Esta noite, gostaria de falar a vocês sobre a importância
da bondade e da compaixão. Ao discutir esses temas,
não me vejo como budista, Dalai Lama ou tibetano,
mas sim como um ser humano e espero que vocês, no
auditório, pensem em si mesmos dessa maneira. Não
como americanos, ocidentais ou membros de um determinado
grupo, pois essas condições são secundárias.
Se interagirmos como seres humanos, podemos chegar a esse
nível. Caso eu diga "sou monge" ou "sou
budista", as afirmações serão,
em comparação com a minha natureza de ser
humano, temporárias. Ser humano é básico.
Uma vez nascido assim, não se poderá mudar
até a morte. Outras condições, ser
ou não instruído, rico ou pobre, são
secundárias.
"Se a criança não
receber a devida atenção, em geral, quando
adulta, tem dificuldade de amar seus semelhantes."
(Dalai-Lama)
"Quando morremos, nada pode ser
levado conosco, com a exceção das sementes
lançadas por nosso trabalho e do nosso conhecimento".
(Dalai-Lama)
"A essência de toda a vida
espiritual é a emoção que existe dentro
de você, é a sua atitude para com os outros".
(Dalai-Lama)
"Se o seu coração
é absoluto e sincero, você naturalmente se
sente satisfeito e confiante, não tem nenhuma razão
para sentir medo dos outros". (Dalai-Lama)
Hoje, enfrentamos
muitos problemas. Alguns são criados essencialmente
por nós mesmos, com base em diferenças de
ideologia, religião, raça, situação
econômica ou outros fatores. Chegou, portanto, o
momento de pensarmos em níveis mais profundos.
Em nível humano, condição essa que
deveremos apreciar e respeitar em todos os que nos cercam.
Devemos construir relacionamentos baseados na confiança
mútua, na compreensão, no respeito e na
solidariedade, independentemente de diferenças
culturais, filosóficas ou religiosas.
Todos os seres humanos
são iguais. Feitos de carne, ossos e sangue. Todos
queremos a felicidade e evitar o sofrimento e temos direito
a isso. Em outras palavras, é importante compreender
a nossa igualdade. Pertencemos todos a uma família
humana. O fato de brigarmos uns com os outros deve-se a razões
secundárias, e todas essas discussões são
inúteis. Infelizmente, durante muitos séculos,
os seres humanos usaram todos os métodos para ferir
uns aos outros. Muitas coisas terríveis aconteceram,
resultando em mais problemas, mais sofrimento e desconfiança.
E, consequentemente, em mais divisões.
O mundo hoje está
cada vez menor em vários aspectos, particularmente
o econômico. Os países estão mais próximos
e interdependentes e, nesse quadro, torna-se necessário,
pensar mais em nível humano do que em termos do que
nos divide. Assim, falo a vocês apenas como um ser humano
e espero, sinceramente, que vocês estejam escutando
com o pensamento: "Sou um ser humano e estou ouvindo
outro ser humano falar".
Todos queremos a felicidade;
nas cidades, no campo, mesmo em lugares remotos, as pessoas
trabalham com o objetivo de alcançá-la, entretanto,
devemos ter em mente que viver a vida superficialmente não
solucionará os problemas maiores.
Há muitas crises
e medos à nossa volta. Por meio do grande desenvolvimento
da ciência e da tecnologia, atingimos um estado avançado
de progresso material, que é necessário. Não
podemos, no entanto, comparar o progresso externo com nosso
progresso interior. As pessoas queixam-se do declínio
da moralidade e do aumento da criminalidade, mas esses problemas
não serão resolvidos, se não procurarmos
desenvolver nosso interior.
No passado remoto, se
houvesse uma guerra, os efeitos seriam geograficamente limitados,
porém hoje, em função do progresso, o
potencial de destruição ultrapassou o concebível.
No ano passado estive em Hiroshima, no Japão. Mesmo
tendo informações a respeito da explosão
nuclear lá ocorrida, era muito diferente estar no local,
ver com meus próprios olhos e encontrar pessoas que
realmente sofreram com aqueles acontecimentos. Fiquei profundamente
emocionado. Uma arma terrível tinha sido usada. Embora
possamos considerar alguém como inimigo, temos de levar
em conta que essa pessoa é um ser humano e que tem
direito a ser feliz. Olhando para Hiroshima e refletindo a
respeito, fiquei ainda mais convencido de que a raiva e o
ódio não são meios para solucionar problemas.
A raiva não pode
ser superada pela raiva. Quando uma pessoa tiver um comportamento
agressivo com você e a sua reação for
semelhante, o resultado será desastroso. Ao contrário,
se você puder se controlar e tomar atitudes opostas
"compaixão, tolerância e paciência",
não só se manterá em paz, como a raiva
do outro diminuirá gradativamente. Do mesmo modo, problemas
mundiais não podem ser solucionados pela raiva ou pelo
ódio. Sentimentos como esses devem ser enfrentados
com amor, compaixão e pura bondade.
Pensem em todas as terríveis
armas que existem, mas que, por si mesmas, não podem
iniciar uma guerra. Por trás do gatilho há um
dedo, movido pelo pensamento, não por sua própria
força. A responsabilidade permanece em nossa mente,
de onde se comandam as ações. Portanto, controlar
em primeiro lugar a mente é muito importante. Não
estou falando de meditação profunda, mas apenas
de cultivar menos raiva e mais respeito aos direitos do outro.
Ter uma compreensão mais clara da nossa igualdade como
seres humanos.
Ninguém quer a
raiva, ninguém quer a intranqüilidade, mas por
causa da ignorância somos acometidos por sentimentos
como esses. A raiva nos faz perder uma das melhores qualidades
humanas, o poder de discernimento. Temos um cérebro
bem desenvolvido, coisa que outros mamíferos não
têm. Esse órgão nos permite julgar o que
é certo e o que é errado. Não apenas
em termos atuais, mas em projeções para daqui
dez, vinte ou mesmo cem anos. Sem nenhum tipo de pré-cognição,
podemos utilizar nosso bom senso para determinar o certo e
o errado. Imaginar as causas e seus possíveis efeitos.
Contudo, se nossa mente estiver ocupada pela raiva, perderemos
o poder de discernimento e nos tornaremos mentalmente incompletos.
Devemos salvaguardar essa capacidade e, para tanto, temos
de criar uma companhia de seguros interna: autodisciplina,
autoconsciência e uma clara compreensão das desvantagens
da raiva e dos efeitos positivos da bondade. Se refletirmos
a respeito dessas questões com freqüência,
podemos incorporar a idéia e, então, controlar
a mente.
Por exemplo: pode ser
que você seja uma pessoa que se irrita facilmente com
pequenas coisas. Com desenvolvida compreensão e conscientização,
isso pode ser controlado. Se você fica geralmente zangado
por dez minutos, tente reduzi-los para oito. Na semana seguinte,
reduza para cinco e, no próximo mês, para dois.
Depois, passe para zero. É assim que desenvolvemos
e treinamos nossa mente. É o que penso e também
o que pratico.
É perfeitamente
claro que todos necessitam de paz interior, que só
pode ser alcançada por meio da bondade, do amor e da
compaixão. O resultado é uma família
em paz, felicidade entre pais e filhos, menos brigas entre
casais. Em uma nação, essa atitude pode criar
unidade, harmonia e cooperação com saudável
motivação. Em nível internacional, precisamos
de confiança e respeito mútuos, discussões
francas e amistosas, com motivações sinceras
e um esforço conjunto no sentido de resolver problemas.
Tudo isso é possível.
Precisamos, porém,
mudar interiormente. Nossos líderes têm feito
o melhor que podem para resolver nossos problemas, mas, quando
um é resolvido, surge outro. Tenta-se solucionar este,
surge mais um em outro lugar. Chegou o momento então
de tentar uma abordagem diferente.
