Morgaana

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Índice

 

A carvão Alma Gemea Alma Gemea II Amizade
Breves Câmara Escura Chama Despertar
Devaneio Diário I Diário II Do nada
Escrever Esta tarde Estrada Grito
(In) Decisão Unútil Interrogação Invento este Jardim Máquina do Tempo
Não me gritem Pontuação Prisão Segredo

 

 

 

A carvão

A mão viaja, fluída, no papel branco e rugoso.
E o traço toma corpo, beija a ruga, o perfil
o riso, rebuscando na memória - alteroso -
a recordação, imagem, rosto. Tudo é subtil,

fugaz, brumoso. O vento no branco fosco,
deixa um rasto de ilusão, suspiro. Dedos em dor,
ilusoriamente segurando o lápis grosso
inventam o teu rosto, de memória, só de cor. 

A branco e preto, nasce do nada a testa, a fonte,
que um dedo esbate longamente na carícia. Feição,
pálpebra, um olho bebendo largamente o horizonte

Como te vejo e te recrio e a esse olhar - tão lento 
na folha branca a crescer, ao som do meu carvão -
a lançar raízes à flor deste branco e vago pensamento.

Rosemb
22.04.2000 A.D.
 

 

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ALMA GÉMEA

Amigo, irmão, amado...
Que procuro desde sempre, para sempre
Em todo o lado... partilhas desta busca ?
Deténs-te como eu, insone,
Na beira das manhãs, no perfil das madrugadas ?

Amigo, irmão, amado...
Que sombra vã te vela o rosto,
Que diáfano véu te separa do meu mundo
Com ternura e com desgosto ?

Segues - como eu faço - um sol agonizante
Vermelho e mudo, esperando em vão
na distância encontrar a minha imagem...
(Como eu busco a tua à flor das tardes, na aragem...?

Amigo, irmão, amado...
Na franja anil do horizonte adivinho o teu olhar
Que existe em fogo azul no meu peito ateado;
Sorrindo em espuma e mar, em terra e ar,
Amigo, irmão, amado...

De ti imagino os olhos...
Não no tom, na forma ou no tamanho,
Tampouco na expressão.
Nem deles quero saber a cor 
- se azul, se verde ou se castanho -
Apenas que no fundo deles
A minha imagem é devolvida pura,
Sem mácula ...
Só carinho, só ternura...

Amigo, irmão, amado...
Longos, teus dedos adivinho
na demora da carícia...
Suaves e firmes 
na minha pele os imagino.
Dos cabelos, conheço as marcas
nos meus dedos ansiosos;
No meu rosto a queimadura rubra
do teu beijo imaginado;
No meu peito a chaga negra
Do desejo
para sempre, eternamente,
suavemente adiado.

Amigo, irmão, amado...
Onde brilha essa estrela neste mundo?
Onde ir, onde buscar, 
Que caminhos percorrer ,
Que pedaços de alma destroçar ?

Amigo, irmão, amado...
Vida após vida no meu peito demorado,
Quem és tu, (ou eu) ?
Como apartar
O que existiu uno?
Indivisivelmente reunido
Eternamente separado...

Rosemb
14.05.1997 A.D.
 

 

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ALMA GÉMEA II
 
 
Quem és tu
Que alimentas os meus olhos
Em manhãs alvoroçadas ?
Quem és tu,
Rio demente, que alimentas
O meu corpo, os meus sentidos
Pelo chão das madrugadas?
Quem és tu,
Mutação da minha calma,
Que me gritas aos ouvidos,
Que te prendes nos meus dedos,
E que espalhas teus segredos
À flor da minha alma?
Quem és tu,
Que me enterneces
Quando me beijas o rosto?
Quem és tu,
Que me enlouqueces
Quando me beijas a boca,
Quando me fincas os dentes,
E semeias fogo posto
E me deixas ficar louca?
Quem és tu,
Que mansamente, 
Vais estendendo a tua mão,
E que me tocas os seios
E que me soltas os freios
À imaginação?
Quem és tu
Que me enlaças
Nos teus braços de saudade?
Quem és tu
Que me trespassas
Com um grito de verdade?
Murmuras ao meu ouvido,
E repousas no meu corpo,
O teu corpo e os teus sentidos,
essa paz, esse carinho
Novamente renascidos?
Alma gémea de loucura,
De desejo, de ternura
Uma vez mais repartidos?
 
