Drummond nasceu em Itabira, pequena cidade do
estado de Minas Gerais em 31
de outubro de 1902. Seus pais se chamavam Carlos de Paula Andrade e
Julieta
Augusta Drummond de Andrade.
O pequeno garoto então ao descobrir o encanto pelas palavras começa
realmente a
usá-las. No seu primeio colégio, Grupo Escolar Coronel José Batista,
seus textos
começam a receber os elogios de professores.
Poesia de
Desejo a você fruto do mato, cheiro de jardim,
namoro no portão, domingo
sem chuva, segunda sem mau humor, sábado com seu amor, filme de Carlitos,
chopecom os amigos, crônica de Rubem Braga, viver sem inimigos, filme
antigo na
tv, ter uma pessoa especial, e que ela goste de você, música de Tom
com letra de
Chico, frango caipira em pensão no interior, ouvir uma palavra agradável,
ter uma
surpresa agradável, ver a banda passar, noite de lua cheia, rever
uma velha amizade,
te fé em Deus, não ter que ouvir a palavra “não”, nem nunca, nem jamais
adeus. Rir
como criança, ouvir canto de passarinho, sarar de resfriado, escrever
um poema de amor
que nunca será rasgado, formar um par ideal, tomar banho de cachoeira,
pegar um
bronzeado legal, aprender uma nova canção, esperar alguém na estação,
queijo com
goiabada, pôr de sol na roça, uma festa, um violão, uma seresta, recordar
um amor
antigo, ter um ombro sempre amigo, bater palmas de alegria, uma tarde
amena,
calçar um velho chinelo, sentar numa velha poltrona, ouvir a chuva
no telhado,
vinho branco, Bolero de Ravel . . . e muito carinho meu !!! “
Lira do Amor Romântico (Ou a eterna repetição)
Poema de Carlos D. de Andrade
Atirei um limão n'água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.
Atirei um limão n'água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.
Atirei um limão n'água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano. Atirei um limão n'água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixe disseram:
Joga fora teu ciúme.
Atirei um limão n'água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.
Atirei um limão n'água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos responderam:
É dor de quem muito amou.
Atirei um limão n'água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.
Atirei um limão n'água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.
Atirei um limão n'água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.
Atirei um limão n'água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.
Atirei um limão n'água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.
Atirei um limão n'água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.
Atirei um limão n'água,
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso. Atirei um limão n'água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?
Atirei um limão n'água,
caiu certeiro: zas-tras.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.
Atirei um limão n'água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.
Atirei um limão n'água,
e cai n'água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.
Atirei um limão n'água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.
E Agora, José?
Poema de Carlos Drummond de Andrade
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
E agora, José?Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora? Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Amor Antigo
Carlos Drummond de Andrade
O amor antigo vive de si mesmo
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza. Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante. Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor ...
Ausência
Carlos Drummond de Andrade
Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém rouba mais de mim.
A Verdade
Carlos Drummond de Andrade
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com o mesmo perfil.
E os meios perfis não coincidiam.Arrebentaram a porta. Derrubaram
a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão
Poeta Carlos Drumond de Andrade
James Blunt - You're beautiful(live
in concert)
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