Jorge
Amado de Faria
nasceu em
1912, em Ferradas,
hoje município
de Itabuna,
Bahia. Filho
de comerciante
sergipano
que se tornou
produtor de
cacau, fez
seus estudos
em Ilhéus,
Salvador e
Rio. Nos fins
da década
de 20, levou
vida de jornalista
boêmio, na
capital baiana,
onde participou
de grupos
literários
e da efêmera
"Academia
dos Rebeldes",
uma das primeiras
manifestações
de oposição
ao Modernismo,
no nordeste.
Em 30, foi
para o Rio
estudar Direito.
Nessa cidade,
colaborou
em jornais,
fez parte
de grupos
literários
e publicou,
em 1931, O
País do Carnaval,
o que o tornou
conhecido.
A
notoriedade
chegou com
os dois romances
seguintes:
Cacau e Suor,
publicados
em 33 e 34.
Em 1932, aproximou-se
dos grupos
políticos
de esquerda,
apresentado
por Rachel
de Queiroz.
Participou
do movimento
de frente
popular da
Aliança Nacional
Libertadora,
conhecendo
as agruras
da prisão,
em 36 e 37.
Perseguido,
exilou-se
em Buenos
Aires, Argentina,
de 1941 a
1943, período
em que publicou
a biografia
de Carlos
Prestes e
escreveu Terras
do Sem Fim.
Em
1946, com
a redemocratização,
elegeu-se
deputado federal
pelo Partido
Comunista
Brasileiro.
No ano seguinte,
perdeu o mandato,
quando o partido
foi considerado
ilegal. Em
1947, deixou
o país por
alguns anos,
morando na
França e em
vários países
socialistas
da Europa.
A partir de
1958, sua
produção metódica
tem-lhe permitido
viver exclusivamente
de literatura.
Em 1959, foi
eleito para
a Academia
Brasileira
de Letras.
É, sem dúvida,
o autor mais
popular da
literatura
brasileira;
seus livros
foram traduzidos
para mais
de 30 línguas,
sendo por
isso conhecido
mundialmente.
Foi
traduzido
em mais de
50 países.
Em 1994 recebe
o Prêmio Camões
e, quando
do seu 85.º
aniversário,
um novo teatro
no bairro
de Pituba
na cidade
de Salvador
recebeu o
seu nome.
Jorge
Amado faleceu
no dia 6 de
agosto de
2001, na véspera
de completar
98 anos de
idade, de
problemas
respiratórios.
Nem
a rosa, nem
o cravo...
As frases
perdem seu
sentido, as
palavras perdem
sua significação
costumeira,
como dizer
das árvores
e das flores,
dos teus olhos
e do mar,
das canoas
e do cais,
das borboletas
nas árvores,
quando as
crianças são
assassinadas
friamente
pelos nazistas?
Como falar
da gratuita
beleza dos
campos e das
cidades, quando
as bestas
soltas no
mundo ainda
destroem os
campos e as
cidades?
Já
viste um loiro
trigal balançando
ao vento?
É das coisas
mais belas
do mundo,
mas os hitleristas
e seus cães
danados destruíram
os trigais
e os povos
morrem de
fome. Como
falar, então,
da beleza,
dessa beleza
simples e
pura da farinha
e do pão,
da água da
fonte, do
céu azul,
do teu rosto
na tarde?
Não posso
falar dessas
coisas de
todos os dias,
dessas alegrias
de todos os
instantes.
Porque elas
estão perigando,
todas elas,
os trigais
e o pão, a
farinha e
a água, o
céu, o mar
e teu rosto.
Contra tudo
que é a beleza
cotidiana
do homem,
o nazifascismo
se levantou,
monstro medieval
de torpe visão,
de ávido apetite
assassino.
Outros que
falem, se
quiserem,
das árvores
nas tardes
agrestes,
das rosas
em coloridos
variados,
das flores
simples e
dos versos
mais belos
e mais tristes.
Outros que
falem as grandes
palavras de
amor para
a bem-amada,
outros que
digam dos
crepúsculos
e das noites
de estrelas.
