Poeta 38

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Ao escrever        Contra        Penso        Ponte        Repara      

 Romantismo

 

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AO ESCREVER
 
Ao escrever,
separo o espírito do corpo,
como o sair desta terra real
e o entrar no mundo dos sonhos,
permanecendo testemunha invisível,
vendo tudo do lado de fora,
do outro lado mágico do espelho
em que me vejo nos outros
e em que poucos me vêm.
Ao escrever,
apenas a ideia me clareia o movimento,
penetrando nas penumbras do pensamento,
voando nas nuvens do sentimento,
espalhando o indefinido relativo
daquilo que sou,
naquilo que transmito.
Ao escrever,
procuro o conteúdo insatisfeito duma satisfação,
encontro a felicidade infeliz dum final afinal,
esbato a incerteza na certeza de ser,
aproximando-me do fundo dos fundos,
subindo no infinito do universo.
Ao escrever,
neste profundo mundo que crio,
em cada palavra firme afirmada
e negada por interrogações sem respostas,
porque tudo existe como é
e como eu nunca conseguirei jamais ver...
Ao escrever,
apenas escrevo,
as mentiras do que não escrevo,
na verdade do acto,
inverso e controverso,
como a imagem que aqui reflito,
nas águas dum rio
que é um poema,
que não chegou ao seu fim...
Manuel J.P.Neves

 

 

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CONTRA... TEMPO
 
Houve um tempo
em que o descontento
intrépido como uma intempérie
avassalou este vassalo que sou...
E indomável me dominei
revolvendo revoltas
nas voltas que dei
acordei despertei
e a partir daí
resolvi que não vi
indecentes cedentes mentiras
tiradas das larvas
largadas atadas
de interesses
por vezes revezes de fezes
fictícias malícias
maradas de nadas...
Mas mesmo sem querer
mastiguei novamente
os restos amargos
de gente demente doente
de vozes de vómitos
decincronizados zangados
levados vedados
vetados pelo vento de meu pensamento
tormento tornado calado...
E mudo me mudo
p'ra outras paragens viagens
na via da vida
no tempo que espero
sem desespero
esperança lançada
de afectos de fé
que eu quis e refiz
enfim...feliz.
Manuel J.P.Neves
 

 

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PENSO...
 
Quando penso
que já sei tudo,
depois de tantos dias,
tantas caminhadas,
tanta vivência...
Depois de tantas noites,
tantos sonhos,
tanto sentimento...
Penso que tudo sei
e quanto mais eu penso,
mais eu sei o quanto esse tudo é nada
e ao pensar
descubro quão importante é o pensamento,
a definição de mim,
a revelação do universo,
o fervilhar do descontentamento,
da evolução insignificante,
repetitiva e irrelevante,
dum saber deslizante
como a água
que só tem essência
no seu movimento
e parando...sabendo,
é tão estéril
como o lodo dum charco.
Por isso prefiro não saber,
correndo
em busca do mar da vida.
Manuel J.P.Neves

 

 

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PONTE
 
Estabeleço pontes entre mim e o mundo,
cruzadas e interligadas.
Pontes de discórdia e inconformismo
num assumir da distância que me envolve.
Elos de afectos e sensibilidades
numa carência jamais saciável...
Baralho as cartas do jogo da vida
numa mistura de dor e prazer,
de sofrimento e felicidade
nas passadas pesadas pisadas ,
nesta liberdade de ser,
no refúgio da minha consciência...
Reconheço novos conhecimentos
em longas estreitas estradas
dum fim inatingível,
envolvendo artérias de sangue e pensamento,
riscadas pelo horizonte,
arriscando esperanças,
desbravando o futuro...
Manuel J.P.Neves

 

 

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REPARA
 
Para e repara,
fecha os olhos
e abre a alma,
solta o corpo
e acorda,
adormecendo...
Para o tempo,
repara que a noite,
ainda criança,
percorre a rua dos sonhos,
das ânsias, vontades , ideais,
esperanças iluminadas,
nesta paz
em que me quedo,
desta sombra
alastrando os sentimentos.
Para e repara
que não somos apenas nós,
nem os outros,
nem os mais e mais que ainda virão
e que tanto ainda teremos a aprender...
Para nem que seja um momento
e repara que há qualquer coisa mais,
que vai para além de nós
e que nos obriga a acordar de novo para o mundo,
em cada noite que cai...
em cada dia que se levanta...
Para e repara
que esta vida são três dias;
ontem, hoje e amanhã...
E que o mais importante está aqui no agora,
ao arrebatares da vida
a tua própria vida,
arrancada do útero da terra,
semeada no vento...
Vida vivida,
lívida e livre.
Para e repara
dentro de ti.
Manuel J.P.Neves

 

 

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ROMANTISMO
 
Há alguma coisa que fica nua
despida e desprotegida
quando me chamam de romântico...
Como se de repente
me sentisse violado
no mais secreto dos sentidos,
neste ínfimo intimo,
onde desajeitadamente me escondo
pelas algibeiras da minha sexualidade...
Porque assim me definem
e assim eu sorrio,
qual príncipe ou Romeu,
naquele outro papel,
dum espelho moldado
por entes e mentiras
de cada uma das minhas fantasias...
Há alguma coisa que desponta,
no fundo de mim,
quando me falam de romantismo,
cegando-me
pelo brilho dum carinho,
duma mão aberta,
dum afago,
dum milagre de amor...
Há alguma coisa...
que sempre fica por dizer,
quando fugimos da realidade crua,
camuflados por falsas aparências
dum romantismo
que nunca foi
nem nunca será aquilo que sou.
Manuel J.P.Neves

 

 

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