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Sento-me à beira do mar e choro
A Janela do meu quarto É pela janela do meu quarto, Que vejo ao longe o rio, Sereno e tranquilo, E de perto as pessoas que passam, As vidas que se enlaçam, E tão apressadas que andam. Daqui vejo o sol nascer, Num grito ao mundo para viver, Grito que ninguém pode conter. Mais tarde vejo-o deitar, Mais um dia para contar, Tempo que não soube passar. Daqui vejo o velho cansado, Que passa os dias naquele banco, Vejo a criança de sacola, Corre para chegar à escola, Vejo o padeiro de manhã cedo, Trabalha quando ainda nada se escuta, De noite a prostituta, Que chora e tem medo. A janela do meu quarto, Aprendeu a ver, É sábia e experiente, Por ela tantas vidas passaram, Vazias perderam-se no tempo, Como é cruel, A janela do meu quarto, O espelho para o mundo. |
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Álcool Sento-me no escuro, A sentir as batidas que passam, E que noutras alturas tanto gosto, As luzes que encadeiam, Iluminam os corpos que me rodeiam, Suados perdem a roupa, No calor de uma noite fria. Olho para o meu copo, Vazio novamente, E o meu corpo não mente, Mostra-me o exagero. E as tonturas que não quero, E agonia que vem a correr, Não me fazem esquecer. Sinto o teu toque, Essa espada afiada, De doce beijo disfarçada, O cansaço que não parte, Não me deixa mergulhar no mar de gente, Onde o meu anjo dança, Numa dança que não se cansa. Sinto-me enganado, Pensei em tempos de esquecimento, Sem por ti este sofrimento, Sinto-me roubado, E tão enjoado, E não é da bebida, Mas desta vida. Corro para a casa de banho, Meto os dedos à garganta, Expulso a falsa promessa, Em rios de dor e tristeza, E depois calmo e tranquilo, Prometo sempre nunca mais tocar-lhe, Minto e volto para casa, Para a minha mágoa. |
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Espera Noite de Natal, Oiço os risos das crianças, E das suas doces lembranças, Só, neste quarto vazio, Tenho medo, tenho frio. Espero o calor da tua voz, Nesses momentos em que estamos sós, Mas sei que não chegarás, Perdida no teu mundo, Esqueces o meu amor profundo. O tempo passa... O tempo escassa... Cada minuto que corre... Uma lágrima que escorre... Uma parte que morre... É este silêncio que me mata A ansiedade que se alimenta Da fraca esperança De me embalar na tua voz Na ternura com que digo "nós" Vou dormir, Sinto a dormência a vir, Daí não tiro descanso, Porque a dor não esquece, E nem no sonho desaparece. 24/12/99 |
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Fado É noite, Na estrada os carros passam, Luzes que se confundem no chão, Indiferentes ao mundo que corre ao lado, No asfalto o sangue vermelho, Um corpo que jaz esquecido, No olhar sofrido, A certeza deste fado. Sabia que morreria, Uma morte que não merecia, Mas que tanto desejava, Desde que descobriu que amava. Hoje conheceu o alívio, Num ansiado suicídio, Terá sido cobardia? Não, apenas uma dor que não partia. Terá sido pecado? Talvez, mas não era amado, O coração que já não bate. Um salto para a morte, Nesse momento sentiu-se forte, Sentiu que não sofria, Agora que a sua vida perdia, Um sorriso, Um segundo, Nada, Oh triste fado de quem ama. |
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Palavras que não valem nada Faz já meses que não escrevo, Que esta caneta não ganha vida, Falando por este coração tolo, Por palavras que não valem nada. Tantas vezes quis soltar o que sinto, Soltar as amarras no meu coração, Mas sem saber não minto, E deixo a caneta beijar o chão. As palavras que escrevi, De sentimentos que não perco, Souberam sempre dizer o que senti, Mas será que sabes o quanto te amo? Não, hoje não te quero amar, Não quero que meus versos sangrem por ti, Quero ser a rocha que não sabe perdoar, Que é egoísta e só pensa em si. Saberei ser maior e mais forte, Tentarei ganhar mas sabendo perder, Até ao dia da minha morte, Quando tudo nada valer. Faz-se tarde a noite calma, Amanhã será outro dia, E pergunto à minha alma, Se saberei mentir como nunca fazia. Estas palavras escrevo-as assim, Sem que ninguém as perceba, Porque as escrevo para mim, Palavras que não valem nada. Paulo Henriques
