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Dalai Lama
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A compaixão é um poder. Cultive-a.
Tenzin Gyatso,
Tenzin Gyatso, monge e doutor em filosofia budista, Prêmio
Nobel da Paz, agraciado com mais de 100 títulos honoris
causa, líder e mentor do povo tibetano, 14º Dalai Lama,
é uma das vozes mais lúcidas e comprometidas com a paz,
o diálogo e a compaixão no cenário mundial contemporâneo.
Pesquisador infatigável,
abriu as portas para o encontro da ciência com a espiritualidade
quando, em 1987, reuniu-se durante uma semana com cinco
cientistas ocidentais para debater a proximidade entre o
budismo e as ciências cognitivas. A partir dali criaram-se
centros e fóruns internacionais onde a experiências espiritual
é estudada e acolhida como aspiração genuína de um saber
que revela novos espaços de consciência e expressão.
Cidadão planetário, manifesta
especial interesse pelas pontes, articulações, sinapses,
desafiando ortodoxias que retardam o exercício da vocação
humana para o cuidado mútuo, a convivialidade e a cooperação.
Nesse sentido apela para que cada um de nós aprenda a trabalhar
em benefício não só de si próprio sua família ou nação,
mas em prol da humanidade como um todo.
A responsabilidade é a
chave para a sobrevivência do humano e é a melhor garantia
para implementar os valores universais e a paz.

"Se você quer transformar
o mundo, experimente primeiro promover o seu aperfeiçoamento
pessoal e realizar inovações no seu próprio
interior." (Dalai-Lama)
"Fale a verdade, seja ela qual
for, clara e objetivamente, usando um toque de voz tranquilo
e agradável, liberto de qualquer preconceito ou hostilidade".
(Dalai-Lama)
"Mantenham a mente aberta, assim
como a capacidade de se preocupar com a humanidade e a consciência
de fazer parte dela" (Dalai-Lama)

Ensinamentos: Oito Versos que Transformam a Mente
Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes
textos sobre a transformação da mente, Lojong
Tsigyema (Oito Versos que Transformam a Mente). Este texto
foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisatva bastante
incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido
a transmissão do comentário de Kyabje Trijang
Rinpoche.
1. Com a determinação
de alcançar
O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que
realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais
alto grau.
Aqui, estamos pedindo: "Possa eu ser capaz de enxergar
os seres como uma jóia preciosa, já que são
o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência;
portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los."
2. Sempre que estiver na companhia
de outras pessoas, vou aprender
A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre
elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.
"Com todo respeito considerá-las supremas"
significa não as ver como um objeto de pena, o qual
olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado.
Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores
a nós porque desconhecem as coisas certas a serem
adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos
essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva
das emoções negativas. Embora seja essa a
situação, podemos também enxergar os
fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência
da natureza destrutiva das emoções negativas,
deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse
sentido, somos inferiores aos insetos.
3. Em todos os meus atos, vou
aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.
Quando nos propomos uma prática desse tipo, a única
coisa que constitui obstáculo são as negatividades
presentes no nosso fluxo mental; já espíritos
e outros que tais não representam obstáculo
algum. Assim, não devemos ter uma atitude de preguiça
e passividade diante do inimigo interno; antes, devemos
ser alertas e ativos, contrapondo-nos às negatividades
de imediato.
4. Vou prezar os seres que têm
natureza perversa
E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de achar.
Essas linhas enfatizam a transformação dos
nossos pensamentos em relação aos seres sencientes
que carregam fortes negatividades. De modo geral, é
mais difícil termos compaixão por pessoas
afligidas pelo sofrimento e coisas assim, quando sua natureza
e personalidade são muito perversas. Na verdade,
essas pessoas deveriam ser vistas como objeto supremo da
nossa compaixão. Nossa atitude, quando nos deparamos
com gente assim, deveria ser a de quem encontrou um tesouro.
5. Quando os outros, por inveja,
maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.
Falando de modo geral, sempre que os outros, injustificadamente,
fazem algo de errado em relação à nossa
pessoa, é lícito retaliar, dentro de uma ótica
mundana. Porém, o praticante das técnicas
da transformação da mente devem sempre oferecer
a vitória aos outros.
6. Quando alguém a quem
ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.
Normalmente, esperamos que os seres sencientes a quem muito
auxiliamos retribuam a nossa bondade; é essa a nossa
expectativa. Ao contrário, porém, deveríamos
pensar: "Se essa pessoa me fere em vez de retribuir
a minha bondade, possa eu não retaliar mas, sim,
refletir sobre a bondade dela e ser capaz de vê-la
como um guia especial."
7. Em suma, vou aprender a oferecer
a todos, sem exceção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.
O verso diz: "Em suma, possa eu ser capaz de oferecer
todas as qualidades boas que possuo a todos os seres sencientes,"
essa é a prática da generosidade
e ainda: "Possa eu ser capaz, em sigilo, de tomar sobre
mim todos os males e sofrimentos deles, nesta vida e em
vidas futuras." Essas palavras estão ligadas
ao processo da inspiração e expiração.
