Ensinamentos: Bondade e Compaixão

Esta noite, gostaria de falar a vocês sobre a importância da bondade e da compaixão. Ao discutir esses temas, não me vejo como budista, Dalai Lama ou tibetano, mas sim como um ser humano e espero que vocês, no auditório, pensem em si mesmos dessa maneira. Não como americanos, ocidentais ou membros de um determinado grupo, pois essas condições são secundárias. Se interagirmos como seres humanos, podemos chegar a esse nível. Caso eu diga "sou monge" ou "sou budista", as afirmações serão, em comparação com a minha natureza de ser humano, temporárias. Ser humano é básico. Uma vez nascido assim, não se poderá mudar até a morte. Outras condições, ser ou não instruído, rico ou pobre, são secundárias.



"Se a criança não receber a devida atenção, em geral, quando adulta, tem dificuldade de amar seus semelhantes." (Dalai-Lama)

"Quando morremos, nada pode ser levado conosco, com a exceção das sementes lançadas por nosso trabalho e do nosso conhecimento". (Dalai-Lama)

"A essência de toda a vida espiritual é a emoção que existe dentro de você, é a sua atitude para com os outros". (Dalai-Lama)

"Se o seu coração é absoluto e sincero, você naturalmente se sente satisfeito e confiante, não tem nenhuma razão para sentir medo dos outros". (Dalai-Lama)

Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns são criados essencialmente por nós mesmos, com base em diferenças de ideologia, religião, raça, situação econômica ou outros fatores. Chegou, portanto, o momento de pensarmos em níveis mais profundos. Em nível humano, condição essa que deveremos apreciar e respeitar em todos os que nos cercam. Devemos construir relacionamentos baseados na confiança mútua, na compreensão, no respeito e na solidariedade, independentemente de diferenças culturais, filosóficas ou religiosas.

Todos os seres humanos são iguais. Feitos de carne, ossos e sangue. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento e temos direito a isso. Em outras palavras, é importante compreender a nossa igualdade. Pertencemos todos a uma família humana. O fato de brigarmos uns com os outros deve-se a razões secundárias, e todas essas discussões são inúteis. Infelizmente, durante muitos séculos, os seres humanos usaram todos os métodos para ferir uns aos outros. Muitas coisas terríveis aconteceram, resultando em mais problemas, mais sofrimento e desconfiança. E, consequentemente, em mais divisões.

O mundo hoje está cada vez menor em vários aspectos, particularmente o econômico. Os países estão mais próximos e interdependentes e, nesse quadro, torna-se necessário, pensar mais em nível humano do que em termos do que nos divide. Assim, falo a vocês apenas como um ser humano e espero, sinceramente, que vocês estejam escutando com o pensamento: "Sou um ser humano e estou ouvindo outro ser humano falar".

Todos queremos a felicidade; nas cidades, no campo, mesmo em lugares remotos, as pessoas trabalham com o objetivo de alcançá-la, entretanto, devemos ter em mente que viver a vida superficialmente não solucionará os problemas maiores.

Há muitas crises e medos à nossa volta. Por meio do grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia, atingimos um estado avançado de progresso material, que é necessário. Não podemos, no entanto, comparar o progresso externo com nosso progresso interior. As pessoas queixam-se do declínio da moralidade e do aumento da criminalidade, mas esses problemas não serão resolvidos, se não procurarmos desenvolver nosso interior.

No passado remoto, se houvesse uma guerra, os efeitos seriam geograficamente limitados, porém hoje, em função do progresso, o potencial de destruição ultrapassou o concebível. No ano passado estive em Hiroshima, no Japão. Mesmo tendo informações a respeito da explosão nuclear lá ocorrida, era muito diferente estar no local, ver com meus próprios olhos e encontrar pessoas que realmente sofreram com aqueles acontecimentos. Fiquei profundamente emocionado. Uma arma terrível tinha sido usada. Embora possamos considerar alguém como inimigo, temos de levar em conta que essa pessoa é um ser humano e que tem direito a ser feliz. Olhando para Hiroshima e refletindo a respeito, fiquei ainda mais convencido de que a raiva e o ódio não são meios para solucionar problemas.

A raiva não pode ser superada pela raiva. Quando uma pessoa tiver um comportamento agressivo com você e a sua reação for semelhante, o resultado será desastroso. Ao contrário, se você puder se controlar e tomar atitudes opostas "compaixão, tolerância e paciência", não só se manterá em paz, como a raiva do outro diminuirá gradativamente. Do mesmo modo, problemas mundiais não podem ser solucionados pela raiva ou pelo ódio. Sentimentos como esses devem ser enfrentados com amor, compaixão e pura bondade.

Pensem em todas as terríveis armas que existem, mas que, por si mesmas, não podem iniciar uma guerra. Por trás do gatilho há um dedo, movido pelo pensamento, não por sua própria força. A responsabilidade permanece em nossa mente, de onde se comandam as ações. Portanto, controlar em primeiro lugar a mente é muito importante. Não estou falando de meditação profunda, mas apenas de cultivar menos raiva e mais respeito aos direitos do outro. Ter uma compreensão mais clara da nossa igualdade como seres humanos.

Ninguém quer a raiva, ninguém quer a intranqüilidade, mas por causa da ignorância somos acometidos por sentimentos como esses. A raiva nos faz perder uma das melhores qualidades humanas, o poder de discernimento. Temos um cérebro bem desenvolvido, coisa que outros mamíferos não têm. Esse órgão nos permite julgar o que é certo e o que é errado. Não apenas em termos atuais, mas em projeções para daqui dez, vinte ou mesmo cem anos. Sem nenhum tipo de pré-cognição, podemos utilizar nosso bom senso para determinar o certo e o errado. Imaginar as causas e seus possíveis efeitos. Contudo, se nossa mente estiver ocupada pela raiva, perderemos o poder de discernimento e nos tornaremos mentalmente incompletos. Devemos salvaguardar essa capacidade e, para tanto, temos de criar uma companhia de seguros interna: autodisciplina, autoconsciência e uma clara compreensão das desvantagens da raiva e dos efeitos positivos da bondade. Se refletirmos a respeito dessas questões com freqüência, podemos incorporar a idéia e, então, controlar a mente.

Por exemplo: pode ser que você seja uma pessoa que se irrita facilmente com pequenas coisas. Com desenvolvida compreensão e conscientização, isso pode ser controlado. Se você fica geralmente zangado por dez minutos, tente reduzi-los para oito. Na semana seguinte, reduza para cinco e, no próximo mês, para dois. Depois, passe para zero. É assim que desenvolvemos e treinamos nossa mente. É o que penso e também o que pratico.

É perfeitamente claro que todos necessitam de paz interior, que só pode ser alcançada por meio da bondade, do amor e da compaixão. O resultado é uma família em paz, felicidade entre pais e filhos, menos brigas entre casais. Em uma nação, essa atitude pode criar unidade, harmonia e cooperação com saudável motivação. Em nível internacional, precisamos de confiança e respeito mútuos, discussões francas e amistosas, com motivações sinceras e um esforço conjunto no sentido de resolver problemas. Tudo isso é possível.

Precisamos, porém, mudar interiormente. Nossos líderes têm feito o melhor que podem para resolver nossos problemas, mas, quando um é resolvido, surge outro. Tenta-se solucionar este, surge mais um em outro lugar. Chegou o momento então de tentar uma abordagem diferente.

É certamente difícil realizar um movimento mundial pela paz de espírito, mas é a única alternativa. Caso houvesse outro método mais fácil e prático, seria melhor, porém não há. Se com armas pudéssemos chegar à paz duradoura, muito bem. Transformaríamos todas as fábricas em produtoras de armamentos. Gastaríamos todos os dólares necessários, se conseguíssemos a definitiva paz, mas tal é impossível.

