Ah, excitante presença do teu olhar
Alta temperatura no precipício...
Como pensa um recém nascido cancro
Tão curioso o passatempo de pensar
Prosa Poética Os espíritos que dançam dentro de mim. Sonhar e tanto, quase místicas presenças de antes, como se todos se tivessem reunido no meu cérebro para falar ou descarregar insucessos e sucessos. Corpos de antigamente que vão saltando de lugar em lugar ante da presença em que sou eu próprio o transporte quase como público desses espíritos malfeitores, bem feitores e amargurados. Geniais corsários da palavra, mestres do engano e do disfarce, camaradas da sinceridade alheia. Certa noite, como cheiro de uma presença que morreu, (ou imaginei que morreu) carreguei o peso da tocha e a chama do inferno de recordar, crepúsculo imaginativo em forma de cão sereno, como controlo metafísico de algo passageiro entre nomes que ficaram, ou nome que prevalece... Vão surgindo um a um os espíritos nas prateleiras do pensamento, vão deixando o seu rasto de mágoa ou alegria dentro de um depois de humano, e eu quase como pára-raios imaginativo que sustem os seus relâmpagos invisíveis vou suspirando por mais, pela carícia além sono. Vem que sei quem és, sei algo de ti e de vós... Vem que eu até já te vi antes. Vem para o maior dos hipnotismos urbanos. Vem cambalear. Vem vibrar ao som da mais suave serenata silenciosa. Vem sentir o chão desaparecer de baixo das plantas ambíguas dos pés. Vem correr no campo repousado dos espíritos e das artes misteriosas... e contudo não sei quem és, não te conheço. Nebulosa vertical e fúria retrospectiva de corpos celestes em gelo, guarda-se o plancton da nossa efémera existência em oceanos repletos de nada e de tudo além pensar. Nos meus sonhos além criticar fui escolhendo conhecimentos e formas como no escuro esporádico se foram formando caras sátiras e feições de injustiça repetitiva. Ó senhor dos céus mitológicos, nos rochedos onde se escava o santuário perdido e a nova forma do cálice de madeira onde se abusa de tantas oferendas. Pois te digo no vácuo se aproxima um meteóro singular derretendo o seu núcleo como lágrimas de milhões de anos, todo o universo nos escuta e chora lamentando o prejuízo maior do gigante azul que desespera. A cria azedou. O enxame de vespas e abelhas assassinas municía uma catástrofe e nós a sós ante a memória da mentira em que nos envolveram, ante o ultimo desejo das formas transparentes dos céus que se entristecem e se unem. Porque seremos nós o segredo escondido!? Porque seremos nós o desejo mais antigo!? Talvez o fruto reencontrado de meio cérebro soturno onde um móvel estático de destinos cruzados onde todas as gavetas se abrem e prateleiras criam luz aflitas... Seremos nós quem sentimos? Seremos nós o ouvido do universo que escuta a matéria? Seremos nós o início ou o fim da primavera? Vem sem medo!!! Solta-te da gravidade terrestre, lá te espero na sétima lua da absolvição e do desejo consumista, na cratera dos espíritos que dançam onde o jogo que jogam é mais antigo que o próprio ouvido do universo, e onde o satélite natural da antiguidade prevalece. Fernando Régio.
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Ah, excitante presença do teu olhar... Ah, excitante presença do teu olhar Que não olho mas atento Com a forma estranha de te amar Como a presença instintiva em mim como vento. Escrevo um prefácio para uma nossa história Doce Gopis que me rodeias neste monte Onde o som da minha prece na memória Bate-me como um filme surreal de fronte. Ah, sentimento desavindo e precoce Atinges-me como acordado sonhando No sozinho de meu coração, realidade fosse! E por agora essa fantasia farelada Da minha alma como pó brando Me acalma esta solidão malfadada. 1997 Vicente Lemos. Nos pirinéus espanhois.
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Alta temperatura no precipício... Alta temperatura no precipício Corrida de amigos, calmas decentes Dissolvida virtude no hospício Arbitrária presença, os doentes. Anda, vem beber do cálice Suave gente que embriaga Como toda a palavra apaga O propósito de uma velhice. Remoinho interno e passageiro Culpa de não ter culpa de nada Covardemente sentado no carreiro Ah, humanidade. Ah, paixão encravada. Vicente Lemos. 02/abril/2000 no terreiro do paço.