Não tenho
palavras,
não tenho
frases, vejo
as árvores,
os pássaros
e a tarde,
vejo teus
olhos, vejo
o crepúsculo
bordando a
cidade. Mas
sobre todos
esses quadros
bóiam cadáveres
de crianças
que os nazis
mataram, ao
canto dos
pássaros se
mesclam os
gritos dos
velhos torturados
nos campos
de concentração,
nos crepúsculos
se fundem
madrugadas
de reféns
fuzilados.
E, quando
a paisagem
lembra o campo,
o que eu vejo
são os trigais
destruídos
ao passo das
bestas hitleristas,
os trigais
que alimentavam
antes as populações
livres. Sobre
toda a beleza
paira a sombra
da escravidão.
É como u'a
nuvem inesperada
num céu azul
e límpido.
Como então
encontrar
palavras inocentes,
doces palavras
cariciosas,
versos suaves
e tristes?
Perdi o sentido
destas palavras,
destas frases,
elas me soam
como uma traição
neste momento.
Mas
sei todas
as palavras
de ódio, do
ódio mais
profundo e
mais mortal.
Eles matam
crianças e
essa é a sua
maneira de
brincar o
mais inocente
dos brinquedos.
Eles desonram
a beleza das
mulheres nos
leitos imundos
e essa é a
sua maneira
mais romântica
de amar. Eles
torturam os
homens nos
campos de
concentração
e essa é a
sua maneira
mais simples
de construir
o mundo. Eles
invadiram
as pátrias,
escravizaram
os povos,
e esse é o
ideal que
levam no coração
de lama. Como
então ficar
de olhos fechados
para tudo
isto e falar,
com as palavras
de sempre,
com as frases
de ontem,
sobre a paisagem
e os pássaros,
a tarde e
os teus olhos?
É impossível
porque os
monstros estão
sobre o mundo
soltos e vorazes,
a boca escorrendo
sangue, os
olhos amarelos,
na ambição
de escravizar.
Os monstros
pardos, os
monstros negros
e os monstros
verdes.
Mas
eu sei todas
as palavras
de ódio e
essas, sim,
têm um significado
neste momento.
Houve um dia
em que eu
falei do amor
e encontrei
para ele os
mais doces
vocábulos,
as frases
mais trabalhadas.
Hoje só 0
ódio pode
fazer com
que o amor
perdure sobre
o mundo. Só
0 ódio ao
fascismo,
mas um ódio
mortal, um
ódio sem perdão,
um ódio que
venha do coração
e que nos
tome todo,
que se faça
dono de todas
as nossas
palavras,
que nos impeça
de ver qualquer
espetáculo
- desde o
crepúsculo
aos olhos
da amada -
sem que junto
a ele vejamos
o perigo que
os cerca.
Jamais
as tardes
seriam doces
e jamais as
madrugadas
seriam de
esperança.
Jamais os
livros diriam
coisas belas,
nunca mais
seria escrito
um verso de
amor. Sobre
toda a beleza
do mundo,
sobre a farinha
e o pão, sobre
a pura água
da fonte e
sobre o mar,
sobre teus
olhos também,
se debruçaria
a desonra
que é o nazifascismo,
se eles tivessem
conseguido
dominar o
mundo. Não
restaria nenhuma
parcela de
beleza, a
mais mínima.
Amanhã saberei
de novo palavras
doces e frases
cariciosas.
Hoje só sei
palavras de
ódio, palavras
de morte.
Não encontrarás
um cravo ou
uma rosa,
uma flor na
minha literatura.
Mas encontrarás
um punhal
ou um fuzil,
encontrarás
uma arma contra
os inimigos
da beleza,
contra aqueles
que amam as
trevas e a
desgraça,
a lama e os
esgotos, contra
esses restos
de podridão
que sonharam
esmagar a
poesia, o
amor e a liberdade!
Gabriela,
cravo e canela
(fragmentos)
Naquele ano
de 1925, quando
floresceu
o idílio da
mulata Gabriela
e do árabe
Nacib, a estação
das chuvas
tanto se prolongara
além do normal
e necessário
que os fazendeiros,
como um bando
assustado,
cruzavam-se
nas ruas a
perguntar
uns aos outros
nos olhos
e na voz:
-- Será que
não vai parar?
Referiam-se
às chuvas,
nunca se vira
tanta água
descendo dos
céus, dia
e noite, quase
sem intervalos.
