Jorge Amado

Jorge Amado de Faria nasceu em 1912, em Ferradas, hoje município de Itabuna, Bahia. Filho de comerciante sergipano que se tornou produtor de cacau, fez seus estudos em Ilhéus, Salvador e Rio. Nos fins da década de 20, levou vida de jornalista boêmio, na capital baiana, onde participou de grupos literários e da efêmera "Academia dos Rebeldes", uma das primeiras manifestações de oposição ao Modernismo, no nordeste. Em 30, foi para o Rio estudar Direito. Nessa cidade, colaborou em jornais, fez parte de grupos literários e publicou, em 1931, O País do Carnaval, o que o tornou conhecido.

A notoriedade chegou com os dois romances seguintes: Cacau e Suor, publicados em 33 e 34. Em 1932, aproximou-se dos grupos políticos de esquerda, apresentado por Rachel de Queiroz. Participou do movimento de frente popular da Aliança Nacional Libertadora, conhecendo as agruras da prisão, em 36 e 37. Perseguido, exilou-se em Buenos Aires, Argentina, de 1941 a 1943, período em que publicou a biografia de Carlos Prestes e escreveu Terras do Sem Fim.

Em 1946, com a redemocratização, elegeu-se deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro. No ano seguinte, perdeu o mandato, quando o partido foi considerado ilegal. Em 1947, deixou o país por alguns anos, morando na França e em vários países socialistas da Europa. A partir de 1958, sua produção metódica tem-lhe permitido viver exclusivamente de literatura. Em 1959, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. É, sem dúvida, o autor mais popular da literatura brasileira; seus livros foram traduzidos para mais de 30 línguas, sendo por isso conhecido mundialmente.

Foi traduzido em mais de 50 países. Em 1994 recebe o Prêmio Camões e, quando do seu 85.º aniversário, um novo teatro no bairro de Pituba na cidade de Salvador recebeu o seu nome.

Jorge Amado faleceu no dia 6 de agosto de 2001, na véspera de completar 98 anos de idade, de problemas respiratórios.

 
Nem a rosa, nem o cravo...

As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?

Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u'a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.

Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.

Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.

Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!

Gabriela, cravo e canela (fragmentos)

Naquele ano de 1925, quando floresceu o idílio da mulata Gabriela e do árabe Nacib, a estação das chuvas tanto se prolongara além do normal e necessário que os fazendeiros, como um bando assustado, cruzavam-se nas ruas a perguntar uns aos outros nos olhos e na voz:
-- Será que não vai parar?
Referiam-se às chuvas, nunca se vira tanta água descendo dos céus, dia e noite, quase sem intervalos.
-- Mais uma semana e estará tudo em perigo.
-- A safra inteira...
-- Meu Deus!
Falavam da safra anunciando-se excepcional, a superar de longe todas as anteriores. Com os preços do cacau em constante alta, significava ainda maior riqueza, prosperidade, fartura, dinheiro a rodo. Os filhos dos coronéis indo cursar os colégios mais caros das grandes cidades, novas residências para as famílias nas novas ruas recém-abertas, móveis de luxo mandados vir do Rio, pianos de cauda para compor as salas, as lojas sortidas, multiplicando-se, o comércio crescendo, bebida correndo nos cabarés, mulheres desembarcando dos navios, o jogo campeando nos bares e nos hotéis, o progresso enfim, a tão falada civilização.
E dizer-se que essas chuvas agora demasiado copiosas, ameaçadoras, diluviais, tinham demorado a chegar, tinham-se feito esperar e rogar! Meses antes, os coronéis levantavam os olhos para o céu límpido em busca de nuvens, de sinais de chuva próxima. Cresciam as roças de cacau, estendendo-se por todo o sul da Bahia, esperavam as chuvas indispensáveis ao desenvolvimento dos frutos acabados de nascer, substituindo as flores nos cacauais. A procissão de são Jorge, naquele ano, tomara o aspecto de uma ansiosa promessa coletiva ao santo padroeiro da cidade.
O seu rico andor bordado de ouro, levavam-no sobre os ombros orgulhosos os cidadãos mais notáveis, os maiores fazendeiros, vestidos com a bata vermelha da confraria, e não é pouco dizer, pois os coronéis do cacau não primavam pela religiosidade, não freqüentavam igrejas, rebeldes à missa e à confissão, deixando essas fraquezas para as fêmeas da família:
-- Isso de igreja é coisa para mulheres.
Contentavam-se com atender os pedidos de dinheiro do Bispo e dos padres para obras e folguedos: o colégio das freiras no alto da Vitória, o Palácio Diocesano, escolas de catecismo, novenas, mês de Maria, quermesses, festas de santo Antônio e são João.
Naquele ano, em vez de ficarem nos bares bebericando, estavam todos eles na procissão, de vela em punho, contritos, prometendo mundos e fundos a são Jorge em troca das chuvas preciosas. A multidão, atrás dos andores, acompanhava pela ruas a reza dos padres. Paramentado, as mãos unidas para a oração, o rosto compungido, o padre Basílio elevava a voz sonora puxando as preces. Escolhido para a importante função por suas eminentes virtudes, por todos consideradas e estimadas, o fora também por ser o santo homem proprietário de terras e roças, diretamente interessado na intervenção celestial. Rezava assim com redobrado vigor.