Até aqui, os versos trataram
da prática no nível da bodhicitta convencional.
As técnicas para cultivo da bodhicitta convencional
não devem ser influenciadas por atitudes como: "Se
eu fizer a prática do dar e receber, terei melhor
saúde, e coisas assim", pois elas denotam a
influência de considerações mundanas.
Nossa atitude não deve ser: "Se eu fizer uma
prática assim, as pessoas vão me respeitar
e me considerar um bom praticante." Em suma, nossa
prática destas técnicas não deve ser
influenciada por nenhuma motivação mundana.
8. Vou aprender a manter estas
práticas
Isentas das máculas das oito preocupações
mundanas,
E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.
Essas linhas falam da prática da bodhicitta última.
Quando falamos dos antídotos contra as oito atitudes
mundanas, existem muitos níveis. O verdadeiro antídoto
capaz de suplantar a influência das atitudes mundanas
é a compreensão de que os fenômenos
são desprovidos de natureza intrínseca. Os
fenômenos, todos eles, não possuem existência
própria eles são como ilusões.
Embora apareçam aos nossos olhos como dotados de
existência verdadeira, não possuem nenhuma
realidade. "Ao compreender sua natureza relativa, possa
eu ficar livre das cadeias do apego."
Deveríamos ler Lojong Tsigyema
todos os dias e, assim, incrementarmos nossa prática
do ideal do bodisatva.
Diálogo Inter-religioso
Ensinamentos: Dimensões da Espiritualidade
Irmãos e irmãs, gostaria de falar sobre valores
espirituais definindo dois níveis de espiritualidade.
Como seres humanos, nosso objetivo básico é
ter uma vida feliz; todos queremos ser felizes. É
natural, para nós, buscar a felicidade. Esse é
nosso objetivo de vida. A razão é completamente
clara: quando perdemos a esperança, o resultado é
que nos tornamos deprimidos e talvez até suicidas.
Portanto, nossa existência é fortemente enraizada
na esperança. Embora não haja garantia de
que o futuro chegará, é porque temos esperança
que somos capazes de continuar vivendo. Podemos dizer que
o propósito de nossa vida, nosso objetivo de vida,
é a felicidade.
Seres humanos não são
produzidos por máquinas. Somos mais do que apenas
matéria; temos sentimento e experiência. Por
essa razão, somente conforto material não
é suficiente. Necessitamos algo mais profundo, o
que usualmente chamo de afeição humana, ou
compaixão. Com afeição humana, ou compaixão,
todas as vantagens materiais que temos à nossa disposição
podem ser muito construtivas e produzir bons resultados.
Contudo, sem afeição humana, somente vantagens
materiais não nos proporcionarão satisfação,
nem produzirão qualquer medida de paz mental ou felicidade.
De fato, vantagens materiais sem afeição humana
podem até mesmo criar problemas adicionais. Portanto,
afeição humana, ou compaixão, é
a chave para a felicidade humana.
O primeiro nível da espiritualidade,
para os seres humanos de todos os lugares, é a fé
em uma das muitas religiões do mundo. Penso que há
um importante papel para cada uma das principais religiões
mundiais, mas para que elas façam uma contribuição
efetiva em benefício da humanidade do lado religioso,
há dois fatores importantes a serem considerados.
O primeiro é que praticantes individuais das várias
religiões isto é, nós mesmos
devem praticar sinceramente. Ensinamentos religiosos
devem ser uma parte integral de nossas vidas; eles não
deveriam estar separados de nossas vidas. Algumas vezes,
vamos a uma igreja ou um templo e rezamos uma prece, ou
geramos algum tipo de sentimento espiritual e, quando saímos,
nada daquele sentimento religioso permanece. Essa não
é a forma adequada de praticar. A mensagem religiosa
deve estar conosco onde quer que estejamos. Os ensinamentos
da nossa religião devem estar presentes em nossas
vidas de forma que, quando realmente precisamos ou pedimos
bençãos ou força interior, mesmo nessas
horas esses ensinamentos estarão lá; eles
estarão lá quando passarmos por dificuldades
porque estão constantemente presentes. Somente quando
a religião torna-se uma parte integral de nossas
vidas é que ela pode ser realmente efetiva.
Também precisamos experienciar
mais profundamente os significados e valores espirituais
de nossa própria tradição religiosa
precisamos conhecer esses ensinamentos não
só a nível intelectual, mas também,
de forma cada vez mais profunda, através de nossa
própria experiência. Algumas vezes entendemos
diferentes idéias religiosas num nível muito
superficial ou intelectual. Sem um sentimento profundo,
a eficácia da religião torna-se limitada.
Portanto, devemos praticar sinceramente, e a religião
deve tornar-se parte de nossas vidas.
O segundo fator refere-se mais à
interação entre as várias religiões
mundiais. Hoje, por causa da crescente mudança tecnológica
e a natureza da economia mundial, estamos muito mais dependentes
uns dos outros do que antes. Diferentes países e
continentes tornaram-se mais intimamente associados uns
com os outros. Na realidade, a sobrevivência de uma
região do mundo depende da de outras. Portanto, o
mundo tornou-se mais próximo, muito mais interdependente.
