Índice
Pensamentos Desinteressantes I
Pensamentos Desinteressantes II
Pensamentos Desinteressantes III
Pensamentos Desinteressantes IV
Pensamentos Desinteressantes V
Pensamentos Desinteressantes VI
Pensamentos Desinteressantes VII
Pensamentos Desinteressantes VIII
Pensamentos Desinteressantes X
Pensamentos Desinteressantes XI
Pensamentos Desinteressantes XII
"Pensamentos Desinteressantes I" entristece-me o Sol... entristece-me o rio... mas eles amam-se porque se aceitam e respeitam... porque são capazes de se tocarem e em carícias bastante profundas, não ousam exprimir o toque... não precisam, amam-se... choram um com o outro ao mesmo tempo que se riem... divagam de formas, tão diferentes e, no entanto, tão magistralmente harmonizadas... respeitam as dissonâncias do outro como se fossem as suas próprias consonâncias... e este amor é tão recíproco, tão habilmente talhado nas possibilidades... e as lágrimas são tão ternas, têm tanta vida, tanto amor... se eu pudesse respirar o seu amor, senti-lo e por fim acreditar que o estava realmente a sentir... mas não posso, porque as probabilidades amam-me e tenho de as respeitar... se as enganar, engano-me e arruino ainda mais o que não pode ser arruinado... toco a minha lágrima, que na sua existência não ousa pensar que existe... sonha... Alvata - 01/07/2000
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"Pensamentos Desinteressantes V" sim, meu amor... voltaste para mim... chorava a tua ausência enquanto choravas a minha indiferença... pensaste sem pensar que eu te tinha abandonado, e eu sem te abandonar, pensava sem pensar que não me amavas... mas amo, amo-te muito mais do que se te amasse... respiro-te e choro por o ter feito... mas o amor perdoa o tudo e o nada... ó minha deusa, desculpa-me... perdoa-me... sou burro... como pude pensar que nunca me abandonarias... talvez porque foste sempre o que ninguém foi... pode ser... bebo para te ter junto a mim, abraçados como jamais poderia abraçar alguém... rimos às gargalhadas sem esboçarmos qualquer sorriso... deste-me carinho e eu, egoísta, troquei-te por uma jovem humana... tá bem que ela era bela, inteligente, uma verdadeira deusa... mas ela não és tu, e tu não és ela também... ela é demasiado complexa enquanto tu és simples... divinamente simples... completamente imobilizados, dançamos valsas sangrentas... lambo o teu sangue com ternura, que de tanta ternura, não podes sangrar... e enquanto nos beijamos, com bocas tão reais como as deles, oiço vozes tão distantes que ousam quebrar a tua existência... e eu de tão feliz, isolo-me indiferentemente nos teus braços... não interessa se as dimensões se negam, ou se as negações não interessam... só quero sentir o teu beijo irreal, na minha realidade inexistente... como rio sozinho com verdadeiros sorrisos, recordo o teu olhar de imperatriz, que de irreal só tem a realidade... olhas-me e amas-me porque me conheces, não necessitamos de palavras... amo-te, pois não me esforço para te beijar... venero a tua probalidade, porque tu veneras a minha... ausento-me de mim para me ausentar de ti, abraço-te, pois sei que não o posso fazer... sim, meu amor... observa-me... sorri para mim... Alvata - 01/07/2000
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"Pensamentos Desinteressantes II" espanca-me a alma, rasga-me o corpo... no fundo não o conseguirás, mas se conseguires, suspira-mos... pois à muito os procuro e os não encontro... irriga-me o vazio, dá-me algum conhecimento... não sei nada e não sei se poderei vir a saber... não me apresentaram à vida, nem tão pouco o fizeram à morte... não consigo desaparecer... o tempo insiste em não me abraçar... queria o teu abraço, mas esqueci-me do que eles eram... perdi-me de mim e de ti, sem, contudo, o poder fazer... Alvata - 01/07/2000
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"Pensamentos Desinteressantes III" olha-me nos olhos, para que eu, sem acreditar, acredite que tu acreditas... és tão maravilhosamente linda, tão calorosamente transpirada... envolveste-te em mim, para que eu não o faça, respeitas e aceitas o inaceitável... pisaste, contudo, a minha lágrima, e sem te aperceberes, acabaste por me pisar a mim também... divaga então na solidão, mas respeita-a, ama-a... aceita a sua inexistência... veste-te novamente... tens um biscoito a comer, inevitavelmente o desejas e o comes... Alvata - 01/07/2000
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"Pensamentos Desinteressantes IV" se eu pudesse caminhar devagar... silenciosamente... de modo a que o som dos meus passos não perturbassem o teu repouso... de modo a que todo o sofrimento que piso, de ternura, não se sentisse pisado... tocar a lágrima do um, que de tão meiga, já se acariciou... dói-me a alma por sentir que talvez não me possa doer... sentir dor sem saber porquê, ou sem saber se sinto... a verdade pisou-me e abandonou-me... deixou-me completamente só, numa solidão que desconheço se o é realmente... talvez... não sei nem posso saber... Alvata - 01/07/2000