-- Mais uma
semana e estará
tudo em perigo.
-- A safra
inteira...
-- Meu Deus!
Falavam da
safra anunciando-se
excepcional,
a superar
de longe todas
as anteriores.
Com os preços
do cacau em
constante
alta, significava
ainda maior
riqueza, prosperidade,
fartura, dinheiro
a rodo. Os
filhos dos
coronéis indo
cursar os
colégios mais
caros das
grandes cidades,
novas residências
para as famílias
nas novas
ruas recém-abertas,
móveis de
luxo mandados
vir do Rio,
pianos de
cauda para
compor as
salas, as
lojas sortidas,
multiplicando-se,
o comércio
crescendo,
bebida correndo
nos cabarés,
mulheres desembarcando
dos navios,
o jogo campeando
nos bares
e nos hotéis,
o progresso
enfim, a tão
falada civilização.
E dizer-se
que essas
chuvas agora
demasiado
copiosas,
ameaçadoras,
diluviais,
tinham demorado
a chegar,
tinham-se
feito esperar
e rogar! Meses
antes, os
coronéis levantavam
os olhos para
o céu límpido
em busca de
nuvens, de
sinais de
chuva próxima.
Cresciam as
roças de cacau,
estendendo-se
por todo o
sul da Bahia,
esperavam
as chuvas
indispensáveis
ao desenvolvimento
dos frutos
acabados de
nascer, substituindo
as flores
nos cacauais.
A procissão
de são Jorge,
naquele ano,
tomara o aspecto
de uma ansiosa
promessa coletiva
ao santo padroeiro
da cidade.
O seu rico
andor bordado
de ouro, levavam-no
sobre os ombros
orgulhosos
os cidadãos
mais notáveis,
os maiores
fazendeiros,
vestidos com
a bata vermelha
da confraria,
e não é pouco
dizer, pois
os coronéis
do cacau não
primavam pela
religiosidade,
não freqüentavam
igrejas, rebeldes
à missa e
à confissão,
deixando essas
fraquezas
para as fêmeas
da família:
-- Isso de
igreja é coisa
para mulheres.
Contentavam-se
com atender
os pedidos
de dinheiro
do Bispo e
dos padres
para obras
e folguedos:
o colégio
das freiras
no alto da
Vitória, o
Palácio Diocesano,
escolas de
catecismo,
novenas, mês
de Maria,
quermesses,
festas de
santo Antônio
e são João.
Naquele ano,
em vez de
ficarem nos
bares bebericando,
estavam todos
eles na procissão,
de vela em
punho, contritos,
prometendo
mundos e fundos
a são Jorge
em troca das
chuvas preciosas.
A multidão,
atrás dos
andores, acompanhava
pela ruas
a reza dos
padres. Paramentado,
as mãos unidas
para a oração,
o rosto compungido,
o padre Basílio
elevava a
voz sonora
puxando as
preces. Escolhido
para a importante
função por
suas eminentes
virtudes,
por todos
consideradas
e estimadas,
o fora também
por ser o
santo homem
proprietário
de terras
e roças, diretamente
interessado
na intervenção
celestial.
Rezava assim
com redobrado
vigor.
A morte
e a morte
de Quincas
Berro d'Água
(fragmento)
Os
jogadores
de porrinha,
de ronda,
de sete-e-meio
suspendiam
as emocionantes
partidas,
desinteressados
dos lucros,
apatetados.
Não era Berro
d'Água o seu
indiscutido
chefe? Caía
sobre eles
a sombra da
tarde como
luto fechado.
Nos bares,
nos botequins,
no balcão
das vendas
e armazéns,
onde quer
que se bebesse
cachaça, imperou
a tristeza
e a consumação
era por conta
da perda irremediável.
Quem sabia
melhor beber
do que ele,
jamais completamente
alterado,
tanto mais
lúcido e brilhante
quanto mais
aguardente
emborcava?
Capaz como
ninguém de
adivinhar
a marca, a
procedência
das pingas
mais diversas,
conhecendo-lhes
todas as nuanças
de cor, de
gosto e de
perfume. Há
quantos anos
não tocava
em água? Desde
aquele dia
em que passou
a ser chamado
Berro d'Água.
