisboa.
Carregado
de
Sonho,
fundeou
Dentro
da
claridade
destas
grades...
Cisne
de
todos,
que
se
foi,
voltou
Só
para
os
olhos
de
quem
tem
saudades...
Foram
duas
fragatas
ver
quem
era
Um
tal
milagre
assim:
era
um
navio
Que
se
balança
ali
à
minha
espera
Entre
as
gaivotas
que
se
dão
no
rio.
Mas
eu
é
que
não
pude
ainda
por
meus
passos
Sair
desta
prisão
em
corpo
inteiro,
E
levantar
âncora,
e
cair
nos
braços
De
Ariane,
o
veleiro.
Miguel
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