A morte e a morte de Quincas Berro d'Água
(fragmento)

Os jogadores de porrinha, de ronda, de sete-e-meio suspendiam as emocionantes partidas, desinteressados dos lucros, apatetados. Não era Berro d'Água o seu indiscutido chefe? Caía sobre eles a sombra da tarde como luto fechado. Nos bares, nos botequins, no balcão das vendas e armazéns, onde quer que se bebesse cachaça, imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda irremediável. Quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas, conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume. Há quantos anos não tocava em água? Desde aquele dia em que passou a ser chamado Berro d'Água.
Não que seja fato memorável ou excitante história, mas vale a pena contar o caso, pois foi a partir desse distante dia que a alcunha de "berro d'água" incorporou-se definitivamente ao nome de Quincas. Entrara ele na venda de Lopez, simpático espanhol, na parte externa do mercado. Freguês habitual, conquistara o direito de servir-se sem auxílio do empregado. Sobre o balcão viu uma garrafa transbordando de límpida cachaça, transparente, perfeita. Encheu um copo, cuspiu para limpar a boca, virou-o de uma vez. E o berro inumano cortou a placidez da manhã no mercado, abalando o próprio Elevador Lacerda em seus profundos alicerces. O grito de um animal ferido de morte, de um homem traído e desgraçado:
- Águuuuua!
Imundo, asqueroso espanhol de má fama! Corria gente de todos os lados, alguém estava sendo com certeza assassinado, os fregueses da venda riam às gargalhadas. O "berro dágua" de Quincas logo se espalhou como anedota, do Mercado ao Pelourinho, do largo das Sete Portas ao Dique, da Calçada a Itapoã. Quincas Berro d'Água ficou ele sendo desde então, e Quitéria do Olho Arregalado, nos momentos de maior ternura, dizia-lhe "Berrito" por entre os dentes mordedores.


Capitães da Areia (trecho)

Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser totalmente um dos Capitães da Areia, o trocou por umas calças que deram a Barandão numa casa da cidade alta. As calças tinham ficado enormes para o negrinho, êle então as ofereceu a Dora. Assim mesmo, estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que dessem. Amarrou com cordão, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de blusa. Se não fôsse a cabeleira loira e os seios nascentes, todos a poderiam tomar por um menino, um dos Capitães da Areia.

No dia em que, vestida como um garôto, ela apareceu na frente de Pedro Bala, o menino começou a rir. Chegou a se enrolar no chão de tanto rir. Por fim conseguiu dizer:
- Tu tá gozada...
Ela ficou triste, Pedro Bala parou de rir.
Não tá direito que vocês me dê de comer todo dia. Agora eu tomo parte no que vocês fizer.