Não que seja
fato memorável
ou excitante
história,
mas vale a
pena contar
o caso, pois
foi a partir
desse distante
dia que a
alcunha de
"berro d'água"
incorporou-se
definitivamente
ao nome de
Quincas. Entrara
ele na venda
de Lopez,
simpático
espanhol,
na parte externa
do mercado.
Freguês habitual,
conquistara
o direito
de servir-se
sem auxílio
do empregado.
Sobre o balcão
viu uma garrafa
transbordando
de límpida
cachaça, transparente,
perfeita.
Encheu um
copo, cuspiu
para limpar
a boca, virou-o
de uma vez.
E o berro
inumano cortou
a placidez
da manhã no
mercado, abalando
o próprio
Elevador Lacerda
em seus profundos
alicerces.
O grito de
um animal
ferido de
morte, de
um homem traído
e desgraçado:
- Águuuuua!
Imundo, asqueroso
espanhol de
má fama! Corria
gente de todos
os lados,
alguém estava
sendo com
certeza assassinado,
os fregueses
da venda riam
às gargalhadas.
O "berro dágua"
de Quincas
logo se espalhou
como anedota,
do Mercado
ao Pelourinho,
do largo das
Sete Portas
ao Dique,
da Calçada
a Itapoã.
Quincas Berro
d'Água ficou
ele sendo
desde então,
e Quitéria
do Olho Arregalado,
nos momentos
de maior ternura,
dizia-lhe
"Berrito"
por entre
os dentes
mordedores.
Capitães
da Areia (trecho)
Como o vestido
dificultava
seus movimentos
e como ela
queria ser
totalmente
um dos Capitães
da Areia,
o trocou por
umas calças
que deram
a Barandão
numa casa
da cidade
alta. As calças
tinham ficado
enormes para
o negrinho,
êle então
as ofereceu
a Dora. Assim
mesmo, estavam
grandes para
ela, teve
que as cortar
nas pernas
para que dessem.
Amarrou com
cordão, seguindo
o exemplo
de todos,
o vestido
servia de
blusa. Se
não fôsse
a cabeleira
loira e os
seios nascentes,
todos a poderiam
tomar por
um menino,
um dos Capitães
da Areia.
No
dia em que,
vestida como
um garôto,
ela apareceu
na frente
de Pedro Bala,
o menino começou
a rir. Chegou
a se enrolar
no chão de
tanto rir.
Por fim conseguiu
dizer:
- Tu tá gozada...
Ela ficou
triste, Pedro
Bala parou
de rir.
Não tá direito
que vocês
me dê de comer
todo dia.
Agora eu tomo
parte no que
vocês fizer.
O
assombro dêle
não teve limites:
- Tu quer
dizer...
Ela o olhava
calma, esperando
que êle concluisse
a frase.
- ...que vai
andar com
a gente pela
rua, batendo
coisas...
- Isso mesmo.
- Sua voz
estava cheia
de resolução.
- Tu endoidou...
- Não sei
por quê.
- Tu não tá
vendo que
tu não pode?
Que isso não
é coisa pra
menina. Isso
é coisa pra
homem.
- Como se
vocêes fôsse
tudo um homão.
E tudo um
menino.
Pedro Bala
procurou o
que responder:
- Mas a gente
veste calça,
não é saia...
- Eu também.
- E mostrava
as calças.
De momento
êle não encontrou
nada que dizer.
Olhou para
ele pensativo,
já não tinha
vontade de
rir. Depois
de algum tempo,
falou:
- Se a polícia
pegar a gente,
não tem nada.
Mas se pegar
tu?
- E igual.
- Te metem
no Orfanato.
Tu nem sabe
o que é...
- Tem nada
não. Eu agora
vou com vocês.
Ele encolheu
os ombros
num gesto
de quem não
tinha nada
com aquilo.
Havia avisado.
Mas ela bem
sabia que
êle estava
preocupado.
Por isso ainda
disse:
- Tu vai ver
que eu sou
igual a qualquer
um...
- Tu já viu
uma mulher
fazer o que
um homem faz?
Tu não aguenta
um empurrão...
- Posso fazer
outras coisas.
Pedro Bala
se conformou.
No fundo gostava
da atitude
dela, se bem
tivesse mêdo
dos resultados.
Agonia
na Noite (trecho)
Eram em Santos
três soldados,
de baioneta
calada.
