A Fugitiva


Eu tenho n'alma um desejo,
Que eu almejo
Linda virgem, revelar-te;
Mas devo guardar segredo;
Tenho medo,
Muito medo de enfadar-te.
Murcha a tenra sensitiva,
Sempre esquiva
Ao toque de minha mão.
Tenho medo, ó virgem bela,
Que, como ela,
Me feches teu coração.
Como a rolinha amorosa,
Que medrosa,
Estremece de pavor,
E logo de susto voa,
Se ressoa
No bosque um leve rumor:
Assim tu, virgem formosa,
Pressurosa.
Assim costumas fugir;
Se este amor, em que deliro,
Um suspiro
Indiscreto vem trair.
Vê, como o lírio singelo,
Puro e belo,
Desabrocha em teu jardim!
Foi criada para amor
Essa flor,
Essa flor tão linda assim.
Se junto dela desliza
Doce brisa,
Toda de amor estremece;
E fagueira e sem queixume
O perfume
De seu cálix lhe oferece.
Se do amor que me consome,
Nem o nome
Tu me queres escutar,
Ensine-te ela o segredo,
Que eu de medo
Mal te posso murmurar.
Mas no véu encantador
Do pudor
Em vão procuras abrigo;
Em qualquer parte que fores,
Os amores
Hão de sempre andar contigo.

Dous anjos

A meu amigo Francisco Lana
por ocasião da morte de suas
duas inocentes filhas gêmeas

Nascemos juntas, juntas escutamos
Os maternais gemidos;
Nossa mãe, entre sustos e alegrias
Ouviu nossos vagidos.

Nós eramos dous anjos de inocência
Voando par a par,
Esse mundo de angústias e misérias
Deixando sem pesar.

Tão irmãs como são as duas asas
De um anjo do Senhor,
Ou duas gotas de celeste orvalho
No cálix de uma flor.

Nascemos num só dia; uma após outra
A morte nos levou,
Dous brancos lírios, com que mão propícia
De Deus o trono ornou.

Um par de brancas rolas nós voamos
Direito para o céu,
Para lã conduzindo da inocência
O imaculado véu.

E vós, queridos pais, por que motivo
Com tanta dor chorais?...
E esse pranto, que em vossos olhos vemos,
Por que não enxugais?...

De nossa vida o corte prematuro
Ah! não, não lastimeis;
Duas filhas perdestes, mas dous anjos
Junto de Deus tereis.


Foge de Mim

Foge de mim, qual foge o passarinho
Do tronco estéril sem raiz na terra,
Sem sombra nem folhagem;
Foge, - não queiras perscrutar desta alma
A lúgubre voragem.

Não vás crestar nas chamas de meu peito
Do cálix teu a mádida frescura,
Gentil, cândido lírio;
Foge, - não queiras esgotar comigo
A taça do martírio.

Sorris?. . . oh! quanto é belo o teu sorriso;
Mas em minha alma derramar não podem
Nem sombra de ventura;
São como os raios da manhã fulgindo
Em feia sepultura.

Ah! tu choras; - e as lágrimas que vertes,
Na aridez de meu peito vêm secar-se,
Bem como almo rocio,
Que o céu derrama em vão na ardente areia
De páramo bravio.

Dizem que os dias meus correm serenos!...
Não creias, não; - a paz que me rodeia
E lúgubre ironia;
E como essa que os túmulos povoa,
Paz gélida e sombria.

Quem me dera chorar! - o pranto é sangue
Que nos escorre das feridas d'alma,
E o gérmen peçonhento
Delas lavando, um pouco a dor acalma,
E adoça o sofrimento.

Não vertem sangue as úlceras desta alma,
E nem ressoa fora de meu peito
De minha dor o grito.
Em suspiros não sai; - tenaz se agarra
Ao coração aflito.

Eu bem quisera amar-te; - mas como hei de
Guiar-te pelas sendas em que piso,
Em que só vejo espinhos?...
Como?!... se para mim estão fechados
Do porvir os caminhos?...

Fica-te pois em teu puro horizonte,
Belo astro de amor, e não pretendas
Perder tua luz pura,
Nesta, que a triste vida me escurece,
Medonha noite escura.

Hera mimosa e tenra, oh! não te abraces
Ao tronco estéril sem raiz na terra,
Sem folhagem no céu;
Melhor seria te envolvesse a fronte
O mortuário véu.


Lembrar-me-ei de ti

Lembrar-me-ei de ti, e eternamente
Hei de chorar tua fatal ausência,
Enquanto atroz saudade
Não extinguir-me a seiva da existência;
E recordando amores que frui,
Por estes sítios sempre entre suspiros
Lembrar-me-ei de ti.
De noite no aposento solitário
Cismando a sós, verei a tua imagem
Aparecer-me pálida e saudosa
Dos sonhos na miragem;
E então chorando o anjo que perdi,
Meu leito banharei de ardente pranto
Chamando em vão por ti.