O assombro dêle não teve limites:
- Tu quer dizer...
Ela o olhava calma, esperando que êle concluisse a frase.
- ...que vai andar com a gente pela rua, batendo coisas...
- Isso mesmo. - Sua voz estava cheia de resolução.
- Tu endoidou...
- Não sei por quê.
- Tu não tá vendo que tu não pode? Que isso não é coisa pra menina. Isso é coisa pra homem.
- Como se vocêes fôsse tudo um homão. E tudo um menino.
Pedro Bala procurou o que responder:
- Mas a gente veste calça, não é saia...
- Eu também. - E mostrava as calças.
De momento êle não encontrou nada que dizer. Olhou para ele pensativo, já não tinha vontade de rir. Depois de algum tempo, falou:
- Se a polícia pegar a gente, não tem nada. Mas se pegar tu?
- E igual.
- Te metem no Orfanato. Tu nem sabe o que é...
- Tem nada não. Eu agora vou com vocês.
Ele encolheu os ombros num gesto de quem não tinha nada com aquilo. Havia avisado. Mas ela bem sabia que êle estava preocupado. Por isso ainda disse:
- Tu vai ver que eu sou igual a qualquer um...
- Tu já viu uma mulher fazer o que um homem faz? Tu não aguenta um empurrão...
- Posso fazer outras coisas.
Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem tivesse mêdo dos resultados.

      

Agonia na Noite (trecho)

Eram em Santos três soldados, de baioneta calada.
Muitos soldados em Santos de baioneta calada.

Começaram carregando um navio com café. Soldado é para guerrear, onde foi que já se viu navios carregar? Mas pior era amanhã, um oficial tinha dito: "Meter fuzil no peito dos estivadores em greve, pró trabalho os conduzir, no trabalhar os vigiar".
Eram em Santos três soldados de baioneta calada.

Muitos soldados em Santos, todos lêem o seu papel: "Soldado, que vais fazer? Vais teus irmãos obrigar a trabalhar prós fascistas? Soldado, não faça não!"
Conversaram no quartel, "Soldado não faça não!". Longo tempo discutiram, "Soldado, não faça não!", como fazer? "Soldado não faça não!", decidiram não fazer, soldado para guerrear.

Eram em Santos três soldados, de baioneta calada.

Muitos soldados em Santos todos lêem o seu papel: "Soldado, não faça não". Quando soube o coronel, contado por um tenente, dos resmungos dos soldados, meteu na cinta o revólver, se encaminhou para o quartel.

Os soldados resolveram sortear quem entre eles com o coronel falaria. O primeiro foi António, Manuel foi o segundo. Não sortearam o terceiro: tinha sido estivador no longo cais da Bahia, por isso se apresentou para ir como terceiro, o negro soldado Romão.
Nem começaram a falar.

Eram em Santos três soldados de baioneta calada. Branco soldado António; Manuel, mulato pardo; negro de carvão, era o soldado Romão.
Eram e Santos três soldados, os três num muro encostados, branco soldado António; Manuel, mulato pardo; negro, negro de carvão, era o soldado Romão. Vermelho sangue dos três, dos três soldados de Santos.
Eram em Santos três soldados, vermelho sangue dos três!

 

Mar Morto (trecho)

Lívia espera e é bela nessa espera, ela é a mulher mais bela da beira do cais e dos saveiros. Nenhum mestre de saveiro tem uma mulher como Guma. Todos dizem isso e sorriem todos para ela. Todos gostariam de tê-la nos braços musculosos das travessias. Mas ela é somente de Guma, casou foi com ele na igreja de Monte Serrat, que é a igreja deles, trepada no morro, dominando o mar. Ela casou ali, com Guma, e, desde então, nas noites do cais, eles se amam, confundem os corpos sobre o mar e sob a lua.
E hoje que ela tanto esperou na tempestade, hoje que ela tanto deseja porque muito temeu, ele fuma sem prensar nela. Por isso, ela se recorda de Judith, a que não terá mais amor, aquela para quem a noite será sempre a hora de chorar. Se recorda: ela ficou atirada junto ao seu homem. Olhava para o rosto dele, aquele rosto que não se movia mais, que já não sorria, rosto que já passara sob as ondas, olhos que já haviam visto Iemanjá, a mãe-d'água.