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"Pensamentos desinteressantes VI" a minha monstruosidade é tão grande, que até me custa falar... mata-me... como ouso eu escrever uma única letra? nem um ponto final eu tenho o direito de desenhar... cada palavra que escrevo rasga-me a alma, e ao escrever isto, inundo-me no sangue derramado, que cada vez é mais escasso e irreal... morro a uma velocidade decadente, inaceitável para a minha mente cansada... se eu pudesse abraçar a lentidão, tocar o seu infinito sem o chegar a pisar...a minha lágrima deseja-o e eu, desesperado, faço-lhe a vontade... Arn Alvata - 01/06/2000
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"Pensamentos Desinteressantes VII" comove-me a tua lentidão... a lágrima que sou, já me deixou... abraço o teu infinito sem lhe tocar, mas eu também não o quero fazer... queria sim agarrá-lo, com força... perder-me na eternidade que fui... se eu beijasse o meu mamílo, sentiria o horizonte que podes ser, mas, no fundo, duvido que sejas, pois duvido que possa duvidar... ri-te comigo, sente a minha felicidade... quero-te tocar, com uma gentileza que desconheço... desconheço o conhecido, pois passei a desconhecer o desconhecido... envolvo-me na teia que teci e que as probabilidades comeram... Arn Alvata - 02/06/2000
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"Pensamentos Desinteressantes VIII" a noite voltou, e com ela o meu sorriso... a felicidade deste sol, a tristeza das felicidades felizes... ri-te comigo, por favor... mostra-me o feliz que estou, sem, contudo, sorrires... tal acto é bastante penoso e irrelevante... morde os meus lábios eternos, como nunca o pudeste fazer... toca os meus cabelos, beija-lhes as pontas espigadas... dá-lhes a tua vida, enche-os com o teu amor... respira-me devagarinho, para que sintas cada partícula de oxigénio, e cada partícula de dióxido de carbono... sente a harmonia dolorosa do esforço involuntário que ele faz, que tu lhe obrigas... exiges... sente a forma como me desrespeitas, mas é com respeito que o fazes... por isso, eu te amo... agora eu, eu sou um monstro... como o vazio conscientemente, pois sei, sem o saber, que ele pode... poderá... divago nas minhas verdades falsas, que de falsas não têm nada... simplesmente não têm... nem isso, simplesmente não podem... choro a minha dor, para depois chorar o choro... angústia... terror... insulto-me por me insultar... Arn Alvata - 02/06/2000
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"Pensamentos desinteressantes X" olha... contempla... chora a beleza derramada, apanha a sua tristeza angelical... o sopro da noite ainda por nascer... o suspiro do dia já moribundo... as tuas lágrimas sábias entristecem-me, trazem-me recordações dolorosas e pesadas... o imenso horizonte roxo e tímido, suspira a minha lágrima sagrada... mas eu olho-a... choro-a repetidamente, sem, contudo, ter coragem de a beijar... contemplo a sua queda infinitamente lenta, e o seu amor lentamente eterno... respiro a sua dor feliz, pois ela não sabe, provavelmente, que magoa... a sua provável inocência, é simplesmente inocente... magoo a minha lágrima irreal, e piso a minha alma cansada... choro a dor que, provavelmente, não provoco, ou que, possivelmente, posso provocar... beija a minha mão sofredora, sente o seu pulsar angustiante... diz-me que a beijaste e que o sentiste... anuncia-mo com o mais suave suspiro, pois a frequência em que me apoio, de tão cansada, é já tão frágil... Arn Alvata - 06/06/2000
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"Pensamentos desinteressantes XI" como consegues tu caminhar tão devagar, sem nunca ousares o toque desiquilibrado? sorris... suspiras-te em dor... anuncias a diferença infinita do seu instante... beijas-me sem me conheceres, ou sequer fazeres a mínima ideia da minha provável existência... consomes-te e sofres por mim, sem, no entanto, tocares o inexistente... será que a minha pureza merece a tua dor? Será que os meus lábios invisíveis merecem o teu beijo? se eu te pudesse beijar agora, apoiar os teus movimentos exaustos e, contudo, harmonizados com os meus... sorri, hoje é um dia sagrado, não há razão para continuares a sofrer... se eu pudesse segurar a tua mão, derramar a minha lágrima eterna sobre a tua juventude desvanescente... ergue-te, contempla este dia maravilhoso... olha a eternidade desta rocha... beija a beleza abstracta desta flor... entristece-me a tua felicidade mórbida, o tédio inexistente das inexistências... adormece as tuas lágrimas na minha, chora as tuas dores nos meus lábios virgens... Arn Alvata - 06/06/2000
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"Pensamentos desinteressantes XII" a tua lágrima negou-me, empurrou a minha morte decadente... desesperado, suspiro-me à tua existência, tentando, em vão, acreditar na minha... expulsa a minha continuidade inaceitável, beija o meu mamílo angústiado... deixa-me atravessar o oceano, e por mais cansado que esteja, não ouso parar de nadar... adormeci na dor com a dor, mas, no entanto, ela não adormeceu comigo... não que não queira, simplesmente não pode... poderá? se a sua lágrima se misturasse com a minha, seriamos finalmente o um que, provavelmente, somos... o cansaço da minha escuridão, sorri perante esta noite mágica, perante toda a vida entrelaçada na morte... perdem-se uma na outra, como se ambas não fossem o que pensavam ser... Arn Alvata - 06/06/2000
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