Muitos soldados
em Santos
de baioneta
calada.
Começaram
carregando
um navio com
café. Soldado
é para guerrear,
onde foi que
já se viu
navios carregar?
Mas pior era
amanhã, um
oficial tinha
dito: "Meter
fuzil no peito
dos estivadores
em greve,
pró trabalho
os conduzir,
no trabalhar
os vigiar".
Eram em Santos
três soldados
de baioneta
calada.
Muitos
soldados em
Santos, todos
lêem o seu
papel: "Soldado,
que vais fazer?
Vais teus
irmãos obrigar
a trabalhar
prós fascistas?
Soldado, não
faça não!"
Conversaram
no quartel,
"Soldado não
faça não!".
Longo tempo
discutiram,
"Soldado,
não faça não!",
como fazer?
"Soldado não
faça não!",
decidiram
não fazer,
soldado para
guerrear.
Eram
em Santos
três soldados,
de baioneta
calada.
Muitos
soldados em
Santos todos
lêem o seu
papel: "Soldado,
não faça não".
Quando soube
o coronel,
contado por
um tenente,
dos resmungos
dos soldados,
meteu na cinta
o revólver,
se encaminhou
para o quartel.
Os
soldados resolveram
sortear quem
entre eles
com o coronel
falaria. O
primeiro foi
António, Manuel
foi o segundo.
Não sortearam
o terceiro:
tinha sido
estivador
no longo cais
da Bahia,
por isso se
apresentou
para ir como
terceiro,
o negro soldado
Romão.
Nem começaram
a falar.
Eram
em Santos
três soldados
de baioneta
calada. Branco
soldado António;
Manuel, mulato
pardo; negro
de carvão,
era o soldado
Romão.
Eram e Santos
três soldados,
os três num
muro encostados,
branco soldado
António; Manuel,
mulato pardo;
negro, negro
de carvão,
era o soldado
Romão. Vermelho
sangue dos
três, dos
três soldados
de Santos.
Eram em Santos
três soldados,
vermelho sangue
dos três!
Mar
Morto (trecho)
Lívia espera
e é bela nessa
espera, ela
é a mulher
mais bela
da beira do
cais e dos
saveiros.
Nenhum mestre
de saveiro
tem uma mulher
como Guma.
Todos dizem
isso e sorriem
todos para
ela. Todos
gostariam
de tê-la nos
braços musculosos
das travessias.
Mas ela é
somente de
Guma, casou
foi com ele
na igreja
de Monte Serrat,
que é a igreja
deles, trepada
no morro,
dominando
o mar. Ela
casou ali,
com Guma,
e, desde então,
nas noites
do cais, eles
se amam, confundem
os corpos
sobre o mar
e sob a lua.
E hoje que
ela tanto
esperou na
tempestade,
hoje que ela
tanto deseja
porque muito
temeu, ele
fuma sem prensar
nela. Por
isso, ela
se recorda
de Judith,
a que não
terá mais
amor, aquela
para quem
a noite será
sempre a hora
de chorar.
Se recorda:
ela ficou
atirada junto
ao seu homem.
Olhava para
o rosto dele,
aquele rosto
que não se
movia mais,
que já não
sorria, rosto
que já passara
sob as ondas,
olhos que
já haviam
visto Iemanjá,
a mãe-d'água.
Lívia
pensa com
raiva em Iemanjá.
Ela é a mãe-d'água,
é a dona do
mar, e por
isso, todos
os homens
que vivem
em cima das
ondas a temem
e a amam.
Ela castiga.
Ela nunca
se mostra
aos homens
a não ser
quando eles
morrem no
mar. Os que
morrem na
tempestade
são seus preferidos.
E aqueles
que morrem
salvando outros
homens, esses
vão com ela
pelos mares
em fora, igual
a um navio,
viajando por
todos os portos,
correndo por
todos os mares.
Destes ninguém
encontra os
corpos, que
eles vão com
Iemanjá. Para
ver a mãe-d'água
muitos já
se jogaram
no mar sorrindo
e não mais
apareceram.
Será que ela
dorme com
todos eles
no fundo das
águas? Lívia
pensa nela
com raiva.
