Perseus 1

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Ah, excitante presença do teu olhar

Alta temperatura no precipício...

Ao meu pequeno King.  

Como pensa um recém nascido cancro

Congelar o tempo

Estrela

Num céu algures

O canto da alma

Oração de Domingo

Orquestra de serrotes

Portal da inocência

Prosa poética

Taça Dourada

Tão curioso o passatempo de pensar

Vento

Vulgaridades de outrora

 

 

Prosa Poética
 
Os espíritos que dançam dentro de mim. Sonhar e tanto,
quase místicas presenças de antes, como se todos se tivessem
reunido no meu cérebro para falar ou descarregar insucessos
e sucessos. Corpos de antigamente que vão saltando de lugar 
em lugar ante da presença em que sou eu próprio o transporte
quase como público desses espíritos malfeitores, bem feitores
e amargurados. Geniais corsários da palavra, mestres do engano
e do disfarce, camaradas da sinceridade alheia.
Certa noite, como cheiro de uma presença que morreu,
(ou imaginei que morreu) carreguei o peso da tocha e a chama
do inferno de recordar, crepúsculo imaginativo em forma de cão
sereno, como controlo metafísico de algo passageiro entre nomes
que ficaram, ou nome que prevalece...
Vão surgindo um a um os espíritos nas prateleiras do pensamento,
vão deixando o seu rasto de mágoa ou alegria dentro de um depois
de humano, e eu quase como pára-raios imaginativo que sustem os
seus relâmpagos invisíveis vou suspirando por mais, pela carícia
além sono.
Vem que sei quem és, sei algo de ti e de vós...

Vem que eu até já te vi antes. Vem para o maior dos hipnotismos
urbanos. Vem cambalear. Vem vibrar ao som da mais suave serenata
silenciosa. Vem sentir o chão desaparecer de baixo das plantas ambíguas
dos pés. Vem correr no campo repousado dos espíritos e das artes
misteriosas... e contudo não sei quem és, não te conheço.

Nebulosa vertical e fúria retrospectiva de corpos celestes em gelo,
guarda-se o plancton da nossa efémera existência em oceanos
repletos de nada e de tudo além pensar. Nos meus sonhos além 
criticar fui escolhendo conhecimentos e formas como no escuro 
esporádico se foram formando caras sátiras e feições de injustiça 
repetitiva. 

Ó senhor dos céus mitológicos, nos rochedos onde se escava o 
santuário perdido e a nova forma do cálice de madeira onde se 
abusa de tantas oferendas.

Pois te digo no vácuo se aproxima um meteóro singular derretendo 
o seu núcleo como lágrimas de milhões de anos, todo o universo 
nos escuta e chora lamentando o prejuízo maior do gigante azul que
desespera.

A cria azedou. O enxame de vespas e abelhas assassinas municía 
uma catástrofe e nós a sós ante a memória da mentira em que nos 
envolveram, ante o ultimo desejo das formas transparentes dos céus 
que se entristecem e se unem. Porque seremos nós o segredo escondido!?

Porque seremos nós o desejo mais antigo!? Talvez o fruto reencontrado 
de meio cérebro soturno onde um móvel estático de destinos cruzados 
onde todas as gavetas se abrem e prateleiras criam luz aflitas... Seremos 
nós quem sentimos? Seremos nós o ouvido do universo que escuta 
a matéria? Seremos nós o início ou o fim da primavera?

Vem sem medo!!! Solta-te da gravidade terrestre, lá te espero na 
sétima lua da absolvição e do desejo consumista, na cratera dos 
espíritos que dançam onde o jogo que jogam é mais antigo que o 
próprio ouvido do universo, e onde o satélite natural da antiguidade 
prevalece. 
 
Fernando Régio. 

 

 

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Ah, excitante presença do teu olhar...
 
Ah, excitante presença do teu olhar
Que não olho mas atento
Com a forma estranha de te amar
Como a presença instintiva em mim como vento.
 
Escrevo um prefácio para uma nossa história
Doce Gopis que me rodeias neste monte
Onde o som da minha prece na memória
Bate-me como um filme surreal de fronte.
 
Ah, sentimento desavindo e precoce
Atinges-me como acordado sonhando
No sozinho de meu coração, realidade fosse!
 
E por agora essa fantasia farelada
Da minha alma como pó brando
Me acalma esta solidão malfadada.
1997 Vicente Lemos. Nos pirinéus espanhois.
 

 

 

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Alta temperatura no precipício...
 
Alta temperatura no precipício
Corrida de amigos, calmas decentes
Dissolvida virtude no hospício
Arbitrária presença, os doentes.
 
Anda, vem beber do cálice
Suave gente que embriaga
Como toda a palavra apaga
O propósito de uma velhice.
 
Remoinho interno e passageiro
Culpa de não ter culpa de nada
Covardemente sentado no carreiro
Ah, humanidade. Ah, paixão encravada. 
 