Como conseqüência, há mais interação
humana. Sob tais circunstâncias, a idéia de
pluralismo entre as religiões mundiais é muito
importante. Em tempos passados, quando as comunidades viviam
separadas uma das outras e as religiões surgiam num
relativo isolamento, a idéia que havia só
uma religião era muito útil. Mas agora a situação
mudou, e as circunstâncias são inteiramente
diferentes. Agora é crucial aceitar o fato de que
existem diferentes religiões, e a fim de desenvolver
verdadeiro respeito mútuo entre elas é essencial
aproximar o contato entre as várias religiões.
Esse é o segundo fator que possibilitará as
religiões mundiais serem mais eficazes em beneficiar
a humanidade.
Quando estava no Tibete, eu não
tinha contato com pessoas de diferentes crenças religiosas.
Assim, minha atitude em relação às
outras religiões não era muito positiva. Mas,
quando tive a oportunidade de encontrar pessoas de diferentes
crenças e aprender com essa experiência e o
contato pessoal, minha atitude para com as outras religiões
mudou. Compreendi como são úteis para a humanidade
e o potencial contributivo de cada uma para um mundo melhor.
Há séculos, as religiões vêm
dando contribuições maravilhosas para o aprimoramento
dos seres humanos, e ainda hoje há um grande número
de seguidores do cristianismo, islamismo, judaísmo,
budismo, hinduísmo e assim por diante. Milhões
de pessoas estão se beneficiando de todas essas religiões.
Para dar um exemplo do valor do encontro
de diferentes crenças, meus encontros com o falecido
Thomas Merton fizeram-me perceber que bonita, maravilhosa
pessoa ele era. Noutra ocasião, encontrei-me com
um monge católico que viveu vários anos como
eremita numa montanha bem atrás do mosteiro de Montserrat,
na Espanha. Quando visitei o mosteiro, ele desceu de sua
ermida especialmente para falar comigo. O fato de o inglês
dele estar pior do que o meu me deu mais coragem de falar
com ele! Ficamos cara a cara e perguntei, "Nesses poucos
anos, o que você estava fazendo naquela montanha?"
Ele olhou-me e respondeu, "Meditação
na compaixão, no amor". Quando ele disse estas
poucas palavras, entendi a mensagem através dos seus
olhos. Realmente desenvolvi verdadeira admiração
por ele e por outros como ele. Tais experiências ajudaram
a confirmar na minha mente que todas as religiões
do mundo têm o potencial para produzir boas pessoas,
a despeito das suas diferenças de filosofia e doutrina.
Cada tradição religiosa tem sua própria
maravilhosa mensagem a transmitir.
Do ponto de vista do budismo, por exemplo,
o conceito de um criador é ilógico. É
difícil para os budistas entenderem esse conceito
por causa do modo que eles analisam a causalidade. Contudo,
este não é o lugar para discutir questões
filosóficas. O ponto importante aqui é que
para as pessoas que seguem esses ensinamentos nos quais
a crença básica está num criador, esta
abordagem é eficaz. De acordo com essas tradições,
o ser humano individual é criado por Deus. Além
disso, como recentemente aprendi de um dos meus amigos cristãos,
eles não aceitam a teoria do renascimento, e assim,
não aceitam vidas passadas ou futuras. Acreditam
somente nesta vida. Contudo, eles mantêm que esta
vida é criada por Deus, pelo criador, e esta idéia
desenvolve neles um sentimento de intimidade com Deus. Seu
ensinamento mais importante é que, como estamos aqui
por desejo de Deus, nosso futuro depende do criador, e porque
o criador é considerado supremo e sagrado, devemos
amar a Deus, o criador.
O que segue-se a isso é o ensinamento
que deveríamos amar nossos semelhantes esta
é a mensagem principal aqui. O raciocínio
é que se amamos a Deus, devemos amar nossos semelhantes
porque eles, como nós, foram criados por Deus. O
futuro deles, como o nosso, depende do criador, portanto,
sua situação é igual a nossa. Logo,
a crença das pessoas que dizem "Ame a Deus"
mas não mostram amor verdadeiro para seus semelhantes
é questionável. A pessoa que acredita em Deus
e no amor a Deus, deve demonstrar a sinceridade de seu amor
a Deus através do amor dirigido aos semelhantes.
Essa abordagem é muito poderosa, não é?
Assim, se examinarmos cada religião
por vários ângulos e da mesma maneira
não apenas da nossa posição filosófica
mas de vários pontos de vista não pode
haver dúvida de que todas as grandes religiões
têm o potencial para melhorar os seres humanos. Isto
é óbvio. Através de um contato próximo
com pessoas de outras fés, é possível
desenvolver uma atitude aberta e de respeito mútuo
em relação a outras religiões. Proximidade
com diferentes religiões ajuda-me a aprender novas
idéias, novas práticas, e novos métodos
ou técnicas que posso incorporar à minha própria
prática. Da mesma forma, alguns de meus irmãos
e irmãs cristãos adotaram certos métodos
budistas, como a prática da mente unifocada e as
técnicas de desenvolvimento da tolerância,
da compaixão e do amor. O benefício é
enorme quando praticantes de diferentes religiões
se unem para esse tipo de intercâmbio. Além
de desenvolverem a harmonia entre si, ganham outras benesses.