Abro os olhos e desperto.
Lentamente reconheço...
Invenção dos meus sentidos!
.
Rosemb
13.04.1997

 

 

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Amizade
 
O que é a amizade?
Vou dizer-te o que penso,
Meu amigo,
Com verdade.
Amizade, para mim,
É uma questão de unidade,
Em que tu és parte dela
E eu, a outra metade.

Rosemb
21.09.1995

 

 

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BREVES

I.
Enleio

Trançou-me os cabelos com ausência
Velou-me os olhos com águas de cascata -
o amor. Que me bebe e me respira.
Miragem - que me vive e que me mata.

II.
Rosa breve

Rosa breve
Luminar, estrela adivinhada
Rosa breve, devastada.
Breve rosa inviolada.
De tão breve, rosa
Derrotada.
 
III.
Livro

Peguei no livro, sopesando, 
na mão tímida,
as palavras ocultas, emoções.
Só o papel respondeu, 
no peso vulgar
de Lineu.

Rosemb
11.12.1998 A.D.
 

 

 

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Câmara escura


Na escuridão se faz luz, e a imagem, impressa, 
se revela, primeiro em suaves tons nublados.
Depois, sem pressa , cada vez mais firmes,
Sob o espanto dos olhos deslumbrados.

Os meus dedos firmes e seguros,
Executam passes de magia.
Ampliam, mudam em claros os tons escuros, 
da escura noite fazem claro dia.

E da firme precisão deste trabalho,
Nasce o tom, o contraste e a textura.
E eu saboreio, deleitada, o suave encanto
De trabalhar na câmara escura.

Rosemb
21.03.1989 A.D.

 

 

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Chama

Chama.
Fogueira que arde
Voz que grita.
Chama.
Alguém que parte
Alguém que fica.
Chama que arde
Voz queimando
Um fim de tarde.
Chama.
Chama por mim.
Queima
Uma rosa, amor-perfeito.
Chama.
Coração que arde
Dentro do meu peito.

Rosemb
02.04.1985 A.D.

 

 

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Despertar

A tua imagem
Era gaivota,
Era rocha,
Era pardal.
Era pegada
Na areia
De um imenso areal.
Era castelo no ar.
Um sereno despertar.

Rosemb
22.07.1998

 

 

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Devaneio

.
Na transparência fulva - labareda acesa -
Um outro fogo se levanta, imenso;
Outro fogo aceso e quente que arremeda
Templos de adoração e de incenso.
.
Acendo nesta chama o nome teu,
e nele acendo uma cega claridade -
a certeza que este amor rubro e ateu
é imolado no altar da dor e da saudade.
.
Ás vezes era bom que tu viesses
devagar por entre folhas e horizontes,
onde tu próprio sobre a água te inclinasses,
.
Sobre a luz dos meus braços deslumbrados,
Por dentro dos meus olhos como fontes,
Bebendo dos meus sonhos desnudados.
.
Rosemb
22.01.2000 A.D.

