Breve nota:
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Ao escrever Contra Penso Ponte Repara
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AO ESCREVER Ao escrever, separo o espírito do corpo, como o sair desta terra real e o entrar no mundo dos sonhos, permanecendo testemunha invisível, vendo tudo do lado de fora, do outro lado mágico do espelho em que me vejo nos outros e em que poucos me vêm. Ao escrever, apenas a ideia me clareia o movimento, penetrando nas penumbras do pensamento, voando nas nuvens do sentimento, espalhando o indefinido relativo daquilo que sou, naquilo que transmito. Ao escrever, procuro o conteúdo insatisfeito duma satisfação, encontro a felicidade infeliz dum final afinal, esbato a incerteza na certeza de ser, aproximando-me do fundo dos fundos, subindo no infinito do universo. Ao escrever, neste profundo mundo que crio, em cada palavra firme afirmada e negada por interrogações sem respostas, porque tudo existe como é e como eu nunca conseguirei jamais ver... Ao escrever, apenas escrevo, as mentiras do que não escrevo, na verdade do acto, inverso e controverso, como a imagem que aqui reflito, nas águas dum rio que é um poema, que não chegou ao seu fim... Manuel J.P.Neves
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CONTRA... TEMPO Houve um tempo em que o descontento intrépido como uma intempérie avassalou este vassalo que sou... E indomável me dominei revolvendo revoltas nas voltas que dei acordei despertei e a partir daí resolvi que não vi indecentes cedentes mentiras tiradas das larvas largadas atadas de interesses por vezes revezes de fezes fictícias malícias maradas de nadas... Mas mesmo sem querer mastiguei novamente os restos amargos de gente demente doente de vozes de vómitos decincronizados zangados levados vedados vetados pelo vento de meu pensamento tormento tornado calado... E mudo me mudo p'ra outras paragens viagens na via da vida no tempo que espero sem desespero esperança lançada de afectos de fé que eu quis e refiz enfim...feliz. Manuel J.P.Neves |
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PENSO... Quando penso que já sei tudo, depois de tantos dias, tantas caminhadas, tanta vivência... Depois de tantas noites, tantos sonhos, tanto sentimento... Penso que tudo sei e quanto mais eu penso, mais eu sei o quanto esse tudo é nada e ao pensar descubro quão importante é o pensamento, a definição de mim, a revelação do universo, o fervilhar do descontentamento, da evolução insignificante, repetitiva e irrelevante, dum saber deslizante como a água que só tem essência no seu movimento e parando...sabendo, é tão estéril como o lodo dum charco. Por isso prefiro não saber, correndo em busca do mar da vida. Manuel J.P.Neves
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PONTE Estabeleço pontes entre mim e o mundo, cruzadas e interligadas. Pontes de discórdia e inconformismo num assumir da distância que me envolve. Elos de afectos e sensibilidades numa carência jamais saciável... Baralho as cartas do jogo da vida numa mistura de dor e prazer, de sofrimento e felicidade nas passadas pesadas pisadas , nesta liberdade de ser, no refúgio da minha consciência... Reconheço novos conhecimentos em longas estreitas estradas dum fim inatingível, envolvendo artérias de sangue e pensamento, riscadas pelo horizonte, arriscando esperanças, desbravando o futuro... Manuel J.P.Neves
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REPARA Para e repara, fecha os olhos e abre a alma, solta o corpo e acorda, adormecendo... Para o tempo, repara que a noite, ainda criança, percorre a rua dos sonhos, das ânsias, vontades , ideais, esperanças iluminadas, nesta paz em que me quedo, desta sombra alastrando os sentimentos. Para e repara que não somos apenas nós, nem os outros, nem os mais e mais que ainda virão e que tanto ainda teremos a aprender... Para nem que seja um momento e repara que há qualquer coisa mais, que vai para além de nós e que nos obriga a acordar de novo para o mundo, em cada noite que cai... em cada dia que se levanta... Para e repara que esta vida são três dias; ontem, hoje e amanhã... E que o mais importante está aqui no agora, ao arrebatares da vida a tua própria vida, arrancada do útero da terra, semeada no vento... Vida vivida, lívida e livre. Para e repara dentro de ti. Manuel J.P.Neves
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ROMANTISMO Há alguma coisa que fica nua despida e desprotegida quando me chamam de romântico... Como se de repente me sentisse violado no mais secreto dos sentidos, neste ínfimo intimo, onde desajeitadamente me escondo pelas algibeiras da minha sexualidade... Porque assim me definem e assim eu sorrio, qual príncipe ou Romeu, naquele outro papel, dum espelho moldado por entes e mentiras de cada uma das minhas fantasias... Há alguma coisa que desponta, no fundo de mim, quando me falam de romantismo, cegando-me pelo brilho dum carinho, duma mão aberta, dum afago, dum milagre de amor... Há alguma coisa... que sempre fica por dizer, quando fugimos da realidade crua, camuflados por falsas aparências dum romantismo que nunca foi nem nunca será aquilo que sou. Manuel J.P.Neves
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