Vicente Lemos. 02/abril/2000 no terreiro do paço.

 

 

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Ao meu pequeno King.  
 
Meu murmúrio é um sorriso,
Um sorriso que te lanço no escuro.
Tão tenro subtil e simples,
Encontras as páginas fúteis do meu jornal,
Trazes-me um olhar arrependido,
Rebolas por uma festa, baloiçando
No teu baloiço de virtudes.
Teu murmúrio é um sorriso
Latindo pelo toque da minha mão carente.
Meu pequeno cão,
Com a embriagues da tua presença humilde,
Mostras-me vivo ainda
Pudera ser para sempre...

Nascido a 4/1987
Falecido a 16/12/1999

Vicente Lemos
 

 

 

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Como pensa um recém nascido cancro.
 
O poeta possilga
O instrumento necrófago
Engrenagem de cevada, a praga
De cidades esgotadas, o mago.
 
Rastilho de pólvora seca
O cancerígeno epicentro
Ceptro partido, o meialeca
Pornograficamente restrito por dentro.
 
O submisso e estéril na matilha
O génio malévolo, uma pilha
De nervos cegos, ó enorme pessimista.
 
Espinho pensante e torto
Ricochete no betão absorto
Quase mentiroso, chorão, o sonhador cripta.

12/abril/2000 Vicente Lemos.

 

 

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Congelar o tempo. 
 
Palavras que te escrevo
Nesta tarde recolhida, que passa,
Como passam as palavras que escrevo
Nada fica.
E mesmo agora que já passou,
Quem quereria congelar o tempo?
Eu quereria congelar o tempo
E parar para todo o sempre nesta linha
Com estas palavras que escrevo
Nesta tarde recolhida pela minha musa
Numa ode eterna da vida...
Quem não gostaria
De se congelar num poema eterno...
Vicente Lemos 95

 

 

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Estrela
 
Ó doce voz feminina
Que não oiço mas canta;
No êxtase da campa,
Nuvem de fumo em forma de menina.
 
Pela perda do sacerdote
Nas cobardias mais profundas.
Nos esgotos do pensamento escondidas
As mãos do mestre e o seu dote.
 
Uma viragem mais saudável.
Múmia insubstituível
Na pirâmide do norte.
 
Seguindo uma inexistente voz como a uma estrela
Que não brilha perto da cancela
Para a inevitável morte.

Vicente Lemos 99
 

 

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Num céu algures
 
Num céu algures
O deus postiço navega
Numa caravela de fósforos entrega
A solução aquosa dos sofredores.
 
Que choram olhando o céu
Azul pintado de nuvens
Alberga o santo esquivo no véu
Um berço irreal, duas mães.
 
A cor ludibria o sofredor
Na carcaça de um ardor
Bebendo leite maternal.
 
Ah, senhor das exclamações
Das escadas, dos corrimões, das embarcações
No alto de um templo ocasional

 Vicente Lemos 98
 

 

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O canto da alma.
Canto a alma,
Canto a dor em que me sente a alma.
Ainda bem sejas 
Ó mundo meu conhecido,
Abençoado em teus cânticos de pássaros ou grilos.
Planeta-Família e nação global.
Canto-te como flor submissa do sol,
És Alma de criança, querer de mulher.
És beleza nos lagos,
Ó divina no Olimpo.
Tu, ó mãe das mães, fecunda e amante,
Canto-te a alma com corpo de mulher,
Canto-te o coração com pulso de vida...
Ó Nin, deusa mãe do horizonte azul celeste...
Vicente Lemos 93
 

 

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Oração de domingo
Ah, entro na igreja como um alarve
Tinha fome de religião
Turvas virtudes enxaguam-me a mente...
Estendo a mão ao vulto fúnebre
Recebo partes de cristo como refeição
E sangue carrascalão para condimentar a festa.
Ao som do apregoar da religião pelo senhor padre
Embebedo-me de teologia
E crio fé com vinho.
Ah, iluminadas manhãs saloias de domingo.

            Vicente Lemos. 99

 

 

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Orquestra de serrotes
E em silêncio fui avistando o rés-do-chão
Os corredores vermelhos de insurreição
Pilhagens de corpos com o odor de enxofre no ar
Tochas que queimam como incenso de vida
Esqueletos de corvos planam o topo da fogueira
As valquírias dançam em redor das chamas
Os condenados afogam-se num castigo de cerveja
Sempre entre a insurdessedora cavalgada
De uma orquestra de serrotes.
Vicente Lemos. 98

 

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Portal da Inocência
 
O ilustre frustrado pensa na vida.
Que revolta própria semeia-se por momentos na ingratidão dos segundos,
(Como és ingrato tempo revoltante).
Que revolta nessa palidez amargurada pela dor tão certa da gilete
Cortando a cara do melancólico.
Doce romance (vida) mais o vicio de não a querer.
É surdo o espelho que não responde ás imagens,
Pudesse ele fazê-lo e a critica já não faria sentido.

