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A carvão A mão viaja, fluída, no papel branco e rugoso. E o traço toma corpo, beija a ruga, o perfil o riso, rebuscando na memória - alteroso - a recordação, imagem, rosto. Tudo é subtil, fugaz, brumoso. O vento no branco fosco, deixa um rasto de ilusão, suspiro. Dedos em dor, ilusoriamente segurando o lápis grosso inventam o teu rosto, de memória, só de cor. A branco e preto, nasce do nada a testa, a fonte, que um dedo esbate longamente na carícia. Feição, pálpebra, um olho bebendo largamente o horizonte Como te vejo e te recrio e a esse olhar - tão lento na folha branca a crescer, ao som do meu carvão - a lançar raízes à flor deste branco e vago pensamento. Rosemb 22.04.2000 A.D. |
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ALMA GÉMEA Amigo, irmão, amado... Que procuro desde sempre, para sempre Em todo o lado... partilhas desta busca ? Deténs-te como eu, insone, Na beira das manhãs, no perfil das madrugadas ? Amigo, irmão, amado... Que sombra vã te vela o rosto, Que diáfano véu te separa do meu mundo Com ternura e com desgosto ? Segues - como eu faço - um sol agonizante Vermelho e mudo, esperando em vão na distância encontrar a minha imagem... (Como eu busco a tua à flor das tardes, na aragem...? Amigo, irmão, amado... Na franja anil do horizonte adivinho o teu olhar Que existe em fogo azul no meu peito ateado; Sorrindo em espuma e mar, em terra e ar, Amigo, irmão, amado... De ti imagino os olhos... Não no tom, na forma ou no tamanho, Tampouco na expressão. Nem deles quero saber a cor - se azul, se verde ou se castanho - Apenas que no fundo deles A minha imagem é devolvida pura, Sem mácula ... Só carinho, só ternura... Amigo, irmão, amado... Longos, teus dedos adivinho na demora da carícia... Suaves e firmes na minha pele os imagino. Dos cabelos, conheço as marcas nos meus dedos ansiosos; No meu rosto a queimadura rubra do teu beijo imaginado; No meu peito a chaga negra Do desejo para sempre, eternamente, suavemente adiado. Amigo, irmão, amado... Onde brilha essa estrela neste mundo? Onde ir, onde buscar, Que caminhos percorrer , Que pedaços de alma destroçar ? Amigo, irmão, amado... Vida após vida no meu peito demorado, Quem és tu, (ou eu) ? Como apartar O que existiu uno? Indivisivelmente reunido Eternamente separado... Rosemb 14.05.1997 A.D. |
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ALMA GÉMEA II Quem és tu Que alimentas os meus olhos Em manhãs alvoroçadas ? Quem és tu, Rio demente, que alimentas O meu corpo, os meus sentidos Pelo chão das madrugadas? Quem és tu, Mutação da minha calma, Que me gritas aos ouvidos, Que te prendes nos meus dedos, E que espalhas teus segredos À flor da minha alma? Quem és tu, Que me enterneces Quando me beijas o rosto? Quem és tu, Que me enlouqueces Quando me beijas a boca, Quando me fincas os dentes, E semeias fogo posto E me deixas ficar louca? Quem és tu, Que mansamente, Vais estendendo a tua mão, E que me tocas os seios E que me soltas os freios À imaginação? Quem és tu Que me enlaças Nos teus braços de saudade? Quem és tu Que me trespassas Com um grito de verdade? Murmuras ao meu ouvido, E repousas no meu corpo, O teu corpo e os teus sentidos, essa paz, esse carinho Novamente renascidos? Alma gémea de loucura, De desejo, de ternura Uma vez mais repartidos? Abro os olhos e desperto. Lentamente reconheço... Invenção dos meus sentidos! . Rosemb 13.04.1997
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Amizade O que é a amizade? Vou dizer-te o que penso, Meu amigo, Com verdade. Amizade, para mim, É uma questão de unidade, Em que tu és parte dela E eu, a outra metade. Rosemb 21.09.1995
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BREVES I. Enleio Trançou-me os cabelos com ausência Velou-me os olhos com águas de cascata - o amor. Que me bebe e me respira. Miragem - que me vive e que me mata. II. Rosa breve Rosa breve Luminar, estrela adivinhada Rosa breve, devastada. Breve rosa inviolada. De tão breve, rosa Derrotada. III. Livro Peguei no livro, sopesando, na mão tímida, as palavras ocultas, emoções. Só o papel respondeu, no peso vulgar de Lineu. Rosemb 11.12.1998 A.D.
