Augusto
dos Anjos
A Nau
A Heitor LimaSôfrega,
alçando o hirto esporão guerreiro,
Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica.
... Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudica
E ébrios tritões, babando,
haurem-lhe o cheiroNa glauca artéria equórea ou no
estaleiro
Ergue a alta mastreação, que o éter indica,
E estende os braços
de madeira rica
Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a
ampla reentrância de angra horrenda
Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha!
Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as...E
não haver uma alma que lhe entenda
A angústia transoceânica medonha
No
rangido de todas as enxárcias!

A Fome e o Amor
A um monstroFome! E, na ânsia voraz que, ávida,
aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbanjem,
Os dentes antropófagos
que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta! Amor!
E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas
as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta! Ambos
assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois Representam, no ardor
dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do
que inda hoje sois!

A Lágrima
— Faça-me o obséquio de trazer reunidos
Cloreto de sódio, água e albumina...
Ah! Basta isto, porque isto é que origina
A lágrima de todos os vencidos!
— “A farmacologia e a medicina
Com a relatividade
dos sentidos
Desconhecem os mil desconhecidos
Segredos dessa secreção
divina”— O farmacêutico me obtemperou. —
Vem-me
então à lembrança o pai Yoyô
Na ânsia física da última eficácia... E
logo a lágrima em meus olhos cai.
Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai
Do que todas as drogas da farmácia!

A Obsessão dos sangue
Acordou,
vendo sangue... Horrível! O osso
Frontal em fogo... Ia talvez morrer,
Disse, Olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! Certamente não podia ser!Levantou-se.
E, eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita
rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer! No
inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão...E amou, com um berro
bárbaro de gozo,
O monocromatismo mosntruoso
Daquela universal vermelhidão!

Alucinação
à Beira mar
Um medo de morrer meus pés esfriava.
Noite alta.
Ante o telúrico recorte,
Na diuturna discórdia, a equórea coorte
Atordoadoramente
ribombava! Eu, ególatra céptico, cismava
Em meu
destino!... O vento estava forte
E aquela matemática da Morte
Com os seus
números negros me assombrava! Mas a alga usufructuária
dos oceanos
E os malacopterígios subraquianos
Que um castigo de espécie
emudeceu, No eterno horror das convulsões marítimas
Pareciam também corpos de vítimas
Condenadas à Morte, assim como eu!

A Minha Estrela
A meu irmão
Aprígio A.E eu disse - Vai-te, estrela do Passado!
Esconde-te no Azul da Imensidade,
Lá onde nunca chegue esta saudade,
- A sombra deste afeto estiolado.Disse, e a estrela
foi p’ra o Céu subindo,
Minh’alma que de longe a acompanhava,
Viu o adeus
que do Céu ela enviava,
E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia
a Aurora - a mágica princesa!
E eu vi o Sol do Céu iluminando
A Catedral
da Grande Natureza.Mas a noute chegou, triste, com
ela
Negras sombras também foram chegando,
E nunca mais eu vi a minha
estrela!

Amor e Crença
Sabes que é
Deus?! Esse infinito e santo
Ser que preside e rege os outros seres,
Que os encantos e a força dos poderes
Reúne tudo em si, num só encanto?Esse
mistério eterno e sacrossanto,
Essa sublime adoração do crente,
Esse
manto de amor doce e clemente
Que lava as dores e que enxuga o pranto?!Ah!
Se queres saber a sua grandeza,
Estende o teu olhar à Natureza,
Fita
a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do
Bem. Na altura Imensa,
O amor é a hóstia que bendiz a Crença,
ama, pois,
crê em Deus, e... sê bendita!

Ao Luar
Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos
quedos
Minha tactil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos
nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus
segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro,
agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O
Infinitésimo e o Indeterminado...Transponho ousadamente
o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a
minha plenitude!

Eterna Mágoa
O homem por
sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para
todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga! Não
crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda
a chaga.Sabe que sofre, mas o que não sabe
E que
essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda Transpõe
a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Mágoas
Quando nasci, num mês de tantas flores,
Todas murcharam, tristes, langorosas,
Tristes fanaram redolentes rosas,
Morreram todas, todas sem olores.Mais
tarde da existência nos verdores
Da infância nunca tive as venturosas
Alegrias que passam bonançosas,
Oh! Minha infância nunca teve flores!Volvendo
à quadra azul da mocidade,
Minh’alma levo aflita à Eternidade,
Quando
a morte matar meus dissabores.Cansado de chorar pelas
estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das
minhas dores!

