Alandelão de La Patrie

João Ubaldo Ribeiro

Não entendo aquele que aprecia o boi. Aqui se criava antigamente muito guzerá, que para mim tem a cara de ordinário, mentiroso, criminoso e cínico. Inclusive, a maioria possui olheiras, mostrando que são perversos devassos de pouca confiança. O sujeito que já se viu no pasto, ou mesmo no cercado, na companhia de um guzerá, esse sujeito sabe que não pode virar as costas nem se desprevenir, porque ele pega, e quem ele pega ele não trata com simpatia. De minha parte, que faço outros serviços, tudo muito geral nesta fazenda, o único boi que se dá bem comigo é o boi Bundão, assim mesmo sem essas alegrias todas, porém com bastante sossego, visto o boi holandês ser pela própria natureza uma criatura fina e de maneiras, está se vendo que é holandês mesmo. Deve ser que na terra dele tem reis e rainhas e desde que boi é boi na Holanda, ele vem sendo educado com finura. Então o boi holandês cobre as vacas dele com muito sentido de sua obrigação, e é até uma coisa bonita de se assistir, porque a vaca holandesa é também educadíssima e então quando Bundão está fazendo um serviço com uma delas até mesmo as visitas gostam de apreciar, porque, no que ele desmonta da vaca, só falta agradecer e ela dar um sorriso. É uma coisa finíssima. Este Bundão, aliás, que está ficando velho, quando eu posso boto uns amendoins no bagaço de cana que ele gosta, que é para ele conseguir desfraldar o instrumento e continuar com emprego fixo -- visto que, no dia que Bundão não for mais espadachim, adeus Bundão, e possa ser até que eu fique com saudades, sendo um boi que, não tendo intimidade com ninguém, me trata parecendo que é formado pelo menos em ginásio. Se um dia eu comer uma buchada dos buchos de Bundão, vou comer com desgosto. Eu como porque nesta vida é um comendo o outro e é melhor que a gente coma o boi do que o boi comer a gente, é uma questão política, mesmo porque o boi não fala.Antigamente não era igual a hoje, quer dizer, não era esta organização toda. O touro guzerá encarregado de enxertar as vacas era um absurdo. Atendendo pelo nome de Nonô de Bombaim, esse touro guzerá ficava ciscando no meio das vacas da raça dele e, quando uma facilitava, até parecia que ele estava pagando e tinha direito a qualquer coisa, a vaca nem achava tempo para fazer a posição, porque ele já vinha de lá soltando fumaça e completamente armado e uma coisa que eu agradeço a deus é que Deus não me fez eu nascer vaca daquele guzerá. Inclusive, não foi uma nem duas vezes que os vaqueiros tinham que acertar a entrância correta, porque ele não queria saber, ia pincelando onde achasse quarto de vaca. Tipo do boi atrasado, rei da ignorância. Quando eu me lembro de Nonô de Bombaim tratando as vacas, fico destremecendo, a vaca sofre muito. Quando o sujeito compara o tratamento que Bundão dá às vacas holandesas com o tratamento que Nonô dava às vacas guzerás, aí é que o sujeito vê a diferença entre uma pessoa loura e educada como Bundão e uma pessoa sem princípios e amulatada, como Nonô. É por essas e outras que, na próxima encarnação, se Deus quiser e eu merecer, eu volto branco e bem educado. Não quero fazer como Nonô, que chega e vai lascando a vaca toda, se bem que ele é muito bem admirado em toda a redondeza e diz o povo que até hoje tem mulheres que, no entusiasmo de brincar de bicho de duas costas, elogiam o homem dizendo "dá nela, Nonô!", mas considero essas mulheres todas umas vacas guzerás, isto é o que considero, pois que sou a favor do carinho, porradas só quando imploradas ou merecidas verdadeiramente.
(Trecho)

Alegrias da Paternidade

Tenho certeza de que inventaram esse negócio de Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia dos Namorados e assemelhados com o exclusivo propósito de atanazar o juízo do grupo, numeroso porém desprezado, em que me integro, ou seja, o dos que acham essas datas apenas ocasiões para exercícios de sadomasoquismo e solapamento da já combalida estrutura familiar. Sei de dezenas e dezenas de namoros acabados e casamentos atormentados porque um infeliz se esqueceu de uma dessas datas. (As infelizes, curiosamente, não costumam esquecer-se — deve ser algum golpe delas; está fora da moda, mas mandam os antigos não menosprezar o Eterno Feminino, os antigos sabiam das coisas.) Eu mesmo só lembrei que hoje é Dia dos Pais (escrevo com cruel antecedência, é bom sempre observar) porque andei folheando uma agenda.
(Trecho)