É certamente difícil
realizar um movimento mundial pela paz de espírito,
mas é a única alternativa. Caso houvesse outro
método mais fácil e prático, seria melhor,
porém não há. Se com armas pudéssemos
chegar à paz duradoura, muito bem. Transformaríamos
todas as fábricas em produtoras de armamentos. Gastaríamos
todos os dólares necessários, se conseguíssemos
a definitiva paz, mas tal é impossível.
As armas não permanecem
empilhadas. Uma vez desenvolvidas, alguém irá
usá-las. O resultado é a morte de criaturas
inocentes. Portanto, a única maneira de atingirmos
uma paz mundial duradoura é por meio da transformação
interior. E, mesmo que essa transformação não
ocorra durante esta vida, a tentativa terá sido válida.
Outros seres humanos virão; a próxima geração
e as seguintes. E o progresso pode continuar. Sinto que, apesar
das dificuldades práticas, e, mesmo correndo o risco
de que tal visão seja considerada pouco realista, vale
a pena o esforço. Assim, aonde quer que eu vá,
expresso essas idéias e sinto-me muito motivado porque
mais pessoas têm sido receptivas a elas.
Cada um de nós
é responsável por toda a humanidade. Chegou
a hora de pensarmos nas outras pessoas como verdadeiros irmãos
e irmãs e nos preocuparmos com seu bem-estar. Mesmo
que você não possa se sacrificar inteiramente,
não deverá esquecer-se das dificuldades dos
outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em benefício
de toda a humanidade. Se você tentar dominar seus sentimentos
egoístas e desenvolver mais bondade e compaixão,
em última análise, você é quem
irá sair beneficiado. É o que chamo de egoísmo
sábio. Pessoas egoístas tolas só pensam
em si mesmas, e o resultado é negativo. Egoístas
sábios pensam nos outros, ajudam da melhor forma e
também colhem os benefícios. Essa é minha
simples religião. Não há necessidade
de templos ou de filosofias complicadas. Nosso próprio
cérebro, nosso coração são nossos
templos. A filosofia é a bondade.
(Texto extraído
da obra A Policy of Kindness, Snow Lion Publications, 1990.)
Responsabilidade Universal,
Direitos Humanos e Paz
1. Eu me uno a todos que rendem
homenagem a Sua Santidade o Dalai Lama como consciência
articulada da humanidade, encarnação da sabedoria
e da compaixão, alguém que transcendeu o ego
e as limitações que este impõe. Hoje
pudemos ver a diversidade e a riqueza dos ângulos a
partir dos quais esse assunto pode ser visto. Eu escolhi um
desses ângulos, ao qual vou me ater.
2. Ao focalizar a atenção
da humanidade na responsabilidade universal e ao nos convidar
para uma reflexão a respeito das causas da nossa atual
condição, dos desafios que enfrentamos hoje
e o caminho para sobrevivermos e progredirmos, Sua Santidade
o Dalai Lama nos lembra dos paradigmas imutáveis da
espécie humana. Diferente das outras espécies,
os humanos não estão condenados a viver prisioneiros
de seus próprios instintos. As características
específicas de suas mentes e de suas vontades lhes
dão a condição de refinar e domar seus
instintos, como também de se aventurar além
desses limites. Suas mentes os habilitam a entender as leis
da natureza, imaginar ou enxergar alternativas, formular e
definir metas, e mobilizar os meios e tomar os rumos que os
levem às suas metas. Todas as suas ações,
portanto, se baseiam em escolhas. Elas podem ser pensadas,
impulsivas ou inconscientes. Podem resultar de inércia,
covardia ou audácia. Mas, em qualquer dos casos, a
ação ou reação envolve escolhas
a partir de alternativas e, portanto, o ser humano tem que
assumir a responsabilidade pelas conseqüências
que decorrem de suas escolhas e ações. Essa
responsabilidade não recai sobre os demais animais.
Assim, com a habilidade de se aventurar além dos limites
dos instintos, os seres humanos adentraram os domínios
da responsabilidade. O ser humano, portanto, é responsável
pelo que faz de sua vida e com seu ambiente social e natural,
assumindo essa responsabilidade não só frente
a si mesmo como também frente a todos aqueles cujas
vidas são afetadas por suas ações e em
cujo nome faz escolhas e toma decisões para poder agir.
3. As escolhas que o ser
humano é levado a fazer são muitas e se apresentam
em todos os campos e aspectos da vida e, na verdade, a todo
momento vivido. Para mencionar somente algumas, elas afetam
nossas motivações, nossas ações
e reações nas áreas de consumo, produção,
nos relacionamentos, nos limites institucionais da nossa sociedade,
nas organizações que formamos ou usamos, nos
processos decisórios, nas aprovações
para nos adequarmos às decisões consensuais,
nas instituições onde há opiniões
divergentes, nos conflitos que surgem como resultado de diferenças,
nos meios que adotamos para solucionar esses conflitos e assim
por diante.
4. A necessidade de fazer
escolhas e a liberdade de escolher surge a partir da nossa
habilidade de entender a natureza e suas leis. O ser humano
tem a capacidade de entender a lei fundamental de causa e
efeito que rege o universo no qual atua. Consegue correlacionar
eventos e acontecimentos com suas causas. Percebe que a relação
entre causa e efeito é imutável e inexorável.
Uma vez que tem a capacidade de identificar causas, também
assume a responsabilidade de prever os efeitos dessas causas,
ou as causas que provoca com suas ações. Essa
habilidade não só o habilita a acompanhar as
causas que surgem no momento presente, como também
a prever os possíveis efeitos decorrentes das causas
que cria, tanto pela ação individual como pela
ação coletiva ou grupal.
5. A escolha crucial que
hoje se apresenta à humanidade é decidir entre
a sobrevivência e o suicídio, a sobrevivência
e a extinção. Armas de destruição
em massa, terrorismo e avançados métodos tecnológicos
de guerra puseram a humanidade face a face com todo o espectro
de destruição indiscriminada e completa da espécie
e de tudo o que apoia a vida tal como existe hoje no planeta.
Ninguém está a salvo. Nada é seguro.
Ninguém está imune. Ninguém pode garantir
segurança. As fronteiras perderam o seu significado.
Todas as distinções entre combatentes e não
combatentes, vítimas e vencedores foram apagadas. Todos
estão vulneráveis. Nem mesmo a maior superpotência
pode prever onde e como a destruição vai acontecer,
muito menos criar um escudo de imunidade para proteger cidadãos
ou instalações, inclusive instalações
das quais a vida depende. Nenhuma arma sofisticada nem sistema
de alarme pode garantir imunidade. Esse regime de vulnerabilidade
universal tem produzido uma crescente consciência do
significado da guerra e suas variações para
o ser humano comum, inclusive para mulheres e crianças
que têm sido talvez as mais atingidas por mortes, sofrimento,
miséria e violação da dignidade humana,
mais ainda do que os combatentes. Essa maior consciência
tem levado a uma crescente disposição para intervir
em defesa própria, contra a guerra como instrumento
de política ou reconciliação. As manifestações
de protesto contra guerras no Iraque e demais países,
vistas em centenas de capitais pelo mundo, evidenciam o anseio
universal das pessoas pela paz e pelos meios pacíficos
de resolução de disputas.
6. Se o potencial bélico
de auto destruição da espécie humana
criou nas pessoas um anseio generalizado pela paz, gerou também
uma consciência crescente do potencial de auto preservação
da humanidade, da responsabilidade universal para se engajar
em ações que assegurem a auto preservação.
Não é suficiente que a paz surja como aspiração;
ela tem que ser encarada e aceita como um imperativo para
a sobrevivência e, portanto, como o objetivo soberano
do indivíduo e dos grupos sociais. O atingimento de
qualquer objetivo depende da nossa prontidão em renunciar
a tudo que impeça o nosso progresso na direção
desse objetivo. Isso ocorre quando o objetivo supremo é
o objetivo da sobrevivência. Passa a ser muito necessário
extirpar tudo o que signifique a antítese ou o repúdio
à paz, e também promover o que quer que seja
essencial e conducente à paz, escolher o caminho que
leva à paz e não aquele que leva à guerra,
à violência e aos viveiros onde germinam as sementes
dos conflitos, dos ódios e dos espíritos vingativos.