Lívia pensa com raiva em Iemanjá. Ela é a mãe-d'água, é a dona do mar, e por isso, todos os homens que vivem em cima das ondas a temem e a amam. Ela castiga. Ela nunca se mostra aos homens a não ser quando eles morrem no mar. Os que morrem na tempestade são seus preferidos. E aqueles que morrem salvando outros homens, esses vão com ela pelos mares em fora, igual a um navio, viajando por todos os portos, correndo por todos os mares. Destes ninguém encontra os corpos, que eles vão com Iemanjá. Para ver a mãe-d'água muitos já se jogaram no mar sorrindo e não mais apareceram. Será que ela dorme com todos eles no fundo das águas? Lívia pensa nela com raiva. A estas horas ela estará com pai e filho que morreram na tempestade e talvez até que eles lutem por ela, eles que foram tão amigos toda a vida. Morrendo, ainda o pai quis salvar o filho. Quando Guma encontrou os corpos a mão do velho segurava a camisa do filho. Morreram amigos e agora quem sabe? talvez, que por causa de Iemanjá, a dona do mar, mulher, que só os mortos vêem, eles estejam brigando. Raimundo puxando a faca que os homens não encontraram no seu cinto porque ele a levou consigo. Lutarão talvez no fundo das águas para saber quem vai com ela correr os mares, ver as cidades do outro lado da terra. Judith que está chorando, Judith que tem um filho na barriga, Judith que irá se acabar no trabalho duro, Judith que nunca mais amará um homem, já estará esquecida porque a mãe-d'água é loira e tem cabelos compridos e anda nua debaixo das ondas, vestida somente com os cabelos que a gente vê quando a lua passa sobre o mar.

Os homens da terra (que sabem os homens da terra?) dizem que são os raios da lua sobre o mar. Mas os marinheiros, os mestres de saveiro, os canoeiros riem dos homens da terra que não sabem nada. Eles bem sabem que são os cabelos da mãe-d'água, que vem ver a lua cheia. E Iemanjá que vem olhar a lua. Por isso, os homens ficam espiando o mar prateado nas noites de lua. Porque sabem que a mãe-d'água está ali. Os negros tocam violão, harmônica, batem batuque e cantam. E o presente que eles trazem para a dona do mar. Outros fumam cachimbo para iluminar o caminho, assim Iemanjá verá melhor. Todos a amam e até esquecem as mulheres quando os cabelos da mãe-d'água se estendem sobre o mar.
Assim está Guma que olha o bojo de prata das águas e ouve a música do negro que convida para a morte. Ele diz que é doce morrer no mar, porque irão encontrar a mãe-d'água, que é a mulher mais bonita do mundo todo. Guma está fitando os cabelos dela, esquecido que Lívia está ali, o corpo estirado, os seios se ofertando, Lívia que tanto esperou a hora do amor, Lívia que viu a tempestade destruindo tudo, derrubando saveiros, matando homens, Lívia que muito temeu. Bem que Lívia gostaria de tê-lo nos seus braços, de beijar a sua boca e nela descobrir se ele teve medo quando as luzes se apagaram, de apertar o seu corpo para saber se o mar o molhou. Mas agora ele está esquecido de Lívia, ele só pensa em Iemanjá, a dona do mar. Talvez ele tenha inveja do pai e do filho que morreram na tempestade e que agora correrão os mundos que só os marinheiros dos grandes navios conhecem. Lívia tem ódio, tem vontade de chorar, tem vontade de se apartar do mar, de ir para bem longe.
Um saveiro passa. Lívia se suspende sobre o braço para ver melhor. Gritam para Guma:
- Boa noite, Guma...
Guma sacode a mão:
- Boa viagem.