Políticos e líderes de
nações falam com freqüência em
"coexistência" e "ação
conjunta". Por que não nós, religiosos,
também? Acho que é chegada a hora. Em Assis,
em 1987, por exemplo, líderes e representantes de
várias religiões mundiais se encontraram para
orar juntos, embora eu não saiba ao certo se orar
é a palavra exata para descrever com acuidade a prática
de todas aquelas religiões. Em todo caso, o que importa
é que os representantes de várias religiões
se reuniram e, conforme suas próprias crenças,
rezaram. Isso já está acontecendo e é,
creio eu, muito positivo. No entanto, ainda precisamos fazer
mais esforços para aumentar a harmonia e a proximidade
entre as religiões mundiais, pois sem um tal esforço
continuaremos a vivenciar todos esses problemas que dividem
a humanidade. Se a religião fosse o único
remédio para reduzir o conflito humano, mas se este
mesmo remédio se tornasse outra forma de conflito,
seria um desastre. Hoje, como no passado, ocorrem conflitos
em nome da religião por causa de diferenças
religiosas, e acho isso muito triste. Mas, como disse antes,
se pensarmos aberta e profundamente compreenderemos que
a situação atual é inteiramente diferente
do passado. Não estamos mais isolados, mas somos
interdependentes. Hoje, portanto, é muito importante
entender que um relacionamento íntimo entre as várias
religiões é essencial, para que diferentes
grupos religiosos possam trabalhar juntos e realizar um
esforço comum para o benefício da humanidade.
Assim, sinceridade e fé na prática religiosa
por um lado, e tolerância e cooperação
religiosa por outro, formam este primeiro nível do
valor da prática espiritual para a humanidade.
O segundo nível da espiritualidade
a compaixão como religião universal
é mais importante que o primeiro porque, não
importa quão maravilhosa uma religião possa
ser, ainda assim ela é aceita somente por um número
limitado de pessoas. A maioria dos cinco ou seis bilhões
de seres humanos em nosso planeta provavelmente não
pratica religião alguma. De acordo com o seu ambiente
familiar, eles poderiam se identificar como pertencentes
a um ou outro grupo religioso "eu sou hindu",
"eu sou budista", "eu sou cristão"
, mas realmente a maioria desses indivíduos
não é necessariamente praticante de nenhuma
crença religiosa. Isto está correto: seguir
uma religião ou não é um direito da
pessoa como indivíduo. Todos os grandes mestres,
como Buda, Mahavira, Jesus Cristo e Maomé falharam
em tornar toda a população humana voltada
para a espiritualidade. O fato é que ninguém
pode fazer iss Se esses não-crentes são chamados
de ateus não importa. De fato, para alguns estudiosos
ocidentais os budistas também são ateístas,
pois não aceitam um criador. Por isso, às
vezes, ao descrever estes não-crentes, adiciono a
palavra "extremo" e os chamo de não-crentes
extremos. Eles não apenas são não-crentes
mas também são extremos, presos ao ponto-de-vista
de que a espiritualidade não tem valor. Contudo,
devemos lembrar que essas pessoas também são
uma parte da humanidade e também têm, como
todos os seres humanos, o desejo de viver uma vida pacífica
e feliz. Este é o ponto importante.
Acredito que não há problemas
em permanecer não-crente, mas enquanto você
fizer parte da humanidade, enquanto você for um ser
humano, você precisa de afeição humana,
compaixão humana. Este é realmente o ensinamento
essencial de todas as tradições religiosas:
o ponto crucial é a compaixão ou afeição
humana. Sem afeição humana, mesmo crenças
religiosas podem tornar-se destrutivas. Assim, a essência,
mesmo na religião, é um bom coração.
Considero que a afeição humana, ou compaixão,
é a religião universal. Crente ou não-crente,
todos necessitam de afeição humana e compaixão,
porque compaixão nos dá força interior,
esperança e paz mental. Assim, ela é indispensável
para todos.
Examinemos, por exemplo, a utilidade
de um bom coração na vida cotidiana. Se estamos
de bom humor quando nos levantamos de manhã, com
um sentimento caloroso no coração, automaticamente
está aberta a nossa porta interior para aquele dia.
Mesmo se uma pessoa pouco amistosa aparece, não nos
perturbamos, e podemos até dizer a ela alguma coisa
simpática. Mas num dia de humor menos positivo, quando
nos sentimos irritados, nossa porta interior se fecha automaticamente.
O resultado é que, mesmo se encontramos nosso melhor
amigo, ficamos pouco à vontade e tensos. Tais situações
mostram a diferença que nossa atitude interior faz
nas experiências do dia-a-dia. Precisamos, pois, a
fim de criar uma atmosfera agradável em nós
mesmos, nas nossas famílias e nossas comunidades,
compreender que a fonte desse bem-estar está dentro
do indivíduo, dentro de cada um de nós
um bom coração, compaixão humana, amor.