As armas não permanecem empilhadas. Uma vez desenvolvidas, alguém irá usá-las. O resultado é a morte de criaturas inocentes. Portanto, a única maneira de atingirmos uma paz mundial duradoura é por meio da transformação interior. E, mesmo que essa transformação não ocorra durante esta vida, a tentativa terá sido válida. Outros seres humanos virão; a próxima geração e as seguintes. E o progresso pode continuar. Sinto que, apesar das dificuldades práticas, e, mesmo correndo o risco de que tal visão seja considerada pouco realista, vale a pena o esforço. Assim, aonde quer que eu vá, expresso essas idéias e sinto-me muito motivado porque mais pessoas têm sido receptivas a elas.

Cada um de nós é responsável por toda a humanidade. Chegou a hora de pensarmos nas outras pessoas como verdadeiros irmãos e irmãs e nos preocuparmos com seu bem-estar. Mesmo que você não possa se sacrificar inteiramente, não deverá esquecer-se das dificuldades dos outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em benefício de toda a humanidade. Se você tentar dominar seus sentimentos egoístas e desenvolver mais bondade e compaixão, em última análise, você é quem irá sair beneficiado. É o que chamo de egoísmo sábio. Pessoas egoístas tolas só pensam em si mesmas, e o resultado é negativo. Egoístas sábios pensam nos outros, ajudam da melhor forma e também colhem os benefícios. Essa é minha simples religião. Não há necessidade de templos ou de filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro, nosso coração são nossos templos. A filosofia é a bondade.

(Texto extraído da obra A Policy of Kindness, Snow Lion Publications, 1990.)


Responsabilidade Universal, Direitos Humanos e Paz

1. Eu me uno a todos que rendem homenagem a Sua Santidade o Dalai Lama como consciência articulada da humanidade, encarnação da sabedoria e da compaixão, alguém que transcendeu o ego e as limitações que este impõe. Hoje pudemos ver a diversidade e a riqueza dos ângulos a partir dos quais esse assunto pode ser visto. Eu escolhi um desses ângulos, ao qual vou me ater.

2. Ao focalizar a atenção da humanidade na responsabilidade universal e ao nos convidar para uma reflexão a respeito das causas da nossa atual condição, dos desafios que enfrentamos hoje e o caminho para sobrevivermos e progredirmos, Sua Santidade o Dalai Lama nos lembra dos paradigmas imutáveis da espécie humana. Diferente das outras espécies, os humanos não estão condenados a viver prisioneiros de seus próprios instintos. As características específicas de suas mentes e de suas vontades lhes dão a condição de refinar e domar seus instintos, como também de se aventurar além desses limites. Suas mentes os habilitam a entender as leis da natureza, imaginar ou enxergar alternativas, formular e definir metas, e mobilizar os meios e tomar os rumos que os levem às suas metas. Todas as suas ações, portanto, se baseiam em escolhas. Elas podem ser pensadas, impulsivas ou inconscientes. Podem resultar de inércia, covardia ou audácia. Mas, em qualquer dos casos, a ação ou reação envolve escolhas a partir de alternativas e, portanto, o ser humano tem que assumir a responsabilidade pelas conseqüências que decorrem de suas escolhas e ações. Essa responsabilidade não recai sobre os demais animais. Assim, com a habilidade de se aventurar além dos limites dos instintos, os seres humanos adentraram os domínios da responsabilidade. O ser humano, portanto, é responsável pelo que faz de sua vida e com seu ambiente social e natural, assumindo essa responsabilidade não só frente a si mesmo como também frente a todos aqueles cujas vidas são afetadas por suas ações e em cujo nome faz escolhas e toma decisões para poder agir.

3. As escolhas que o ser humano é levado a fazer são muitas e se apresentam em todos os campos e aspectos da vida e, na verdade, a todo momento vivido. Para mencionar somente algumas, elas afetam nossas motivações, nossas ações e reações nas áreas de consumo, produção, nos relacionamentos, nos limites institucionais da nossa sociedade, nas organizações que formamos ou usamos, nos processos decisórios, nas aprovações para nos adequarmos às decisões consensuais, nas instituições onde há opiniões divergentes, nos conflitos que surgem como resultado de diferenças, nos meios que adotamos para solucionar esses conflitos e assim por diante.

4. A necessidade de fazer escolhas e a liberdade de escolher surge a partir da nossa habilidade de entender a natureza e suas leis. O ser humano tem a capacidade de entender a lei fundamental de causa e efeito que rege o universo no qual atua. Consegue correlacionar eventos e acontecimentos com suas causas. Percebe que a relação entre causa e efeito é imutável e inexorável. Uma vez que tem a capacidade de identificar causas, também assume a responsabilidade de prever os efeitos dessas causas, ou as causas que provoca com suas ações. Essa habilidade não só o habilita a acompanhar as causas que surgem no momento presente, como também a prever os possíveis efeitos decorrentes das causas que cria, tanto pela ação individual como pela ação coletiva ou grupal.

5. A escolha crucial que hoje se apresenta à humanidade é decidir entre a sobrevivência e o suicídio, a sobrevivência e a extinção. Armas de destruição em massa, terrorismo e avançados métodos tecnológicos de guerra puseram a humanidade face a face com todo o espectro de destruição indiscriminada e completa da espécie e de tudo o que apoia a vida tal como existe hoje no planeta. Ninguém está a salvo. Nada é seguro. Ninguém está imune. Ninguém pode garantir segurança. As fronteiras perderam o seu significado. Todas as distinções entre combatentes e não combatentes, vítimas e vencedores foram apagadas. Todos estão vulneráveis. Nem mesmo a maior superpotência pode prever onde e como a destruição vai acontecer, muito menos criar um escudo de imunidade para proteger cidadãos ou instalações, inclusive instalações das quais a vida depende. Nenhuma arma sofisticada nem sistema de alarme pode garantir imunidade. Esse regime de vulnerabilidade universal tem produzido uma crescente consciência do significado da guerra e suas variações para o ser humano comum, inclusive para mulheres e crianças que têm sido talvez as mais atingidas por mortes, sofrimento, miséria e violação da dignidade humana, mais ainda do que os combatentes. Essa maior consciência tem levado a uma crescente disposição para intervir em defesa própria, contra a guerra como instrumento de política ou reconciliação. As manifestações de protesto contra guerras no Iraque e demais países, vistas em centenas de capitais pelo mundo, evidenciam o anseio universal das pessoas pela paz e pelos meios pacíficos de resolução de disputas.