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Ao meu pequeno King. Meu murmúrio é um sorriso, Um sorriso que te lanço no escuro. Tão tenro subtil e simples, Encontras as páginas fúteis do meu jornal, Trazes-me um olhar arrependido, Rebolas por uma festa, baloiçando No teu baloiço de virtudes. Teu murmúrio é um sorriso Latindo pelo toque da minha mão carente. Meu pequeno cão, Com a embriagues da tua presença humilde, Mostras-me vivo ainda Pudera ser para sempre... Nascido a 4/1987 Falecido a 16/12/1999 Vicente Lemos
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Como pensa um recém nascido cancro. O poeta possilga O instrumento necrófago Engrenagem de cevada, a praga De cidades esgotadas, o mago. Rastilho de pólvora seca O cancerígeno epicentro Ceptro partido, o meialeca Pornograficamente restrito por dentro. O submisso e estéril na matilha O génio malévolo, uma pilha De nervos cegos, ó enorme pessimista. Espinho pensante e torto Ricochete no betão absorto Quase mentiroso, chorão, o sonhador cripta. 12/abril/2000 Vicente Lemos.
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Congelar o tempo. Palavras que te escrevo Nesta tarde recolhida, que passa, Como passam as palavras que escrevo Nada fica. E mesmo agora que já passou, Quem quereria congelar o tempo? Eu quereria congelar o tempo E parar para todo o sempre nesta linha Com estas palavras que escrevo Nesta tarde recolhida pela minha musa Numa ode eterna da vida... Quem não gostaria De se congelar num poema eterno... Vicente Lemos 95
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Estrela Ó doce voz feminina Que não oiço mas canta; No êxtase da campa, Nuvem de fumo em forma de menina. Pela perda do sacerdote Nas cobardias mais profundas. Nos esgotos do pensamento escondidas As mãos do mestre e o seu dote. Uma viragem mais saudável. Múmia insubstituível Na pirâmide do norte. Seguindo uma inexistente voz como a uma estrela Que não brilha perto da cancela Para a inevitável morte. Vicente Lemos 99 |
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Num céu algures Num céu algures O deus postiço navega Numa caravela de fósforos entrega A solução aquosa dos sofredores. Que choram olhando o céu Azul pintado de nuvens Alberga o santo esquivo no véu Um berço irreal, duas mães. A cor ludibria o sofredor Na carcaça de um ardor Bebendo leite maternal. Ah, senhor das exclamações Das escadas, dos corrimões, das embarcações No alto de um templo ocasional Vicente Lemos 98 |
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O canto da alma. Canto a alma, Canto a dor em que me sente a alma. Ainda bem sejas Ó mundo meu conhecido, Abençoado em teus cânticos de pássaros ou grilos. Planeta-Família e nação global. Canto-te como flor submissa do sol, És Alma de criança, querer de mulher. És beleza nos lagos, Ó divina no Olimpo. Tu, ó mãe das mães, fecunda e amante, Canto-te a alma com corpo de mulher, Canto-te o coração com pulso de vida... Ó Nin, deusa mãe do horizonte azul celeste... Vicente Lemos 93 |
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Oração de domingo Ah, entro na igreja como um alarve Tinha fome de religião Turvas virtudes enxaguam-me a mente... Estendo a mão ao vulto fúnebre Recebo partes de cristo como refeição E sangue carrascalão para condimentar a festa. Ao som do apregoar da religião pelo senhor padre Embebedo-me de teologia E crio fé com vinho. Ah, iluminadas manhãs saloias de domingo.