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Câmara escura Na escuridão se faz luz, e a imagem, impressa, se revela, primeiro em suaves tons nublados. Depois, sem pressa , cada vez mais firmes, Sob o espanto dos olhos deslumbrados. Os meus dedos firmes e seguros, Executam passes de magia. Ampliam, mudam em claros os tons escuros, da escura noite fazem claro dia. E da firme precisão deste trabalho, Nasce o tom, o contraste e a textura. E eu saboreio, deleitada, o suave encanto De trabalhar na câmara escura. Rosemb 21.03.1989 A.D.
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Chama Chama. Fogueira que arde Voz que grita. Chama. Alguém que parte Alguém que fica. Chama que arde Voz queimando Um fim de tarde. Chama. Chama por mim. Queima Uma rosa, amor-perfeito. Chama. Coração que arde Dentro do meu peito. Rosemb 02.04.1985 A.D.
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Despertar A tua imagem Era gaivota, Era rocha, Era pardal. Era pegada Na areia De um imenso areal. Era castelo no ar. Um sereno despertar. Rosemb 22.07.1998
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Devaneio . Na transparência fulva - labareda acesa - Um outro fogo se levanta, imenso; Outro fogo aceso e quente que arremeda Templos de adoração e de incenso. . Acendo nesta chama o nome teu, e nele acendo uma cega claridade - a certeza que este amor rubro e ateu é imolado no altar da dor e da saudade. . Ás vezes era bom que tu viesses devagar por entre folhas e horizontes, onde tu próprio sobre a água te inclinasses, . Sobre a luz dos meus braços deslumbrados, Por dentro dos meus olhos como fontes, Bebendo dos meus sonhos desnudados. . Rosemb 22.01.2000 A.D.
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Diário I Quando a solidão É transparência negra, E o ar cálido Da mansa noite Sussurra ao rio pela muralha fora, A outra banda é sinfonia Jubilosa, De mil cores, mil sóis, Mil estrelas esplendorosas, Vomitando fogo, em luz Pelas ondas vagarosas. Aqui e ali Um barco singra a noite A caminho do levante, Cortando, sereno, As águas sob a ponte, Que estremece No ar mormaço E estende, serena e hirta, Duma ponta à outra, Soberano abraço. Lá ao fundo, Do outro lado, O último cacilheiro Inicia A derradeira travessia. E vem um ribombar Penoso Lá do alto da ponte Ensolarada De faróis tardios, Fictício colar, Volta minhota de néon No pescoço cálido do rio. Mas na mansa noite, Meus olhos estendem-se Para lá do horizonte. Meus dedos crispados Num volante aflito De imobilidade Agonizante. Meu corpo gelado e hirto, É estátua de sal Na maresia, Que vem de longe Com cheiro a mar E a Búgio. Percorro Dentro de mim Ruas desertas, de saudade. E cada lufada de ar Que respiro, Tem gosto de vida contrafeito, E é colina Que se anima no meu peito. As palavras rasgam a noite, Punhais incandescentes Que me trespassam, Indiferentes, E se perderem depois Para lá do rio, Para lá de mim, E fogem Num rodopio sem fim, Turbilhão Que me arrasta os olhos Grossos de indiferença, Secos, De gelada surpresa. Suspensos, parados, Como faz a cobra à sua presa. E o meu espírito Congela em mil gotas de rio, Labaredas