Manuel
Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife, em 19 de abril de 1886.
Aos 4 anos mudou-se com o pai e com a mãe para o Sudeste, onde moraram no Rio
de Janeiro e em Santos. Aos 6 anos voltou para a cidade natal ficando por
4 anos e retornou para o Rio de Janeiro.
Andorinha
Andorinha
lá fora está dizendo: — "Passei o dia à toa, à toa!"
Andorinha,
andorinha, minha cantiga é mais triste! Passei a vida à toa, à toa . .
Brisa Vamos viver no Nordeste, Anarina. Deixarei
aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha. Deixarás aqui
tua filha, tua avó, teu marido, teu amante. Aqui faz muito calor. No Nordeste
faz calor também. Mas lá tem brisa: Vamos viver de brisa, Anarina
A Morte Absoluta
Morrer.
Morrer de corpo e de alma. Completamente.
Morrer
sem deixar o triste despojo da carne, A exangue máscara de cera, Cercada
de flores, Que apodrecerão — felizes! — num dia, Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer
sem deixar porventura uma alma errante... A caminho do céu? Mas que céu
pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer
sem deixar um sulco, um risco, uma sombra, A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento, Em nenhuma epiderme.
Morrer
tão completamente Que um dia ao lerem o teu nome num papel Perguntem:
“Quem foi?...”
Morrer mais completamente
ainda, — Sem deixar sequer esse nome.
Arte de Amar
Se
queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga
o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis.
Deixa
o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas
as almas não.
Canção das duas Índias
Entre
estas Índias de leste E as Índias ocidentais Meu Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos Quantos bancos de corais Quantas frias
latitudes! Ilhas que a tormenta arrasa Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias Sirtes sereias Medéias Púbis a não poder mais
Altos como a estrela-d'alva Longínquos como Oceanias — Brancas, sobrenaturais
— Oh inaccessíveis praias!...
Cartas de Meu Avô
A
tarde cai, por demais Erma, úmida e silente... A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.
E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só, As cartas que meu avô Escrevia a minha avó.
Enternecido sorrio Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos, Quando o fogo era já frio.
Cartas de antes do noivado... Cartas de amor
que começa, Inquieto, maravilhado, E sem saber o que peça.
Temendo a cada momento Ofendê-la, desgostá-la, Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...
A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem. Mas, como o dele, batia Dela o coração
também
A paixão, medrosa dantes, Cresceu,
dominou-o todo. E as confissões hesitantes Mudaram logo de modo.
Depois o espinho do ciúme... A dor... a visão
da morte... Mas, calmado o vento, o lume Brilhou, mais puro e mais forte.
E eu bendigo, envergonhado, Esse amor, avô do
meu... Do meu - fruto sem cuidado Que inda verde apodreceu.
O meu semblante está enxuto. Mas a alma, em gotas
mansas, Chora, abismada no luto Das minhas desesperanças...
E a noite vem, por demais Erma, úmida e silente... A chuva em pingos
glaciais, Cai melancolicamente.
E enquanto
anoitece, vou Lendo, sossegado e só, As cartas que, meu avô Escrevia
a minha avó.
Dentro da Noite
Dentro
da noite a vida canta E esgarça névoas ao luar... Fosco minguante o vale
encanta. Morreu pecando alguma santa... A água não pára de chorar.
Há um amavio esparso no ar... Donde virá ternura tanta?... Paira
um sossego singular Dentro da noite...
Sinto no meu violão vibrar
A alma penada de uma infanta Que definhou do mal de amar... Ouve...
Dir-se-ia uma garganta Súplice, triste, a soluçar Dentro da noite...
Enquanto a chuva cai...
A
chuva cai. O ar fica mole... Indistinto... ambarino... gris... E no monótono
matiz Da névoa enovelada bole A folhagem como o bailar.
Torvelinhai,
torrentes do ar!
Cantai, ó bátega
chorosa, As velhas árias funerais. Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.
Meu coração
está sedento De tão ardido pelo pranto. Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.
Volúpia
dos abandonados... Dos sós... — ouvir a água escorrer, Lavando o tédio
dos telhados Que se sentem envelhecer...
Ó
caro ruído embalador, Terno como a canção das amas! Canta as baladas
que mais amas, Para embalar a minha dor!
A
chuva cai. A chuva aumenta. Cai, benfazeja, a bom cair! Contenta as árvores!
Contenta As sementes que vão abrir!
Eu
te bendigo, água que inundas! Ó água amiga das raízes, Que na mudez das
terras fundas Às vezes são tão infelizes!
E
eu te amo! Quer quando fustigas Ao sopro mau dos vendavais As grandes
árvores antigas, Quer quando mansamente cais.
É
que na tua voz selvagem, Voz de cortante, álgida mágoa, Aprendi na cidade
a ouvir
Como um eco que vem na
aragem A estrugir, rugir e mugir, O lamento das quedas d'água!
Estrela da Manhã
Eu
quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus
inimigos Procurem a estrela da manhã
Ela
desapareceu ia nua Desapareceu com quem? Procurem por toda a parte
Digam
que sou um homem sem orgulho Um homem que aceita tudo Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã
Três
dias e três noites Fui assassino e suicida Ladrão, pulha, falsário
Virgem
mal-sexuada Atribuladora dos aflitos Girafa de duas cabeças Pecai
por todos pecai com todos
Pecai
com os malandros Pecai com os sargentos Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras Com os gregos e com os troianos Com o padre
e com o sacristão Com o leproso de Pouso Alto
Depois
comigo Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi
coisas de uma ternura tão simples Que tu desfalecerás
Procurem
por toda parte Pura ou desgradada até a última baixeza Eu quero a estrela
da manhã
Minha grande Ternura
Minha
grande ternura Pelos passarinhos mortos; Pelas pequeninas aranhas.
Minha
grande ternura Pelas mulheres que foram meninas bonitas E ficaram mulheres
feias; Pelas mulheres que foram desejáveis E deixaram de o ser. Pelas
mulheres que me amaram E que eu não pude amar.
Minha
grande ternura Pelos poemas que Não consegui realizar.
Minha grande ternura
Pelas amadas que Envelheceram sem maldade.
Minha
grande ternura Pelas gotas de orvalho que São o único enfeite de um
túmulo.
Manuel Bandeira
Mauricio Manieri
( Te Quero Tanto Live )
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