Quando a manhã formosa alvorecendo
De seus fulgores inundar o espaço,
Demandarei saudoso
Esse lugar em que no extremo abraço
Teu lindo corpo ao peito meu cingi;
E deste vale os ecos acordando
Perguntarei por ti.

Quando por trás daqueles arvoredos
O sol sumir-se, vagarei sozinho
Por essas sombras, onde outrora juntos
Nos sentamos à borda do caminho;
E às auras que suspiram por ali,
Inda teu doce nome murmurando,
Hei de falar de ti.

Além, onde sonora a fonte golfa
À sombra de um vergel sempre viçoso,
Que sobre nós mil flores entornava,
Irei beijar a relva em que ditoso
Sobre teu seio a fronte adormeci,
E com a clara linfa que murmura,
Suspirarei por ti.

E quando enfim secar-se a última lágrima
Nos olhos meus em triste desalento,
Bem como a lira, em que gemendo estala
A extrema corda com dorido acento,
No sítio em que a primeira vez te vi,
Exalando um suspiro, de saudades
Hei de morrer por ti


Ilusão

Vê, que painel formoso a tarde borda
Na brilhante alcatifa do ocidente!

As nuvens em fantásticos relevos
Aos olhos fingem, que inda além da terra
Novo horizonte infindo se prolonga,
Onde lindas paisagens se desenham
Descomunais, perdendo-se no vago
De vaporosos longes
Lagos banhados de reflexos d'ouro,
Onde se espelham gigantescas fábricas;
Solitárias encostas, onde avultam
Aqui e além ruínas pitorescas,
Agrestes brenhas, serranias broncas,
Pendentes alcantis, agudos píncaros,
Fendendo um lindo céu de azul e rosas;
Fontes, cascatas, deleitosos parques,
Encantadas cidades quais só pode
Criar condão de fadas,
Surdem do vale, entre vapor brilhante,
Com a fronte coroada de mil torres,
De esguios coruchéus, de vastas cúpulas;
E além ainda mil aéreas formas,
Mil vagas perspectivas se debuxam,
Que por longes sem fim se vão perdendo!
Todo enlevado na ilusão donosa
Longo tempo meus olhos espaireço
Porém do céu as cores já desbotam,
Os fulgores se extinguem, se esvaecem
As fantásticas formas vem de manso
A noite desdobrando o véu das sombras
Sobre o aéreo painel maravilhoso;
Apenas pelas orlas do horizonte
Bruxuleia através da escuridade
O crespo dorso dos opacos montes,
E sobre eles fulgindo merencória,
Suspensa, como pálida lucerna,
A solitária estrela do crepúsculo.

Assim vos apagais em sombra escura,
Ledas visões da quadra dos amores!...
Lá vem na vida um tempo
Em que a um sopro gélido se extingue
A fantasia ardente,
Esse sol puro da manhã dos anos,
Que doura-nos as nuvens da existência,
E mostra além, pelo porvir brilhando,
Um céu formoso e rico de esperança;
E esses puros bens, que a mente ilusa
Cismara em tanto amor, tanto mistério,
Lá vão sumir-se um dia
Nas tristes sombras da realidade;
E de tudo que foi, conosco fica,
No fim dos tempos, a saudade apenas,
Triste fanal, brilhando entre ruínas!

Flor sem Nome

Ela nasceu no ermo em um rochedo
Sobre a fauce do abismo pendurado.
A flor sem nome, alardeando o viço
E a linda cor do cálix orvalhado.

O sol, quando surgiu, veio afagá-la
Com todo o amor dos brandos raios seus;
Mas ao deixar o céu em vão buscou-a
Para dizer-lhe adeus.

Tépidos beijos lhe imprimiu no seio
A brisa da manhã,
Voltou logo depois; passou gemendo,
Pois não viu mais no vale a flor louçã.

O colibri no seu mimoso cálix
Esvoaçando doce humor libou;
Veio depois inda outra vez beijá-la,
Não a viu mais, e triste se afastou.

Etérea flor no lodo vil do mundo
Jamais teve raiz,
E nem o pó da terra enxovalhou-lhe
O virginal matiz.

A perfumada viração da aurora
Em sossegado adejo
Embalou-a no límpido ambiente
Com brando rumorejo.

E ela agitando as pétalas mimosas
Ao sopro afagador da mansa aragem,
Sorrindo para o céu não viu do abismo
A tétrica voragem.

E todos, os que a viram, de encantados
- Que linda flor! clamaram;
Mas ninguém a colheu; nas mansas asas
As virações celestes a levaram.

Alma tenra e gentil, assim te foste
Levando intacto da inocência o véu;
Brisa fagueira te levou nas asas
Para os jardins do céu.

Eras de um mundo mais feliz que o nosso;
Vicejar sobre a terra não pudeste;
E com os anjos, teus irmãos, te foste
Para a mansão celeste.