A Raiz de Mandioca da Viúva Monção

Todo mundo sabe que a terra aqui em Itaparica é fertilíssima, uma coisa que só vendo para acreditar. Bem verdade que costumava ser ainda mais fértil, mas isso era no tempo em que não havia televisão, de maneira que o pessoal contava histórias sobre proezas agrícolas e a coisa aumentava um pouco. Quase não temos mais bons mentirosos em Itaparica, a não ser do tipo desagradável existente em toda parte, o mentiroso político, o fariseu, essas personagens de rotina mesmo. Os outros, os bons, foram liquidados pela concorrência da tevê: hoje o pessoal fica em casa e, mentira por mentira, as dos comerciais do governo já satisfazem a quem quer dar umas risadinhas.Lembro bem dos coentros de Lamartine. Isso foi no tempo em que Lamartine era rapazinho - e já estava velho quando o conheci, há mais de trinta e cinco anos, por aí vocês vêem quanto tempo que não faz. Os coentros de Lamartine, ele exagerou na adubagem, foi isso. Naquele tempo, não se podia exagerar na adubagem, porque a terra ainda estava muito impetuosa, muito moça, quase virgem, negócio mesmo de o sujeito se arriscar a ver raiz crescer no dedo, se enfiasse o dedo nela um tempinho. Mas ele exagerou no Salitre do Chile Especial e foi o que se viu: cada pé de coentro que dava para um homem se esconder atrás. Coisa que, aliás, ele chegou a fazer, numa certa oportunidade. Estava fugindo de dona Naninha, então noiva dele, por causa de uma transgressão da mocidade qualquer, e aí se escondeu dela atrás do pé de coentro. E ela não viu nada, sendo bem possível que tivesse pensado que errara de caminho e, em vez de à horta do noivo, tivesse chegado a um bananal.Esse Salitre do Chile Especial, por sinal, nunca mais ele usou, porque as plantas ítaparicanas tratadas com ele eram um transtorno. Quem quer que já tenha tentado vender um molho de coentro com as folhas do tamanho de palhas de coqueiro compreenderá bem o problema de Lamartine. Se a natureza fez as folhas de coentro daquele tamaninho, é porque quis que elas fossem assim. Que fez então Lamartine? Pegou o resto do saco do salitre e jogou nos fundos de um quarto do quintal, cômodo abandonado que ele só usava para depositar umas tralhas
(Trecho)

Aventuras no Calçadão

AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ, quem te viu, quem te vê, nada como um dia depois do outro, nunca diga "desta água não beberei" — tudo isso me ocorre, ao ver-me no calçadão da praia, fazendo em passo acelerado o percurso de ida e volta do Leblon ao Arpoador. Com exceção de futebol, quando eu era desses fominhas de bola que não queriam parar nem depois que escurecia, sempre tive horror visceral a qualquer tipo de exercício físico. Uma vez, na Bahia, por pressão de amigos e insegurança amorosa, matriculei-me numa academia de ginástica, para tirar a barriga — o famigerado e pouco atlético brama-peito. Disseram-me que, no começo, eu ia ficar cansado, os músculos iam doer, mas depois eu ia ver que magnífico bem-estar sentiria, depois da ducha pós-malhação. Freqüentei a academia uns cinco meses e, invariavelmente, me sentia um farrapo humano, antes, durante e depois (quanto à barriga, prefiro não fazer comentários).Tendo abandonado o rude esporte bretão quando, na condição, como se dizia naquela época, de beque direito, qualquer ponta-esquerda passou a me parecer ter a velocidade de um fórmula 1, dei para, no máximo, disputar, com singular incompetência, torneios de futebol de mesa, palitinho, sinuca e xadrez. Fazer força, me agitar, pegar peso, nunca. Mas eis que a mão cruel do destino interferiu e, ao examinar-me, um médico concluiu que minha energia era equivalente à de um cágado cheio de Lexotan. "Você vai andar no calçadão", disse ele. "Ou então vai acabar tendo dificuldade em se levantar de uma poltrona”. Como, embora não lhe tivesse contado, eu já andava mesmo com preguiça de me sentar, quanto mais de me levantar, resolvi heroicamente enfrentar o calçadão. Foi uma decisão dura, várias madrugadas de dúvida e relutância, mas, numa bela sexta-feira, surpreendo-me atravessando lepidamente a praça Antero de Quental, para demandar o calçadão. Não deixaram de ser emocionantes esses primeiros momentos, porque um diabinho baiano que não cessa de acompanhar-me garantia que eu cairia duro para trás, depois dos primeiros 300 metros.
(Trecho)