6. Se o potencial bélico de auto destruição da espécie humana criou nas pessoas um anseio generalizado pela paz, gerou também uma consciência crescente do potencial de auto preservação da humanidade, da responsabilidade universal para se engajar em ações que assegurem a auto preservação. Não é suficiente que a paz surja como aspiração; ela tem que ser encarada e aceita como um imperativo para a sobrevivência e, portanto, como o objetivo soberano do indivíduo e dos grupos sociais. O atingimento de qualquer objetivo depende da nossa prontidão em renunciar a tudo que impeça o nosso progresso na direção desse objetivo. Isso ocorre quando o objetivo supremo é o objetivo da sobrevivência. Passa a ser muito necessário extirpar tudo o que signifique a antítese ou o repúdio à paz, e também promover o que quer que seja essencial e conducente à paz, escolher o caminho que leva à paz e não aquele que leva à guerra, à violência e aos viveiros onde germinam as sementes dos conflitos, dos ódios e dos espíritos vingativos. Agora reconhecemos que as guerras não surgem do nada. Elas emergem a partir de causas que têm seus próprios períodos de gestação. Tal como aceito pelas Nações Unidas, essas causas afloram na mente dos homens. Se devemos eliminar a guerra, suas causas têm que ser eliminadas e, uma vez que as causas que queremos eliminar surgem na mente humana, são as nossas mentes que têm que ser submetidas a um exame minucioso, trazidas sob o microscópio para detectar e eliminar as atitudes, crenças e instituições construídas com base nessas crenças que abrigam as sementes da guerra e da violência. As instituições podem e precisam ser submetidas a exame detalhados por aqueles que as criam e as mantêm, honrando o consentimento e as sanções que dão origem a sua existência e autoridade. Mas se essas, como também as crenças e as atitudes que as direcionam e sustentam, surgem e reinam nas mentes dos indivíduos, o principal objeto de escrutínio torna-se a mente do ser humano. Nenhum ser humano pode examinar a mente de outro com a mesma clareza e eficácia como faria com sua própria mente. As sementes da guerra não podem ser, portanto, eliminadas sem o exame implacável de nossas mentes, conduzido individualmente e em conjunto — e a responsabilidade por esse escrutínio é inalienável, inevitável e universal.

7. Nenhum ser humano, em circunstâncias normais, vive como uma ilha. Vive em sociedade. Sua vida, pensamentos, emoções e aspirações são todos influenciados por pensamentos, emoções e ações dos outros, — seja através das instituições ou do contato pessoal. Cada ser humano vive, portanto, através da interação constante com o ambiente que habita — seu habitat social como também seu habitat natural. A paz em sua mente, tanto quanto o estado de paz na sociedade em que vive, depende, portanto: (I) do estado e das atitudes mentais do indivíduo; (II) do estado do ambiente social no qual vive — incluindo o estado das instituições que dirigem sua vida econômica, política, cívica e social; e (III) do estado do ambiente natural que é afetado por suas ações individuais e coletivas, e do impacto resultante, que por sua vez afeta sua habilidade de satisfazer suas vontades e aspirações, como também as calamidades que são provocadas pela gradual acumulação dos efeitos de suas ações — como no caso da escassez e poluição, e calamidades naturais como enchentes, etc.

8. Tal escrutínio ou reflexão com certeza nos dirá que guerra ou paz não são um monólito, mas o resultado cumulativo de muitos ingredientes; que o edifício da paz não pode ser construído com tijolos cozidos no fogo do ódio ou da injustiça mútua; que cada tijolo terá, portanto, que ser examinado e cuidadosamente selecionado.

9. A escolha do caminho ou dos meios é igualmente crucial. Paz não é um evento. É um estado. Um estado da mente, conseqüentemente refletido no estado das instituições sociais. Tal estado mental não pode ser criado ou mantido pela maximização ou emprego de forças que são antitéticas à equanimidade e à paz. A paz é, portanto, um fim que não podemos atingir exceto através de meios que sejam coerentes com o objetivo, ou seja, a paz. Não pode ser que nós desejemos a paz, mas tentemos chegar a ela através do que a solapa e a destrói. Como disse o grande Shantideva, não pode ser que tentemos eliminar o sofrimento pela busca daquilo que faz sofrer. Dukhasya hetum ichhanti, dukham nechhanti manavah: — ou, como disse Buda: Ma Lohagulam gili pamatto, ma kandi dukham idamti dahyamano — "Se engolir a bola quente e vermelha, atraído pela sua cor rosada, quando ela o queimar não se lamurie de estar sofrendo uma dor excruciante."

10. Tal escrutínio ou reflexão com certeza nos revelará a relação inexorável entre paz e justiça. Não pode haver paz mental para o indivíduo, ou paz ou harmonia, numa sociedade onde a mente do indivíduo ou de muitos que constituem qualquer grupo são atormentadas pelo senso de injustiça e pela indignação que provém dela. Tal sentimento abre caminho para a desavença, a alienação, o desejo ardente de assegurar a justiça mesmo ao custo de uma ordem perturbadora e aparentemente pacífica que, de fato, se apóia na violência sistemática e na supressão — conduzindo afinal à sublevação violenta ou ao combate de um tipo ou de outro. A paz, portanto, depende da justiça e a justiça depende do sucesso da sociedade em assegurar oportunidades iguais de crescimento, auto-expressão e auto-realização. Um regime de iniqüidade ou oportunidades desiguais, condições desiguais de sobrevivência somente pode ser sustentado ou eternizado pela força, que é uma descrição eufemística de violência e das variantes de luta. As Nações Unidas reconheceram, portanto, que direitos humanos são pré-requisitos da paz. É a ausência, privação ou violação dos direitos humanos que conduz ao incitamento às violações da paz ou aos levantes que se precipitam em formas de luta. A renúncia às armas de destruição em massa é boa. Desarmamento é bom. Não são somente bons, mas necessários. Mas armas são sintomas, reflexos, resultados da crença de que a guerra é um instrumento legítimo e efetivo de acerto de diferenças e disputas em torno de interesses. Enquanto tal crença sobreviver, o espectro da guerra assombrará a humanidade. Depois de todos esses séculos de guerra, e depois da transformação que a guerra sofreu, tornou-se necessário avaliar a guerra como um instrumento — como um meio. Qual é o seu custo benefício para o cidadão, para a sociedade, para a humanidade? O preço que ela exige de nós vai além do que a humanidade pode pagar se quiser sobreviver? Ela terá se tornado fútil e suicida?

11. A paz, então, está inextricavelmente entrelaçada à presença dos direitos humanos; e sua violação ou privação em qualquer forma, seja no Tibet ou Dafur, na Índia, no Iraque, no Oriente Médio, ou onde quer que seja, cria motivos que colocam em perigo e solapam a paz. Todos os seres humanos têm direito à vida e, portanto, ao acesso a água, comida, abrigo e serviços médicos, inviolabilidade da dignidade humana, oportunidades iguais e tudo mais. Indivíduos, assim como grupos, têm esses direitos. Quando eles são negados, criam-se as causas do conflito e não da paz; e o resultado é guerra, terrorismo e outras formas de combate. Discriminação, privação, disparidades, manipulação de disparidades no acesso a recursos, e muitas outras ameaças à paz podem ser identificadas e analisadas. Estou certo de que muitos oradores e participantes neste seminário o farão. Meu objetivo específico foi colocar diante de vocês alguns pensamentos sobre os imperativos da paz e como estes dependem do senso universal de responsabilidade e do compromisso de engajamento no esforço para prevenir a guerra e para promover e sustentar a paz.

Obrigado!


Ensinamentos e mensagens

Ensinamentos: Os Direitos do Homem no Limiar do Século XXI
A amplitude do movimento contra as violações dos direitos humanos é muito estimulante. Não só dá uma perspectiva de alívio a muitos que sofrem, como também é um indício do desenvolvimento e progresso da humanidade. A preocupação com os direitos humanos e o esforço para mantê-los representam um grande serviço às gerações presentes e futuras. Desde que a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi promulgada há cinqüenta anos, as pessoas começaram a compreender a grande importância e o valor dos direitos do homem.


Perspectivas de um Monge Budista

Embora não seja perito nesse campo, para um monge budista como eu, os direitos de cada ser humano é um bem muito precioso e imprescindível. Segundo a crença budista, todo ser senciente possui um fundamento de natureza pura em sua essência, não poluído por distorções mentais. Referimo-nos à essa essência como a semente da Iluminação, em que todos os seres são capazes de alcançar a perfeição e, dada a natureza pura da mente, acreditamos que todos os aspectos negativos possam ser eliminados do espírito. Assim sendo, quando nossa atitude mental é positiva, as ações negativas do corpo e da palavra deixam de existir automaticamente. Como todos os seres sencientes encerram esse potencial, todos são iguais. Todos têm direito de ser feliz e superar o sofrimento. O próprio Buda disse que em sua Ordem, nem raça nem classe social são importantes. O importante é a prática de se viver a vida eticamente.