de luz A balouçar no ar, Ao som do assobio Dolente Duma sirene de navio Que passou a barra E se faz ao mar. Tudo parou. E tu também paraste De falar. Há uma interrogação No ar quente e frio Que nos separa. Ao mesmo tempo Um desafio Que ampara A tua decisão. Falo agora eu, E as palavras parecem arrastar-se como larvas, perderem-se, fugirem p'la terra adentro. Escorrerem entre a pedra e o cimento E não deixarem eco, Nem marca Da fugaz lucidez Do pensamento. Saí então para as ruas Da cidade. Fugi da escuridão Para a claridade. Da noite feérica De simplicidade; Dos prédios velhos, Das calçadas, Do cubismo naif Das fachadas Arfantes de novidade. Voltei então Ao que é chamado lar. Ao costumado cheiro, À dimensão geométrica De um lugar. Á mesa e às cadeiras, Uma torneira Pingando eternidades Em algum lugar. O ranger da cama Em que me sento, Uma janela aberta, Um cortinado a esvoaçar, Desenhando fantasmas de lua Na coberta. O regressar. Aonde, para quê? E sem se notar, Baixinho, Rolaram duas lágrimas. Pôde enfim, chorar. Rosemb 24.06.1983
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Diário II Volta a ligar para mim No intervalo da novela, Com um riso, um olé descuidado, E aquela conversa oca E sem sentido declarado. Volta a esperar-me Ao fundo da escada; Mãos nos bolsos E riso meio traquinas Na boca descarada. Volta a levar-me ao sempre igual Centro Comercial, Beber a bica E um gelado a aquecer A conversa banal. Volta a correr comigo As capelinhas: Mais um fino E umas moelinhas. Vamos procurar a malta No "dois mil"; De conversas engraçadas E pelo meio, Aquele teu olhar subtil, Que sabe descobrir em mim Tanta verdade, Por entre a banalidade Do dia-a-dia sempre igual. Volta a pousar a mão no meu joelho, ou a tocar suavemente o meu cabelo, de volta a casa no meio do trânsito da avenida. Volta a ver as horas no relógio Digital. A sacudir o sono e o cansaço P'la janela Para teres sempre mais um sorriso Doce e natural, Ao olhares para mim, Quase a dormir, Encostada ao vidro frio da janela. Volta a ficar comigo no silêncio Do carro desligado Na praceta, A curtir o "Afterglow" feliz Descoberto por acaso Num disco qualquer Dos Genesis. Volta a caminhar Comigo, Lado a lado. Deixa-me ouvir Os nossos passos solitários No alcatrão molhado. Volta a abrir a porta da entrada, E a dizer uma piada Quando volto atrás Para a deixar fechada. Volta a esperar comigo O elevador velho e empenado. E a dar-me um beijo De despedida Algures, entre o Rés-do-chão e o terceiro andar. Volta a despentear-me o cabelo Antes de sair. E a fechar a porta sem ruído, A sorrir, E a ver-me subir Por entre o gradeado. Volta a deixar-me voltar Para a minha cama Solitária e fria. E a esperar o sono E o nascer do dia. Rosemb 22.04.1985
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Do nada Do nada, Foi de onde surgiu o amor Contigo à proa, navegando velas brancas e singelas que rasgaram as águas do meu peito como gritos pungentes, como insólitos punhais. Do nada Assim, assustado e manso. Um amor de ausência, de sinais na estranha morada do amor: no canto das águas, no poiso dos pardais. Rosemb 04.03.2000 A.D.