 

 

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Diário I


Quando a solidão
É transparência negra,
E o ar cálido 
Da mansa noite
Sussurra ao rio pela muralha fora,
A outra banda é sinfonia
Jubilosa,
De mil cores, mil sóis,
Mil estrelas esplendorosas,
Vomitando fogo, em luz
Pelas ondas vagarosas.
Aqui e ali
Um barco singra a noite
A caminho do levante,
Cortando, sereno,
As águas sob a ponte,
Que estremece
No ar mormaço
E estende, serena e hirta,
Duma ponta à outra,
Soberano abraço.
Lá ao fundo,
Do outro lado,
O último cacilheiro
Inicia
A derradeira travessia.
E vem um ribombar
Penoso
Lá do alto da ponte
Ensolarada
De faróis tardios,
Fictício colar,
Volta minhota de néon
No pescoço cálido do rio.
Mas na mansa noite,
Meus olhos estendem-se
Para lá do horizonte.
Meus dedos crispados
Num volante aflito
De imobilidade
Agonizante.
Meu corpo gelado e hirto,
É estátua de sal
Na maresia,
Que vem de longe
Com cheiro a mar
E a Búgio.
Percorro
Dentro de mim
Ruas desertas, de saudade.
E cada lufada de ar
Que respiro,
Tem gosto de vida contrafeito,
E é colina 
Que se anima no meu peito.
As palavras rasgam a noite,
Punhais incandescentes
Que me trespassam,
Indiferentes,
E se perderem depois
Para lá do rio,
Para lá de mim,
E fogem
Num rodopio sem fim,
Turbilhão
Que me arrasta os olhos
Grossos de indiferença,
Secos,
De gelada surpresa.
Suspensos, parados,
Como faz a cobra 
à sua presa.
E o meu espírito
Congela em mil gotas de rio,
Labaredas de luz
A balouçar no ar,
Ao som do assobio
Dolente
Duma sirene de navio
Que passou a barra
E se faz ao mar.
Tudo parou.
E tu também paraste
De falar.
Há uma interrogação
No ar quente e frio
Que nos separa.
Ao mesmo tempo
Um desafio
Que ampara
A tua decisão.
Falo agora eu,
E as palavras 
parecem arrastar-se
como larvas,
perderem-se, fugirem p'la terra 
adentro.
Escorrerem entre a pedra e o cimento
E não deixarem eco,
Nem marca
Da fugaz lucidez
Do pensamento.
Saí então para as ruas
Da cidade.
Fugi da escuridão
Para a claridade.
Da noite feérica
De simplicidade;
Dos prédios velhos,
Das calçadas,
Do cubismo naif
Das fachadas
Arfantes de novidade.
Voltei então
Ao que é chamado lar.
Ao costumado cheiro,
À dimensão geométrica
De um lugar.
Á mesa e às cadeiras,
Uma torneira
Pingando eternidades
Em algum lugar.
O ranger da cama
Em que me sento,
Uma janela aberta,
Um cortinado a esvoaçar,
Desenhando fantasmas de lua
Na coberta.
O regressar.
Aonde, para quê?
E sem se notar,
Baixinho,
Rolaram duas lágrimas.
Pôde enfim, chorar.

Rosemb
24.06.1983

 

 

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Diário II


Volta a ligar para mim
No intervalo da novela,
Com um riso, um olé descuidado,
E aquela conversa oca
E sem sentido declarado.
Volta a esperar-me
Ao fundo da escada;
Mãos nos bolsos
E riso meio traquinas
Na boca descarada.
Volta a levar-me ao sempre igual
Centro Comercial,
Beber a bica
E um gelado a aquecer
A conversa banal.
Volta a correr comigo 
As capelinhas:
Mais um fino
E umas moelinhas.
Vamos procurar a malta
No "dois mil";
De conversas engraçadas
E pelo meio,
Aquele teu olhar subtil,
Que sabe descobrir em mim
Tanta verdade,
Por entre a banalidade
Do dia-a-dia sempre igual.
Volta a pousar a mão 
no meu joelho,
ou a tocar suavemente
o meu cabelo,
de volta a casa 
no meio do trânsito da avenida.
 