Agora reconhecemos que as guerras não surgem do nada.
Elas emergem a partir de causas que têm seus próprios
períodos de gestação. Tal como aceito
pelas Nações Unidas, essas causas afloram na
mente dos homens. Se devemos eliminar a guerra, suas causas
têm que ser eliminadas e, uma vez que as causas que
queremos eliminar surgem na mente humana, são as nossas
mentes que têm que ser submetidas a um exame minucioso,
trazidas sob o microscópio para detectar e eliminar
as atitudes, crenças e instituições construídas
com base nessas crenças que abrigam as sementes da
guerra e da violência. As instituições
podem e precisam ser submetidas a exame detalhados por aqueles
que as criam e as mantêm, honrando o consentimento e
as sanções que dão origem a sua existência
e autoridade. Mas se essas, como também as crenças
e as atitudes que as direcionam e sustentam, surgem e reinam
nas mentes dos indivíduos, o principal objeto de escrutínio
torna-se a mente do ser humano. Nenhum ser humano pode examinar
a mente de outro com a mesma clareza e eficácia como
faria com sua própria mente. As sementes da guerra
não podem ser, portanto, eliminadas sem o exame implacável
de nossas mentes, conduzido individualmente e em conjunto
e a responsabilidade por esse escrutínio é
inalienável, inevitável e universal.
7. Nenhum ser humano,
em circunstâncias normais, vive como uma ilha. Vive
em sociedade. Sua vida, pensamentos, emoções
e aspirações são todos influenciados
por pensamentos, emoções e ações
dos outros, seja através das instituições
ou do contato pessoal. Cada ser humano vive, portanto, através
da interação constante com o ambiente que habita
seu habitat social como também seu habitat natural.
A paz em sua mente, tanto quanto o estado de paz na sociedade
em que vive, depende, portanto: (I) do estado e das atitudes
mentais do indivíduo; (II) do estado do ambiente social
no qual vive incluindo o estado das instituições
que dirigem sua vida econômica, política, cívica
e social; e (III) do estado do ambiente natural que é
afetado por suas ações individuais e coletivas,
e do impacto resultante, que por sua vez afeta sua habilidade
de satisfazer suas vontades e aspirações, como
também as calamidades que são provocadas pela
gradual acumulação dos efeitos de suas ações
como no caso da escassez e poluição,
e calamidades naturais como enchentes, etc.
8. Tal escrutínio
ou reflexão com certeza nos dirá que guerra
ou paz não são um monólito, mas o resultado
cumulativo de muitos ingredientes; que o edifício da
paz não pode ser construído com tijolos cozidos
no fogo do ódio ou da injustiça mútua;
que cada tijolo terá, portanto, que ser examinado e
cuidadosamente selecionado.
9. A escolha do caminho
ou dos meios é igualmente crucial. Paz não é
um evento. É um estado. Um estado da mente, conseqüentemente
refletido no estado das instituições sociais.
Tal estado mental não pode ser criado ou mantido pela
maximização ou emprego de forças que
são antitéticas à equanimidade e à
paz. A paz é, portanto, um fim que não podemos
atingir exceto através de meios que sejam coerentes
com o objetivo, ou seja, a paz. Não pode ser que nós
desejemos a paz, mas tentemos chegar a ela através
do que a solapa e a destrói. Como disse o grande Shantideva,
não pode ser que tentemos eliminar o sofrimento pela
busca daquilo que faz sofrer. Dukhasya hetum ichhanti, dukham
nechhanti manavah: ou, como disse Buda: Ma Lohagulam
gili pamatto, ma kandi dukham idamti dahyamano "Se
engolir a bola quente e vermelha, atraído pela sua
cor rosada, quando ela o queimar não se lamurie de
estar sofrendo uma dor excruciante."
10. Tal escrutínio
ou reflexão com certeza nos revelará a relação
inexorável entre paz e justiça. Não pode
haver paz mental para o indivíduo, ou paz ou harmonia,
numa sociedade onde a mente do indivíduo ou de muitos
que constituem qualquer grupo são atormentadas pelo
senso de injustiça e pela indignação
que provém dela. Tal sentimento abre caminho para a
desavença, a alienação, o desejo ardente
de assegurar a justiça mesmo ao custo de uma ordem
perturbadora e aparentemente pacífica que, de fato,
se apóia na violência sistemática e na
supressão conduzindo afinal à sublevação
violenta ou ao combate de um tipo ou de outro. A paz, portanto,
depende da justiça e a justiça depende do sucesso
da sociedade em assegurar oportunidades iguais de crescimento,
auto-expressão e auto-realização. Um
regime de iniqüidade ou oportunidades desiguais, condições
desiguais de sobrevivência somente pode ser sustentado
ou eternizado pela força, que é uma descrição
eufemística de violência e das variantes de luta.
As Nações Unidas reconheceram, portanto, que
direitos humanos são pré-requisitos da paz.
É a ausência, privação ou violação
dos direitos humanos que conduz ao incitamento às violações
da paz ou aos levantes que se precipitam em formas de luta.
A renúncia às armas de destruição
em massa é boa. Desarmamento é bom. Não
são somente bons, mas necessários. Mas armas
são sintomas, reflexos, resultados da crença
de que a guerra é um instrumento legítimo e
efetivo de acerto de diferenças e disputas em torno
de interesses. Enquanto tal crença sobreviver, o espectro
da guerra assombrará a humanidade. Depois de todos
esses séculos de guerra, e depois da transformação
que a guerra sofreu, tornou-se necessário avaliar a
guerra como um instrumento como um meio. Qual é
o seu custo benefício para o cidadão, para a
sociedade, para a humanidade? O preço que ela exige
de nós vai além do que a humanidade pode pagar
se quiser sobreviver? Ela terá se tornado fútil
e suicida?
11. A paz, então,
está inextricavelmente entrelaçada à
presença dos direitos humanos; e sua violação
ou privação em qualquer forma, seja no Tibet
ou Dafur, na Índia, no Iraque, no Oriente Médio,
ou onde quer que seja, cria motivos que colocam em perigo
e solapam a paz. Todos os seres humanos têm direito
à vida e, portanto, ao acesso a água, comida,
abrigo e serviços médicos, inviolabilidade da
dignidade humana, oportunidades iguais e tudo mais. Indivíduos,
assim como grupos, têm esses direitos. Quando eles são
negados, criam-se as causas do conflito e não da paz;
e o resultado é guerra, terrorismo e outras formas
de combate. Discriminação, privação,
disparidades, manipulação de disparidades no
acesso a recursos, e muitas outras ameaças à
paz podem ser identificadas e analisadas. Estou certo de que
muitos oradores e participantes neste seminário o farão.
Meu objetivo específico foi colocar diante de vocês
alguns pensamentos sobre os imperativos da paz e como estes
dependem do senso universal de responsabilidade e do compromisso
de engajamento no esforço para prevenir a guerra e
para promover e sustentar a paz.
Obrigado!
Ensinamentos e mensagens
Ensinamentos: Os Direitos
do Homem no Limiar do Século XXI
A amplitude do movimento contra as violações
dos direitos humanos é muito estimulante. Não
só dá uma perspectiva de alívio a muitos
que sofrem, como também é um indício
do desenvolvimento e progresso da humanidade. A preocupação
com os direitos humanos e o esforço para mantê-los
representam um grande serviço às gerações
presentes e futuras. Desde que a Declaração
Universal dos Direitos Humanos foi promulgada há cinqüenta
anos, as pessoas começaram a compreender a grande importância
e o valor dos direitos do homem.