Enquanto praticantes budistas, tentamos acima de tudo aprimorar nossa conduta no cotidiano. Somente a partir desse aprimoramento, conseguiremos desenvolver as práticas do treino mental e da sabedoria. Na minha prática diária de monge budista, tenho de observar muitas regras, mas o fundamental em todas é o profundo respeito e preocupação pelos direitos do próximo. Os votos feitos por monges e monjas ordenados incluem não tirar a vida de outros seres, não roubar suas posses e assim por diante. São princípios profundamente enraizados no respeito aos direitos do próximo. É por essa razão que muitas vezes descrevo a essência do budismo da seguinte maneira: se puder, ajude a outros seres sencientes; se não puder, ao menos abstenha-se de lhes fazer mal. Além de revelar um profundo respeito pelas pessoas, essa também é uma forma de respeitar a própria vida e mostrar preocupação pelo bem-estar geral.

Apesar de ser muito importante respeitar os direitos dos outros, muitas vezes agimos de forma contrária e o motivo principal é nossa falta de amor e compaixão. A questão das violações dos direitos humanos e a preocupação pelos direitos das pessoas estão intimamente ligadas à prática da compaixão, do amor e do perdão no nosso cotidiano. Quando se fala de amor e compaixão, as pessoas geralmente relacionam estas qualidades às práticas religiosas, o que não é necessariamente o caso. É fundamental que reconheçamos a importância da compaixão e do amor nas relações entre os seres sencientes em geral e os seres humanos em particular.

Todos nós, desde a mais tenra idade à velhice, apreciamos a ajuda e o carinho que as pessoas nos dispensam. Infelizmente, no decorrer de nossa vida, à medida que nos tornamos independentes, muitas vezes negligenciamos o valor do carinho e da compaixão. Visto que nossa vida se inicia e termina com a necessidade inerente de afeto, não seria muito melhor praticarmos a compaixão e o amor ao próximo enquanto podemos?

Só conquistamos amigos verdadeiros quando exprimimos sentimentos sinceros, respeito pelo próximo e preocupação pelos seus direitos. É fácil vivenciar esses sentimentos no nosso dia a dia. Não é necessário ler complicados tratados filosóficos a respeito, pois no cotidiano essa experiência é uma realidade. A prática da compaixão, da sinceridade e do amor é fonte inesgotável de felicidade e satisfação. Ao desenvolvermos uma atitude altruísta, desenvolvemos automaticamente a preocupação pelo sofrimento alheio e, ao mesmo tempo, a determinação de fazer algo para proteger seus direitos e nos interessar por sua sorte.


A Universalidade dos Direitos Humanos

Os direitos humanos são de interesse universal porque ansiar pela liberdade, igualdade e dignidade é inerente à natureza dos seres humanos e todos têm direito a essas qualidades. Queiramos ou não, nascemos neste mundo fazendo parte de uma grande família: ricos ou pobres, instruídos ou não, advindos de nações, ideologias e credos distintos ou não, em última análise, cada um de nós é apenas um ser humano como qualquer outro. Todos desejamos a felicidade e nenhum de nós quer sofrer.

Se concordamos que todos têm o mesmo direito à paz e à felicidade, não será nossa responsabilidade ajudar aos mais necessitados? Aspirar à democracia e ao respeito pelos direitos humanos básicos é tão importante para os povos da África e da Ásia, como para os da Europa ou das Américas. Contudo, são justamente os povos cujos direitos humanos foram tolhidos que têm menos possibilidade de se manifestar. A responsabilidade recai sobre os que usufruem de tais liberdades, como nós.

As violações aos direitos humanos muitas vezes dirigem-se aos membros mais talentosos, dedicados e criativos da sociedade. Em conseqüência, o desenvolvimento político, social, cultural e econômico de uma sociedade fica comprometido pelas violações aos seus direitos. Por isso, salvaguardar os direitos e liberdades de cada um é uma questão extremamente importante, tanto para as pessoas cujos direitos foram suprimidos quanto para o desenvolvimento da sociedade como um todo.

Alguns governos entendem que os padrões de direitos humanos, descritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, são os advo-gados pelo Ocidente e não se aplicam aos países da Ásia ou a outras partes do Terceiro Mundo, em função de diferenças culturais e modelos de desenvolvimento sócio-econômico distintos. Não partilho desse ponto de vista e tenho certeza que a maioria das pessoas também não. Creio que os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos constituem uma espécie de lei natural que deveria ser seguida por todos os povos e governos.

Além do mais, não vejo qualquer contradição entre a necessidade de desenvolvimento econômico e a necessidade de se respeitar os direitos humanos. O direito à liberdade de expressão e à uma sociedade livre é essencial ao desenvolvimento econômico de qualquer nação. No Tibete, por exemplo, há inúmeros casos de políticas econômicas inadequadas que permanecem, embora não tenham surtido efeito, porque o cidadão comum ou o funcionário público não pode se manifestar contra tais medidas.

A grande diversidade de culturas e religiões existentes no mundo deveria servir para preservar os direitos humanos fundamentais de todas as comunidades internacionais. Nessa diversidade, há princí-pios básicos que unem todos os seres humanos e nos tornam membros de uma mesma família. Contudo, a manutenção de tradições culturais e religiosas não deve jamais ser usada como justificativa para violações aos direitos humanos. A discriminação racial, contra mulheres ou minorias pode ser tradição de algumas sociedades, mas se for incongruente com direitos humanos universalmente reconhecidos, esse tipo de comportamento deve ser mudado. O princípio universal de igualdade entre todos os seres humanos deve ter precedência.


A Necessidade da Responsabilidade Universal

O mundo está se tornando cada vez mais interdependente e é por isso que acredito firmemente na necessidade de desenvolver-se a responsabilidade universal. Precisamos pensar em termos globais, pois as conseqüências de medidas adotadas por um determinado país, hoje, ultrapassam fronteiras. A aceitação de padrões universais, como os descritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Convenção Internacional sobre os Direitos Humanos, é primordial no mundo atual, cada vez menor. O respeito pelo direitos fundamentais do ser humano não é apenas um objetivo a ser atingido. É antes o alicerce indispensável a qualquer sociedade.

As barreiras artificiais que separavam nações e povos ruíram em tempos recentes. O sucesso dos movimentos populares no desman-telamento da separação entre os países do Leste e do Ocidente, que polarizou o mundo durante décadas, constituiu-se motivo de grande confiança e expectativa. Contudo, permanece ainda um enorme abismo no coração da nossa família humana. Refiro-me à divisão dos países do Norte e do Sul. Todos aqueles comprometidos com os princípios básicos de igualdade, que são o cerne dos direitos humanos, não podem ignorar as grandes disparidades econômicas existentes no mundo de hoje. Não se trata apenas de afirmar que todos os seres humanos têm direito a usufruir da mesma dignidade. Há de se traduzir as palavras em ações. Temos a responsabilidade de buscar alternativas para alcançar uma distribuição mais igualitária dos recursos mundiais.