Volta a ver as horas no relógio
Digital.
A sacudir o sono e o cansaço
P'la janela
Para teres sempre mais um sorriso
Doce e natural,
Ao olhares para mim,
Quase a dormir,
Encostada ao vidro frio da janela.
Volta a ficar comigo no silêncio
Do carro desligado
Na praceta,
A curtir o "Afterglow" feliz
Descoberto por acaso
Num disco qualquer
Dos Genesis.
Volta a caminhar 
Comigo,
Lado a lado.
Deixa-me ouvir
Os nossos passos solitários
No alcatrão molhado.
Volta a abrir a porta da entrada,
E a dizer uma piada
Quando volto atrás
Para a deixar fechada.
Volta a esperar comigo
O elevador velho e empenado.
E a dar-me um beijo
De despedida
Algures, entre o
Rés-do-chão e o terceiro andar.
Volta a despentear-me o cabelo
Antes de sair.
E a fechar a porta sem ruído,
A sorrir,
E a ver-me subir
Por entre o gradeado.
Volta a deixar-me voltar
Para a minha cama
Solitária e fria.
E a esperar o sono
E o nascer do dia.

Rosemb
22.04.1985

 

 

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Do nada


Do nada,
Foi de onde surgiu o amor
Contigo à proa, navegando
velas brancas e singelas
que rasgaram as águas do meu peito
como gritos pungentes,
como insólitos punhais.

Do nada
Assim, assustado e manso.
Um amor de ausência, de sinais
na estranha morada do amor:
no canto das águas, 
no poiso dos pardais.

Rosemb
04.03.2000 A.D.

 

 

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Escrever


Que significado oculto transparece 
- Não nas palavras, no sentido -
que ilação ? Subliminar nota que se esquece
no momento preciso, apercebido,

e logo se solta, fugidia... Engano ?
Nada do que escrevo é sólido, tem contorno.
Antes se escapa e fenece em pleno voo,
Luminescendo, saturado do suborno

desta consciência plena, convicta,
de nada haver para além da ilusão.
Sustendo vagamente a caneta aflita,

no suor desta mão angustiada,
rabisco traços que sei - e sinto - de antemão
Que de tanto querer dizer, não dizem nada !

Rosemb
25.04.1999 A.D.
 

 

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Esta tarde


Esta tarde
sei que vou escrever uma história triste.
O mar está calmo. Das estrelas - delírios ! -
não sei. O céu azul insiste em escondê-las, 
como temendo provocar lágrimas, ou suspiros
que daria o mar,
e eu com ele.

Esta tarde,
o ar parou, nem uma brisa corre !
E o meu coração - pássaro desfeito -
podia estar em desespero, mas não.
Afinal bate surdamente no meu peito.
Até ele se calou,
e eu com ele.

Esta tarde,
caiu uma calma densa, sossegada,
e na distância há núvens, há gritos,
há gaivotas. E uma neblina mansa, tão parada
- que não sei se é do mar se é minha -
desceu sobre tudo,
e eu com ela.

Esta tarde,
recordo a história de amor que não tivémos
infinitamente a arder como quem tece
nos lábios, os beijos que não demos.
E na distância, o mar estremece,
e eu com ele.

Esta tarde,
Respiro o cheiro da tua pele nas minhas mãos.
Recordo dos lençóis a pura claridade
que se esvai - por entre anseios vãos
e vã saudade,
e eu com ela.

Esta tarde,
é tarde demais para me ausentar
deste torpor de tardes quentes.
E invento o devaneio de rosas ao postigo,
floridas mãos nervosas, lábios como dentes,
areias onde arderias,
impaciente
e eu... contigo.

Rosemb
02.04.2000 A.D.

 

 

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Estrada


Era a noite,
O silêncio,
A chuva
A tua voz, a minha.
A dúvida.
Era um riso
Forçado, ou apenas infundado.
Era por fim o beijo louco,
Trémulo, tímido,
Ou apenas,
A saber a pouco.
Era um fim
No princípio.
Era um Olá à despedida.
O fim da caminhada.
Partida,
Nada.
 
Era afinal o nascer da nossa estrada.
 