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FOGO Fogo amigo, Hoje quero estar contigo, Aqui no escuro rendo-me à tua chama, Que me hipnotiza sem o saber, Que escreve este poema sem eu querer. Como invejo o teu brilho, Do teu calor quero ser filho, Não quero ter consciência, Que tudo sejam cinzas ao meu olhar, E nunca mais chorar. Cada tronco com que te alimento É uma parte de mim que morre lento Faço parte de ti, És o fogo que me queima o coração És o amor que me diz não. Leva-me para longe daqui, Para dentro de ti, Para longe de mim, Onde as lágrimas não nascem, Onde os sentimentos não morrem. Sinto-te a morrer, A tua chama a se render, Às cinzas, Às cinzas de mim, Às cinzas do meu fim... Paulo Henriques
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FONTE Eu conheço uma fonte, Onde as águas belas e perfeitas, Correm serenas e tranquilas, Sem pressas, Porque são águas amadas, São eternas, Nasceram do mais puro sentimento, Amor que não morre. Dou estas águas a beber, Ao meu coração sedento, De uma sede que não acaba, Será que o quero? Fingo quando digo que não, Minto pois só tu és a minha razão, Porque amar é esta sede infinita, Que desejo sem querer. Quero perceber o porquê destas águas, E afogá-lo em ternura. Porque será que te amo, A ti minha flor tão pura? E é no teu olhar, Que tal dúvida se esvanece no ar Porque é teu o beijo, Que leva todas as mágoas. Eu bebo de uma fonte Que jamais verei secar, O meu amor por ti é maior que o tempo, É o passado, o presente, e o futuro que calhar, Nada o fará esquecer, Nada o fará morrer, E assim nada lamento, Porque amo-te... Paulo Henriques |
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LONGE Vivia feliz, Amava era amado, Tinha fé num Deus, Que nunca o tinha abandonado. E fé é tão fácil de ter, Quando tudo corre bem, E é tão difícil criticar alguém, Que sorri sem medo de viver. Um dia essa paz acabou, Quando soube que partiria, Todo o seu mundo desabou, Para defender a pátria, Na guerra dos homens. E o sorriso que outrora brilhara, Morreu-lhe nos lábios, E abriu-se uma ferida que não sara. Despediu-se do seu mundo, Beijou a mulher e depois os filhos, E respirando bem fundo, Prometeu que voltava para ensiná-los, A amar, a respeitar, a viver... Mas as lágrimas que caíam, E os abraços fortes que se sentiam, Denunciavam o medo de morrer. Lá, longe do coração, Aprendeu a matar, A roubar os sonhos dos outros, E no meio do sangue e dos tiros, Enlouquecido só se punha a pensar: 'Mato... mas porque razão? Para proteger a família tão longe? Ou pela nação, será por isso que se morre? Durante dias, meses, anos, Escapou da morte, Agarrado ao crucifixo agradecia, Ao Deus que não esquecia, Pela sua sorte, E tão longe lembrava os filhos, E aquelas promessas, Conseguiria cumpri-las? Voltou então um dia, À Pátria que tanto lhe roubara, Vivia agora aquilo que tanto sonhara, Ver as ruas, as pessoas, a família, Sorrindo-lhe e tudo voltaria a ser igual. Teria muito que esquecer, Mas também muito para aprender, Já nada poderia correr mal. E nesse dia apercebeu-se, Ao ver que as promessas que tinha feito, Nunca se poderiam cumprir, Não eram seus os ensinamentos dos filhos, Não era dele a felicidade da mulher, Nesse dia viu, Que foi no dia em que partiu, Que morreu... Paulo Henriques