Uma vez criada uma atmosfera positiva
e amistosa, o medo e a insegurança automaticamente
diminuem. Assim, podemos facilmente fazer mais amigos e
criar mais sorrisos. Afinal de contas, somos animais sociais.
Sem amizade humana, sem o sorriso humano, nossa vida torna-se
miserável. O sentimento de solidão fica insuportável.
É a lei natural, isto é, pela lei natural
dependemos dos outros para viver. Se, sob certas circunstâncias,
por algo estar errado dentro de nós, nossa atitude
para com nossos semelhantes, de quem dependemos, se tornar
hostil, como poderemos esperar paz de espírito e
uma vida feliz? De acordo com a natureza humana básica,
ou lei natural, a afeição compaixão
é a chave da felicidade. Segundo a medicina
contemporânea, um estado mental positivo, ou paz mental,
também é benéfico para a saúde
física. Logo, mesmo do ponto de vista de nossa saúde,
paz e calma mental são cada vez mais importantes.
Isso mostra que o próprio corpo físico aprecia
e responde à afeição humana, à
humana paz de espírito.
Se olharmos para a natureza humana
básica, veremos que nossa natureza é mais
dócil do que agressiva. Se examinarmos vários
animais, notaremos que aqueles de natureza mais pacífica
têm uma estrutura corporal correspondente, enquanto
os predadores têm uma estrutura corporal desenvolvida
de acordo com a natureza deles. Compare um tigre com um
veado. Há uma grande diferença de estrutura
física entre eles. Quando comparamos o nosso próprio
corpo com os deles, vemos que somos mais parecidos com os
veados e coelhos do que com os tigres. Até os nossos
dentes são mais parecidos com os deles, não
são? Bem diferentes dos do tigre. Nossas unhas são
outro bom exemplo eu não sou capaz de pegar
nem um rato, só com as minhas unhas humanas. Claro,
a inteligência humana nos habilita a criar ferramentas
e métodos sem os quais seria difícil fazer
muito do que fazemos. Como vêem, devido ao nosso estado
físico, pertencemos à categoria dos animais
dóceis. Acho que é nossa natureza humana fundamental
que se mostra em nossa estrutura física básica.
Diante da situação global
atual, a cooperação é essencial, especialmente
em campos como economia e educação. O conceito
de que diferenças são importantes está
agora mais ou menos ultrapassado, como demonstra o movimento
por uma Europa Ocidental unificada. Acho que esse movimento
é verdadeiramente maravilhoso e chega em boa hora.
Ainda assim, esse trabalho entre as nações
não aconteceu por causa de compaixão ou fé
religiosa, mas por necessidade. Há uma tendência
crescente em direção da conscientização
global. Nas atuais circunstâncias, um relacionamento
mais íntimo com os outros tornou-se um elemento da
nossa própria sobrevivência. Portanto, o conceito
de responsabilidade universal baseado na compaixão
e num senso de irmandade é essencial. O mundo está
cheio de conflitos por causa de ideologia, de religião
ou até entre famílias baseados em alguém
querendo uma coisa e outra pessoa querendo outra coisa.
Assim, se examinarmos as fontes de todos esses conflitos,
descobriremos muitas fontes, muitas causas, até dentro
de nós mesmos.
Nesse meio tempo, todavia, temos o
potencial e a capacidade de unirmo-nos harmoniosamente.
Tudo mais é relativo. Embora haja várias causas
de conflito, existem ao mesmo tempo muitas causas para união
e harmonia. Chegou a hora de pôr mais ênfase
na união. Também aqui, há que haver
afeição humana. Por exemplo, você pode
ter uma opinião ideológica ou religiosa diferente
da de outra pessoa. Se você respeitar o direito da
outra pessoa e mostrar sinceramente uma atitude compassiva
para com ela, então não importa se a idéia
dela lhe serve, isso é secundário. Enquanto
a outra pessoa acreditar, enquanto puder se beneficiar de
tal ponto de vista, ela estará em seu absoluto direito.
Então, precisamos respeitar e aceitar o fato de que
existem diferentes pontos de vista. No campo da economia
dá-se o mesmo: nossos competidores devem obter algum
lucro, pois eles também precisam sobreviver. Quando
temos uma visão mais ampla baseada na compaixão,
creio que tudo se torna mais fácil. Compaixão,
mais uma vez, é o fator-chave.
Os conflitos mundiais estão
hoje consideravelmente menos tensos. Felizmente, agora podemos
pensar e falar seriamente sobre desmilitarização.
Cinco anos atrás isso seria difícil, mas hoje
a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a ex-União
Soviética acabou. Aos meus amigos americanos eu sempre
digo: A força de vocês não vem das armas
nucleares, mas dos nobres ideais de democracia e liberdade
dos seus antepassados. Quando estive nos Estados Unidos
em 1991, pude encontrar o ex-presidente George Bush. Na
ocasião, falávamos sobre a nova ordem mundial
e eu lhe disse: Uma nova ordem mundial com compaixão
é ótimo. Sem compaixão, não
tenho certeza.