A estas horas
ela estará
com pai e
filho que
morreram na
tempestade
e talvez até
que eles lutem
por ela, eles
que foram
tão amigos
toda a vida.
Morrendo,
ainda o pai
quis salvar
o filho. Quando
Guma encontrou
os corpos
a mão do velho
segurava a
camisa do
filho. Morreram
amigos e agora
quem sabe?
talvez, que
por causa
de Iemanjá,
a dona do
mar, mulher,
que só os
mortos vêem,
eles estejam
brigando.
Raimundo puxando
a faca que
os homens
não encontraram
no seu cinto
porque ele
a levou consigo.
Lutarão talvez
no fundo das
águas para
saber quem
vai com ela
correr os
mares, ver
as cidades
do outro lado
da terra.
Judith que
está chorando,
Judith que
tem um filho
na barriga,
Judith que
irá se acabar
no trabalho
duro, Judith
que nunca
mais amará
um homem,
já estará
esquecida
porque a mãe-d'água
é loira e
tem cabelos
compridos
e anda nua
debaixo das
ondas, vestida
somente com
os cabelos
que a gente
vê quando
a lua passa
sobre o mar.
Os
homens da
terra (que
sabem os homens
da terra?)
dizem que
são os raios
da lua sobre
o mar. Mas
os marinheiros,
os mestres
de saveiro,
os canoeiros
riem dos homens
da terra que
não sabem
nada. Eles
bem sabem
que são os
cabelos da
mãe-d'água,
que vem ver
a lua cheia.
E Iemanjá
que vem olhar
a lua. Por
isso, os homens
ficam espiando
o mar prateado
nas noites
de lua. Porque
sabem que
a mãe-d'água
está ali.
Os negros
tocam violão,
harmônica,
batem batuque
e cantam.
E o presente
que eles trazem
para a dona
do mar. Outros
fumam cachimbo
para iluminar
o caminho,
assim Iemanjá
verá melhor.
Todos a amam
e até esquecem
as mulheres
quando os
cabelos da
mãe-d'água
se estendem
sobre o mar.
Assim está
Guma que olha
o bojo de
prata das
águas e ouve
a música do
negro que
convida para
a morte. Ele
diz que é
doce morrer
no mar, porque
irão encontrar
a mãe-d'água,
que é a mulher
mais bonita
do mundo todo.
Guma está
fitando os
cabelos dela,
esquecido
que Lívia
está ali,
o corpo estirado,
os seios se
ofertando,
Lívia que
tanto esperou
a hora do
amor, Lívia
que viu a
tempestade
destruindo
tudo, derrubando
saveiros,
matando homens,
Lívia que
muito temeu.
Bem que Lívia
gostaria de
tê-lo nos
seus braços,
de beijar
a sua boca
e nela descobrir
se ele teve
medo quando
as luzes se
apagaram,
de apertar
o seu corpo
para saber
se o mar o
molhou. Mas
agora ele
está esquecido
de Lívia,
ele só pensa
em Iemanjá,
a dona do
mar. Talvez
ele tenha
inveja do
pai e do filho
que morreram
na tempestade
e que agora
correrão os
mundos que
só os marinheiros
dos grandes
navios conhecem.
Lívia tem
ódio, tem
vontade de
chorar, tem
vontade de
se apartar
do mar, de
ir para bem
longe.
Um saveiro
passa. Lívia
se suspende
sobre o braço
para ver melhor.
Gritam para
Guma:
- Boa noite,
Guma...
Guma sacode
a mão:
- Boa viagem.
Capitães
da Areia (trecho)
Como
o vestido
dificultava
seus movimentos
e como ela
queria ser
totalmente
um dos Capitães
da Areia,
o trocou por
umas calças
que deram
a Barandão
numa casa
da cidade
alta. As calças
tinham ficado
enormes para
o negrinho,
êle
então
as ofereceu
a Dora. Assim
mesmo, estavam
grandes para
ela, teve
que as cortar
nas pernas
para que dessem.
Amarrou com
cordão,
seguindo o
exemplo de
todos, o vestido
servia de
blusa. Se
não
fôsse
a cabeleira
loira e os
seios nascentes,
todos a poderiam
tomar por
um menino,
um dos Capitães
da Areia.