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---PRESO Estou preso neste quarto, Ao leito amarrado, Quero fugir desta prisão, Feita do tempo que passa em vão. Mas sinto as correntes que não vejo, O beijo sufocado do desejo. Quero ir ter contigo, Chorar no teu ombro amigo, Dizer que te amo, Que és parte de mim, Como a folha que nasce do ramo, E que para sempre será assim. Tenho medo de te perder, De meu amor te aborrecer, De minhas palavras serem duras e frias, De ao me olhares não veres quem vias, Por isso fico preso no teu olhar, Saciando de longe o meu amar. Sou prisioneiro do meu coração, De ti não consigo fugir. Quando meus olhos se fecham, Vejo-te a sorrir, O anjo que me estende a mão, E num segundo perco a razão. Sabes que me podes matar, Com o negar de um sorriso, Com o recusar de um abraço. Tens esse poder, Ó anjo que amo, Cada dia mais... 23/1/2000 Paulo Henriques
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SÓ Madrugada de Inverno, Noite fria e cruel, Passeio-me pelas ruas, De coração pesado e triste, Olho para o mundo que dorme. Os risos já acabaram, As lágrimas já secaram, É a solidão que me invade, Numa noite igual, Nem bem, nem mal... Caminho sozinho, Nesta como em qualquer outra noite A sombra como companhia Nas casas sem vida No chão que me guia. Vejo o meu reflexo, Nas portas fechadas, Um ser sombrio e só, Que se mistura na noite, Como a gota no oceano. Oiço ao longe o cão que ladra, O uivar sofrido que tanto me agrada, Que penetra na noite, Como uma faca no meu coração, Que não me deixa esquecer a solidão. Sinto a lua no meu olhar, Nua e pura... Lembra-me os momentos que passei, As memórias que não quero largar, Pois são provas de te amar. Chego ao meu destino, No meu leito afogarei a mágoa. Nas lágrimas que caem, Se dilui a esperança, De um dia te dar o mundo. Paulo Henriques
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AMO-TE Pouco percebo do que me rodeia, Nada sei sobre a vida, Certeza só tenho de algo, Que amo-te mais que tudo. Sonho contigo todas as noites, Que te envolvo em ternura, Como o abraço de uma flor, Que me levas esta dor, Esta mágoa que perdura, E que te dou tudo o que mereces. Amor foi palavra para mim, Que nunca teve significado, Até ao momento em que te vi, E tal palavra floriu por ti, Vive agora no teu coração amado, Até ao fim... Se a morte me libertasse, Meu corpo verias caído, Mas sei que tudo aquilo que sinto e senti, Sentirei, porque o meu amor por ti, É maior que o mundo que vês estendido, Aos teus pés se eu pudesse. Quero um dia mostrar-te o quanto te amo, Mas nunca conseguirei voar tão alto. E todas as palavras serão poucas, Para te dizer que és mais do que o ar que respiro, És tudo o que me faz viver, Que sem ti não sou nada, Que te amo... Paulo Henriques
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A semente Esperei por um dia, Dia de sol e alegria. Escolhi um sítio, Sítio perfeito na margem de um rio. Deixei o meu corpo beijar o chão, Chão quente de terra e emoção. Cavei um buraco fundo, Com as mãos que trouxe ao mundo, E aí com a ternura de quem sente, Plantei uma semente. A essa semente querida, Protegia-a para que nunca fosse ferida, Dediquei-lhe tempo, Dei-lhe amor e carinho, Via crescer em bruto, Sem nunca dela esperar fruto. Primeiro um tronco forte, Nasceu daquela semente, Depois vieram os ramos, Verdes e tão belos. A essa árvore que vi nascer, A que dei tudo, Sem nunca esperar nada, A essa árvore que tanto gosto, E que nunca quero ver morrer, Dou o nome de amizade. Paulo Henriques
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Esquecer Esquecer, Quero esquecer, As lágrimas que verti, A dor que senti, Por amar, E acreditar. Já nada espero, E por isso suspiro, Quando me lembro sem querer, Daquilo que quero esquecer, E porque é tudo em que penso, Como posso pensar que esqueço? Quero esquecer o teu olhar, A tua forma de beijar, O teu rosto, O teu corpo, A perfeição do teu ser, Tudo aquilo que me faz viver. Quero esquecer este amar, Mas é como querer esquecer como respirar, Finjo mas não me engano, Porque quando não souber que te amo, Saberei que estou morto, Porque ter-me-ei esquecido de como respiro. Esquecer, Será para mim morrer, Por isso quero ver-te brilhar, E que os teus olhos não desviem o olhar, Porque por isso nunca esqueceria, E apenas morreria...