Perspectivas de um Monge Budista
Embora não seja perito nesse campo, para um monge budista
como eu, os direitos de cada ser humano é um bem muito
precioso e imprescindível. Segundo a crença
budista, todo ser senciente possui um fundamento de natureza
pura em sua essência, não poluído por
distorções mentais. Referimo-nos à essa
essência como a semente da Iluminação,
em que todos os seres são capazes de alcançar
a perfeição e, dada a natureza pura da mente,
acreditamos que todos os aspectos negativos possam ser eliminados
do espírito. Assim sendo, quando nossa atitude mental
é positiva, as ações negativas do corpo
e da palavra deixam de existir automaticamente. Como todos
os seres sencientes encerram esse potencial, todos são
iguais. Todos têm direito de ser feliz e superar o sofrimento.
O próprio Buda disse que em sua Ordem, nem raça
nem classe social são importantes. O importante é
a prática de se viver a vida eticamente.
Enquanto praticantes budistas,
tentamos acima de tudo aprimorar nossa conduta no cotidiano.
Somente a partir desse aprimoramento, conseguiremos desenvolver
as práticas do treino mental e da sabedoria. Na minha
prática diária de monge budista, tenho de observar
muitas regras, mas o fundamental em todas é o profundo
respeito e preocupação pelos direitos do próximo.
Os votos feitos por monges e monjas ordenados incluem não
tirar a vida de outros seres, não roubar suas posses
e assim por diante. São princípios profundamente
enraizados no respeito aos direitos do próximo. É
por essa razão que muitas vezes descrevo a essência
do budismo da seguinte maneira: se puder, ajude a outros seres
sencientes; se não puder, ao menos abstenha-se de lhes
fazer mal. Além de revelar um profundo respeito pelas
pessoas, essa também é uma forma de respeitar
a própria vida e mostrar preocupação
pelo bem-estar geral.
Apesar de ser muito importante
respeitar os direitos dos outros, muitas vezes agimos de forma
contrária e o motivo principal é nossa falta
de amor e compaixão. A questão das violações
dos direitos humanos e a preocupação pelos direitos
das pessoas estão intimamente ligadas à prática
da compaixão, do amor e do perdão no nosso cotidiano.
Quando se fala de amor e compaixão, as pessoas geralmente
relacionam estas qualidades às práticas religiosas,
o que não é necessariamente o caso. É
fundamental que reconheçamos a importância da
compaixão e do amor nas relações entre
os seres sencientes em geral e os seres humanos em particular.
Todos nós,
desde a mais tenra idade à velhice, apreciamos
a ajuda e o carinho que as pessoas nos dispensam. Infelizmente,
no decorrer de nossa vida, à medida que nos tornamos
independentes, muitas vezes negligenciamos o valor do
carinho e da compaixão. Visto que nossa vida se
inicia e termina com a necessidade inerente de afeto,
não seria muito melhor praticarmos a compaixão
e o amor ao próximo enquanto podemos?
Só conquistamos
amigos verdadeiros quando exprimimos sentimentos sinceros,
respeito pelo próximo e preocupação pelos
seus direitos. É fácil vivenciar esses sentimentos
no nosso dia a dia. Não é necessário
ler complicados tratados filosóficos a respeito, pois
no cotidiano essa experiência é uma realidade.
A prática da compaixão, da sinceridade e do
amor é fonte inesgotável de felicidade e satisfação.
Ao desenvolvermos uma atitude altruísta, desenvolvemos
automaticamente a preocupação pelo sofrimento
alheio e, ao mesmo tempo, a determinação de
fazer algo para proteger seus direitos e nos interessar por
sua sorte.
A Universalidade dos Direitos Humanos
Os direitos humanos são de interesse universal porque
ansiar pela liberdade, igualdade e dignidade é inerente
à natureza dos seres humanos e todos têm direito
a essas qualidades. Queiramos ou não, nascemos neste
mundo fazendo parte de uma grande família: ricos ou
pobres, instruídos ou não, advindos de nações,
ideologias e credos distintos ou não, em última
análise, cada um de nós é apenas um ser
humano como qualquer outro. Todos desejamos a felicidade e
nenhum de nós quer sofrer.
Se concordamos que todos
têm o mesmo direito à paz e à felicidade,
não será nossa responsabilidade ajudar aos mais
necessitados? Aspirar à democracia e ao respeito pelos
direitos humanos básicos é tão importante
para os povos da África e da Ásia, como para
os da Europa ou das Américas. Contudo, são justamente
os povos cujos direitos humanos foram tolhidos que têm
menos possibilidade de se manifestar. A responsabilidade recai
sobre os que usufruem de tais liberdades, como nós.
As violações
aos direitos humanos muitas vezes dirigem-se aos membros mais
talentosos, dedicados e criativos da sociedade. Em conseqüência,
o desenvolvimento político, social, cultural e econômico
de uma sociedade fica comprometido pelas violações
aos seus direitos. Por isso, salvaguardar os direitos e liberdades
de cada um é uma questão extremamente importante,
tanto para as pessoas cujos direitos foram suprimidos quanto
para o desenvolvimento da sociedade como um todo.
Alguns governos entendem
que os padrões de direitos humanos, descritos na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, são os advo-gados pelo
Ocidente e não se aplicam aos países da Ásia
ou a outras partes do Terceiro Mundo, em função
de diferenças culturais e modelos de desenvolvimento
sócio-econômico distintos. Não partilho
desse ponto de vista e tenho certeza que a maioria das pessoas
também não. Creio que os princípios da
Declaração Universal dos Direitos Humanos constituem
uma espécie de lei natural que deveria ser seguida
por todos os povos e governos.
Além do mais, não
vejo qualquer contradição entre a necessidade
de desenvolvimento econômico e a necessidade de se respeitar
os direitos humanos. O direito à liberdade de expressão
e à uma sociedade livre é essencial ao desenvolvimento
econômico de qualquer nação. No Tibete,
por exemplo, há inúmeros casos de políticas
econômicas inadequadas que permanecem, embora não
tenham surtido efeito, porque o cidadão comum ou o
funcionário público não pode se manifestar
contra tais medidas.
A grande diversidade de
culturas e religiões existentes no mundo deveria servir
para preservar os direitos humanos fundamentais de todas as
comunidades internacionais. Nessa diversidade, há princí-pios
básicos que unem todos os seres humanos e nos tornam
membros de uma mesma família. Contudo, a manutenção
de tradições culturais e religiosas não
deve jamais ser usada como justificativa para violações
aos direitos humanos. A discriminação racial,
contra mulheres ou minorias pode ser tradição
de algumas sociedades, mas se for incongruente com direitos
humanos universalmente reconhecidos, esse tipo de comportamento
deve ser mudado. O princípio universal de igualdade
entre todos os seres humanos deve ter precedência.
A Necessidade da Responsabilidade Universal
O mundo está se tornando cada vez mais interdependente
e é por isso que acredito firmemente na necessidade
de desenvolver-se a responsabilidade universal. Precisamos
pensar em termos globais, pois as conseqüências
de medidas adotadas por um determinado país, hoje,
ultrapassam fronteiras. A aceitação de padrões
universais, como os descritos na Declaração
Universal dos Direitos Humanos e na Convenção
Internacional sobre os Direitos Humanos, é primordial
no mundo atual, cada vez menor. O respeito pelo direitos fundamentais
do ser humano não é apenas um objetivo a ser
atingido. É antes o alicerce indispensável a
qualquer sociedade.
As barreiras artificiais
que separavam nações e povos ruíram em
tempos recentes. O sucesso dos movimentos populares no desman-telamento
da separação entre os países do Leste
e do Ocidente, que polarizou o mundo durante décadas,
constituiu-se motivo de grande confiança e expectativa.
Contudo, permanece ainda um enorme abismo no coração
da nossa família humana. Refiro-me à divisão
dos países do Norte e do Sul. Todos aqueles comprometidos
com os princípios básicos de igualdade, que
são o cerne dos direitos humanos, não podem
ignorar as grandes disparidades econômicas existentes
no mundo de hoje. Não se trata apenas de afirmar que
todos os seres humanos têm direito a usufruir da mesma
dignidade. Há de se traduzir as palavras em ações.
Temos a responsabilidade de buscar alternativas para alcançar
uma distribuição mais igualitária dos
recursos mundiais.