Temos testemunhado um movimento popular fantástico em prol dos direitos humanos e das liberdades democráticas no mundo. Este movimento deve tornar-se cada vez mais forte, para que não haja governo ou exército capaz de suprimi-lo. É muito natural e justo que nações, povos e indivíduos exijam respeito aos seus direitos e liberdades, e que lutem para erradicar a repressão, o racismo, a exploração econômica, a ocupação militar e as várias formas de colonialismo e dominação estrangeira. Os governos em geral deveriam dar apoio prático a essas reivindicações, ao invés de apenas as apoiarem verbalmente.

Acredito que a falta de compreensão quanto à verdadeira natureza da felicidade é a principal razão das pessoas infligirem sofrimento a outras. Alguns indivíduos acham que só podem alcançar a felicidade causando sofrimento ou que sua própria felicidade é tão importante, que a dor causada aos outros é insignificante. Esta é uma visão extremamente estreita da vida, já que ninguém pode efetivamente beneficiar-se com o sofrimento alheio. Ainda que haja um ganho imediato às custas dessa dor, ele é passageiro. A longo prazo, causar sofrimento ao próximo e usurpar seu direito à paz e felicidade geram ansiedade, medo e desconfiança. O cultivo do amor e da compaixão ao próximo é essencial para criarmos um mundo melhor e mais pacífico. Para tal, é necessário desenvolvermos uma preocupação genuína por nossos irmãos e irmãs menos afortunados. Temos a obrigação moral de auxiliar e dar apoio incontestável a todas as pessoas privadas de exercer seus direitos e liberdades, que muitos de nós têm garantidos.

Ao nos aproximarmos do fim do presente milênio, percebemos que o mundo está se tornando uma grande comunidade. Juntos, confrontamo-nos com graves problemas, tais como superpopulação, escassez dos recursos naturais e uma crise ambiental sem precedentes, que ameaçam os alicerces de nossa própria existência neste planeta. Os direitos humanos, a proteção ao meio ambiente e maior igualdade social e econômica são fatores interligados. Acredito que para enfrentarem os desafios de nosso tempo, os seres humanos deverão desenvolver um sentido maior de responsabilidade universal. Cada um de nós deve aprender a trabalhar não somente em benefício de si próprio, sua família ou nação, mas em prol da humanidade como um todo. A responsabilidade universal é a chave para a sobrevivência do Homem e é a melhor garantia para a manutenção dos direitos humanos e da paz mundial.

(Discurso de Sua Santidade o Dalai Lama na Reunião de Paris da UNESCO, durante a comemoração do 50º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.)



Mensagens

Convivência — Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns criados por nós em conseqüência de diferenças ideológicas, religiosas, raciais, econômicas. Entretanto, chegou o momento de pensarmos em um nível mais profundo, em nível humano, e a partir daí apreciar e respeitar essa mesma condição nos outros seres humanos. Devemos construir relacionamentos mais próximos, de confiança mútua, compreensão e ajuda. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento. Todos temos o mesmo direito de ser felizes, e aí reside a nossa igualdade fundamental. Não é necessário seguir filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro, nosso próprio coração é o nosso templo. A filosofia é a bondade.

Responsabilidade Universal

— A humanidade é uma só e este pequeno planeta é nossa única casa. Se temos de proteger esta casa, cada um de nós precisa experienciar um sentimento vivo de altruísmo universal. Nosso planeta foi abençoado com vastos tesouros naturais. Se os usarmos adequadamente, todo ser humano poderá usufruir de uma vida rica e de bem-estar.

Diálogo Inter-Religioso

— O cultivo do amor e da compaixão é a verdadeira essência de todas as crenças. O importante é que em sua vida diária você pratique as coisas essenciais e, nesse nível, quase não existe diferença entre budismo, cristianismo, judaísmo, islamismo ou qualquer outra fé. Todas elas focalizam o desenvolvimento, o aperfeiçoamento dos seres humanos, o sentimento de fraternidade e de solidariedade. Nesse sentido, as diferenças entre as religiões não são de maneira alguma essenciais


~ Um simples monge budista ~

Sua Santidade costuma dizer, "Eu sou um simples monge budista, não mais, não menos."

Sua Santidade vive como um verdadeiro monge budista. Mora numa casa de campo em Dharamsala, Índia; acorda às 4 da manhã para meditar, em seguida põe em dia a sua agenda, dá audiências privadas e inicia os estudos religiosos e práticas cerimoniais. Ele termina o dia com muita oração. Falando de sua grande fonte de inspiração, freqüentemente cita um verso favorito, retirado dos ensinamentos seculares do sagrado Shantideva Budista:

Enquanto existir o espaço
Enquanto persistirem os seres sencientes
Que eu também viva
Para dissipar as desgraças do mundo.

~ Budismo tibetano ~

O budismo tibetano surge no fim do século VIII, da fusão das tradições budista e hinduísta com o xamanismo. Seu chefe espiritual, o dalai lama, é considerado um bodhisattva (em sânscrito, o ser destinado à iluminação, o Buda da Compaixão).

~ Ensinamentos de Buda ~

Buda estabeleceu oito princípios ou Regras de Vida que devem ser observadas pelos seus seguidores... e por todos:

A Verdadeira Crença: é a crença de que a Verdade é o guia do Homem;
A Verdadeira Resolução: ser sempre calmo e nunca fazer dano a nenhuma criatura viva;
A Verdadeira Palavra: nunca mentir, nunca difamar ninguém e nunca usar linguagem grosseira ou áspera;
O Verdadeiro Comportamento: nunca roubar, nunca matar, e nunca fazer nada de que uma pessoa possa mais tarde arrepender-se ou envergonhar-se;
A Verdadeira Ocupação: nunca escolher uma ocupação que seja má, tal como falsificação, manejo de coisas roubadas e coisas semelhantes;
O Verdadeiro Esforço: procurar sempre o que é bom e afastar-se do que é mau;
A Verdadeira Contemplação: ser sempre calmo e não permitir-se pensamentos que sejam dominados pela alegria ou pela tristeza;
A Verdadeira Concentração: consegue-se quando todas as outras regras forem seguidas e uma pessoa tenha atingido o nível da paz perfeita.


Não Creiais em coisa alguma pelo fato de vos mostrarem o testemunho escrito de algum sábio antigo;
Não Creiais em coisa alguma com base na autoridade de mestres e sacerdotes;
Aquilo, Porém, que se enquadrar na vossa razão, e depois de minucioso estudo for confirmado pela vossa experiência, conduzindo ao vosso próprio bem e ao de todas as outras coisas vivas: A Isso aceitai como verdade;
Por Isso, pautai vossa conduta!

~ A Arte da Felicidade ~

Por Sua Santidade, o Dalai Lama

Acredito que o objetivo da nossa vida seja a busca da felicidade. Isso está claro. Quer se acredite em religião ou não, quer se acredite nesta religião ou naquela, todos nós buscamos algo melhor na vida. Portanto, acho que a motivação da nossa vida é a felicidade.

Quando você mantém um sentimento de compaixão, bondade e amor, algo abre automaticamente sua porta interna. Com isso, você pode se comunicar mais facilmente com as outras pessoas. E esse sentimento de calor cria uma espécie de abertura. Você descobre que todos os seres humanos são exatamente iguais a você e se torna capaz de se relacionar mais facilmente com eles. Isso lhe confere um espírito de amizade. Então há menos necessidade de esconder as coisas e, conseqüentemente, sentimentos de medo, dúvida e insegurança se dispersam automaticamente.