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A poesia Escrevo estas palavras, Para abrir o meu coração Para deixar correr A dor, O amor, A raiva, A frustração, Os sentimentos que me atormentam. E pouco me interessa, Se certos versos se alongam no tempo, Como a pedra que vejo cair no precipício, Ou são breves, Curtos, Como a vida. E se os meus versos rimam, Nem sempre o desejo, São as palavras que a tal me levam, Porque esconder aquilo que sinto, Atrás de rimas sem sentido É prender as asas da poesia Escrevo assim, Sem forma, Palavras à solta, E se me criticam por isso, Pouco me interessa, Porque esta poesia é minha, É fruto de algo que nunca alcançarão E por isso invejo-vos. Paulo Henriques
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Interrogações Sinto-me morto, Mas como posso morrer, Se nunca cheguei a viver? Será este o meu destino? Sofrer por amar, Por ter ousado um dia voar. Porque será que amo? Um anjo que me levou o coração, Uma deusa de perfeição. Porque será que o sol nasce? Sempre para lá do horizonte, Parece que de mim se esconde. Será o mundo sempre assim? Negro aos meus olhos, Cinzento nos meus sonhos. Sinto-me adormecer, Mas como posso ir-me deitar, Se nunca cheguei a acordar? Paulo Henriques
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Memórias de um alcoólico Apetece-me beber, Render-me ao álcool, Fazer da minha mente o seu lençol, Que esconde tudo o que quero esquecer. Quero viver esta alcoolémia, Entregar-me a uma vida de boémia, Em que tudo é ilusão, E nada fere o coração. Quero sentir a doce morte, Dos sentidos perdidos, Dos sonhos esquecidos, De uma vida sem sorte. E em cada passo que dou, Sinto que o chão me falha, Caminhando para onde calha, Não sei para onde vou. E em cada copo menos sinto, E finjo que o destino finto, Mas no fundo sempre sei, Que nunca te esquecerei. Já não me apetece beber, Fingir que posso esquecer, Para ainda mais forte lembrar, A razão de tanto te amar.
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Sento-me à beira do mar e choro... Sento-me à beira do mar e choro... Porque na crueldade e beleza das ondas, Sinto minhas todas as lágrimas, Que em revolta se batem nos rochedos, E recuam fortes e sem medos, Apagando o chão por onde caminho. Batem fortes as ondas, Demasiado para nestas mãos parar, O destino que traz este mar, E de tentar não tenho mais forças, E sinto a vida a fugir na maré, Parte e será que volta? Não tenho fé. E meus olhos encontram o horizonte, Em tons rosados e vermelhos, Deitado sobre as águas azuis, Embala a lua que teimosa, Demora a aparecer, tão formosa, Lá tão longe, onde o sol se esconde. Choro porque não agarro, O vento que me leva as lágrimas, Para as juntar a essas águas, E os olhos sou eu que os varro, Porque prefiro a mão molhada, À minha alma roubada. Faz-se tarde mas não quero, Partir com fome de ver, Ter sede de ser, E recuso ir para onde vou, E recuso ser quem sou, Para sentar-me à beira do mar e chorar... Paulo Henriques
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Pátria Em tempos distantes, Em terras de deuses, Numa onda desse mar, A quem oceânico iriam chamar, Ergueu-se entre o sal, A minha pátria Portugal! De alma lusitana, Nasceu de semente latina, Um povo de coragem, Como leões que rugem, Ousaram desafiar os deuses, Bebendo glória das suas fontes. Portugal abriu a mão, E agarrou o mundo, E nas suas costas carregando-o, Encontrou a fé e a razão, E do seu berço, Iluminou o Universo. E da memória, Da glória e da vitória, Nasceram seres de excepção, Filhos pródigos desta nação. Foram poetas e descobridores, Reis e navegadores. Gama, Dias e Cabral, O Infante, D.Afonso e D.Diniz, Como engrandeceram Portugal! O Marquês, Viriato e Egas Moniz, Camões e Pessoa, Como a memória ainda ressoa! Como me orgulho destas quinas, Dos castelos e dos brasões, Das lusitanas praias, Das armas e dos barões, Do verde e vermelho, Do nosso Fado. Povo destemido, Fadado para sofrer, Como nos habituámos a perder. Povo que será novamente temido, Pois é grande a saudade, E maior a vontade, De contra os canhões marchar, E pela Pátria lutar! Paulo Henriques
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