Creio que é um bom momento para
pensarmos e falarmos sobre desmilitarização.
Já há sinais de redução armamentícia
e, pela primeira vez, de desnuclearização.
Passo a passo, vamos vendo uma diminuição
de armas. Penso que nossa meta deveria ser a de livrar o
mundo nosso pequeno planeta s das armas. Isso não
quer dizer, porém, que devamos abolir todo tipo de
armas. Talvez seja preciso guardar algumas, pois há
sempre algumas pessoas e grupos criando confusão
entre nós. Por precaução, e para nos
resguardarmos desses focos, poderíamos criar um sistema
internacional de forças policiais monitoradas regionalmente,
que não pertençam a nenhum país mas
sejam controladas coletivamente e supervisionadas por uma
organização internacional, como as Nações
Unidas. Sem armas disponíveis, não haveria
perigo de conflito militar entre as nações,
nem haveria guerras civis.
A guerra continua sendo, para nossa
tristeza, parte da história humana, mas acho que
chegou a hora de mudar os conceitos que levam à guerra.
Certas pessoas acham gloriosa a guerra, e que através
dela podem se tornar heróis. Essa atitude comum em
relação à guerra é muito errada.
Um entrevistador me disse, um desses dias, que os ocidentais
têm muito medo da morte, mas que os orientais a temem
pouco. Eu lhe respondi, em tom de brincadeira, que para
a mentalidade ocidental, a guerra e a instituição
militar parecem extremamente importantes. Guerra significa
morte provocada, e não por causas naturais.
Assim, são vocês, ocidentais, que não
temem a morte, porque gostam tanto da guerra. Nós,
orientais, principalmente nós, tibetanos, não
podemos nem pensar em guerra; lutar, para nós, está
fora de cogitação porque o resultado inevitável
da guerra é o desastre: morte, ferimentos e miséria.
Portanto, o conceito de guerra para nós é
extremamente negativo. Isso quer dizer que, na realidade,
temos mais medo da morte do que vocês, você
não acha?
Infelizmente, alguns fatores fazem
que nossas idéias sobre a guerra sejam muito incorretas.
É hora, portanto, de pensar seriamente sobre desmilitarização.
Eu senti isso profundamente, durante e depois da crise do
Golfo Pérsico. Claro, todos culparam Sadam Hussein,
e não há dúvida de que Sadam Hussein
é negativo ele errou de muitas maneiras. Afinal,
ele é um ditador, e ditadores são obviamente
negativos. No entanto, sem sua organização
militar, sem suas armas, Hussein não seria aquele
tipo de ditador. Quem lhe forneceu as armas? Os fornecedores
também têm responsabilidade. Alguns países
ocidentais lhe forneceram armas sem medir as conseqüências.
Pensar apenas em dinheiro, em lucrar
vendendo armas, é realmente horrível. Certa
vez, encontrei uma francesa que passara muitos anos em Beirute,
no Líbano. Ela me disse, com grande tristeza, que
durante a crise em Beirute havia gente de um lado da cidade
ganhando dinheiro com a venda de armas, enquanto do outro
lado, no mesmo dia, havia gente inocente sendo morta pelas
mesmas armas. Da mesma forma, de um lado do planeta há
pessoas vivendo suntuosamente com o lucro auferido da venda
de armas, enquanto pessoas inocentes morrem do outro lado
do planeta, vítimas daquelas balas sofisticadas.
O primeiro passo, portanto, é parar a venda de armas.
às vezes eu brinco com meus amigos suecos: Vocês
são mesmo maravilhosos. Mantiveram a neutralidade
durante o último conflito e sempre consideram a importância
dos direitos humanos e da paz mundial. ótimo. Mas,
nesse meio tempo, estão vendendo muitas armas. Há
uma pequena contradição aí, não
há?
Assim, desde a crise do Golfo Pérsico,
prometi a mim mesmo que pelo resto da minha vida contribuirei
para avançar a idéia da desmilitarização.
No que diz respeito ao meu país, já resolvi
que, futuramente, o Tibete deverá ser uma zona totalmente
desmilitarizada. Mais uma vez, para tornar a desmilitarização
uma realidade, o fator chave é a compaixão.
Gostaria de concluir explicando melhor
o significado de compaixão, que freqüentemente
é mal entendido. Compaixão verdadeira não
está baseada em nossas próprias projeções
e expectativas, mas sim nos direitos do outro: independentemente
da outra pessoa ser um amigo íntimo ou um inimigo,
contanto que ela deseje paz e felicidade e deseje superar
o sofrimento, então, baseado nisso, desenvolvemos
respeito verdadeiro para com seus problemas. Isso é
compaixão verdadeira.
Em geral, chamamos qualquer preocupação
com um amigo próximo de compaixão. Isso não
é compaixão, é apego. Nem casamentos
duram por apego, embora o apego geralmente esteja presente.
Eles duram porque também há compaixão.
Se os casamentos duram pouco, é por perda de compaixão;
só há apego emocional baseado em projeção
e expectativa. Quando o único vínculo entre
amigos íntimos é o apego, mesmo uma questão
menor pode causar uma mudança nas projeções.