Vicente Lemos. 99
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Orquestra de serrotes E em silêncio fui avistando o rés-do-chão Os corredores vermelhos de insurreição Pilhagens de corpos com o odor de enxofre no ar Tochas que queimam como incenso de vida Esqueletos de corvos planam o topo da fogueira As valquírias dançam em redor das chamas Os condenados afogam-se num castigo de cerveja Sempre entre a insurdessedora cavalgada De uma orquestra de serrotes. Vicente Lemos. 98 |
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Portal da Inocência O ilustre frustrado pensa na vida. Que revolta própria semeia-se por momentos na ingratidão dos segundos, (Como és ingrato tempo revoltante). Que revolta nessa palidez amargurada pela dor tão certa da gilete Cortando a cara do melancólico. Doce romance (vida) mais o vicio de não a querer. É surdo o espelho que não responde ás imagens, Pudesse ele fazê-lo e a critica já não faria sentido. Foste fonte de figuras na minha mente, por momentos Esbateu-se o enamorado no pensamento de gente. Foste tu nessas escadas para quem o portal da inocência se abriu... Queria ser inocente sem este entulho cravado em mim, chamado homem. Queria ser simples para não cheirar a podridão que me rodeia, Queria estar nessas escadas e como tu pensar um mundo altivo, Não queria ter esta noção de que a mentira é a verdade desta raça, Desta carcaça bolorenta emergente da sua estupidez patética, Num berlinde minúsculo, No jogo do espaço. Como és ingrata nessas escadas e eu A tua aversão escondida. Que valha o silêncio do espelho, guardando o segredo destas lágrimas Que minha alma jamais deixará brotar. Já nada consome ou alegra, A lamuria do lustre é-me tão familiar como as borbulhas que me marcam os anos, Com o reflexo da solidão nas escadas, No espelho dos caminhos errados. Queria ser inocente, Para não pensar na Amazónia, Nas crianças enjauladas, queria ser inocente Para pensar que ninguém me engana (Oh bem "intencionadas" instituições). Espelho meu nessas escadas, de relance fomos um só, Nesse olhar que de repente, por entre mundos paralelos, Por entre confusões, entre sons empenhados de aves, Soprou-me ao ouvido: " Oferece-te agora a serenidade para aceitar o que não podes mudar..."
Vicente Lemos 97
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Taça dourada Fonte do rio que transporta a cesta Símbolo da alegria nestes sons febris O choro da criança no mundo dos sentidos O rasto de magia negra no corpo aquecido A serenidade restante de á pouco ter nascido Condenado á nascença em águas selvagens Os senhores intocáveis engolem champanhe por fim A morte do primogénito na rocha milenar É celebrada em taça dourada. 08/01/1998 Vicente Lemos
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Tão curioso o passatempo de pensar... Tão curioso o passatempo de pensar, As formas transparentes que nos contradizem, sempre. Cada um no seu escuro virtuoso é gente. Deve-se esquecer por momentos Que o tempo passa. As formas divinas do pensamento, Que personificam a imaginação, Como o sonho real da solidão. E a volúpia da mente Contradiz-se sempre com o resto O resto que não somos nós. Vicente Lemos 96
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Vento Ah, será o vento da minha imaginação Homenagem prosaica E vulto, de morte? Opaco como o momento, Tendencioso como a vida? Ah, vento inconstante e irreal Crepúsculo em minha mente, Volátil em seu incolor movimento. Crosta de ferida, seca, como eu. Suave brisa oblívia, da imaginação de quem se sente Encrostada, sem nexo, Com pus na alma. Que se ande para a frente, Como para traz, Que se perde sempre, o sentido incapaz, De o segurar, de o compreender. Ah, e o sonho? Fictícia imagem De quem vive e ama. Paralelo de realidade Paradoxo da ficção. Vento, sopras impenetrável. Porque a terra (tua mãe), não desespera, Não sofre desenganada Nem das tentações, ambiguidades De quem vive nela. E seja então o vento da minha imaginação Homenagem florida de todos, Da vida. E eu mera imagem fictícia Nele reflectida. Vicente Lemos 92
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Vulgaridades de outrora. A tristeza cai sobre mim Como um vicio, Como um fardo pesado de uma vida Rubricando sua melancolia, Em silêncio. Pesam-me os tempos que não vivi, Pesam-me os anos na memória, Sou cobarde rendido ao cair da noite E tudo me cai como um vicio, Mesmo as tristezas que não vivi. Administro insano, os ponteiros do relógio Imbecilmente tentando controlar o tempo, Psicose de dois mundos. E até mesmo as loucuras que não vivi Caiem sobre mim como um vicio. Pouco me importa se o tempo passa O tempo é sempre o mesmo, Mesmo que os números se adiantem, Ao lento passo da vida... Uma chama que se extingue, Um sopro simbólico que demora. O fundo de uma garrafa vazia Cai sobre mim, suplicando Por uma embriagues eterna. Talvez assim me deleite no sonho que não vivi. Pesam-me os lugares que nunca vi, Pesa-me o olhar tardio sem história, Pesa-me uma rocha celeste sem glória, E a alma que se partiu. Pesa-me o tempo agora, Um riso viciado que nunca se ouviu, No corredor do destino. Vulgaridades de outrora, Vulgaridades de outrora, um eco na mente De alguém que reflectiu... 92 Vicente Lemos |
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