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Escrever Que significado oculto transparece - Não nas palavras, no sentido - que ilação ? Subliminar nota que se esquece no momento preciso, apercebido, e logo se solta, fugidia... Engano ? Nada do que escrevo é sólido, tem contorno. Antes se escapa e fenece em pleno voo, Luminescendo, saturado do suborno desta consciência plena, convicta, de nada haver para além da ilusão. Sustendo vagamente a caneta aflita, no suor desta mão angustiada, rabisco traços que sei - e sinto - de antemão Que de tanto querer dizer, não dizem nada ! Rosemb 25.04.1999 A.D. |
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Esta tarde Esta tarde sei que vou escrever uma história triste. O mar está calmo. Das estrelas - delírios ! - não sei. O céu azul insiste em escondê-las, como temendo provocar lágrimas, ou suspiros que daria o mar, e eu com ele. Esta tarde, o ar parou, nem uma brisa corre ! E o meu coração - pássaro desfeito - podia estar em desespero, mas não. Afinal bate surdamente no meu peito. Até ele se calou, e eu com ele. Esta tarde, caiu uma calma densa, sossegada, e na distância há núvens, há gritos, há gaivotas. E uma neblina mansa, tão parada - que não sei se é do mar se é minha - desceu sobre tudo, e eu com ela. Esta tarde, recordo a história de amor que não tivémos infinitamente a arder como quem tece nos lábios, os beijos que não demos. E na distância, o mar estremece, e eu com ele. Esta tarde, Respiro o cheiro da tua pele nas minhas mãos. Recordo dos lençóis a pura claridade que se esvai - por entre anseios vãos e vã saudade, e eu com ela. Esta tarde, é tarde demais para me ausentar deste torpor de tardes quentes. E invento o devaneio de rosas ao postigo, floridas mãos nervosas, lábios como dentes, areias onde arderias, impaciente e eu... contigo. Rosemb 02.04.2000 A.D.
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Estrada Era a noite, O silêncio, A chuva A tua voz, a minha. A dúvida. Era um riso Forçado, ou apenas infundado. Era por fim o beijo louco, Trémulo, tímido, Ou apenas, A saber a pouco. Era um fim No princípio. Era um Olá à despedida. O fim da caminhada. Partida, Nada. Era afinal o nascer da nossa estrada. Rosemb 22.10.1988 |
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Grito Grito! E o meu grito bestial Se levanta À beira das madrugadas, nas franjas rubras dos crepúsculos. E troço da vontade divina, Porque divino É aquilo que os meus olhos vêem Divino É o que as minhas mãos tocam E sentem os meus sentidos! Sim, Só isso é divino. E grito Este grito presente Em cada ser ausente. E troço Do meu medo, E as minhas gargalhadas São os punhais da minha raiva Que rasgam Cada noite ameaçada. E este grito se espalha Pelas madrugadas Em círculos Absurdamente concêntricos, Tocando estradas ocultas, Caminhos por inventar Dentro de mim. Grito! E só este grito silencioso me sossega. Grito! Grito, muda, Para não calar! DEIXEM-ME GRITAR! Rosemb 29.05.1999
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(In)Decisão Aqui, Vejo-me agora, aqui sentada Sorriso distante, Tão serena, no fim de tudo Tão serena e tão cansada! E vejo, Tudo aquilo que por mim passou, Tudo aquilo que acabou, Sem sinal. E quantas vezes foi, Muito mais Do que eu pensava suportar. Mas o sorriso...instalou-se. Não sei se ausente Se doce. Mas ainda assim um mistério Para eu mesma desvendar. Mas no fim, e afinal Continuo a perguntar-me O porquê daquilo que doeu, A razão do tudo o que feriu E eu (nem ninguém) viu... E vejo Os amigos que pensei que fiz (um pouco assustada, sabes?) E talvez, também, magoada com a minha própria incapacidade De ser feliz. E quando penso, No que quero para mim, Em tudo o que quero fazer, E vejo a distância (Essa sim, é real) a doer na ânsia de alcançar ! O peito a ferver, Tudo a fugir, a dançar Sob os meus olhos... Areia entre os meus dedos, A escorrer, Que tento, inutilmente, segurar... E então (como de fora) Vejo o tempo (que passa...) E eu quero partir num voo mais alto, Mais longo, mais distante...! Um voo mais louco, mais livre, Mais brilhante! Mesmo sabendo que o passado Ficará atrás de mim, Dia-a-dia mais distante Cada dia que passar, Mas passado e mais errante... Mas ainda assim, quero partir! Mesmo sabendo que, Não volte aqui. Não volte a sentir o que senti A ver quem me toca o coração, A amizade, A sorrir a quem sorri... Porque eu não tenho casa, nem lugar Não tenho lar. Porque eu sou mais um semeador de estrelas Sonhos quebrados, Eternamente Alinhavados.... Alma vendida por um poente, uma centelha Colorida. Fui eu quem quis? Sou eu que quero, não volto atrás. Serei feliz. Rosemb 03.05.1994