Rosemb
22.10.1988
 

 

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Grito


Grito!
E o meu grito bestial
Se levanta
À beira das madrugadas,
nas franjas rubras dos crepúsculos.
E troço da vontade divina,
Porque divino
É aquilo que os meus olhos vêem
Divino
É o que as minhas mãos tocam
E sentem os meus sentidos!
Sim,
Só isso é divino.
E grito
Este grito presente
Em cada ser ausente.
E troço
Do meu medo,
E as minhas gargalhadas 
São os punhais da minha raiva
Que rasgam
Cada noite ameaçada.
E este grito se espalha
Pelas madrugadas
Em círculos
Absurdamente concêntricos,
Tocando
estradas ocultas,
Caminhos por inventar
Dentro de mim.
Grito!
E só este grito silencioso 
me sossega.
Grito!
Grito, muda,
Para não calar!
DEIXEM-ME GRITAR!

Rosemb
29.05.1999

 

 

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(In)Decisão


Aqui,
Vejo-me agora, aqui sentada
Sorriso distante,
Tão serena, no fim de tudo
Tão serena e tão cansada!
E vejo,
Tudo aquilo que por mim passou,
Tudo aquilo que acabou,
Sem sinal.
E quantas vezes foi,
Muito mais
Do que eu pensava suportar.
Mas o sorriso...instalou-se.
Não sei se ausente
Se doce.
Mas ainda assim 
um mistério
Para eu mesma desvendar.
Mas no fim, e afinal
Continuo a perguntar-me
O porquê daquilo 
que doeu,
A razão do tudo 
o que feriu
E eu (nem ninguém) 
viu...
E vejo
Os amigos que pensei que fiz
(um pouco assustada, sabes?)
E talvez, também,
magoada 
com a minha própria incapacidade
De ser feliz.
E quando penso,
No que quero para mim,
Em tudo 
o que quero fazer,
E vejo a distância
(Essa sim, é real) 
a doer
na ânsia de alcançar !
O peito a ferver,
Tudo a fugir, a dançar
Sob os meus olhos...
Areia entre os meus dedos,
A escorrer,
Que tento, 
inutilmente, segurar...
E então
(como de fora)
Vejo o tempo 
(que passa...)
E eu quero partir 
num voo mais alto,
Mais longo, 
mais distante...!
Um voo mais louco, mais livre,
Mais brilhante!
Mesmo sabendo que o passado
Ficará atrás de mim,
Dia-a-dia 
mais distante
Cada dia que passar,
Mas passado e mais errante...
Mas ainda assim, 
quero partir!
Mesmo sabendo que,
Não volte aqui.
Não volte a sentir 
o que senti
A ver quem me toca 
o coração,
A amizade,
A sorrir a quem sorri...
Porque eu 
não tenho casa, 
nem lugar
Não tenho lar.
Porque eu 
sou mais um semeador 
de estrelas
Sonhos quebrados, 
Eternamente
Alinhavados....
Alma vendida
por um poente, 
uma centelha
Colorida.
Fui eu quem quis?
Sou eu que quero, 
não volto atrás.
Serei feliz.

Rosemb
03.05.1994

 

 

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Inútil interrogação


Diz-me
Porque tememos as palavras
Porque fogem dos meus
Os teus olhos, temerosos.
(quando temos tanto para dizer...)

Diz-me
Porque tantas vezes sorrio
Para não chorar.
Porque tantas vezes parto
Quando quero ficar.

Diz-me
Qual o nosso medo
O nosso mito,
Qual o segredo
Que mesmo em segredo
A mim mesma omito.

Diz-me
De que fugimos,
Para onde vamos,
Será um caminho
Este por onde caminhamos?

Diz-me
Partilhamos nós
A mesma dúvida
Será tua também
Esta incerteza?

Diz-me,
Que eu não sei dizer,
Porque te espero
Quando sei que não vais chegar
Porque dói este desejo,
No meu sangue a latejar.

