Uma crônica sobre Amor

 

 

 

 

 

Hoje quero contar uma história de amor.

Meu filho, de 9 anos, está apaixonado por uma coleguinha de escola de 8 anos, e no meio do turbilhão de trabalho, dificuldades, compromissos, atividades diversas do meu dia a dia, fico observando essa linda história de amor.
Vejo o brilho nos olhos dele em estar amando sinceramente.
Um amor despreocupado e sem "grilos".
Um amor inocente, verdadeiro e sem cobranças.

Todo primeiro amor é assim.

Infelizmente, quando a gente "cresce", e conforme a vida nos vai sendo injusta, não correspondendo a todos os nossos sonhos, acabamos por perder essa espontaneidade, que se refletia no brilho do nosso olhar traduzindo a felicidade plena de nosso coração de criança.

Outro dia meu filho fez um passeio com a escola. Eram visitas a algumas fábricas, um passeio de estudos.
Desde alguns dias antes da viagem, ele só falava na visita que fariam a uma fábrica de jóias. Por que o interesse? Porque ele queria dar uma jóia de presente pra "namoradinha", uma forma que ele, por si só, encontrou para eternizar seus sentimentos e demonstrar a ela o carinho que sentia.
Gastou toda a mesada, e ainda pediu adiantamento pra completar o valor que pretendia gastar, comprou pra menina um colar e um anel de prata e entregou-os, em seguida, embalados, conforme ele mesmo pediu à moça da fábrica, numa caixa enfeitada com fita vermelha.

Dia desses, também, pediu-me que o ajudasse a fazer um poema, no que prontamente atendi. Minutos depois, estava ele, declamando e fazendo novos poemas ao fone, por mais de 2 horas, para a namoradinha.

Ontem eu conversava com um amigo sobre o que acontece com a gente quando crescemos e como nos tornamos duros a medida que o tempo passa.
Como costumamos vestir nossas máscaras diariamente escondendo-nos e precavendo-nos de sermos atingidos e machucados pelo mundo e pelas pessoas.
E essas máscaras acabam pesando tanto em nossos rostos que não temos a força e a coragem para retirá-las e mostrar nossa verdadeira face.
O medo de sermos magoados e o receio de deixar aflorar nossa fragilidade e nossos sentimentos tranformam-nos em pessoas irreais, falsos seres, personagens criados em funçao do enredo que nos é proposto e imposto.
E deixamos de viver como queremos, de dizer o que pensamos e de demonstrar o que sentimos.
Por medo de sermos nós mesmos num mundo que nos cobra posturas que nem sempre conseguimos manter.
Vestir máscaras é sempre mais fácil e mais cômodo, embora as frustrações que possamos ter ao usá-las.

A vida torna-nos cruéis, não apenas com os outros, mas com a gente mesmo e aquele brilho, que tivemos um dia no olhar cheio de sonhos e esperanças, fica turvado pelos dissabores, pelas dores, pelas insatisfações, pela falta de coragem, pelas máscaras pesadas que vestimos para protegermo-nos (?) dos outros e de nós mesmos.

Pergunto-me por que perdemos nossa coragem com o passar dos anos? Por que nos deixamos levar pelo que as pessoas pensam ou deixam de pensar? Por que deixamos que nosso íntimo permaneça aprisionado nessas pesadas máscaras de ferro?

Eu hoje vi meu filho saindo pra escola e me emocionei.
Ontem, domingo, ele colheu na chácara uma rosa para a namorada. Colocou-a num vaso ao chegar em casa e hoje pediu-me que a embalasse em papel celofane.
Vi meu filho saindo em direção ao ônibus da escola e não consegui conter as lágrimas.
Seu rosto radiante, seu olhar brilhante, mochila nas costas, braço estendido com uma rosa na mão, nem importando-se com o que fossem pensar ou falar. Em sua cabecinha cheia de sonhos só o que importava era a alegria de dar seu amor, sem pedir nada em troca.

E eu, orgulhosa da pessoa linda que tenho como filho, fico torcendo que ele nunca precise usar as máscaras que o mundo adulto nos exige.

É uma linda história de amor que presencio nesses dias.

Não sei o final da história mas acompanho cuidadosamente o desenrolar dos acontecimentos e vejo (ou relembro?) que o importante nem sempre é o final, mas sim o saber amar, o saber doar-se sem receios e sem cobranças, o amar pelo prazer de amar e viver intensa e verdadeiramente os nossos sentimentos.

 

(by Mel)

 

 

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13/09/99



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