Foste fonte de figuras na minha mente, por momentos
Esbateu-se o enamorado no pensamento de gente.
Foste tu nessas escadas para quem o portal da inocência se abriu...
 
Queria ser inocente sem este entulho cravado em mim, chamado homem.
Queria ser simples para não cheirar a podridão que me rodeia,
Queria estar nessas escadas e como tu pensar um mundo altivo,
Não queria ter esta noção de que a mentira é a verdade desta raça,
Desta carcaça bolorenta emergente da sua estupidez patética,
Num berlinde minúsculo,
No jogo do espaço.
 
Como és ingrata nessas escadas e eu
A tua aversão escondida.
Que valha o silêncio do espelho, guardando o segredo destas lágrimas
Que minha alma jamais deixará brotar.
 
Já nada consome ou alegra,
A lamuria do lustre é-me tão familiar como as borbulhas que me marcam os
anos, Com o reflexo da solidão nas escadas,
No espelho dos caminhos errados.
 
Queria ser inocente,
Para não pensar na Amazónia,
Nas crianças enjauladas, queria ser inocente
Para pensar que ninguém me engana (Oh bem "intencionadas" instituições).
Espelho meu nessas escadas, de relance fomos um só,
Nesse olhar que de repente, por entre mundos paralelos,
Por entre confusões, entre sons empenhados de aves,
Soprou-me ao ouvido:
" Oferece-te agora a serenidade para aceitar o que não podes mudar..."

Vicente Lemos 97
                           

 

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Taça dourada
 
Fonte do rio que transporta a cesta
Símbolo da alegria nestes sons febris
O choro da criança no mundo dos sentidos
O rasto de magia negra no corpo aquecido
A serenidade restante de á pouco ter nascido
Condenado á nascença em águas selvagens
Os senhores intocáveis engolem champanhe por fim
A morte do primogénito na rocha milenar
É celebrada em taça dourada.
08/01/1998
Vicente Lemos

 

 

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Tão curioso o passatempo de pensar...
 
Tão curioso o passatempo de pensar,
As formas transparentes que nos contradizem, sempre.
 
Cada um no seu escuro virtuoso é gente.
 
Deve-se esquecer por momentos
Que o tempo passa.
 
As formas divinas do pensamento,
Que personificam a imaginação,
Como o sonho real da solidão.
 
E a volúpia da mente
Contradiz-se sempre com o resto
O resto que não somos nós.
Vicente Lemos 96
 

 

 

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Vento
 
Ah, será o vento da minha imaginação
Homenagem prosaica
E vulto, de morte?
Opaco como o momento,
Tendencioso como a vida?
Ah, vento inconstante e irreal
Crepúsculo em minha mente,
Volátil em seu incolor movimento.
Crosta de ferida, seca, como eu.
Suave brisa oblívia, da imaginação de quem se sente
Encrostada, sem nexo,
Com pus na alma.
Que se ande para a frente,
Como para traz,
Que se perde sempre, o sentido incapaz,
De o segurar, de o compreender.
Ah, e o sonho?
Fictícia imagem
De quem vive e ama.
Paralelo de realidade
Paradoxo da ficção.
Vento, sopras impenetrável.
Porque a terra (tua mãe), não desespera,
Não sofre desenganada 
Nem das tentações, ambiguidades
De quem vive nela.
E seja então o vento da minha imaginação
Homenagem florida de todos,
Da vida.
E eu mera imagem fictícia
Nele reflectida.
Vicente Lemos 92

 

 

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Vulgaridades de outrora.
 
A tristeza cai sobre mim
Como um vicio,
Como um fardo pesado de uma vida
Rubricando sua melancolia,
Em silêncio.
 
Pesam-me os tempos que não vivi,
Pesam-me os anos na memória,
Sou cobarde rendido ao cair da noite
E tudo me cai como um vicio,
Mesmo as tristezas que não vivi.
 
Administro insano, os ponteiros do relógio
Imbecilmente tentando controlar o tempo,
Psicose de dois mundos.
 
E até mesmo as loucuras que não vivi
Caiem sobre mim como um vicio.
 
Pouco me importa se o tempo passa
O tempo é sempre o mesmo,
Mesmo que os números se adiantem,
Ao lento passo da vida...
Uma chama que se extingue,
Um sopro simbólico que demora.
O fundo de uma garrafa vazia
Cai sobre mim, suplicando
Por uma embriagues eterna.
Talvez assim me deleite no sonho que não vivi.
 
Pesam-me os lugares que nunca vi,
Pesa-me o olhar tardio sem história,
Pesa-me uma rocha celeste sem glória,
E a alma que se partiu.
Pesa-me o tempo agora,
Um riso viciado que nunca se ouviu,
No corredor do destino.
Vulgaridades de outrora,
Vulgaridades de outrora, um eco na mente
De alguém que reflectiu...

92 Vicente Lemos

 

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