Temos testemunhado um
movimento popular fantástico em prol dos direitos humanos
e das liberdades democráticas no mundo. Este movimento
deve tornar-se cada vez mais forte, para que não haja
governo ou exército capaz de suprimi-lo. É muito
natural e justo que nações, povos e indivíduos
exijam respeito aos seus direitos e liberdades, e que lutem
para erradicar a repressão, o racismo, a exploração
econômica, a ocupação militar e as várias
formas de colonialismo e dominação estrangeira.
Os governos em geral deveriam dar apoio prático a essas
reivindicações, ao invés de apenas as
apoiarem verbalmente.
Acredito que a falta de
compreensão quanto à verdadeira natureza da
felicidade é a principal razão das pessoas infligirem
sofrimento a outras. Alguns indivíduos acham que só
podem alcançar a felicidade causando sofrimento ou
que sua própria felicidade é tão importante,
que a dor causada aos outros é insignificante. Esta
é uma visão extremamente estreita da vida, já
que ninguém pode efetivamente beneficiar-se com o sofrimento
alheio. Ainda que haja um ganho imediato às custas
dessa dor, ele é passageiro. A longo prazo, causar
sofrimento ao próximo e usurpar seu direito à
paz e felicidade geram ansiedade, medo e desconfiança.
O cultivo do amor e da compaixão ao próximo
é essencial para criarmos um mundo melhor e mais pacífico.
Para tal, é necessário desenvolvermos uma preocupação
genuína por nossos irmãos e irmãs menos
afortunados. Temos a obrigação moral de auxiliar
e dar apoio incontestável a todas as pessoas privadas
de exercer seus direitos e liberdades, que muitos de nós
têm garantidos.
Ao nos aproximarmos do
fim do presente milênio, percebemos que o mundo está
se tornando uma grande comunidade. Juntos, confrontamo-nos
com graves problemas, tais como superpopulação,
escassez dos recursos naturais e uma crise ambiental sem precedentes,
que ameaçam os alicerces de nossa própria existência
neste planeta. Os direitos humanos, a proteção
ao meio ambiente e maior igualdade social e econômica
são fatores interligados. Acredito que para enfrentarem
os desafios de nosso tempo, os seres humanos deverão
desenvolver um sentido maior de responsabilidade universal.
Cada um de nós deve aprender a trabalhar não
somente em benefício de si próprio, sua família
ou nação, mas em prol da humanidade como um
todo. A responsabilidade universal é a chave para a
sobrevivência do Homem e é a melhor garantia
para a manutenção dos direitos humanos e da
paz mundial.
(Discurso de Sua Santidade
o Dalai Lama na Reunião de Paris da UNESCO, durante
a comemoração do 50º Aniversário
da Declaração Universal dos Direitos do Homem.)
Mensagens
Convivência Hoje, enfrentamos muitos problemas.
Alguns criados por nós em conseqüência de
diferenças ideológicas, religiosas, raciais,
econômicas. Entretanto, chegou o momento de pensarmos
em um nível mais profundo, em nível humano,
e a partir daí apreciar e respeitar essa mesma condição
nos outros seres humanos. Devemos construir relacionamentos
mais próximos, de confiança mútua, compreensão
e ajuda. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento.
Todos temos o mesmo direito de ser felizes, e aí reside
a nossa igualdade fundamental. Não é necessário
seguir filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro,
nosso próprio coração é o nosso
templo. A filosofia é a bondade.
Responsabilidade Universal
A humanidade é uma só e este pequeno
planeta é nossa única casa. Se temos de proteger
esta casa, cada um de nós precisa experienciar um sentimento
vivo de altruísmo universal. Nosso planeta foi abençoado
com vastos tesouros naturais. Se os usarmos adequadamente,
todo ser humano poderá usufruir de uma vida rica e
de bem-estar.
Diálogo Inter-Religioso
O cultivo do amor
e da compaixão é a verdadeira essência
de todas as crenças. O importante é que em sua
vida diária você pratique as coisas essenciais
e, nesse nível, quase não existe diferença
entre budismo, cristianismo, judaísmo, islamismo ou
qualquer outra fé. Todas elas focalizam o desenvolvimento,
o aperfeiçoamento dos seres humanos, o sentimento de
fraternidade e de solidariedade. Nesse sentido, as diferenças
entre as religiões não são de maneira
alguma essenciais
~ Um simples monge
budista ~
Sua Santidade costuma
dizer, "Eu sou um simples monge budista, não mais,
não menos."
Sua Santidade vive como
um verdadeiro monge budista. Mora numa casa de campo em Dharamsala,
Índia; acorda às 4 da manhã para meditar,
em seguida põe em dia a sua agenda, dá audiências
privadas e inicia os estudos religiosos e práticas
cerimoniais. Ele termina o dia com muita oração.
Falando de sua grande fonte de inspiração, freqüentemente
cita um verso favorito, retirado dos ensinamentos seculares
do sagrado Shantideva Budista:
Enquanto existir o espaço
Enquanto persistirem os seres sencientes
Que eu também viva
Para dissipar as desgraças do mundo.
~ Budismo tibetano
~
O budismo tibetano surge
no fim do século VIII, da fusão das tradições
budista e hinduísta com o xamanismo. Seu chefe espiritual,
o dalai lama, é considerado um bodhisattva (em sânscrito,
o ser destinado à iluminação, o Buda
da Compaixão).
~ Ensinamentos de Buda
~
Buda estabeleceu oito
princípios ou Regras de Vida que devem ser observadas
pelos seus seguidores... e por todos:
A Verdadeira Crença:
é a crença de que a Verdade é o guia
do Homem;
A Verdadeira Resolução: ser sempre calmo e nunca
fazer dano a nenhuma criatura viva;
A Verdadeira Palavra: nunca mentir, nunca difamar ninguém
e nunca usar linguagem grosseira ou áspera;
O Verdadeiro Comportamento: nunca roubar, nunca matar, e nunca
fazer nada de que uma pessoa possa mais tarde arrepender-se
ou envergonhar-se;
A Verdadeira Ocupação: nunca escolher uma ocupação
que seja má, tal como falsificação, manejo
de coisas roubadas e coisas semelhantes;
O Verdadeiro Esforço: procurar sempre o que é
bom e afastar-se do que é mau;
A Verdadeira Contemplação: ser sempre calmo
e não permitir-se pensamentos que sejam dominados pela
alegria ou pela tristeza;
A Verdadeira Concentração: consegue-se quando
todas as outras regras forem seguidas e uma pessoa tenha atingido
o nível da paz perfeita.
Não Creiais em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem
o testemunho escrito de algum sábio antigo;
Não Creiais em coisa alguma com base na autoridade
de mestres e sacerdotes;
Aquilo, Porém, que se enquadrar na vossa razão,
e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa experiência,
conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras
coisas vivas: A Isso aceitai como verdade;
Por Isso, pautai vossa conduta!
~ A Arte da Felicidade
~
Por Sua Santidade,
o Dalai Lama
Acredito que o objetivo
da nossa vida seja a busca da felicidade. Isso está
claro. Quer se acredite em religião ou não,
quer se acredite nesta religião ou naquela, todos nós
buscamos algo melhor na vida. Portanto, acho que a motivação
da nossa vida é a felicidade.
Quando você mantém
um sentimento de compaixão, bondade e amor, algo abre
automaticamente sua porta interna. Com isso, você pode
se comunicar mais facilmente com as outras pessoas. E esse
sentimento de calor cria uma espécie de abertura. Você
descobre que todos os seres humanos são exatamente
iguais a você e se torna capaz de se relacionar mais
facilmente com eles. Isso lhe confere um espírito de
amizade. Então há menos necessidade de esconder
as coisas e, conseqüentemente, sentimentos de medo, dúvida
e insegurança se dispersam automaticamente.