Na nossa vida diária, certamente aparecem problemas. Os maiores problemas em nossas vidas são aqueles que temos de enfrentar inevitavelmente, como a velhice, a doença e a morte. Tentar evitar nossos problemas ou simplesmente não pensar neles pode nos dar um alívio temporário, mas acho que há um modo melhor de lidar com eles. Se você enfrentar seu sofrimento diretamente, terá mais condições de avaliar a profundidade e a natureza do problema. Numa batalha, enquanto você ignorar as condições e a capacidade de combate do inimigo, estará completamente despreparado e paralisado pelo medo. No entanto, se você conhecer a capacidade de luta de seus adversários, os tipos de armas que eles têm e assim por diante, terá muito mais condições de entrar na guerra. Do mesmo modo, se você enfrentar seus problemas em vez de os evitar, terá mais condições de lidar com eles.


~ O Treinamento da Mente ~
O método de abordar nossos problemas racionalmente e de aprender a visualizar nossos problemas ou nossos inimigos de perspectivas alternativas sem dúvida parece um objetivo interessante. Mas até que ponto isso poderá realmente produzir uma transformação fundamental da atitude?

Uma das práticas espirituais diárias do Dalai Lama consiste em recitar uma oração, "Oito versos sobre o treinamento da mente", composta no século XI pelo santo tibetano Langri Thangpa. Em parte, diz a oração:

Sempre que me relacionar com alguém, que eu me considere a criatura mais ínfima de todas e que encare o outro como supremo do fundo do meu coração!...

Quando eu vir seres de natureza perversa, oprimidos por tormentos e pecados violentos, que eu considere de alto valor essas criaturas raras como se tivesse encontrado um precioso tesouro!...

Quando os outros, por inveja, me tratarem mal com insultos, calúnias e atitudes semelhantes, que eu sofra a derrota e ofereça a vitória aos outros!...

Quando aquele, a quem beneficiei com grande esperança, me ferir profundamente, que eu possa encará-lo como meu supremo Guru!

Enfim, que eu possa, direta ou indiretamente, oferecer benefícios e felicidade a todos os seres; que eu em segredo possa assumir nos meus ombros a dor e o sofrimento de todos os seres!...

Através de práticas espirituais, como a recitação dos "Oito versos sobre o treinamento da mente", o Dalai Lama conseguiu aceitar a realidade da situação de seu país e ainda assim continuar sua campanha ativa pela liberdade e pelos direitos humanos no Tibet por quarenta anos. Ao mesmo tempo, ele manteve uma atitude de humildade e compaixão para com os chineses, que inspirou milhões de pessoas no mundo inteiro. E aqui estamos nós, pensando que sua oração talvez não fosse aplicável às "realidades" do mundo moderno. Então ficamos envergonhados sempre que nos lembramos do que ele passou e passa juntamente com o povo tibetano.

Cada uma de nossas ações conscientes e, de certa forma, toda a nossa vida podem ser vistas como resposta à grande pergunta que desafia a todos: "Como posso ser feliz?"

No entanto, estranhamente, minha impressão é que as pessoas que vivem em países de grande desenvolvimento material são de certa forma menos satisfeitas, menos felizes do que as que vivem em países menos desenvolvidos. Esse sofrimento interior está claramente associado a uma confusão cada vez maior sobre o que de fato constitui a moralidade e quais são os seus fundamentos.

A meu ver, criamos uma sociedade em que as pessoas acham cada vez mais difícil demonstrar um mínimo de afeto aos outros. Em vez da noção de comunidade e da sensação de fazer parte de um grupo, encontramos um alto grau de solidão e perda de laços afetivos. O que gera essa situação é a retórica contemporânea de crescimento e desenvolvimento econômico, que reforça intensamente a tendência das pessoas para a competitividade e a inveja.

E com isso vem a percepção da necessidade de manter as aparências por si só uma importante fonte de problemas, tensões e infelicidade. O descaso pela dimensão interior do homem fez com que todos os grandes movimentos dos últimos cem anos ou mais - democracia, liberalismo, socialismo - tenham deixado de produzir os benefícios que deveriam ter proporcionado ao mundo, apesar de tantas idéias maravilhosas.

Meu apelo por uma revolução espiritual não é um apelo por uma revolução religiosa. Considero que a espiritualidade esteja relacionada com aquelas qualidades do espírito humano - tais como amor e compaixão, paciência, tolerância, capacidade de perdoar, contentamento, noção de responsabilidade, noção de harmonia - que trazem felicidade tanto para a própria pessoa quanto para os outros. É por isso que às vezes digo que talvez se possa dispensar a religião. O que não se pode dispensar são essas qualidades espirituais básicas


Pensamentos

Minha mensagem é a prática do amor, da compaixão e da bondade. Estas qualidades são muito úteis para vivermos nosso cotidiano mais harmoniosamente, e também muito importantes para a sociedade humana como um todo.

Uma profunda compaixão é a raiz de todas as formas de adoração.

Onde quer que eu vá, sempre aconselho as pessoas a serem altruístas e bondosas. Tento concentrar toda a minha energia e força espiritual na disseminação da bondade. É o que há de mais essencial.

A bondade é o que realmente importa. A bondade, o amor e a compaixão combinados são sentimentos que levam à essência da fraternidade. São os alicerces da paz interior.

Com sentimentos de ódio e rancor, é muito difícil alcançar a paz interior. Neste sentido, as religiões e crenças são convergentes. Em todas as grandes religiões do mundo, a ênfase é no espírito de fraternidade.

São os inimigos que verdadeiramente nos ensinam a vivenciar sentimentos de compaixão e tolerância. As guerras surgem porque não há compreensão do lado humano das pessoas. Ao invés de conferências e encontros políticos, por que não convocar as famílias a fazerem um piquenique para que se conheçam mutuamente, enquanto suas crianças brincam juntas?

Nos tempos antigos, quando havia uma guerra, o embate era corpo a corpo. O vitorioso entrava em contato direto com o sangue e o sofrimento do inimigo durante a batalha. Hoje, as guerras adquiriram uma proporção muito mais horrenda. Um homem, sentado em uma sala, aperta um botão e mata milhões de pessoas instantaneamente, sem ao menos ver o sofrimento humano que infligiu. A mecanização da guerra e a automação do conflitos humanos são, cada vez mais, uma ameaça à paz mundial.

Sempre acreditei que a determinação humana e a verdade prevaleceriam sobre a violência e a opressão. No mundo de hoje, em todos os lugares, há mudanças importantes ocorrendo, que poderão afetar profundamente nosso futuro e o futuro da humanidade, bem como nosso planeta. Decisões corajosas por parte de vários líderes mundiais propiciam a resolução pacífica de conflitos. A esperança de haver paz, preservação do meio ambiente e uma abordagem mais humana aos problemas do mundo parece estar mais presente que nunca.

Ninguém pode prever o que acontecerá em algumas décadas ou séculos, por exemplo, qual o impacto que o desflorestamento terá sobre o clima, o solo, as chuvas. Temos muitos problemas porque as pessoas estão centradas em seus próprios interesses, em ganhar dinheiro e não estão pensando no bem-estar da comunidade como um todo. Não estão pensando na Terra a longo prazo, e nos efeitos ambientais adversos sobre o homem. Se nós, da atual geração, não refletirmos sobre estas questões agora, as gerações futuras não terão como lidar com elas.

Muitos de nós juntam-se sob o mesmo sol resplandecente, falando línguas diversas, vestindo indumentárias diferentes e até mesmo possuindo crenças distintas. Contudo, nós todos somos idênticos como seres humanos e individualmente únicos. Desejamos todos, indistintamente, a felicidade e não o sofrimento.

