Mário Raul de Morais
Andrade nasceu em São Paulo em 1893 e faleceu em sua
cidade natal em 1945. Estudou no Grupo Escolar do Triunfo,
no Ginásio Nossa Senhora do Carmo e no Conservatório
Dramático e Musical de São Paulo, vindo a lecionar,
neste estabelecimento de ensino, desde 1922, História
da Música. Dirigiu o Departamento Municipal de Cultura,
que ideou, nele promovendo cursos de etnografia e folclore.
Dotou-o também de Discoteca Pública. Foi Diretor
do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal,
aí regendo a cátedra de Filosofia e História
da Arte. Organizou o Serviço do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, do Ministério da Educação.
Teve a iniciativa, em São Paulo, do Primeiro Congresso
da Língua Nacional Cantada e elaborou, para o Instituto
Nacional do Livro, o plano de uma Enciclopédia Brasileira.
Dedicou-se à poesia, ao conto e ao romance, à
crônica, ao ensaio, à crítica literária
e de artes plásticas e à estética.
Aceitarás o amor como eu o encaro
?...
Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de
mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não
desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza... a evasão total
do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.
Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei
que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que
nem eu.
Moça linda bem tratada
Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.
Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.
Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência...
Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta de pobre arromba:
Uma bomba.
O Domador
Alturas da Avenida. Bonde 3.
Asfaltos. Vastos, altos repuxos de poeira
sob o arlequinal do céu oiro-rosa-verde...
As sujidades implexas do urbanismo.
Filés de manuelino. Calvícies de Pensilvânia.
Gritos de goticismo.
Na frente o tram da irrigação,
onde um Sol bruxo se dispersa
num triunfo persa de esmeraldas, topázios e rubis...
Lânguidos boticellis a ler Henry Bordeaux
nas clausuras sem dragões dos torreões...
Mário, paga os duzentos réis.
São cinco no banco: um branco,
um noite, um oiro,
um cinzento de tísica e Mário...
Solicitudes! Solicitudes!
Mas... olhai, oh meus olhos saudosos
dos ontens
esse espetáculo encantado da Avenida!
Revivei, oh gaúchos paulistas ancestremente!
e oh cavalos de cólera sangüínea!
Laranja da China, laranja da China,
laranja da China!
Abacate, cambucá e tangerina!
Guarda-te! Aos aplausos do esfuziante clown,
heróico sucessor da raça heril dos bandeirantes,
loiramente domando um automóvel
Poemas da Amiga
A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.
Voltei-me em flor.Mas era apenas tua
lembrança.
Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa,
Mexendo asas azuis dentro da tarde.
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
Retribuindo
Por que os homens não me escutam? Por que os governadores
Não me escutam? Por que não me escutam
Os Plutocratas e todos os que são chefes e são
fezes?
Todos os donos da vida?
Eu lhes daria o impossível e lhes daria o segredo,
Eu lhes dava tudo aquilo que fica pra cá do grito
Metálico dos números, e tudo
O que está além da insinuação
cruenta da posse.
E se acaso eles protestassem, que não! que não
desejam
A borboleta translúcida da humana vida, poque preferem
O retrato a ólio das inaugurações espontâneas,
com béstias de operário e di oficial, imediatamente
inferior,
E palminhas, e mais os sorrisos das máscaras e a
profunda comoção,
Pois não! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade
deslumbrante
De que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei.
Sejamos generosíssimos. E enquanto os chefes e as
fezes
De mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,
Ingênuos brincando de felicidade deslumbrante:
Nós nos iríamos de camisa aberta ao peito,
Descendo verdadeiros ao léu da corrente do rio,
Entrando na terra dos homens ao coro das quatro estações.
(... )
Como é possível que o amor se mostre impotente
assim
Ante o ouro pelo qual o sacrificam os homens,
Trocando a primavera que brinca na face das terras
Pelo outro tesouro que dorme no fundo baboso do rio!
Toada sem alcool
...
Ninguém sabe da solitude
Que enche meu peito sem emprego,
O qual comunga todo dia
Na missa-baixa do abandono
Mas, rapazes, não tenho culpa
De ter faltado em minha vida
O amigo que me defendesse,
Aquele que eu defenderia.
Mauricio Manieri ( Te Quero Tanto Live )
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