Rosemb
01.11.1999

 

 

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Invento este jardim

Invento este jardim como um abrigo,
O frágil caule da manhã quebrado
Na distancia de um sino, um recado
Boda aflita, dominical, distante.

E eu, ausente. No tanque, uma carpa 
suspende na manhã quebrada, 
uma bolha, expectante. Pretexto.
Na minha ausência não há nada.

Só a ausência tua arde, inflama
E nela ardendo, os estilhaços da manhã
Alimentam o fogo dessa chama.

Invento este jardim como um abrigo.
Estou sozinha - não, não estou -
A vida toda está comigo.


Rosemb
15.05.2000 A.D.
 

 

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Máquina do tempo


Recordação.
Ilusões dentro da ilusão,
infinito prolongar
desse momento.
Passado feito presente
eternamente.

Recordação.
Perturbante sensação
de movimento.

Dentro de ti,
O pensamento,
É a única máquina do tempo.

Rosemb
23.09.1985
-----------

 

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Não me gritem


Não me gritem,
não me sufoquem as manhãs
com declarações oficiais.
Nem o ministro,
nem o papel selado, 
nem o sinistro,
oficioso,
mandato de busca
me assusta!

Não me gritem
que eu não faço!
Não pago!
Não declaro!
Não meto requerimento!
Não me ameacem com sanções!
Nem com multas,
juros de mora.
Minutas rabiscadas,
burocraticamente
alinhavadas!

Quero que o fiscal
se lixe!
Nome da lei 
é lixo,
que não existe....

Não me gritem aos ouvidos!
Não me encham os sentidos
De papel e tinta!
Não vou selar mais
A minha vida
Nem franquear
A minha partida.

Vou partir,
Clandestina
De papéis, de vistos.

Quero sair
Deste tumulo de palhaços
Desmembrados.

E beber meu pensamento
Num tchim tchim
De estilhaços
Libertados.

Rosemb
21.03.1999 A.D.

 

 

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Pontuação


É palavra que rola.
É o desencontro.
O imperceptível confronto
de dois seres,
com o momento de eternidade
perdido, encontrado,
suspenso no espaço.

É verdade,
ou mentira disfarçada
de saudade.

É o ponto final
no meio da frase inacabada.
É virgula final mal colocada.
No ponto de ruptura,
é o sinal
que não leva a nada.
É loucura.

Canção interrompida
No refrão da vida.

Rosemb
15.11.1985

 

 

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Prisão


Olho a simetria branca
desta casa,
sentindo nas paredes,
pelo chão,
a incerteza e o espanto,
uma inesperada solidão.
Solidão que me oprime 
e que me abrasa.
Toco a espessura aflita
do ar que me rodeia.
Cada porta, janela,
é uma teia,
catacumba, cripta;
uma cadeia.
Sinto o ferro imaginário
nas janelas
e torno-me,
repentinamente
inerte como elas...
Sou eu própria 
a grade que me prende.
Sou só eu,
a parede que se estende
ao redor da minha liberdade.
E as paredes comprimem-se
em torno de um eixo
que sou eu,
subindo sempre mais,
tapando o céu.
Entorpecida, no chão,
sou marioneta
destroçada, abandonada.
Silhueta
desvanecida, 
vagamente adivinhada.
Ilusão.
Nada.

Rosemb
22.10.1985

 

 

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Segredo


Tenho um segredo.
Tenho um segredo que és tu.
Como no céu a gaivota,
Para todos verem,
Voa,
E a cada volta
Imprime a sua imagem
No azul que é seu,
Tenho um segredo
Que é meu.
E o meu segredo
tem olhos meigos,
Profundos
Que sabem ler
Bem fundo
No fundo do meu ser.
Tenho um segredo
Que sabe bem.
Mas afinal,
Segredos,
Quem não os tem?

Rosemb
04.06.1988

 

 

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