Mesmo que não possamos resolver certos problemas, não devemos nos frustrar. Como humanos devemos enfrentar a morte, a velhice e doenças, que, tal qual um furacão, são fenômenos naturais que fogem ao nosso controle. Devemos enfrentá-los, não podemos evitá-los. São sofrimentos que já bastam em nossa vida. Por que criarmos mais problemas por apego à nossa ideologia ou porque pensamos de maneira diferente? É inútil e triste! Milhões de pessoas sofrem com esse tipo de problema. É um verdadeiro desperdício, visto que podemos evitar o sofrimento adotando uma atitude diferente e reconhecendo a humanidade à qual as ideologias deveriam servir.

Rancor, ódio, ciúme: não é possível encontrar a paz com eles. Podemos resolver muitos de nossos problemas por meio da compaixão e do amor. Só assim nos desarmaremos e encontraremos a verdadeira felicidade. Uma das maiores virtudes é a compaixão. A compaixão não pode ser comprada numa loja de departamentos ou fabricada por máquinas. Ela advém do crescimento interior. Sem paz de espírito, é impossível haver paz no mundo.

Na nossa vida, cultivar a tolerância é muito importante. Com tolerância, pode-se facilmente superar as dificuldades. Caso você tenha pouca ou nenhuma tolerância, ficará irritado com as mínimas coisas. Em situações difíceis, terá reações extremadas. Em minha vida, já refleti muito a respeito desta questão e sinto que a tolerância é algo que deve ser praticado no mundo inteiro, no seio da sociedade humana. Mas, quem nos ensina tolerância? Pode ser que seus filhos o ensinem a cultivar a paciência, mas é seu inimigo quem irá ensinar-lhe a prática da tolerância. O inimigo é seu mestre. Mostre-lhe respeito, ao invés de ódio. Dessa forma, a verdadeira compaixão irá brotar de seu interior e essa compaixão é a base de tudo aquilo que você é e acredita.

Bens e compensações materiais são absolutamente necessários à sociedade humana, a um país, a uma nação. Ao mesmo tempo, o progresso material e a prosperidade somente não podem levar à paz interior. A paz interior vem de dentro. Portanto, nossa atitude perante a vida, perante os outros e principalmente em relação às nossas dificuldades conta muito. Quando duas pessoas enfrentam o mesmo problema, atitudes mentais distintas fazem com que o problema seja de mais fácil resolução para uma pessoa do que para outra. Desta forma, o que realmente nos diferencia é a perspectiva interna de cada um.

Se colocarmos os níveis de consciência mais sutis a nosso serviço, estaremos expandindo nossa mente. Assim sendo, as virtudes originárias da mente podem se expandir ilimitadamente.

A compaixão e o amor são as virtudes mais preciosas da vida. Por serem muito simples, são difíceis de serem colocados em prática. A compaixão só poderá ser plenamente cultivada à medida que se reconhece que cada ser humano é parte da humanidade e pertencente à família humana, independente de religião, raça, cultura, cor e ideologia. A verdade é que não há diferença alguma entre os seres humanos.

Sem amor, a sociedade humana encontra-se em situação difícil. Sem amor, iremos enfrentar problemas terríveis no futuro. O amor é o centro da vida.

Se tiver amor e compaixão por todos os seres sencientes, em especial por seus inimigos, este é o verdadeiro amor e a verdadeira compaixão. O amor e compaixão, nutridos por seus amigos, esposa e filhos, não são verdadeiros em sua essência. São apego, e esse tipo de amor não pode ser infinito.

Insisto em afirmar que as principais religiões do mundo — budismo, cristianismo, judaÍsmo, confucionismo, hinduismo, islamismo, jainismo, sikhismo, taoismo, zoroastrismo — possuem os mesmos ideais de amor, o mesmo objetivo de beneficiar a humanidade por meio da prática espiritual, e a mesma determinação de aprimorar seus praticantes como seres humanos. Todas as religiões pregam preceitos morais para o aperfeiçoamento da mente, do corpo e da fala. Todas nos ensinam a não mentir, roubar ou tirar a vida de outras pessoas. A essência de todos os preceitos morais preconizados pelos grandes mestres da humanidade é o não-egoísmo. Esses mestres tinham como objetivo remir os praticantes de ações negativas, frutos da ignorância, e conduzi-los ao caminho do bem.

Se percebemos a humanidade como sendo una e singular, iremos constatar que as diferenças são secundárias. Com atitude de respeito e preocupação pelo próximo, experimentamos a felicidade. Só assim criamos a verdadeira harmonia e fraternidade. À sua maneira, tente cultivar a paciência. Modifique sua atitude. As mudanças vêm com a prática. A mente humana tem esse potencial. Aprenda a treiná-la.

A nossa sombra interior, a que chamamos de ignorância, é a raiz de todo o sofrimento. Quanto mais luz houver, menos a sombra se manifestará. A luz é o único caminho para a salvação, para alcançar o nirvana.

Deve haver um equilíbrio entre o progresso espiritual e o material. Atinge-se esse equilíbrio por meio de princípios calcados no amor e na compaixão. O amor e a compaixão são a essência de todas as religiões, que têm muito a aprender entre si. O objetivo primordial de todas as religiões é criar seres humanos mais tolerantes, mais compassivos e menos egoístas.

Os seres humanos são dotados de uma natureza tal que não deveriam apenas possuir bens materiais, mas deveriam antes possuir sustento espiritual. Sem o sustento espiritual, torna-se difícil adquirir e manter a paz de espírito.

Para cultivar a sabedoria, é preciso força interior. Sem crescimento interno, é difícil conquistar a autoconfiança e a coragem necessárias. Sem elas, nossa vida se complica. O impossível torna-se possível com a força de vontade.



Ensinamentos: Harmonia Religiosa

Uma grande pergunta está subjacente em nossa experiência, quer pensemos nela conscientemente, ou não: Qual é o propósito da vida? Tenho estudado esta pergunta e, gostaria de compartilhar meus pensamentos na esperança de que possam ser de benefício prático e evidente àqueles que os lêem.

Acredito que o propósito da vida seja sermos felizes. Desde o momento do nascimento, todo ser humano quer a felicidade e, não quer o sofrimento. Nem a condição social, nem a educação e, nem tampouco a ideologia, altera isso. Simplesmente desejamos o contentamento, a partir do mais profundo âmago de nosso ser. Não sei se o universo, com suas incontáveis galáxias, estrelas e planetas, possui um significado mais profundo ou não, mas, no mínimo, está claro que nós humanos, que vivemos nesta terra, encaramos a tarefa de nos proporcionar uma vida feliz. É, portanto, importante, descobrirmos o que produzirá o mais alto grau de felicidade.

Como alcançar a felicidade

Para começarmos, podemos dividir todo tipo de felicidade e sofrimento em duas categorias principais: mental e física. Das duas, é a mente que exerce a maior influência em muitos de nós. A menos que estejamos gravemente doentes, ou privados de nossas necessidades básicas, a condição física representa um papel secundário na vida. Se o corpo está satisfeito, praticamente o ignoramos. A mente, entretanto, registra cada evento, por mais pequeno que seja. Por isso, deveríamos devotar nossos mais sérios esforços à produção da paz mental. A partir de minha própria limitada experiência, descobri que o mais alto grau de tranqüilidade interior vem do desenvolvimento do amor e da compaixão. Quanto mais nos ocuparmos com a felicidade alheia, maior se tornará nossa sensação de bem-estar. O cultivo de sentimentos amorosos, calorosos e próximos para com os outros automaticamente descansa a mente. Isto ajuda a remover quaisquer temores ou inseguranças que possamos ter e, nos dá força para enfrentarmos quaisquer obstáculos que encontramos. É a principal fonte de sucesso na vida. Enquanto vivemos neste mundo estamos destinados a encontrar problemas. Se, nessas ocasiões, perdemos a esperança e nos desencorajamos, diminuímos nossa habilidade de encarar as dificuldades. Se, por outro lado, nos lembramos que não se trata apenas de nós, mas, que todos têm de passar por sofrimento, esta perspectiva mais realista aumentará nossa capacidade e determinação para sobrepujarmos os problemas. Na verdade, com essa atitude, cada novo obstáculo pode ser encarado como sendo mais uma valiosa oportunidade de aprimorar nossa mente! Desse modo, podemos gradualmente nos esforçar para nos tornarmos mais compassivos, ou seja, podemos desenvolver tanto a genuína empatia pelo sofrimento dos outros, quanto a vontade de ajudar a remover sua dor. Como resultado, crescerão nossas próprias serenidade e força interior.