Na nossa vida diária,
certamente aparecem problemas. Os maiores problemas em nossas
vidas são aqueles que temos de enfrentar inevitavelmente,
como a velhice, a doença e a morte. Tentar evitar nossos
problemas ou simplesmente não pensar neles pode nos
dar um alívio temporário, mas acho que há
um modo melhor de lidar com eles. Se você enfrentar
seu sofrimento diretamente, terá mais condições
de avaliar a profundidade e a natureza do problema. Numa batalha,
enquanto você ignorar as condições e a
capacidade de combate do inimigo, estará completamente
despreparado e paralisado pelo medo. No entanto, se você
conhecer a capacidade de luta de seus adversários,
os tipos de armas que eles têm e assim por diante, terá
muito mais condições de entrar na guerra. Do
mesmo modo, se você enfrentar seus problemas em vez
de os evitar, terá mais condições de
lidar com eles.
~ O Treinamento da Mente ~
O método de abordar nossos problemas racionalmente
e de aprender a visualizar nossos problemas ou nossos inimigos
de perspectivas alternativas sem dúvida parece um objetivo
interessante. Mas até que ponto isso poderá
realmente produzir uma transformação fundamental
da atitude?
Uma das práticas
espirituais diárias do Dalai Lama consiste em recitar
uma oração, "Oito versos sobre o treinamento
da mente", composta no século XI pelo santo tibetano
Langri Thangpa. Em parte, diz a oração:
Sempre que me relacionar
com alguém, que eu me considere a criatura mais ínfima
de todas e que encare o outro como supremo do fundo do meu
coração!...
Quando eu vir seres de
natureza perversa, oprimidos por tormentos e pecados violentos,
que eu considere de alto valor essas criaturas raras como
se tivesse encontrado um precioso tesouro!...
Quando os outros, por
inveja, me tratarem mal com insultos, calúnias e atitudes
semelhantes, que eu sofra a derrota e ofereça a vitória
aos outros!...
Quando aquele, a quem
beneficiei com grande esperança, me ferir profundamente,
que eu possa encará-lo como meu supremo Guru!
Enfim, que eu possa, direta
ou indiretamente, oferecer benefícios e felicidade
a todos os seres; que eu em segredo possa assumir nos meus
ombros a dor e o sofrimento de todos os seres!...
Através de práticas
espirituais, como a recitação dos "Oito
versos sobre o treinamento da mente", o Dalai Lama conseguiu
aceitar a realidade da situação de seu país
e ainda assim continuar sua campanha ativa pela liberdade
e pelos direitos humanos no Tibet por quarenta anos. Ao mesmo
tempo, ele manteve uma atitude de humildade e compaixão
para com os chineses, que inspirou milhões de pessoas
no mundo inteiro. E aqui estamos nós, pensando que
sua oração talvez não fosse aplicável
às "realidades" do mundo moderno. Então
ficamos envergonhados sempre que nos lembramos do que ele
passou e passa juntamente com o povo tibetano.
Cada uma de nossas ações
conscientes e, de certa forma, toda a nossa vida podem ser
vistas como resposta à grande pergunta que desafia
a todos: "Como posso ser feliz?"
No entanto, estranhamente,
minha impressão é que as pessoas que vivem em
países de grande desenvolvimento material são
de certa forma menos satisfeitas, menos felizes do que as
que vivem em países menos desenvolvidos. Esse sofrimento
interior está claramente associado a uma confusão
cada vez maior sobre o que de fato constitui a moralidade
e quais são os seus fundamentos.
A meu ver, criamos uma
sociedade em que as pessoas acham cada vez mais difícil
demonstrar um mínimo de afeto aos outros. Em vez da
noção de comunidade e da sensação
de fazer parte de um grupo, encontramos um alto grau de solidão
e perda de laços afetivos. O que gera essa situação
é a retórica contemporânea de crescimento
e desenvolvimento econômico, que reforça intensamente
a tendência das pessoas para a competitividade e a inveja.
E com isso vem a percepção
da necessidade de manter as aparências por si só
uma importante fonte de problemas, tensões e infelicidade.
O descaso pela dimensão interior do homem fez com que
todos os grandes movimentos dos últimos cem anos ou
mais - democracia, liberalismo, socialismo - tenham deixado
de produzir os benefícios que deveriam ter proporcionado
ao mundo, apesar de tantas idéias maravilhosas.
Meu apelo por uma revolução
espiritual não é um apelo por uma revolução
religiosa. Considero que a espiritualidade esteja relacionada
com aquelas qualidades do espírito humano - tais como
amor e compaixão, paciência, tolerância,
capacidade de perdoar, contentamento, noção
de responsabilidade, noção de harmonia - que
trazem felicidade tanto para a própria pessoa quanto
para os outros. É por isso que às vezes digo
que talvez se possa dispensar a religião. O que não
se pode dispensar são essas qualidades espirituais
básicas
Pensamentos
Minha mensagem é a prática do amor, da compaixão
e da bondade. Estas qualidades são muito úteis
para vivermos nosso cotidiano mais harmoniosamente, e também
muito importantes para a sociedade humana como um todo.
Uma profunda compaixão
é a raiz de todas as formas de adoração.
Onde quer que eu vá,
sempre aconselho as pessoas a serem altruístas e bondosas.
Tento concentrar toda a minha energia e força espiritual
na disseminação da bondade. É o que há
de mais essencial.
A bondade é o que
realmente importa. A bondade, o amor e a compaixão
combinados são sentimentos que levam à essência
da fraternidade. São os alicerces da paz interior.
Com sentimentos de ódio
e rancor, é muito difícil alcançar a
paz interior. Neste sentido, as religiões e crenças
são convergentes. Em todas as grandes religiões
do mundo, a ênfase é no espírito de fraternidade.
São os inimigos
que verdadeiramente nos ensinam a vivenciar sentimentos de
compaixão e tolerância. As guerras surgem porque
não há compreensão do lado humano das
pessoas. Ao invés de conferências e encontros
políticos, por que não convocar as famílias
a fazerem um piquenique para que se conheçam mutuamente,
enquanto suas crianças brincam juntas?
Nos tempos antigos, quando
havia uma guerra, o embate era corpo a corpo. O vitorioso
entrava em contato direto com o sangue e o sofrimento do inimigo
durante a batalha. Hoje, as guerras adquiriram uma proporção
muito mais horrenda. Um homem, sentado em uma sala, aperta
um botão e mata milhões de pessoas instantaneamente,
sem ao menos ver o sofrimento humano que infligiu. A mecanização
da guerra e a automação do conflitos humanos
são, cada vez mais, uma ameaça à paz
mundial.
Sempre acreditei que a
determinação humana e a verdade prevaleceriam
sobre a violência e a opressão. No mundo de hoje,
em todos os lugares, há mudanças importantes
ocorrendo, que poderão afetar profundamente nosso futuro
e o futuro da humanidade, bem como nosso planeta. Decisões
corajosas por parte de vários líderes mundiais
propiciam a resolução pacífica de conflitos.
A esperança de haver paz, preservação
do meio ambiente e uma abordagem mais humana aos problemas
do mundo parece estar mais presente que nunca.
Ninguém pode prever
o que acontecerá em algumas décadas ou séculos,
por exemplo, qual o impacto que o desflorestamento terá
sobre o clima, o solo, as chuvas. Temos muitos problemas porque
as pessoas estão centradas em seus próprios
interesses, em ganhar dinheiro e não estão pensando
no bem-estar da comunidade como um todo. Não estão
pensando na Terra a longo prazo, e nos efeitos ambientais
adversos sobre o homem. Se nós, da atual geração,
não refletirmos sobre estas questões agora,
as gerações futuras não terão
como lidar com elas.
Muitos de nós juntam-se
sob o mesmo sol resplandecente, falando línguas diversas,
vestindo indumentárias diferentes e até mesmo
possuindo crenças distintas. Contudo, nós todos
somos idênticos como seres humanos e individualmente
únicos. Desejamos todos, indistintamente, a felicidade
e não o sofrimento.
Mesmo que não possamos
resolver certos problemas, não devemos nos frustrar.