Primavera
A meu irmãoOdilon dos AnjosPrimavera
gentil dos meus amores,
- Arca cerúlea de ilusões
etéreas,
Chova-te o Céu cintilações
sidéreas
E a terra chova no teu seio
flores!Esplende,
Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul dos dias
teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das
minhas dores
E me trouxeste o néctar
dos teus sonhos! Cedo
virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir o eterno
sono, Num
sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos
sonhos,
Primavera gentil dos meus
amores!

Queixas Noturnas
Quem foi que viu a minha
Dor chorando?!
Saio. Minh'alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios
pela estrada
E pela estrada, entre estes
monstros, ando! Não
trago sobre a túnica fingida
As insígnias medonhas do
infeliz
Como os falsos mendigos
de Paris
Na atra rua de Santa Margarida.
O
quadro de aflições que me
consomem
O próprio Pedro Américo
não pinta...
Para pintá-lo, era preciso
a tinta
Feita de todos os tormentos
do homem! Como
um ladrão sentado numa ponte
Espera alguém, armado de
arcabuz.
Na ânsia incoercível de
roubar a luz.
Estou à espera de que o
Sol desponte! Bati
nas pedras dum tormento
rude
E a minha mágoa de hoje
é tão intensa
Que eu penso que a Alegria
é uma doença
E a Tristeza é minha única
saúde. As
minhas roupas, quero até
rompe-las!
Quero, arrancado das prisões
carnais.
Viver na luz dos astros
imortais,
Abraçado com todas as estrelas!
A
Noite vai crescendo apavorante
E dentro do meu peito, no
combate.
A Eternidade esmagadora
bate
Numa dilatação exorbitante!
E
eu luto contra a universal
grandeza
Na mais terrível desesperação...
É a luta, é o prédio enorme,
é a rebelião
Da criatura contra a natureza!
Parai
essas lutas, uma vida é
pouca
Inda mesmo que os músculos
se esforcem,
Os pobres braços do imortal
se torcem
E o sangue jorra, em coalhos,
pela boca. E
muitas vezes a agonia é
tanta
Que, rolando dos últimos
degraus,
O Hércules treme e vai tombar
no caos
De onde seu corpo nunca
mais levanta!E
natural que esse Hércules
se estorça,
E tombe para sempre nessas
lutas,
Estrangulado pelas rodas
brutas
Do mecanismo que tiver mais
força. Ah!
Por todos os séculos vindouros
Há de travar-se essa batalha
vã
Do dia de hoje contra o
de amanhã,
Igual à luta dos cristãos
e mouros! Sobre
histórias de amor o interrogar-me
E vão, é inútil, é improfícuo,
em suma;
Não sou capaz de amar mulher
alguma
Nem há mulher talvez capaz
de amar-me.O
amor tem favos e tem caldos
quentes
E ao mesmo tempo que faz
bem, faz mal;
O coração do Poeta é um
hospital
Onde morreram todos os doentes.
Hoje
é amargo tudo quanto eu
gosto;
A bênção matutina que recebo...
E é tudo: o pão que como,
a água que bebo,
O velho tamarindo a que
me encosto!Vou
enterrar agora a harpa boêmia
Na atra e assombrosa solidão
feroz
Onde não cheguem o eco duma
voz
E o grito desvairado da
blasfêmia! Que
dentro de minh'alma americana
Não mais palpite o coração
— esta arca,
Este relógio trágico que
marca
Todos os atos da tragédia
humana! Seja
esta minha queixa derradeira
Cantada sobre o túmulo de
Orfeu;
Seja este, enfim, o último
canto meu
Por esta grande noite brasileira!
Melancolia!
Estende-me a tua asa!
És a árvore em que devo
reclinar-me...
Se algum dia o Prazer vier
procurar-me
Diz a este monstro que eu
fugi de casa!
Augusto dos Anjos
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