Nossa necessidade de amor

Em última análise, amor e compaixão acarretam a maior felicidade simplesmente porque nossa natureza as valoriza acima de tudo o mais. A necessidade de amor repousa no verdadeiro fundamento da existência humana. Resulta da profunda interdependência que todos repartimos uns com os outros. Por mais capaz e hábil que seja o indivíduo, se deixado só, ele ou ela não sobreviverá. Por mais vigorosa e independente que possa se sentir uma pessoa durante os períodos mais prósperos da vida, quando ela estiver doente, ou muito jovem, ou muito velha, ela precisará depender do apoio de outros.

Interdependência é claro, é uma lei fundamental da natureza. Não apenas formas mais elevadas de vida, mas, até mesmo muitos dos menores insetos, são seres sociais que, sem qualquer religião, lei ou educação, sobrevivem através de mútua cooperação baseada num reconhecimento inato de sua interconexão. O nível mais sutil do fenômeno material também é governado pela interdependência. Todos os fenômenos do planeta que habitamos, nos oceanos, nuvens, florestas e flores que nos circundam, se manifestam em interdependência por meio de sutis padrões de energia. Sem uma interação adequada, eles se deterioram e se dissolvem.

Nossa necessidade de amor repousa no verdadeiro fundamento da existência humana, pelo fato de que nossa própria existência humana é tão dependente da ajuda de outros. Portanto, necessitamos de um genuíno senso de responsabilidade e, de uma sincera preocupação pelo bem-estar de outros.

Devemos levar em consideração o que nós, seres humanos, realmente somos. Não somos como os objetos fabricados por máquinas. Se fôssemos apenas entidades mecânicas, então as próprias máquinas seriam capazes de aliviar todos os nossos sofrimentos e preencher as nossas necessidades. Todavia, por não sermos apenas criaturas materiais, seria um erro colocarmos todas as nossas esperanças por felicidade somente no desenvolvimento exterior. Em vez disso, deveríamos levar em consideração nossas origens e nossa natureza, para descobrirmos o que necessitamos.

Deixando de lado a complexa questão da criação e evolução de nosso universo, podemos ao menos concordar que cada um de nós é um produto de nossos pais. Em geral, nossa concepção não se deu apenas no contexto do desejo sexual, mas, da decisão de nossos pais de ter um filho. Tais decisões estão fundamentadas em responsabilidade e altruísmo, o compromisso compassivo dos pais de cuidar de seu filho até que ele seja capaz de cuidar de si mesmo. Portanto, a partir do verdadeiro momento de nossa concepção, o amor de nossos pais está diretamente em nossa criação.

Além disso, somos completamente dependentes da atenção de nossas mães desde os mais tenros estágios de nosso crescimento. De acordo com alguns cientistas, o estado mental de uma mulher grávida, seja ele calmo ou agitado, tem um efeito físico direto no filho ainda em estágio de formação.

A manifestação de amor também é muito importante na hora de dar à luz. Visto que a primeira coisa que realmente fazemos é sugar o leite do seio materno, nós naturalmente nos sentimos ligados a ela e, ela deve sentir amor por nós para nos alimentar adequadamente, se ela sentir raiva ou ressentimento, seu leite poderá não fluir livremente.

Há então o crítico período do desenvolvimento do cérebro, desde o nascimento até ao menos a idade de três ou quatro anos, quando o contato físico amoroso é o fator mais importante para o crescimento normal da criança. Se a criança não for abraçada, amparada, afagada ou amada, seu desenvolvimento será prejudicado e seu cérebro não amadurecerá apropriadamente.

Visto que a criança não pode sobreviver sem o cuidado de outrem, seu mais importante alimento é o amor. A felicidade da infância, a pacificação dos inúmeros temores da criança e, o desenvolvimento salutar de sua autoconfiança, tudo depende diretamente do amor.

Hoje em dia, muitas crianças crescem em lares sem felicidade. Se elas não recebem afeição adequada, mais tarde na vida, raramente amarão seus pais e, não raro, terão dificuldade em amar outros. Isto é muito triste.

À medida que as crianças crescem e vão à escola, suas necessidades de apoio precisam ser supridas por seus professores. Quando um professor não apenas compartilha educação acadêmica com seus alunos, mas, também assume a responsabilidade de prepará-los para a vida, seus alunos ou alunas sentirão confiança e respeito e, o que lhes tiver sido ensinado causará indelével impressão em suas mentes. Ao contrário, assuntos ensinados por um professor que não demonstrou preocupação verdadeira pelo bem-estar geral de seus alunos, serão considerados apenas temporariamente e, não serão retidos por muito tempo.

Do mesmo modo, se algum doente é tratado num hospital por um médico que evidencia o sentimento de calor humano, ele se sentirá à vontade e, o desejo médico de dar a melhor atenção possível é, por si só, curativo, independentemente do grau de especialização médica. Ao contrário, se o médico de alguém carecer de sentimento humano e demonstrar uma expressão pouco amigável, impaciência ou desconsideração casual, esse alguém se sentirá ansioso, mesmo que o médico seja da mais alta qualificação, que a doença tenha sido corretamente diagnosticada e, que a medicação correta tenha sido prescrita. Inevitavelmente, os sentimentos do paciente fazem a diferença na qualidade e na extensão de sua recuperação.

Até mesmo quando nos envolvemos em uma simples conversa em nossa vida diária, se alguém fala com sentimento humano, temos prazer em ouvir e, responder do mesmo modo: toda a conversa se torna interessante, por menos importante que seja o assunto. Ao contrário, se uma pessoa fala de modo frio e duro, sentimo-nos pouco à vontade e desejamos que aquela interação termine logo. A afeição e o respeito pelos outros são vitais para nossa felicidade em qualquer circunstância, desde o menos significativo, até o mais importante evento.

Recentemente, me encontrei com um grupo de cientistas norte-americanos que diziam que a taxa de doenças mentais em seu país era muito alta, ao redor de doze porcento da população. Durante nossa discussão, tornou-se claro que a principal causa da depressão não era a falta de necessidades materiais, mas, carência da afeição de outrem. Portanto, como você pode ver de tudo o que escrevi até aqui, uma coisa me parece clara: quer estejamos conscientemente atentos a isso, ou não, a necessidade de afeição humana está em nosso próprio sangue, desde o dia em que nascemos. Mesmo que a afeição venha de um animal, ou de alguém que normalmente consideraríamos um inimigo, tanto crianças como adultos, naturalmente gravitarão ao redor dela.

Acredito que ninguém nasce livre da necessidade de amor. E, isto demonstra que, ainda que algumas modernas escolas de pensamento procurem fazê-lo, seres humanos não podem ser definidos como sendo apenas físicos. Nenhum objeto material, por mais belo ou valioso, pode nos fazer sentir amados, porque nossa mais profunda identidade e verdadeiro caráter repousam na natureza subjetiva da mente


Dalai Lama

James Morrison 'You Give Me Something'



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