Assim que nossa projeção muda, o apego desaparece
porque o apego estava baseado unicamente na projeção
e expectativa.
É possível ter compaixão
sem apego e similarmente, ter cólera sem ódio.
Portanto, precisamos esclarecer as diferenças entre
compaixão e apego, e entre cólera e ódio.
Tal clareza é útil em nossa vida diária
e em nossos esforços para a paz mundial. Considero
esses valores espirituais como básicos para a felicidade
de todos os seres humanos, tanto do crente quanto do não
crente.
Ensinamento dado em Melbourne, Austrália,
no National Tennis Centre, em 4 de maio de 1992 e publicado
em Dimensions of Spirituality, Wisdom Publicaions, 1995.
Tradução de Bruno D'Avanzo do Centro de Estudos
Budistas Paramitta (Curitiba - PR), em sua visita ao CEBB
em julho 1996, e de José Fonseca do CEB-Bodisatva
(Porto Alegre - RS).
Ensinamentos: Uma mente tendenciosa não percebe
a realidade
Estou muito satisfeito em participar deste seminário
inter-religioso sobre a Harmonia Religiosa, Co-existência
e Paz Universal organizado pela Associação
Internacional pela Liberdade Religiosa, Grupo de Ladakh.
Muito obrigado pela explicação detalhada da
história da associação, suas atividades,
objetivos e sua relevância no século atual.
Não tenho nada a adicionar ao que os oradores disseram.
Porém, gostaria de dizer algumas palavras.
Nós estamos agora no século
vinte e um. A qualidade da pesquisa sobre o mundo interno,
assim como o físico, atingiu níveis bem elevados,
graças ao tremendo passo dado em direção
ao avanço tecnológico e inteligência
humana. Entretanto, como alguns palestrantes já mencionaram
anteriormente, o mundo também enfrenta vários
problemas novos, a maioria deles criados pelo homem. A causa-raiz
desses problemas criados pelo homem é a incapacidade
dos seres humanos de controlar suas mentes agitadas. Várias
religiões ensinam como controlar tal estado da mente.
Sou um praticante religioso, que segue
o budismo. Mais de mil anos se passaram desde que as grandes
religiões do mundo floresceram, inclusive o budismo.
Durante esses anos, o mundo presenciou muitos conflitos
nos quais os seguidores de religiões diferentes também
estavam envolvidos. Como um praticante religioso, reconheço
o fato de que diferentes religiões do mundo apresentaram
muitas soluções para controlar uma mente agitada.
Apesar disto, sinto ainda que não fomos capazes de
realizar o nosso potencial.
Sempre digo que todas as pessoas neste
mundo têm a liberdade para praticar, ou não,
uma religião. Pode-se também se fazer ambas.
Porém, uma vez que você aceita uma religião,
é extremamente importante poder focar a nossa mente
nisso e praticar sinceramente os ensinamentos na nossa vida
cotidiana. Todos nós podemos ver que temos a tendência
de nos comprazermos com favoritismo religioso dizendo: "Pertenço
a esta ou aquela religião", em lugar de fazer
um esforço para controlar nossas mentes agitadas.
Este mau uso da religião, por causa de nossas mentes
transtornadas, também cria problemas às vezes.
Conheço um físico do
Chile que me falou que não é apropriado para
um cientista ser tendencioso em relação à
ciência por causa de seu amor e paixão por
ela. Sou um praticante budista e tenho muita fé e
respeito pelos ensinamentos do Buda. Porém, se misturo
meu amor e apego pelo budismo, então minha mente
será influenciada por isto. Uma mente tendenciosa,
que nunca vê o quadro completo, não pode perceber
a realidade. E qualquer ação que resulte de
tal um estado de mente, não estará sintonizada
com a realidade. Assim, causa muitos problemas.
De acordo com a filosofia budista,
a felicidade é o resultado de uma mente iluminada
enquanto o sofrimento é causado por uma mente distorcida.
Isto é muito importante. Uma mente distorcida, em
contraste com uma mente iluminada, é aquela que não
está sintonizada com a realidade.
Qualquer assunto, incluindo atividades
políticas, econômicas e religiosas, que os
seres humanos exercem neste mundo, deveria ser entendido
completamente antes de fazermos um julgamento. De qualquer
maneira, as coisas mundanas são os resultados de
tantas causas e condições. Portanto, é
muito importante conhecê-las. Isto nos permitirá
entender a história completa. Os ensinamentos oferecidos
no budismo são baseados em racionalidade, e acredito
serem muito produtivos.
Hoje, muitas pessoas de diferentes
tradições religiosas estão aqui presentes.
Todos vocês podem estar com um ponto de interrogação
em suas mentes: qualquer coisa que possa ser sentida e seja
possível, deveria ser uma questão de podermos
perceber isto por nossa mente, ou não. Não
é fácil responder a esta pergunta. Em cada
religião, há coisas transcendentes que estão
além do entendimento de nossa mente e fala. Por exemplo,
o conceito de Deus no cristianismo e no islamismo em que
o corpo da verdade de sabedoria no Budismo é metafísico,
que não é possível para uma pessoa
comum como nós perceber. É ensinado em todas
as religiões, inclusive no cristianismo, budismo,
hinduísmo e islamismo, que a verdade última
é guiada pela fé.
