BAUDELAIRE


CHARLES PIERRE BAUDELAIRE nascido em Paris, no dia 9 de abril de 1821, aos 6 anos fica órfão de pai e, pouco mais de um ano depois, a mãe casa-se novamente com um major: este acontecimento causará em Baudelaire um trauma cujas conseqüências repercutirão em toda sua vida.Em 1832, o padrasto é promovido a tenente-coronel e transferido para Lyon, matricula Baudelaire no Colégio Real daquela cidade, mas em 1836 retorna a Paris onde seu padrasto fora chamado para um cargo junto ao Estado Maior.Começa então a freqüentar o colégio "Louis lê Grand" onde, apesar de uma expulsão, consegue passar no baccalauréat em 1839, mesmo ano em que o padrasto é nomeado general.Nessa mesma época datam os primeiros ensaios poéticos e a colaboração anônima no jornal satírico Corsaire Satan. Em 1840, conflitos familiares levam o jovem poeta a morar sozinho na pensão Lévêque Bailly, onde conhece os poetas Gustave lê Vavasseur e Enerts Prarond, e inicia um relacionamento com Sarah, uma judia cujo nome de guerra como prostituta era Louchette. O padrasto odiado, preocupado com a vida libertina de Baudelaire, consegue convencê-lo a viajar para o Oriente: assim cumprindo o périplo da África, primeiramente na ilha Maurício, em seguida na Ilha da Reunião, mas volta para França em fevereiro de 1842.



ORAÇÃO

Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com

[prudência!

Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!


A UMA DAMA CRIOULA
No país perfumado, a um sol de fogo e pena,

Conheci sob dossel de árvores purpurado,

E de palmas de onde o ócio ao nosso olhar acena,

Uma dama crioula e de encanto ignorado.
De tez pálida e quente, a mágica morena

Tem no seu colo um ar, sempre o mais requintado;

Vai como a caçadora e é imponente e serena,

Seu sorriso é tranqüilo e seu olhar confiado.

O RELÓGIO

Os chineses vêem as horas pelos olhos dos gatos.

Certo dia, um missionário, passeando no distrito

de Nanquim, notou que havia esquecido o relógio

e perguntou as horas a um rapazinho.

Ao primeiro instante, o garoto do Celeste Império

hesitou; depois, pensando melhor, respondeu:

-Vou dizer.

Decorridos alguns momentos, reaparecia, segurando

nos braços um gato muito gordo; e, fitando o animal,

como se usa dizer, no branco do olho, afirmou sem

hesitação: -Ainda não é exatamente meio dia.

E era verdade.

Por mim, ao inclinar-me para a bela Felina, a de nome

tão adequado, aquela que é ao mesmo tempo a honra do

seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu

espírito, -quer de noite, quer de dia, em plena luz ou

na sombra opaca, no fundo de seus olhos adoráveis vejo

sempre, nitidamente, a hora, sempre a mesma, uma hora

vasta, solene, grande como o espaço, sem divisões de

minutos nem de segundos, uma hora imóvel que não é

marcada nos relógios, e todavia leve como

um suspiro, rápida como um olhar.

E, se algum importuno me viesse interromper enquanto

o meu olhar repousa sobre este delicioso relógio,

se algum Gênio descortês e intolerante, algum Demônio

do contratempo me viesse dizer : -"Que é que estás a

mirar com tamanha atenção?

Que buscas nos olhos dessa criatura? Vês acaso neles a

hora, mortal pródigo e vagabundo?"- eu responderia sem

hesitar:-"Sim, vejo a hora: é a Eternidade."

Pois não é, senhora, que fiz um madrigal verdadeiramente

meritório e tão cheio de ênfase quanto vós mesma?

Na verdade, tive tanto prazer em bordar esta preciosa

galanteria que não vos pedirei nada em troca

O MAU VIDRACEIRO


Existem naturezas puramente contemplativas e

totalmente impróprias para a ação, que, no entanto,

sob uma impulsão misteriosa e desconhecida,

agem às vezes com uma rapidez de que elas próprias

se julgariam incapazes.

Como aquele que, temendo encontrar com o zelador

uma notícia aflitiva, ronda covardemente durante uma

hora frente à porta da casa sem ousar entrar,

como aquele que guarda durante quinze dias uma carta

sem abri-la, ou só ao fim de seis meses se conforma

em efetuar um empreendimento necessário

desde um ano, elas se sentem às vezes bruscamente

precipitadas para a ação por uma força irresistível,

como a flecha de um arco. O moralista e o

médico, que afirmam saber de tudo, não podem explicar

de onde vem tão de súbito uma louca energia nessas

almas preguiçosas e voluptuosas, e como é que elas,

incapazes de cumprir as coisas mais simples e mais

necessárias, encontram em dado momento uma coragem de

luxo para executar os atos mais absurdos e até,

muitas vezes, os mais perigosos.

Um dos meus amigos, o mais inofensivo sonhador que

já existiu, ateou fogo uma vez numa floresta, para ver,

dizia, se o fogo pegava com tal facilidade como se

afirma comumente.

(trecho)



O GATO

Por meu cérebro vai passeando,

Tal como em seu apartamento,

Um gato de todo encantamento,

e de inaudito miado brando,
Tanto o seu timbre é o mais discreto;

Mas, se é a voz calma ou iracunda,

Ela sempre é rica e profunda:

Este é o seu encanto secreto.
E a sua voz em mim infiltro,

No meu fundo mais tenebroso,

Doce qual verso numeroso

Consoladora como um filtro,
Abranda o mal que na alma lavra,

Contendo os êxtases e as pazes;

Para dizer as longas frases

Nunca precisou da palavra.
Certo não há arco que fira

Meu coração, este excelente

Órgão e o faça nobremente

Cantar só como canta a lira,
Como esta voz, ó misterioso,

Gato seráfico e esquisito

Em que tudo é, como num rito,

Tanto sutil quanto harmonioso!




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