Como humanos devemos enfrentar a morte, a velhice e doenças,
que, tal qual um furacão, são fenômenos
naturais que fogem ao nosso controle. Devemos enfrentá-los,
não podemos evitá-los. São sofrimentos
que já bastam em nossa vida. Por que criarmos mais
problemas por apego à nossa ideologia ou porque pensamos
de maneira diferente? É inútil e triste! Milhões
de pessoas sofrem com esse tipo de problema. É um verdadeiro
desperdício, visto que podemos evitar o sofrimento
adotando uma atitude diferente e reconhecendo a humanidade
à qual as ideologias deveriam servir.
Rancor,
ódio, ciúme: não é possível
encontrar a paz com eles. Podemos resolver muitos de nossos
problemas por meio da compaixão e do amor. Só
assim nos desarmaremos e encontraremos a verdadeira felicidade.
Uma das maiores virtudes é a compaixão.
A compaixão não pode ser comprada numa loja
de departamentos ou fabricada por máquinas. Ela
advém do crescimento interior. Sem paz de espírito,
é impossível haver paz no mundo.
Na nossa vida, cultivar
a tolerância é muito importante. Com tolerância,
pode-se facilmente superar as dificuldades. Caso você
tenha pouca ou nenhuma tolerância, ficará irritado
com as mínimas coisas. Em situações difíceis,
terá reações extremadas. Em minha vida,
já refleti muito a respeito desta questão e
sinto que a tolerância é algo que deve ser praticado
no mundo inteiro, no seio da sociedade humana. Mas, quem nos
ensina tolerância? Pode ser que seus filhos o ensinem
a cultivar a paciência, mas é seu inimigo quem
irá ensinar-lhe a prática da tolerância.
O inimigo é seu mestre. Mostre-lhe respeito, ao invés
de ódio. Dessa forma, a verdadeira compaixão
irá brotar de seu interior e essa compaixão
é a base de tudo aquilo que você é e acredita.
Bens e compensações
materiais são absolutamente necessários à
sociedade humana, a um país, a uma nação.
Ao mesmo tempo, o progresso material e a prosperidade somente
não podem levar à paz interior. A paz interior
vem de dentro. Portanto, nossa atitude perante a vida, perante
os outros e principalmente em relação às
nossas dificuldades conta muito. Quando duas pessoas enfrentam
o mesmo problema, atitudes mentais distintas fazem com que
o problema seja de mais fácil resolução
para uma pessoa do que para outra. Desta forma, o que realmente
nos diferencia é a perspectiva interna de cada um.
Se colocarmos os níveis
de consciência mais sutis a nosso serviço, estaremos
expandindo nossa mente. Assim sendo, as virtudes originárias
da mente podem se expandir ilimitadamente.
A compaixão e o
amor são as virtudes mais preciosas da vida. Por serem
muito simples, são difíceis de serem colocados
em prática. A compaixão só poderá
ser plenamente cultivada à medida que se reconhece
que cada ser humano é parte da humanidade e pertencente
à família humana, independente de religião,
raça, cultura, cor e ideologia. A verdade é
que não há diferença alguma entre os
seres humanos.
Sem amor, a sociedade
humana encontra-se em situação difícil.
Sem amor, iremos enfrentar problemas terríveis no futuro.
O amor é o centro da vida.
Se tiver amor e compaixão
por todos os seres sencientes, em especial por seus inimigos,
este é o verdadeiro amor e a verdadeira compaixão.
O amor e compaixão, nutridos por seus amigos, esposa
e filhos, não são verdadeiros em sua essência.
São apego, e esse tipo de amor não pode ser
infinito.
Insisto em afirmar que
as principais religiões do mundo budismo, cristianismo,
judaÍsmo, confucionismo, hinduismo, islamismo, jainismo,
sikhismo, taoismo, zoroastrismo possuem os mesmos ideais
de amor, o mesmo objetivo de beneficiar a humanidade por meio
da prática espiritual, e a mesma determinação
de aprimorar seus praticantes como seres humanos. Todas as
religiões pregam preceitos morais para o aperfeiçoamento
da mente, do corpo e da fala. Todas nos ensinam a não
mentir, roubar ou tirar a vida de outras pessoas. A essência
de todos os preceitos morais preconizados pelos grandes mestres
da humanidade é o não-egoísmo. Esses
mestres tinham como objetivo remir os praticantes de ações
negativas, frutos da ignorância, e conduzi-los ao caminho
do bem.
Se percebemos a humanidade
como sendo una e singular, iremos constatar que as diferenças
são secundárias. Com atitude de respeito e preocupação
pelo próximo, experimentamos a felicidade. Só
assim criamos a verdadeira harmonia e fraternidade. À
sua maneira, tente cultivar a paciência. Modifique sua
atitude. As mudanças vêm com a prática.
A mente humana tem esse potencial. Aprenda a treiná-la.
A nossa sombra interior,
a que chamamos de ignorância, é a raiz de todo
o sofrimento. Quanto mais luz houver, menos a sombra se manifestará.
A luz é o único caminho para a salvação,
para alcançar o nirvana.
Deve haver um equilíbrio
entre o progresso espiritual e o material. Atinge-se esse
equilíbrio por meio de princípios calcados no
amor e na compaixão. O amor e a compaixão são
a essência de todas as religiões, que têm
muito a aprender entre si. O objetivo primordial de todas
as religiões é criar seres humanos mais tolerantes,
mais compassivos e menos egoístas.
Os seres humanos são
dotados de uma natureza tal que não deveriam apenas
possuir bens materiais, mas deveriam antes possuir sustento
espiritual. Sem o sustento espiritual, torna-se difícil
adquirir e manter a paz de espírito.
Para cultivar a sabedoria,
é preciso força interior. Sem crescimento interno,
é difícil conquistar a autoconfiança
e a coragem necessárias. Sem elas, nossa vida se complica.
O impossível torna-se possível com a força
de vontade.
Ensinamentos: Harmonia Religiosa
Uma grande pergunta está subjacente em nossa experiência,
quer pensemos nela conscientemente, ou não: Qual é
o propósito da vida? Tenho estudado esta pergunta e,
gostaria de compartilhar meus pensamentos na esperança
de que possam ser de benefício prático e evidente
àqueles que os lêem.
Acredito que o propósito
da vida seja sermos felizes. Desde o momento do nascimento,
todo ser humano quer a felicidade e, não quer o sofrimento.
Nem a condição social, nem a educação
e, nem tampouco a ideologia, altera isso. Simplesmente desejamos
o contentamento, a partir do mais profundo âmago de
nosso ser. Não sei se o universo, com suas incontáveis
galáxias, estrelas e planetas, possui um significado
mais profundo ou não, mas, no mínimo, está
claro que nós humanos, que vivemos nesta terra, encaramos
a tarefa de nos proporcionar uma vida feliz. É, portanto,
importante, descobrirmos o que produzirá o mais alto
grau de felicidade.
Como alcançar
a felicidade
Para começarmos, podemos dividir todo tipo de felicidade
e sofrimento em duas categorias principais: mental e física.
Das duas, é a mente que exerce a maior influência
em muitos de nós. A menos que estejamos gravemente
doentes, ou privados de nossas necessidades básicas,
a condição física representa um papel
secundário na vida. Se o corpo está satisfeito,
praticamente o ignoramos. A mente, entretanto, registra cada
evento, por mais pequeno que seja. Por isso, deveríamos
devotar nossos mais sérios esforços à
produção da paz mental. A partir de minha própria
limitada experiência, descobri que o mais alto grau
de tranqüilidade interior vem do desenvolvimento do amor
e da compaixão. Quanto mais nos ocuparmos com a felicidade
alheia, maior se tornará nossa sensação
de bem-estar. O cultivo de sentimentos amorosos, calorosos
e próximos para com os outros automaticamente descansa
a mente. Isto ajuda a remover quaisquer temores ou inseguranças
que possamos ter e, nos dá força para enfrentarmos
quaisquer obstáculos que encontramos. É a principal
fonte de sucesso na vida. Enquanto vivemos neste mundo estamos
destinados a encontrar problemas. Se, nessas ocasiões,
perdemos a esperança e nos desencorajamos, diminuímos
nossa habilidade de encarar as dificuldades. Se, por outro
lado, nos lembramos que não se trata apenas de nós,
mas, que todos têm de passar por sofrimento, esta perspectiva
mais realista aumentará nossa capacidade e determinação
para sobrepujarmos os problemas. Na verdade, com essa atitude,
cada novo obstáculo pode ser encarado como sendo mais
uma valiosa oportunidade de aprimorar nossa mente! Desse modo,
podemos gradualmente nos esforçar para nos tornarmos
mais compassivos, ou seja, podemos desenvolver tanto a genuína
empatia pelo sofrimento dos outros, quanto a vontade de ajudar
a remover sua dor. Como resultado, crescerão nossas
próprias serenidade e força interior.
