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Lua feiticeira Deixei meus olhos caminharem pela estrada de luz ondulada ao sabor das ondas...iluminada apenas pela Lua; Vagueei meu espírito até onde a nau me conduz, talvez por vontade minha...talvez por vontade sua... ...talvez por vontade de ambos. E deparei com monstros e papões, e doces sonhos e recordações. Vi-me e revi-me no espelho da água cristalina, pura. E aquele rosto...eram rostos; já não era eu... mas Eus. O que chora...e o que ri... o feliz...e o que sofre... o que odeia...e o que ama... o indiferente...e o que sente. Tantos rostos iguais a outros tantos, todos diferentes, e no entanto tão semelhantes. Senti-me só... ...e ao mesmo tempo o mundo, esse também só porque único, singular. Mas também plural, em várias cores e sons, em várias línguas e tons. E senti-me plural também... ...numa soma de singulares. E descansei no horizonte, onde o mundo toca o céu... onde o real toca o sonho. Onde os monstros são mais belos e os fantasmas mais amigos; Onde os sonhos são mais sonho e as recordações mais presentes. E no regresso já não havia monstros nem fantasmas nem sonhos e recordações. Havia eu e os outros outros tantos eus em tudo diferentes e em tudo semelhantes. Os que choram...e os que riem... os felizes...e os que sofrem... os que odeiam...e os que amam... os indiferentes...e os que sentem. Já não havia sonhos mas Sonho, nem recordações mas Memória. E os monstros e fantasmas...! Deixá-los estar... Esses são faróis que me lembram que outros também sofrem, e que precisam de mim... ...se me voltar a esquecer. Era o feitiço da Lua... ...ou da Vida; ...ou de ambos. [Poeta], 1999/07
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Noite sou um autómato à deriva no trânsito reajo a cores a apitos e buzinas Sou um autómato sem imaginação sempre no mesmo caminho nos mesmos gestos e expressões sou um autómato desde que me levanto até ao sol pôr mas aí a vida é minha sou então um génio de mil imaginações em turbilhão vivo tentações encho corações meu mundo deixa de ser cinzento para ser de branco linho deixo de ser comandado passo a comandar sigo os instintos os meus e os dela deixa de haver luzes mas estrelas não mais stress mas sol não mais trânsito mas horizontes prontos a serem penetrados rasgados amados a noite é minha aliada minha única amiga a única que me entende por isso gosto de ti Noite... [Poeta], 1999/12
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Suicídio aparente Rasgo as carnes já cortadas pelos rudes golpes da vida numa tentativa vã de libertar a memória. Choro lágrimas estioladas sobre uma epopeia nunca lida que retracta a minha história. O que amei ainda amo dentro deste débil coração que vacila no seu querer bater. Ela é o nome que ainda chamo quando percorro o mesmo chão que meu choro vem lamber. Já não tenho vontade para continuar a viver sem nada ter que me alimente. E já é tão tarde para voltar a renascer num plano consciente. Seja pois meu corpo a mortalha deste profundo penar que encerro em meu caixão. Sejam minhas lágrimas a metralha que ajudem a matar esta estranha paixão. E a vós que me ledes não vos quero mal pois disto não tendes culpa, E se um dia vos deterdes numa noticia de jornal...!!! sou eu a pedir-vos desculpa. [Poeta] 2000/04/28 |
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Bilhete sem volta Tirei um bilhete de ida sem retorno possível. Apenas porque quis assim ... neste combóio em que embarquei. Transformei a minha vida num verdadeiro "carroussel". Apenas porque quis assim ... desde o passado que larguei. A viagem está decorrida e o combóio está imóvel. Apenas porque quis assim ... desde o momento em que pequei. Destino ... esta vida sofrida num gosto amargo de fel. Apenas porque quis assim ... desde o momento em que amei. [Poeta] 2000/05/03 |
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Apocalipse A noite fechou-se, negra, sobre meu coração. Ouç'o tropel de cavalos, medonhos, que estremecem o chão. São quatro cavaleiros, hediondos, em demanda minha vêm. Trespassam tudo que cruzam, indiferentes, frente a nada se detêm. A Fome ... não de amor mas de ser amado. E meu coração, faminto, e o outro fechado. A Peste ... este sofrer por não poder ter. E meu coração, doente, e o outro sem saber. A Guerra ... esta rebelião que anseia a paz. E meu coração, revolto, e o outro que não a faz. A Morte ... esta agonia em escura mortalha. E meu coração, moribundo, e o outro que o retalha. É o Fim, o meu Juízo Final. É o Apocalipse, e o meu Pecado Original. (Perdoa-me Deus por ter ousado amar.) [Poeta] 2000/05/03 |