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Inútil interrogação Diz-me Porque tememos as palavras Porque fogem dos meus Os teus olhos, temerosos. (quando temos tanto para dizer...) Diz-me Porque tantas vezes sorrio Para não chorar. Porque tantas vezes parto Quando quero ficar. Diz-me Qual o nosso medo O nosso mito, Qual o segredo Que mesmo em segredo A mim mesma omito. Diz-me De que fugimos, Para onde vamos, Será um caminho Este por onde caminhamos? Diz-me Partilhamos nós A mesma dúvida Será tua também Esta incerteza? Diz-me, Que eu não sei dizer, Porque te espero Quando sei que não vais chegar Porque dói este desejo, No meu sangue a latejar. Rosemb 01.11.1999
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Invento este jardim Invento este jardim como um abrigo, O frágil caule da manhã quebrado Na distancia de um sino, um recado Boda aflita, dominical, distante. E eu, ausente. No tanque, uma carpa suspende na manhã quebrada, uma bolha, expectante. Pretexto. Na minha ausência não há nada. Só a ausência tua arde, inflama E nela ardendo, os estilhaços da manhã Alimentam o fogo dessa chama. Invento este jardim como um abrigo. Estou sozinha - não, não estou - A vida toda está comigo. Rosemb 15.05.2000 A.D. |
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Máquina do tempo Recordação. Ilusões dentro da ilusão, infinito prolongar desse momento. Passado feito presente eternamente. Recordação. Perturbante sensação de movimento. Dentro de ti, O pensamento, É a única máquina do tempo. Rosemb 23.09.1985 ----------- |
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Não me gritem Não me gritem, não me sufoquem as manhãs com declarações oficiais. Nem o ministro, nem o papel selado, nem o sinistro, oficioso, mandato de busca me assusta! Não me gritem que eu não faço! Não pago! Não declaro! Não meto requerimento! Não me ameacem com sanções! Nem com multas, juros de mora. Minutas rabiscadas, burocraticamente alinhavadas! Quero que o fiscal se lixe! Nome da lei é lixo, que não existe.... Não me gritem aos ouvidos! Não me encham os sentidos De papel e tinta! Não vou selar mais A minha vida Nem franquear A minha partida. Vou partir, Clandestina De papéis, de vistos. Quero sair Deste tumulo de palhaços Desmembrados. E beber meu pensamento Num tchim tchim De estilhaços Libertados. Rosemb 21.03.1999 A.D.
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Pontuação É palavra que rola. É o desencontro. O imperceptível confronto de dois seres, com o momento de eternidade perdido, encontrado, suspenso no espaço. É verdade, ou mentira disfarçada de saudade. É o ponto final no meio da frase inacabada. É virgula final mal colocada. No ponto de ruptura, é o sinal que não leva a nada. É loucura. Canção interrompida No refrão da vida. Rosemb 15.11.1985
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Prisão Olho a simetria branca desta casa, sentindo nas paredes, pelo chão, a incerteza e o espanto, uma inesperada solidão. Solidão que me oprime e que me abrasa. Toco a espessura aflita do ar que me rodeia. Cada porta, janela, é uma teia, catacumba, cripta; uma cadeia. Sinto o ferro imaginário nas janelas e torno-me, repentinamente inerte como elas... Sou eu própria a grade que me prende. Sou só eu, a parede que se estende ao redor da minha liberdade. E as paredes comprimem-se em torno de um eixo que sou eu, subindo sempre mais, tapando o céu. Entorpecida, no chão, sou marioneta destroçada, abandonada. Silhueta desvanecida, vagamente adivinhada. Ilusão. Nada. Rosemb 22.10.1985
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Segredo Tenho um segredo. Tenho um segredo que és tu. Como no céu a gaivota, Para todos verem, Voa, E a cada volta Imprime a sua imagem No azul que é seu, Tenho um segredo Que é meu. E o meu segredo tem olhos meigos, Profundos Que sabem ler Bem fundo No fundo do meu ser. Tenho um segredo Que sabe bem. Mas afinal, Segredos, Quem não os tem? Rosemb 04.06.1988
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