Quero enfatizar que é extremamente
importante para os praticantes acreditar sinceramente em
suas respectivas religiões. Normalmente, eu digo
que é muito importante distinguir entre "acreditar
em uma religião" e "acreditar em muitas
religiões". O primeiro contradiz diretamente
o último. Portanto, devemos resolver solucionar estas
contradições. Isto só é possível
quando se pensa em termos contextuais. Uma contradição
em um contexto pode não ser a mesma em outro. No
contexto de uma pessoa, uma única verdade está
muito associada com uma única fonte de refúgio.
Isto é de extrema necessidade. Entretanto, no contexto
da sociedade ou mais de uma pessoa, é necessário
ter diferentes fontes de refúgio, religiões
e verdades.
No passado não era um grande
problema porque as nações permaneciam alheias
umas às outras com suas próprias religiões.
Entretanto, no mundo de hoje que é próximo
e interconectado, há tantas diferenças entre
as várias religiões. Devemos obviamente resolver
estes problemas. Por exemplo, houve muitas religiões
na Índia nos últimos milênios. Algumas
foram importadas de fora, enquanto outras cresceram na própria
Índia. Apesar disso, o fato é que estas religiões
puderam coexistir, e o princípio de Ahimsa realmente
floresceu nesse país. Mesmo hoje, esse princípio
tem um papel muito importante em cada religião. Isto
é muito precioso e a Índia deveria se orgulhar
disso.
O Ladakh é uma área predominantemente
budista há tantos séculos. Mas outras religiões
como o islamismo, cristianismo, hinduísmo e sikhismo
têm também florescido aqui. Embora seja natural
para as pessoas de Ladakh se apegarem e amarem suas religiões,
este local tem um ambiente muito pacífico, sem maiores
problemas de intolerância religiosa. Durante minha
visita inicial a Ladakh, ouvi muçulmanos mais velhos
usando a seguinte frase: "comunidade de sangha"
em suas falas. Apesar dessas frases não serem encontradas
no islamismo, contudo uma referência deste tipo invoca
muita confiança entre os budistas. Assim, as pessoas
de diferentes religiões em Ladakh estão muito
próximas umas das outras e vivem em harmonia.
É apropriado para os muçulmanos
terem total devoção a Alá quando rezam
nas mesquitas. O mesmo acontece com os budistas, totalmente
devotos a Buda quando rezam nos templos budistas. Uma sociedade,
com muitas religiões, deve ter muitos profetas e
fontes de refúgio. Nessa sociedade é importante
se ter harmonia e respeito entre as diferentes religiões
e seus praticantes. Crença se refere à fé
total, que você deve ter na sua própria religião.
Ao mesmo tempo deve-se respeitar todas as outras religiões.
Esta tradição de acreditar em sua própria
religião e respeitas as outras tradições
existe em Ladakh, deste o tempo dos seus ancestrais. Portanto,
você não precisa inventá-la. Gostaria
de agradecer a todos por trabalharem muito para isso e peço
que continuem fazendo o mesmo no futuro.
Se uma relação harmoniosa
se estabelece entre as sociedades e crenças religiosas
no mundo atual, multi-étnico, multi-religioso e multi-cultural,
então, será um bom exemplo para as outras.
Entretanto, se todos os lados se descuidarem, então
há o perigo de problemas iminentes. Numa sociedade
multi-étnica, o maior problema é o que existe
entre a maioria e a minoria. Por exemplo, na capital Leh,
os budistas constituem a maioria da população,
enquanto os muçulmanos pertencem a uma comunidade
minoritária. A maioria deve considerar a minoria
como sendo seus convidados. A minoria, por outro lado, deve
ser capaz de sensibilizar-se com a maioria. Em outras palavras,
os dois lados devem viver em harmonia. Para poder sustentar
esta harmonia, ambos os lados não devem deixar de
prestar atenção nas questões sensíveis
que existem entre eles. Realmente, a maioria deveria prestar
atenção e apreciar a visão e opinião
da minoria. Ambos os lados devem discutir e expressar claramente
o que pensam em relação à visão
e a opinião do outro. A minoria, por outro lado,
deveria ter cuidado e ver onde estão as questões
sensíveis da maioria e expressar quaisquer dúvidas
que possam ter. Se os problemas forem resolvidos de forma
bastante amigável, então ambos os lados sairão
ganhando. Suspeitar um do outro só prejudica ambas
as comunidades. Portanto, é muito importante viver
em harmonia e analisar a opinião do outro. A melhor
maneira de fazer isso é se envolver em diálogo,
diálogo e diálogo.
(Excertos da palestra de Sua Santidade
o Dalai Lama no seminário inter-religioso organizado
pela Associação Internacional pela Liberdade
Religiosa, Grupo de Ladakh, em Leh, no dia 25 de agosto
de 2003. Traduzido por Helena Soares Hungria.)
Dalai Lama
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