No
dia em que,
vestida como
um garôto,
ela apareceu
na frente
de Pedro Bala,
o menino começou
a rir. Chegou
a se enrolar
no chão
de tanto rir.
Por fim conseguiu
dizer:
-
Tu tá
gozada...
Ela
ficou triste,
Pedro Bala
parou de rir.
Não
tá
direito que
vocês
me dê
de comer todo
dia. Agora
eu tomo parte
no que vocês
fizer.
O
assombro dêle
não
teve limites:
-
Tu quer dizer...
Ela o olhava
calma, esperando
que êle
concluisse
a frase.
- ...que vai
andar com
a gente pela
rua, batendo
coisas...
- Isso mesmo.
- Sua voz
estava cheia
de resolução.
- Tu endoidou...
- Não
sei por quê.
- Tu não
tá
vendo que
tu não
pode? Que
isso não
é coisa
pra menina.
Isso é
coisa pra
homem.
- Como se
vocêes
fôsse
tudo um homão.
E tudo um
menino.
Pedro Bala
procurou o
que responder:
- Mas a gente
veste calça,
não
é saia...
- Eu também.
- E mostrava
as calças.
De momento
êle
não
encontrou
nada que dizer.
Olhou para
ele pensativo,
já
não
tinha vontade
de rir. Depois
de algum tempo,
falou:
- Se a polícia
pegar a gente,
não
tem nada.
Mas se pegar
tu?
- E igual.
- Te metem
no Orfanato.
Tu nem sabe
o que é...
- Tem nada
não.
Eu agora vou
com vocês.
Ele encolheu
os ombros
num gesto
de quem não
tinha nada
com aquilo.
Havia avisado.
Mas ela bem
sabia que
êle
estava preocupado.
Por isso ainda
disse:
- Tu vai ver
que eu sou
igual a qualquer
um...
- Tu já
viu uma mulher
fazer o que
um homem faz?
Tu não
aguenta um
empurrão...
- Posso fazer
outras coisas.
Pedro Bala
se conformou.
No fundo gostava
da atitude
dela, se bem
tivesse mêdo
dos resultados.
Agonia
na Noite
(trecho)
Eram
em Santos
três
soldados,
de baioneta
calada.
Muitos soldados
em Santos
de baioneta
calada.
Começaram
carregando
um navio com
café.
Soldado é
para guerrear,
onde foi que
já
se viu navios
carregar?
Mas pior era
amanhã,
um oficial
tinha dito:
"Meter
fuzil no peito
dos estivadores
em greve,
pró
trabalho os
conduzir,
no trabalhar
os vigiar".
Eram em Santos
três
soldados de
baioneta calada.
Muitos
soldados em
Santos, todos
lêem
o seu papel:
"Soldado,
que vais fazer?
Vais teus
irmãos
obrigar a
trabalhar
prós
fascistas?
Soldado, não
faça
não!"
Conversaram
no quartel,
"Soldado
não
faça
não!".
Longo tempo
discutiram,
"Soldado,
não
faça
não!",
como fazer?
"Soldado
não
faça
não!",
decidiram
não
fazer, soldado
para guerrear.
Eram
em Santos
três
soldados,
de baioneta
calada.
Muitos
soldados em
Santos todos
lêem
o seu papel:
"Soldado,
não
faça
não".
Quando soube
o coronel,
contado por
um tenente,
dos resmungos
dos soldados,
meteu na cinta
o revólver,
se encaminhou
para o quartel.
Os
soldados resolveram
sortear quem
entre eles
com o coronel
falaria. O
primeiro foi
António,
Manuel foi
o segundo.
Não
sortearam
o terceiro:
tinha sido
estivador
no longo cais
da Bahia,
por isso se
apresentou
para ir como
terceiro,
o negro soldado
Romão.
Nem começaram
a falar.
Eram
em Santos
três
soldados de
baioneta calada.
Branco soldado
António;
Manuel, mulato
pardo; negro
de carvão,
era o soldado
Romão.
Eram e Santos
três
soldados,
os três
num muro encostados,
branco soldado
António;
Manuel, mulato
pardo; negro,
negro de carvão,
era o soldado
Romão.
Vermelho sangue
dos três,
dos três
soldados de
Santos.
Eram em Santos
três
soldados,
vermelho sangue
dos três!
Jorge Amado
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