Nossa necessidade de amor
Em última análise, amor e compaixão acarretam
a maior felicidade simplesmente porque nossa natureza as valoriza
acima de tudo o mais. A necessidade de amor repousa no verdadeiro
fundamento da existência humana. Resulta da profunda
interdependência que todos repartimos uns com os outros.
Por mais capaz e hábil que seja o indivíduo,
se deixado só, ele ou ela não sobreviverá.
Por mais vigorosa e independente que possa se sentir uma pessoa
durante os períodos mais prósperos da vida,
quando ela estiver doente, ou muito jovem, ou muito velha,
ela precisará depender do apoio de outros.
Interdependência
é claro, é uma lei fundamental da natureza.
Não apenas formas mais elevadas de vida, mas, até
mesmo muitos dos menores insetos, são seres sociais
que, sem qualquer religião, lei ou educação,
sobrevivem através de mútua cooperação
baseada num reconhecimento inato de sua interconexão.
O nível mais sutil do fenômeno material também
é governado pela interdependência. Todos os fenômenos
do planeta que habitamos, nos oceanos, nuvens, florestas e
flores que nos circundam, se manifestam em interdependência
por meio de sutis padrões de energia. Sem uma interação
adequada, eles se deterioram e se dissolvem.
Nossa necessidade de amor
repousa no verdadeiro fundamento da existência humana,
pelo fato de que nossa própria existência humana
é tão dependente da ajuda de outros. Portanto,
necessitamos de um genuíno senso de responsabilidade
e, de uma sincera preocupação pelo bem-estar
de outros.
Devemos levar em consideração
o que nós, seres humanos, realmente somos. Não
somos como os objetos fabricados por máquinas. Se fôssemos
apenas entidades mecânicas, então as próprias
máquinas seriam capazes de aliviar todos os nossos
sofrimentos e preencher as nossas necessidades. Todavia, por
não sermos apenas criaturas materiais, seria um erro
colocarmos todas as nossas esperanças por felicidade
somente no desenvolvimento exterior. Em vez disso, deveríamos
levar em consideração nossas origens e nossa
natureza, para descobrirmos o que necessitamos.
Deixando de lado a complexa
questão da criação e evolução
de nosso universo, podemos ao menos concordar que cada um
de nós é um produto de nossos pais. Em geral,
nossa concepção não se deu apenas no
contexto do desejo sexual, mas, da decisão de nossos
pais de ter um filho. Tais decisões estão fundamentadas
em responsabilidade e altruísmo, o compromisso compassivo
dos pais de cuidar de seu filho até que ele seja capaz
de cuidar de si mesmo. Portanto, a partir do verdadeiro momento
de nossa concepção, o amor de nossos pais está
diretamente em nossa criação.
Além disso, somos
completamente dependentes da atenção de nossas
mães desde os mais tenros estágios de nosso
crescimento. De acordo com alguns cientistas, o estado mental
de uma mulher grávida, seja ele calmo ou agitado, tem
um efeito físico direto no filho ainda em estágio
de formação.
A manifestação
de amor também é muito importante na hora de
dar à luz. Visto que a primeira coisa que realmente
fazemos é sugar o leite do seio materno, nós
naturalmente nos sentimos ligados a ela e, ela deve sentir
amor por nós para nos alimentar adequadamente, se ela
sentir raiva ou ressentimento, seu leite poderá não
fluir livremente.
Há então
o crítico período do desenvolvimento do cérebro,
desde o nascimento até ao menos a idade de três
ou quatro anos, quando o contato físico amoroso é
o fator mais importante para o crescimento normal da criança.
Se a criança não for abraçada, amparada,
afagada ou amada, seu desenvolvimento será prejudicado
e seu cérebro não amadurecerá apropriadamente.
Visto que a criança
não pode sobreviver sem o cuidado de outrem, seu mais
importante alimento é o amor. A felicidade da infância,
a pacificação dos inúmeros temores da
criança e, o desenvolvimento salutar de sua autoconfiança,
tudo depende diretamente do amor.
Hoje em dia, muitas crianças
crescem em lares sem felicidade. Se elas não recebem
afeição adequada, mais tarde na vida, raramente
amarão seus pais e, não raro, terão dificuldade
em amar outros. Isto é muito triste.
À medida que as
crianças crescem e vão à escola, suas
necessidades de apoio precisam ser supridas por seus professores.
Quando um professor não apenas compartilha educação
acadêmica com seus alunos, mas, também assume
a responsabilidade de prepará-los para a vida, seus
alunos ou alunas sentirão confiança e respeito
e, o que lhes tiver sido ensinado causará indelével
impressão em suas mentes. Ao contrário, assuntos
ensinados por um professor que não demonstrou preocupação
verdadeira pelo bem-estar geral de seus alunos, serão
considerados apenas temporariamente e, não serão
retidos por muito tempo.
Do mesmo modo, se algum
doente é tratado num hospital por um médico
que evidencia o sentimento de calor humano, ele se sentirá
à vontade e, o desejo médico de dar a melhor
atenção possível é, por si só,
curativo, independentemente do grau de especialização
médica. Ao contrário, se o médico de
alguém carecer de sentimento humano e demonstrar uma
expressão pouco amigável, impaciência
ou desconsideração casual, esse alguém
se sentirá ansioso, mesmo que o médico seja
da mais alta qualificação, que a doença
tenha sido corretamente diagnosticada e, que a medicação
correta tenha sido prescrita. Inevitavelmente, os sentimentos
do paciente fazem a diferença na qualidade e na extensão
de sua recuperação.
Até mesmo quando
nos envolvemos em uma simples conversa em nossa vida diária,
se alguém fala com sentimento humano, temos prazer
em ouvir e, responder do mesmo modo: toda a conversa se torna
interessante, por menos importante que seja o assunto. Ao
contrário, se uma pessoa fala de modo frio e duro,
sentimo-nos pouco à vontade e desejamos que aquela
interação termine logo. A afeição
e o respeito pelos outros são vitais para nossa felicidade
em qualquer circunstância, desde o menos significativo,
até o mais importante evento.
Recentemente, me encontrei
com um grupo de cientistas norte-americanos que diziam que
a taxa de doenças mentais em seu país era muito
alta, ao redor de doze porcento da população.
Durante nossa discussão, tornou-se claro que a principal
causa da depressão não era a falta de necessidades
materiais, mas, carência da afeição de
outrem. Portanto, como você pode ver de tudo o que escrevi
até aqui, uma coisa me parece clara: quer estejamos
conscientemente atentos a isso, ou não, a necessidade
de afeição humana está em nosso próprio
sangue, desde o dia em que nascemos. Mesmo que a afeição
venha de um animal, ou de alguém que normalmente consideraríamos
um inimigo, tanto crianças como adultos, naturalmente
gravitarão ao redor dela.
Acredito que ninguém
nasce livre da necessidade de amor. E, isto demonstra que,
ainda que algumas modernas escolas de pensamento procurem
fazê-lo, seres humanos não podem ser definidos
como sendo apenas físicos. Nenhum objeto material,
por mais belo ou valioso, pode nos fazer sentir amados, porque
nossa mais profunda identidade e verdadeiro caráter
repousam na natureza subjetiva da mente
Dalai Lama
James Morrison
'You Give Me Something'
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