Capitães da Areia (trecho)

Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser totalmente um dos Capitães da Areia, o trocou por umas calças que deram a Barandão numa casa da cidade alta. As calças tinham ficado enormes para o negrinho, êle então as ofereceu a Dora. Assim mesmo, estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que dessem. Amarrou com cordão, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de blusa. Se não fôsse a cabeleira loira e os seios nascentes, todos a poderiam tomar por um menino, um dos Capitães da Areia.

No dia em que, vestida como um garôto, ela apareceu na frente de Pedro Bala, o menino começou a rir. Chegou a se enrolar no chão de tanto rir. Por fim conseguiu dizer:

- Tu tá gozada...

Ela ficou triste, Pedro Bala parou de rir.
Não tá direito que vocês me dê de comer todo dia. Agora eu tomo parte no que vocês fizer.

O assombro dêle não teve limites:

- Tu quer dizer...
Ela o olhava calma, esperando que êle concluisse a frase.
- ...que vai andar com a gente pela rua, batendo coisas...
- Isso mesmo. - Sua voz estava cheia de resolução.
- Tu endoidou...
- Não sei por quê.
- Tu não tá vendo que tu não pode? Que isso não é coisa pra menina. Isso é coisa pra homem.
- Como se vocêes fôsse tudo um homão. E tudo um menino.
Pedro Bala procurou o que responder:
- Mas a gente veste calça, não é saia...
- Eu também. - E mostrava as calças.
De momento êle não encontrou nada que dizer. Olhou para ele pensativo, já não tinha vontade de rir. Depois de algum tempo, falou:
- Se a polícia pegar a gente, não tem nada. Mas se pegar tu?
- E igual.
- Te metem no Orfanato. Tu nem sabe o que é...
- Tem nada não. Eu agora vou com vocês.
Ele encolheu os ombros num gesto de quem não tinha nada com aquilo. Havia avisado. Mas ela bem sabia que êle estava preocupado. Por isso ainda disse:
- Tu vai ver que eu sou igual a qualquer um...
- Tu já viu uma mulher fazer o que um homem faz? Tu não aguenta um empurrão...
- Posso fazer outras coisas.
Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem tivesse mêdo dos resultados.


Agonia na Noite (trecho)

Eram em Santos três soldados, de baioneta calada.
Muitos soldados em Santos de baioneta calada.

Começaram carregando um navio com café. Soldado é para guerrear, onde foi que já se viu navios carregar? Mas pior era amanhã, um oficial tinha dito: "Meter fuzil no peito dos estivadores em greve, pró trabalho os conduzir, no trabalhar os vigiar".
Eram em Santos três soldados de baioneta calada.

Muitos soldados em Santos, todos lêem o seu papel: "Soldado, que vais fazer? Vais teus irmãos obrigar a trabalhar prós fascistas? Soldado, não faça não!"
Conversaram no quartel, "Soldado não faça não!". Longo tempo discutiram, "Soldado, não faça não!", como fazer? "Soldado não faça não!", decidiram não fazer, soldado para guerrear.

Eram em Santos três soldados, de baioneta calada.

Muitos soldados em Santos todos lêem o seu papel: "Soldado, não faça não". Quando soube o coronel, contado por um tenente, dos resmungos dos soldados, meteu na cinta o revólver, se encaminhou para o quartel.

Os soldados resolveram sortear quem entre eles com o coronel falaria. O primeiro foi António, Manuel foi o segundo. Não sortearam o terceiro: tinha sido estivador no longo cais da Bahia, por isso se apresentou para ir como terceiro, o negro soldado Romão.
Nem começaram a falar.

Eram em Santos três soldados de baioneta calada. Branco soldado António; Manuel, mulato pardo; negro de carvão, era o soldado Romão.
Eram e Santos três soldados, os três num muro encostados, branco soldado António; Manuel, mulato pardo; negro, negro de carvão, era o soldado Romão. Vermelho sangue dos três, dos três soldados de Santos.
Eram em Santos três soldados, vermelho sangue dos três!


Jorge Amado

 

 

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