E belo assim murchar inda na aurora,
Sem crestar-se do sol ao vivo ardor,
E uma alma imaculada como o lírio
Nas mãos de Deus depor.


Olhos Verdes

Eu conheço uns lindos olhos,
Que fazem morrer de amor,
Têm a verde e linda cor
Que tem o mar em bonança.
Ai de mim, que nesses olhos
Hei posto minha esperança!

São brilhantes e formosos
Como dous astros sem véu
A sorrir em puro céu
Em noite serena e mansa.
Mas nesses astros brilhantes
Não vejo luz de esperança.

Já não creio em olhos verdes;
Olhos verdes são traidores,
São fanais enganadores,
Não inspiram confiança.
Sabem só matar de amores
Sem nunca dar esperança.

Antes nunca eu visse os olhos,
Que fazem morrer de amor,
E que têm a linda cor
Que tem o mar em bonança.
Ai de mim, que nesses olhos
Não tenho mais esperança


Prelúdio

Neste alaúde, que a saudade afina,
Apraz-me às vêzes descantar lembranças
De um tempo mais ditoso;

De um tempo em que entre sonhos de ventura
Minha alma repousava adormecida
Nos braços da esperança.

Eu amo essas lembranças, como o cisne
Ama seu lago azul, ou como a pomba
Do bosque as sombras ama.

Eu amo essas lembranças; deixam n'alma
Um quê de vago e triste, que mitiga
Da vida os amargores.

Assim de um belo dia, que esvaiu-se,
Longo tempo nas margens do ocidente
Repousa a luz saudosa.

Eu amo essas lembranças; são grinaldas
Que o prazer desfolhou, murchas relíquias
De esplêndido festim;

Tristes flores sem viço! - mas um resto
Inda conservam do suave aroma
Que outrora enfeitiçou-nos.

Quando o presente corre árido e triste,
E no céu do porvir pairam sinistras
As nuvens da incerteza,

Só no passado doce abrigo achamos
E nos apraz fitar saudosos olhos
Na senda decorrida;

Assim de novo um pouco se respira
Uma aura das venturas já fruídas,
Assim revive ainda

O coração que angústias já murcharam,
Bem como a flor ceifada em vasos d'água
Revive alguns instantes.

Cantos da Solidão


Uma Filha do Campo

O que há de mais puro do céu nos fulgores,
O que há de mais meigo num brando luar,
O que há de mais vivo do sol nos ardores,
Compõe seu olhar .

Os pudicos raios de aurora sem nuvens,
Por entre alvas névoas no monte a luzir,
Apenas imitam dos lábios formosos
O meigo sorrir.

As notas mais doces da lira do bardo,
Ou brisa amorosa cantando entre flores,
Não têm a doçura da voz, que me enleva
Qual hino de amores.

O sol destas plagas no rosto esparziu-lhe
De jambo e de rosa mimoso matiz;
E negra a madeixa, que tomba e flutua
Nos ombros gentis.

Não é flor nascida nos parques dos grandes,
Por mãos educada de um hábil cultor,
Em vasos custosos, onde a arte esmerou-se
Com luxo e primor.

E sim flor do campo, modesta e singela,
Que aos beijos da brisa nos ermos nasceu,
E abriu-se risonha, somente regada
Do orvalho do céu.

Quem dera colhê-la na sombra tranqüila,
Onde aura fagueira com beijos a embala,
O cálix beijar-lhe, beber-lhe o perfume,
No seio guardá-la.

Mas ai! peregrino, - não sei onde leva-me
O incerto destino destes dias meus!
E em minha passagem só posso deixar-lhe
Um hino e um adeus.

Trabalho e luz I

Luz e trabalho, eis a divisa imensa
Da nova legião de um mundo novo.
Das águias do porvir fecunde-se o ovo
No vigor do trabalho unido à crença.

D'árvore humanidade à luz intensa
Do livre ensino brota o são renovo
Rico de luz se nobilita o povo
Do trabalho na santa recompensa.

Trabalham para a luz almas, que alentam
O brilho do trabalho. Os benefícios
Da luz da educação a Deus contentam.

Trabalho e luz contra o furor dos vícios,
No trabalho e na luz que a paz sustentam,
Glória ao Liceu de Artes e de Ofícios.

Eu vi dos pólos o gigante alado

Eu vi dos pólos o gigante alado,
Sobre um montão de pálidos coriscos,
Sem fazer caso dos bulcões ariscos,
Devorando em silêncio a mão do fado!

Quatro fatias de tufão gelado
Figuravam da mesa entre os petiscos;
E, envolto em manto de fatais rabiscos,
Campeava um sofisma ensangüentado!

– "Quem és, que assim me cercas de episódios?"
Lhe perguntei, com voz de silogismo,
Brandindo um facho de trovões seródios.

– "Eu sou" – me disse, – "aquele anacronismo,
Que a vil coorte de sulfúreos ódios
Nas trevas sepultei de um solecismo..."

Bernardo Guimarães




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