Cântico de Argemiro

Quem sabe do que vivemos?
Sabemos nós, que vivemos.
Quem sabe do sofrimento?
Sabemos nós, que sofremos.
Conheces os lobisomens?
Conhecemos mais que tu.
Falas como te falamos nós?
Achas que falas, maninho.
Tiveste fome em pequeno?
Tivemos nós, ó maninha.
Sabes tu como é meu nome?
Já tiveste em tua vida
Inteira desesperança,
Já sentiste que tua pança
É coisa mais que imoral?
Nunca soubeste ou sentiste,
Sempre pensaste e falaste
E para ti em minha caixa
Trago guardados, maninho,
Remédios feitos de ódio.
Sabes tu como é o meu nome?
Nunca soubeste, irmãozinho.
O meu nome é Meia-Lua
E te quero mal, maninho.
Porque, por ser estrangeiro,
Teu falar não é bem-vindo.
Antes morra eu na terra
Que tu viveres no céu.
Queremos tua mulher
Olhar como as nossas olhas.
Queremos interromper
Teu descanso imerecido.
Se antes tua visita
Era a visita da morte,
Tua jornada hoje é
Tua jornada ao inferno.
Não comas minha comida,
Não arranques minhas plantas,
Não me pegues, não me toques,
Espera que te perdoe
Por seres meu inimigo
E somente te perdôo
Por seres meu inimigo.
Por seres meu inimigo,
Despacho tua alma ao céu.
Por seres meu inimigo,
Quero que tu sejas santo.
Assim, quando tu chegares,
Te beijo e te tiro as tripas,
Te abraço e te assassino.
Mostro como te perdôo,
Te enfiando esta faca.
Mostro que te quero bem
Te humilhando também.
Verás que tenho paixão,
Ao furar teu coração.
Ganharás esta batalha
E tantas outras tu querias,
Tantas quanto teu dinheiro
Possa comprar no mercado.
Mas lembra que o Conselheiro
Não morreu ontem nem hoje,
Nem morreu sua consciência.
Inimigo muito feio,
Feio, feio inimigo,
Por que és tão feio assim?

Chegada
(Um brasileiro em Berlim)

Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos Jogos Olímpicos não deve viajar do Rio de Janeiro a Berlim no que as companhias aéreas chamam de "classe econômica", embora saibam que se trata de um eufemismo para "vagão de búfalos" (exceção feita à comida, já que a dos búfalos é certamente melhor). Foi o que pensei, ao levantar-me, um pouco antes da hora do pouso, para batalhar com os outros búfalos por um lugar na fila do banheiro. Qualquer um que tenha participado de um evento desse tipo o trará sempre na memória - aquela coleção tocante de velhotas ansiosas, jovens senhores de tornozelos entrelaçados e olhos cravados no teto, damas de bolsa na mão fingindo que vão ali apenas para retocar a maquilagem, um cavalheiro de ar severo que mira seus antecessores na fila com evidente rancor, a indignação geral contra a gordinha que acaba de entrar e fechar a porta levando consigo um exemplar de A montanha mágica, um menino de nariz escorrendo explicando à mãe que não se responsabiliza pelo que pode acontecer se não lhe conseguirem uma vaga imediatamente.
(Trecho)


Do Diário de MamãeQUERIDO DIÁRIO,
Hoje eu não ia escrever. Você sabe que eu sempre digo que não vou escrever nada na manhã do Dia das Mães, mas acabo mudando de idéia, acho que é um preparo psicológico importante. A análise não adiantou nada, só me forneceu algumas palavras para designar as minhas neuras, que por sinal agora atendem todas as vezes em que são chamadas por seus nomes freudianos. Antigamente, quando eu não as conhecia tão cientificamente, elas eram menos metidas, tinham pelo menos um certo pudor, não ficaram tão assim emergentes, minhas neuras hoje são umas peruas emergentes insuportáveis. Diário é muito melhor do que análise, não dá palpite nem fornece status à nossa maluquice. Aconselho.Sim, querido, Dia das Mães novamente. O do ano passado parece que foi ontem. Ele, como sempre, está entusiasmadíssimo, é o rei do Dia das Mães. Aliás, é o rei de todos esses dias, porque sempre ganha presentes. Como hoje, por exemplo. Oficialmente, é o meu presente, claro. Ele acha que eu não sei, mas vi a nota de venda no bolso do paletó dele e a caixa mal-disfarçada, meio escondida por trás das almofadas velhas, na prateleira de cima do armário do quarto. É uma filmadora de vídeo altamente avançada, dessas que exigem diploma de engenharia eletrônica para começar a operar e de que eu preciso tanto quanto de uma temporada de camping no Haiti. Ele sabe que eu não suporto máquinas, botões e luzinhas debochadas, mas vai me dar a filmadora. Vai botar na minha mão, vai me chamar de tecnófoba, dizer que eu vou acabar virando uma Spielberg, pegar o manual para ler tudo e me ensinar, tomar a máquina para o resto da vida e obrigar a família e os amigos a me assistir correndo de um caranguejo em Maceió, com close na celulite. Mas ele é assim, que é que se vai fazer, já nasceu assim. Até no Dia da Criança ele dá um jeito de receber um presente da mãe, preferivelmente ela pagando, mas, quando ela resiste, ele mesmo paga, acho que o sonho dele é morar no free shop e dar expediente diário em Miami. No ano passado, ele me deu um celular que eu nunca usei, não sei pra quê botar ainda mais uma coleira em mim...
(Trecho)

João Ubaldo Ribeiro


Mauricio Manieri ( Te Quero Tanto Live )


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